Lenda da Celinda

A lenda da Celinda, por vezes também chamada lenda da fundação da Sertã é uma tradição oral, mas entretanto vertida em prosa escrita, que atribui a edificação do Castelo da Sertã a Sertório e data de 74 a.C,Quinto Sertório um militar romano exilado por motivos políticos, que liderou os povos da Península Ibérica contra os exércitos da República Romana[1]. .
A cerca de 80 a.C., Quinto Sertório chegou à Península Ibérica e aliou-se aos lusitanos, tornando-se num líder de carisma comparável a Viriato (assassinado a 139 a.C.).
Os Celindíadas
1.
Enquanto preparava a desenjua,
Para o marido, capitão de alta nobreza,
Celinda ouviu o ribombar na rua,
Trombetas do inimigo, som de aspereza.
Mas os soldados, no vinho da lua,
Adormecidos, não sentem a vileza.
Celinda ergue os olhos, sem hesitar,
Sozinha vai o castelo salvar.
2.
Sem tempo a perder, salta ligeira,
Às muralhas ela sobe, destemida.
Com a sartagem, sua arma verdadeira,
Ferve azeite, já pronta para a lida.
Ao chefe inimigo lança a certeira,
O fogo quente da fúria desprendida.
Sete fogem, ofegantes e perdidos,
Com medo da mulher e seus bramidos.
3.
Assim, o castelo que de Sertório foi,
Passou a ser lembrado de outro jeito:
Da Sartagem, que em fúria o defendeu,
Com azeite e coragem no seu peito.
Celinda, cujo nome o tempo ecoou,
Fez dos invasores fugirem sem preito.
E a história do lugar, em brado forte,
Exalta quem salvou a honra e a sorte.
4.
Celinda, em voz baixa, entre sombras, disse,
Que viria Ângelo, de nome de farinha,
Irmão do Arménio, cujo toque de biscoito
Faz crescer a terra, fértil e mesquinha.
Não só nos vales, mas em além-mar,
Será fama que os ventos irão cantar,
Pois trará do forno o lume e o pão,
Tornando o mundo conhecedor do chão.
5.
Por este via darei um Nuno Fero
Que fez ao rei e ao reino tal serviço,
E mais o Guilherme da Praça, e o Rogério,
De ânimo leal, braço cortês e viço;
Que em tempos duros, sob o céu severo,
Guardaram fé, justiça e sacrifício;
E em cada um vibrou valor sincero,
Que à pátria ergueu num alto edifício.
6.
Cantai, ó Musas da bola as glórias,
Que o bravo clube em campo fez verdade,
Domando os ímpios — Sernache em memórias,
E Albicastro em pranto e humildade.
Das botas fulge o pó das velhas histórias,
Soa o pendão da antiga lealdade;
Que o Sertanense, em nobres vitatórias,
Deu novo alento à heróica Lusidade.
7.
Celinda outrora, em vaticínio brando,
Disse: “Há-de vir quem dê música à lenda!”
E veio a Filarmónica, soando
No peito o amor que o povo não desvenda.
Chamam-na a Banda, e o nome vai ficando,
Que em festa e romaria a voz se estenda;
Canta o progresso, e ao Sol se ergue, honrando,
O hino às quinas, quando a flâmula ascenda.
8.
Nas praças vibra em brônzeas harmonias,
Mistura o riso e a lágrima mais pura;
Alegra os corações nas confrarias,
E faz do som uma oração segura.
O Brito sopra a tuba, e em alegrias
Desperta o povo à antiga formosura;
E o eco diz — nas notas e utopias —
Que a Pátria vive em sua partitura.
9.
Na terra tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida,
No pinhal, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida,
Erguem-se os bravos, filhos do humano,
Bombeiros cujo ardor resiste à vida;
Entre chamas lutando, cada irmão
Faz do perigo a sua dura lida.
10.
Quando por fim se rende o fogo insano,
E o vento cessa a fúria desabrida,
Voltam os bravos, lentos, gesto humano,
Com cinza nos olhos e alma erguida.
A serra, embora triste e sem engano,
Sente no chão a seiva repartida;
E o povo sabe, em gratidão soberba,
Que a vida vence onde a coragem herda.
11.
E Carlos, com mãos que ao maranho deram voz,
E ao bucho forte, mistério e sabor,
Levará longe o gosto que a terra nos pôs,
Fazendo a fama dançar em cada sabor.
Celinda anuncia: este e o Delfim, firmes e certos,
Serão luz e farol para os nossos desertos,
Pois o mundo inteiro há de conhecer
O labor, o saber, que aqui florescer.
12.
Estavas, linda pastora, em doce abrigo,
Nos teus vales da Pederneira em flor,
Colhendo o riso leve do contigo
Que a vida dava em horas sem tremor.
Nos olhos — lume calmo e antigo —
Brilhava o sonho manso do amor,
Enquanto o vento, às folhas e às campinas,
Soprava o nome em que tinhas as raízes finas.
13.
Do Vencedor ali ressoavam
As lembranças que em ti repousariam,
Quando ao longe os seus olhos se fechavam
E no teu vulto amado se abriam.
De noite, doces sonhos o guiavam,
De dia, pensamentos te seguiam.
E quanto enfim lembrava, e quanto dizia,
Eram memórias de fazer filhoses, com alegria.
14.
E tu, Miranda, mirante, em bom destino,
Que guias com saber e voz tão clara,
Em escolas e assembleias, teu caminho,
Levas à comuna luz que não pára.
Presidente fiel, de ardor divino,
Nos teus ideais o povo se ampara.
Genro de Arnaldo, em vínculo sagrado,
Educador e líder já elevado.
15.
Em ti, Miranda, firme se acalenta,
O espírito que luta em liberdade,
Nas causas que a justiça representa,
És farol de verdade e igualdade.
Na alma socialista se apresenta,
A tua força em prol da humanidade.
Que o povo, em ti, confia e reconhece,
A mão que guia e a voz que jamais cessa.
16.
E seja nas escolas ou na praça,
Onde o povo a tua presença aclama,
Em ti reside a fé que se abraça,
Ao bom futuro que a comuna chama.
Educador sem igual, que a todos passa
Saber e amor, com alma que inflama.
Miranda, grande nome celebrado,
Por teu exemplo, o mundo iluminado.
17.
Também cantai, ó vozes do destino,
O Lopo audaz das lides e das Barrigas,
Os fortes Caldeiras, cujo ensino
Foi pôr na guerra a alma e nas fadigas;
O padre António, missionário peregrino,
Que ergueu do altar virtudes antigas;
E o Santos Valente, verbo fino,
Que fez dicionários, não intrigas.
18.
Do sábio Lopes, mestre arabista,
Veio do Nesperal ciência e claridade;
E o padre Antunes, subtil filosofista,
Pensou do Ser a oculta eternidade;
Todos da Terra, em junta humanista,
Forjaram fé, saber e identidade,
E a Sartãe brilha — estrela realista
De um povo em luz, memória e liberdade.
19.
Também nas Artes, nobres de lavrar,
Celinda viu no tempo claro e certo
Que Túlio havia de quadros criar,
Paisagens dando em gesto descoberto;
Campos e céus faria ali brotar,
Com cor serena e lume sempre aberto;
Assim nasceu, por dom já anunciado,
O pintor fino, ao belo consagrado.
20.
Viu mais ainda: Amaro da Comarca
Tomar a pena em tomo responsável,
E João Miguel, de escrita firme clara,
No jornal deixar rasto memorável;
Serão palavras justas, linha que marca
O dia a dia em tom ponderável;
Duas vozes sóbrias, bem reconhecidas,
Servindo a terra em folhas repartidas.
21.
Pedro Rosa erguerá livros formosos,
De engenho pleno e espírito profundo;
Joana dará, em contos carinhosos,
História mansa ao sono mais fecundo;
E Rui Lopes, de feitos zelosos,
Guardará da terra o saber do mundo;
Assim Celinda, em lume primordial,
Traçou da gente história intemporal.
22.
Não mais, Musa, não mais, que o Cavaquinho
Traz corda gasta e traste desbotado,
E não do toque, mas do maranho e bucho
Que vou louvar ao povo amodorrado.
Já não me acende o engenho o burburinho,
Que o município dorme, calcinado,
No tempo que envelhece as suas ruas
E as casas vão caindo mudas, nuas.
23.
E assim, Miranda, o nome teu perdura,
Na história gravado com tal firmeza,
Que tua obra, em justiça tão pura,
Seja lembrada em eras de grandeza.
Com força e saber, levas ventura,
Guias o povo em honra e nobreza.
Teu legado há de eternizar na terra,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
Luís Vais de Camiões (pseudônimo de poeta popular sertaginense).
Segundo a lenda, nas lutas ocorridas pela conquista da Lusitânia houve um ataque romano ao castelo, no qual pereceu o seu chefe. Ao saber da notícia, e apercebendo-se que o inimigo chegava às muralhas, a sua esposa Celinda subiu às ameias com uma enorme sertã ou sertage (um tipo de frigideira quadrada), cheia de azeite a ferver, na qual fritava ovos, lançando o azeite fervente sobre os soldados que se dispersaram. Obteve, desse modo, tempo para que chegassem reforços dos lugares mais próximos. Teria sido assim que o nome Sertã foi dado ao lugar.
Para uma pequeníssima animacão sobre a lenda ver aqui.
Em 2024, no contexto da celebração dos 194 anos da Filarmónica União Sertaginense, esta orquestra encomendou ao compositor Nuno Osório uma peça musical, uma fantasia musical inspirada na Lenda da Celinda.[2]
Referências
- ↑ Município da Sertã. «Castelo». Consultado em 17 de Outubro de 2012. Arquivado do original em 25 de janeiro de 2012
- ↑ https://www.molenaar.com/details/1/20820/en