Lestodon

Lestodon
Esqueleto de Lestodon armatus no Museu Americano de História Natural, Nova York
Esqueleto de Lestodon armatus no Museu Americano de História Natural, Nova York
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Pilosa
Subordem: Folivora
Família: Mylodontidae
Subfamília: Mylodontinae
Género: Lestodon
Gervais, 1855
Espécie-tipo
Lestodon armatus
Gervais, 1855
Espécies
  • L. armatus Gervais, 1855
  • L. australis Lydekker, 1886
  • L. trigonodus Gervais, 1873

Lestodon é um gênero extinto de preguiça-terrestre da família Mylodontidae que viveu na América do Sul durante o Pleistoceno, entre aproximadamente 2,5 milhões e 10 mil anos atrás.[1][2] Com até 4 metros de comprimento e peso estimado entre 2,5 e 4 toneladas, Lestodon foi uma das maiores preguiças terrestres que já existiram, sendo superado em tamanho apenas por Megatherium.[3]

O gênero foi descrito pela primeira vez pelo paleontólogo francês Paul Gervais em 1855, com base em fósseis encontrados na Argentina.[4] Seus restos fósseis são abundantes em depósitos pleistocênicos da Argentina, Uruguai, sul do Brasil e Bolívia, tornando-o um dos xenartros mais bem conhecidos do período.[5]

Descrição

Anatomia

Lestodon possuía um corpo robusto e maciço, com membros anteriores poderosos equipados com garras grandes e curvas, adaptadas para cavar e arrancar vegetação.[2] O crânio era alongado e relativamente estreito, com dentes simples em forma de colunas, característicos das preguiças terrestres, que cresciam continuamente ao longo da vida do animal.[2]

Uma característica distintiva do gênero era a presença de uma mandíbula inferior profunda e robusta, com um processo angular bem desenvolvido que servia como ponto de inserção para poderosos músculos mastigatórios.[6] Os membros posteriores eram mais curtos que os anteriores, mas extremamente fortes, suportando o peso considerável do animal.[6]

Diferenças com outros milodontes

Comparado com seu parente próximo Mylodon, Lestodon era significativamente maior e tinha proporções corporais diferentes. Enquanto Mylodon tinha um focinho mais curto e arredondado, Lestodon apresentava um focinho mais alongado, sugerindo diferentes estratégias de alimentação.[2] Estudos biomecânicos indicam que Lestodon era capaz de exercer maior força de mordida, possivelmente se alimentando de vegetação mais dura e resistente.[2]

Paleoecologia

Habitat e distribuição

Lestodon habitava uma variedade de ambientes, desde pradarias abertas até áreas de bosques e florestas de galeria.[5] Sua ampla distribuição geográfica sugere capacidade de adaptação a diferentes condições climáticas e ecológicas.[3]

A maioria dos fósseis foi encontrada em associação com depósitos de planícies aluviais e sistemas lacustres, indicando preferência por áreas próximas a cursos d'água.[7]

Dieta

Análises da morfologia dentária e mandibular, juntamente com estudos de desgaste dental e isótopos estáveis, indicam que Lestodon era herbívoro, alimentando-se principalmente de vegetação terrestre como gramíneas, arbustos e folhagem.[2][8]

A capacidade de se erguer sobre os membros posteriores, apoiando-se na cauda robusta, permitia que o animal alcançasse vegetação mais alta, comportamento similar ao do Megatherium.[6] Evidências de coprólitos associados a milodontes mostram uma dieta diversificada que incluía diferentes tipos de plantas.[5]

Extinção

Lestodon, como outros membros da megafauna pleistocênica sul-americana, extinguiu-se no final do Pleistoceno, há aproximadamente 10 a 12 mil anos.[7] As causas da extinção permanecem debatidas, mas provavelmente envolveram uma combinação de mudanças climáticas associadas ao fim da última era glacial e a chegada dos primeiros humanos na América do Sul.[9]

Evidências arqueológicas de associação entre restos de Lestodon e artefatos humanos são raras, mas sugerem que houve coexistência temporal entre os humanos e esses animais.[10]

Espécies

O gênero Lestodon inclui três espécies válidas, embora a taxonomia tenha sido objeto de revisão e algumas espécies propostas inicialmente tenham sido sinonimizadas:[1]

  • Lestodon armatus Gervais, 1855 - espécie-tipo, a mais comum e amplamente distribuída
  • Lestodon australis Lydekker, 1886 - descrita a partir de material do Pleistoceno argentino
  • Lestodon trigonodus Gervais, 1873 - caracterizada por particularidades na morfologia dentária

Algumas espécies anteriormente atribuídas a Lestodon foram posteriormente reclassificadas ou consideradas sinônimos juniores de L. armatus.[6]

Fósseis e coleções

Esqueletos completos e parciais de Lestodon podem ser encontrados em diversos museus de história natural da América do Sul, incluindo:

  • Museu de La Plata, Argentina - possui um dos esqueletos mais completos de L. armatus
  • Museu Argentino de Ciências Naturais, Buenos Aires
  • Museu Nacional, Rio de Janeiro - coleção significativamente afetada pelo incêndio de 2018
  • Museu de Ciências Naturais de Montevidéu, Uruguai[5]

Ver também

Referências

  1. a b Ferrero, Brenda S.; Noriega, Jorge I. (2007). «A new upper Pleistocene tapir from Argentina: remarks on the phylogenetics and diversification of neotropical Tapiridae». Journal of Vertebrate Paleontology (em inglês). 27 (2): 504-511. doi:10.1671/0272-4634(2007)27[504:ANUPTF]2.0.CO;2 
  2. a b c d e f Bargo, M. Susana; Toledo, Néstor; Vizcaíno, Sergio F. (2012). «Muzzle of South American Pleistocene ground sloths (Xenarthra, Tardigrada)». Journal of Morphology (em inglês). 273 (5): 628-643. doi:10.1002/jmor.20014 
  3. a b Fariña, Richard A.; Vizcaíno, Sergio F.; Bargo, M. Susana (2013). «Body mass estimations in Lujanian (late Pleistocene-early Holocene of South America) mammal megafauna» (PDF). Mastozoología Neotropical (em inglês). 20 (1): 131-148 
  4. Gervais, Paul (1855). «Recherches sur les mammifères fossiles de l'Amérique du Sud». Annales des Sciences Naturelles (em francês). 4: 1-63 
  5. a b c d Oliveira, Édison V. (1999). «Quaternary vertebrates and climates of southern Brazil». Quaternary of South America and Antarctic Peninsula (em inglês). 12: 61-73 
  6. a b c d Vizcaíno, Sergio F.; Bargo, M. Susana; Fariña, Richard A. (2012). «Form, function, and paleobiology in xenarthrans». University Press of Florida. The Biology of the Xenarthra (em inglês): 86-99 
  7. a b Tonni, Eduardo P.; Soibelzon, Leopoldo H.; Cione, Alberto L. (2009). «Did the megafauna range to 4300 BP in South America?». Radiocarbon (em inglês). 51 (1): 263-267. doi:10.1017/S0033822200033841 
  8. MacPhee, Ross D. E.; Iturralde-Vinent, Manuel A.; Gaffney, Eugene S. (2000). «Origin of the Greater Antillean land mammal fauna: new dates from Cuba». Journal of Vertebrate Paleontology (em inglês). 20 (3): 598-604. doi:10.1671/0272-4634(2000)020[0598:OOTGAL]2.0.CO;2 
  9. Barnosky, Anthony D.; Koch, Paul L.; Feranec, Robert S. (2004). «Assessing the causes of late Pleistocene extinctions on the continents». Science (em inglês). 306 (5693): 70-75. doi:10.1126/science.1101476 
  10. Politis, Gustavo G.; Prates, Luciano; Perez, S. Ivan (2019). «The arrival of Homo sapiens into the Southern Cone at 14,000 years ago». PLOS ONE (em inglês). 14 (11). doi:10.1371/journal.pone.0224306 

Ligações externas