Arte pela arte

Arte pela arte ( do francês L'Art pour l'art) é um slogan francês da segunda metade do século XIX, que expressa a filosofia de que a "verdadeira" arte é totalmente independente de todos os valores sociais e funções utilitárias, sejam elas didáticas, morais ou políticas. Tais obras são algumas vezes descritas como autotélicas (do Grego: autoteles, "completo em si mesmo"), um conceito que também é aplicado para pessoas "voltadas para si mesmas" ou "automotivadas".

Essa frase as vezes é utilizada comercialmente. Uma versão em Latim desta frase, "ars gratia artis", é usada como lema pelo estúdio de cinema Metro-Goldwyn-Mayer, aparecendo nos créditos do filme em torno da cabeça rugindo de Leo, o Leão no seu logotipo.

História

A origem desse conceito remonta a Aristóteles, mas só foi desenvolvido e consolidado em meados do século XVIII. Seu primeiro formulador foi Alexander Baumgarten, que criou a palavra "estética" em 1750, e a definiu como alheia à moral e até mesmo ao prazer. Kant logo em seguida aprofundou a questão dizendo que o prazer estético é desinteressado e não visa outras coisas além de si mesmo, o que encontrou apoio nas idéias de Schelling e Hegel. Em 1804, Benjamin Constant sumarizou o debate cunhando a expressão "arte pela arte".[1]

Usada pelos românticos alemães, logo a França se torna o centro dessa teoria, tendo como grande divulgador Théophile Gautier, que a emprega para atacar o moralismo e o utilitarismo que via como inimigos da verdadeira arte, chegando ao ponto de colocar em oposição a Beleza e a Utilidade.[1]

Théophile Gautier pela primeira vez articulou plenamente seu atual significado metafísico nos prefácios de seu volume de poesia Albertus (1832) e de seu romance Mademoiselle de Maupin (1835). A frase também apareceu em palestras e escritps de Victor Cousin.[2]

A influência de suas idéias se alastrou para os Estados Unidos, onde teve em Edgar Allan Poe um divulgador de peso, que conseguiu a conversão de Baudelaire e Mallarmé a este sistema.[1] Em seu estudo "O Princípio Poético" (1850) (do inglês "The Poetic Principle"), Edgar Allan Poe argumenta:

"Nós tínhamos a ideia fixa de que escrever um poema simplesmente pelo poema em si, e reconhecer que esse foi o nosso objetivo, seria confessar uma profunda falta de verdadeira dignidade e força poética; - mas a verdade é que, se nos permitíssemos olhar para dentro de nossas próprias almas, descobriríamos imediatamente que sob o sol não existe, nem pode existir, obra mais digna - mais supremamente nobre - do que este próprio poema - este poema em si - este poema que é um poema e nada mais — este poema escrito unicamente pelo poema em si".[2]

Na Inglaterra, a teoria é defendida por Swinburne, e nesse país ela adquire um significado profundo com o trabalho de John Keats, que identificava Verdade com Beleza e assim colocava a Estética em primeiro plano. Desde então, "arte pela arte" é um sinônimo de esteticismo.[1]

"A arte pela arte" tornou-se uma crença boêmia no século XIX; um slogan erguido em provocação àqueles — de John Ruskin aos posteriores defensores comunistas do realismo socialista — que acreditavam que o valor da arte residia em servir a algum propósito moral ou didático. Era uma rejeição ao objetivo marxista de politizar a arte. "A arte pela arte" afirmava que a arte era valiosa em si mesma; que as atividades artísticas não precisavam de justificativa moral e, de fato, podiam ser legitimamente neutras ou subversivas em termos morais.

Ver também

Referências

  1. a b c d Barbudo, Maria Isabel. "Arte pela arte (Ars gratia artis)." E-Dicionário de Termos Literários
  2. a b Works - Essays - The Poetic Principle (reprint). Edgar Allan Poe Society of Baltimore, consulta em 4 de janeiro de 2026