Lejeuneaceae

Lejeuneaceae
Hepática do género Colurolejeunea (E. Gilg & K. Schumann, Das Pflanzenreich. Hausschatz des Wissens., ca. 1900)
Hepática do género Colurolejeunea (E. Gilg & K. Schumann, Das Pflanzenreich. Hausschatz des Wissens., ca. 1900)
Classificação científica
Reino: Plantae
Divisão: Marchantiophyta
Classe: Jungermanniopsida
Ordem: Porellales
Família: Lejeuneaceae
Cas.-Gil. [1]
Géneros
Ver texto.

Lejeuneaceae é a maior família da divisão Marchantiophyta (hepáticas). Seus representantes são hepáticas folhosas, sendo os principais componentes florísticos presentes nos ambientes de floresta, notadamente floresta ombrófila. São, na maioria, epífitas, representando cerca de 75% das espécies epífitas nos ambientes de floresta. Ocorrem nas regiões tropical e subtropical, com apenas alguns gêneros com distribuição em regiões de clima temperado. A família apresenta 71 gêneros e mais de 1900 espécies distribuídas no globo, sendo, no Brasil a mais diversa das hepáticas, com 285 espécies e contendo 45% de todas as espécies reconhecidas para esta divisão no país [2](Costa; Peralta 2015).

Morfologia

A família Lejeuneaceae faz parte das hepáticas folhosas e é composta por espécimes pequenos, que não possuem vasos condutores e apresentam merófitos ventrais de 2-6 ou mais células de largura.

Gametófitos

Os gametófitos apresentam coloração verde, verde-amarelados a castanho, nunca avermelhados; hábito ascendente, prostrado ou pendente, com ramos do tipo-Lejeunea, tipo-Radula ou do tipo-Aphanolejeunea.[1-Bastos]

Seus filídios possuem inserção incuba e dois lobos, o lobo ventral (inserido na face ventral do caulídio), geralmente menor do que o lobo dorsal (inserido na face dorsal do caulídio) dobra-se em direção ao lobo dorsal (quilha), formando uma bolsa ou saco aquífero; posuem margem dentada ou completa, enquanto seu ápice pode ser obtuso, agudo, arredondado ou apiculado. além disso, há presença de anfigastros inteiros ou bífidos (ausentes apenas em Cololejeunea) com rizóides na base.

O androécio pode estar no ápice de ramos laterais ou do ramo principal, com 2 a 10 ou mais pares de brácteas, cujos lóbulos podem ser inflados ou não. Os anterídios são esféricos, em número de 1 a 2 por bráctea, e a bractéola pode estar na base ou ao longo do ramo.

O ginoécio também ocorre no ápice dos ramos laterais ou do principal, podendo ser estéril ou fértil, uma inovação única ou pareada em sequência lejeuneóide ou picnolejeuneóide. As brácteas possuem lobo obovado ou ovalado, com margens inteiras, crenuladas ou denteadas, e o lóbulo pode ser pequeno ou bem desenvolvido. A bractéola pode ser inteira ou bífida, com margem inteira ou denteada. O perianto apresenta 3 a 5 ou mais quilhas, que podem ser inteiras, crenuladas ou denteado-laciniadas, com rostro curto, longo ou pouco visível.

Esporófito

O esporófito, é de tamanho curto, pedunculado, com seta articulada ou não, a qual possui duas camadas de células, a interior com quatro fileiras e a exterior com 12-16 fileiras de células; pé discoidal com poucas células e cápsula esférica com quatro valvas. Presos às paredes biestratificadas com ou sem fenestrações da cápsula, estão os elatérios com 1-2 espirais de reforço.

Multiplicação vegetativa

Ocorre por filídios caducos, por gemas, por fragmentação de ramos ou da margem do lobo e por formação de regenerantes (Schuster 1980, Gradstein 1994, 2013, Gradstein & Costa 2003).

Evolução, filogenia e taxonomia

Relações filogenéticas

As relações filogenéticas estabelecidas pela família Lejeuneaceae têm sido enfoque de diversos estudos desde o início do século XX, nos quais estão presentes tanto os modelos tradicionais de análise, baseados na morfologia dos vegetais, quanto as mais recentes abordagens alicerçadas na biologia molecular. Inicialmente, os estudos eram realizados a partir das características morfológicas dessa família, como a estrutura dos filídios, a composição dos órgãos reprodutores, a organização de corpos oleosos e a forma dos anfigastros (Gradstein, 1994). Entretanto, com o avanço das técnicas moleculares, análises de sequências de DNA, incluindo regiões como trnL-trnL-F, psbA, rbcL e espaçadores ribossômicos ITS, foram incorporadas aos estudos (Gradstein, 2013; Ye et al., 2015), o que levou a uma maior capacidade investigativa das relações evolutivas estabelecidas pelo grupo.  

Tais investigações têm conjuntamente indicado para um monofiletismo estabelecido pela família Lejeuneaceae, portanto, evidenciando que se trata de um grupo verdadeiro com ancestral comum entre os integrantes da família (Heinrichs et al., 2014),e que esta família se divide em duas subfamílias: Lejeuneoideae e Ptychanthoideae. No entanto, análises  revelaram que a classificação tradicional da família necessitava de revisões (Wilson et al, 2007). Assim, estudos como os de Gradstein (2013) e Heinrichs et al. (2014) sugeriram que algumas subtribos deveriam ser realocadas para melhor refletir a verdadeira história evolutiva do grupo, com alguns contrastes sendo alcançados a depender do método de análise parcimoniosa. Dessa forma, as subfamílias Lejeuneoideae e Ptychanthoideae se mantiveram, mas algumas linhagens anteriormente incluídas em Ptychanthoideae foram realocadas, e novas propostas taxonômicas surgiram, com a redefinição de tribos e subtribos dentro da família (Heinrichs et al., 2014; Ye et al., 2015).

Após esses estudos filogenéticos,a estrutura da família Lejeuneaceae é a que consta do seguinte cladograma:

Porellales
Porellaceae
Goebeliellaceae
Lepidolaenaceae
Radulaceae
Frullaniaceae
Jubulaceae
Lejeuneaceae
Lejeuneoidae
Ptychanthoideae

Taxonomia

Lejeuneaceae constitui um grupo essencialmente tropical e subtropical, sendo a maior família de hepáticas, com 71 gêneros aceitos devido a estudos filogenéticos moleculares e um número estimado de mais de 1900 espécies:

  • Divisão Marchantiophyta
    • Classe Jungermanniopsida
      • Ordem Porellales
        • Família Porellaceae Cavers 1910 nom. cons.
        • Família Goebeliellaceae Verdoorn 1932
        • Família Lepidolaenaceae Nakai 1943
        • FamíliaRadulaceae Müller 1909
        • FamíliaFrullaniaceae Lorch 1914
        • FamíliaJubulaceae von Klinggräff 1858
        • Família Lejeuneaceae Cavers 1910
          • Subfamília Lejeunoidae - aproximadamente 52 gêneros
          • Subfamília Ptychanthoideae - aproximadamente 19 gêneros

Ocorrência no Brasil

Domínios Fitogeográficos: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal.

Ocorrências confirmadas no Brasil:

  • Norte (Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins)
  • Nordeste (Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe)
  • Centro-Oeste (Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso)
  • Sudeste (Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo)
  • Sul (Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina)

Lista de espécies brasileiras

Acanthocoleus
Acrolejeunea Acrolejeunea emergens

Acrolejeunea heterophylla

Acrolejeunea torulosa

Anoplolejeunea Anoplolejeunea conferta
Archilejeunea badia,crispistipula

fuscescens

ludoviciana

Blepharolejeunea Blepharolejeunea incongrua;

Blepharolejeunea securifoli

Brachiolejeunea Brachiolejeunea laxifolia

Brachiolejeunea leiboldiana

Brachiolejeunea phyllorhiza

Bromeliophila Bromeliophila natans
Bryopteris Bryopteris diffusa

Bryopteris filicina

Caudalejeunea Caudalejeunea lehmanniana
Cephalantholejeunea Cephalantholejeunea temnanthoides
Ceratolejeunea Ceratolejeunea atlantica

Ceratolejeunea ceratantha

Ceratolejeunea coarina

Ceratolejeunea confusa

cornuta

cubensis

desciscens

falcatodentata

fallax

filaria

laetefusca

maranhensis

minuta

patentissima

rubiginosa

temnantha

Cheilolejeunea acutangula

adnata

amazonica

aneogyna

aracaensis

asperifolia

beyrichii

caducifolia

comans

conchifolia

cuspidifera

decursiva

discoidea

filiformis

fragrantissima

grandibracteata

grosseoleosa

holostipa

inflexa

insecta

intertexta

lacerata

laciniata

lineata

lobulata

neblinensis

ornata

papulosa

polyantha

polystachya

revoluta

rigidula

savannae

subcrenulata

tenerrima

timboensis

tonduzana

trifaria

unciloba

urubuensis

xanthocarpa

Cololejeunea antillana

azorica

bischleriana

camillii

cardiocarpa

cingens

clavatopapillata

contractiloba

dauphinii

diaphana

dzumacensis

falcata

gracilis

hildebrandii

jamesii

lanciloba

micrandroecia

microscopica

minutilobula

obliqua

panamensis

papilliloba

paucifolia

planiuscula

platyneura

schusteri

sicifolia

sintenisii

spruceana

subcardiocarpa

submarginata

subscariosa

subsphaeroidea

surinamensis

verwimpii

vitaliana

winkleri

microscopica var. africana

microscopica var. exigua

Colura calyptrifolia

cylindrica

greig-smithii

itatyana

tenuicornis

tortifolia

ulei

Cyclolejeunea accedens

chitonia

convexistipa

foliorum

luteola

peruviana

Dibrachiella auberiana

parviflora

Diplasiolejeunea alata

brunnea

buckii

caribea

cavifolia

cobrensis

cubatensis

inermis

lanciloba

latipuensis

pauckertii

pellucida

replicata

rudolphiana

unidentata

Drepanolejeunea aculeata

anoplantha

araucariae

bidens

biocellata

campanulata

crassiretis

crucianella

fragilis

granatensis

grollei

inchoata

integribracteata

lichenicola

mosenii

orthophylla

palmifolia

pinnatiloba

polyrhiza

robinsonii

subdissitifolia

Frullanoides corticalis

densifolia

liebmanniana

tristis

Haplolejeunea amazonica

umbrosa

Harpalejeunea oxyphylla

schiffneri

stricta

subacuta

tridens

Lejeunea acanthogona

adpressa

angusta

anomala

aphanes

asperrima

asthenica

atlantica

bermudiana

beyrichiana

bombonasensis

boryana

calcicola

cancellata

capensis

catinulifera

cerina

cochleata

combuensis

controversa

deplanata

flaccida

flagellifera

flava

glaucescens

grossitexta

herminieri

immersa

inflexiloba

juruana

laeta

laetevirens

longidentata

minutiloba

oligoclada

parviloba

perpapillosa

phyllobola

polyantha

pterigonia

ptosimophylla

puiggariana

pulchra

pulverulenta

quinqueumbonata

raddiana

ramulosa

reflexistipula

rionegrensis

serpillifolioides

setiloba

sporadica

subsessilis

subspathulata

terricola

topoensis

trinitensis

acanthogona var. cristulata

acanthogona var. diversicuspis

acanthogona var. grossiretis

Lepidolejeunea cordifissa

eluta

involuta

Leptolejeunea brasiliensis

convexistipa

diversilobulata

elliptica

exocellata

maculata

moniliata

obfuscata

serratifolia

tridentata

Lopholejeunea eulopha

nigricans

quelchii

subfusca

Marchesinia bongardiana

brachiata

Microlejeunea acutifolia

bullata

capillaris

cystifera

epiphylla

globosa

jiboiensis

squarrosa

stricta

subulistipa

Myriocoleopsis fluviatilis

gymnocolea

minutissima

Neurolejeunea breutelii

seminervis

Odontolejeunea decemdentata

lunulata

rhomalea

Pictolejeunea picta

sprucei

Prionolejeunea aemula

denticulata

diversitexta

galliotii

limpida

muricato-serrulata

recurvula

scaberula

trachyodes

Pycnolejeunea chocoensis

contigua

decurviloba

densistipula

gradsteinii

macroloba

papillosa

porrectilobula

remotistipula

Rectolejeunea emarginuliflora

flagelliformis

versifolia

Schiffneriolejeunea
  • amazonica
  • polycarpa
Stictolejeunea
  • balfourii
  • squamata
Symbiezidium barbiflorum

transversale

Thysananthus amazonicus

auriculatus

innovans

plicatiflorus

Verdoornianthus griffinii

marsupiifolius

Vitalianthus aphanellus

bischlerianus

Xylolejeunea aquarius

crenata

Referências

  1. BASTOS, C.J.P.; GRADSTEIN, S.R. 2020. Lejeuneaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB97355.
  2. Bastos, C.J.P.; Gradstein, S.R. Lejeuneaceae in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB97355
  3. BECHTELER, J.; LEE, G.E.; SCHÄFER-VERWIMP, A.; RENNER, M.A.M.; PERALTA, D.F.; HEINRICHS, J. 2016. Toward a monophyletic classification of Lejeuneaceae V: the systematic position of Pictolejeunea. Phytotaxa 280(3): 259-270.
  4. COSTA, Denise P.; PERALTA, Denilson F. 2015. Bryophytes diversity in Brazil. Rodriguésia, Rio de Janeiro, v. 66, n. 4, out. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-7860201566409.
  5. GRADSTEIN, S.R. 1994. Lejeuneaceae: Ptychanteae, Brachiolejeuneae. Flora Neotropica Monograph 62: 1-216.
  6. GRADSTEIN, S.R. 2013. A classification of Lejeuneaceae (Marchantiophyta) based on molecular and morphological evidence. Phytotaxa 100(1): 6-20.
  7. GRADSTEIN, S.R.; CHURCHILL, S.P.; SALAZAR-ALLEN, N. 2001. Guide to the Bryophytes of tropical America. Memoirs of the New York Botanical Garden 86: 1-577.
  8. GRADSTEIN, S.R.; ILKIU-BORGES, A.L. 2009. Guide to the Plants of Central French Guiana. Part 4. Liverworts and Hornworts. Memoirs of The New York Botanical Garden 76: 1-140.
  9. HEINRICHS, J.; DONG, S.; SCHÄFER-VERWIMP, A.; PERALTA, D.F.; FELDBERG, K.; SCHMIDT, A.R.; SCHNEIDER, H. 2014. Towards a monophyletic classification of Lejeuneaceae II: subtribes Pycnolejeuneinae and Xylolejeuneinae subtr. nov., transfer of Otolejeunea to Lepidolejeuninae, and generic refinements. Phytotaxa 163(2): 061‒076.
  10. SCHUSTER, R.M. 1980. Hepaticae and Anthocerotae of North America east Handredht Meridian. Columbia University Press, New York.
  11. Söderström L, Hagborg A, von Konrat M, Bartholomew-Began S, Bell D, Briscoe L, Brown E, Cargill DC, Costa DP, Crandall-Stotler BJ, Cooper ED, Dauphin G, Engel JJ, Feldberg K, Glenny D, Gradstein SR, He X- L, Heinrichs J, Hentschel J, Ilkiu-Borges AL, Katagiri T, Konstantinova NA, Larraín J, Long DG, Nebel M, Pócs M, Puche F, Reiner-Drehwald E, Renner MAM, Sass-Gyarmati A, Schäfer-Verwimp A, Moragues JGS, Stotler RE, Sukkharak P, Thiers BM, Uribe J, Váňa J, Villarreal JC, Wigginton M, Zhang L & Zhu R-L (2016) World Checklist of hornwrts and liverworts. Phytokeys 59: 1-828.
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  13. WILSON, R.; HEINRICHS, J.; SCHÄFER-VERWIMP, A.; FELDBERG, K.; SCHNEIDER, H. Unravelling the phylogeny of Lejeuneaceae: Evidence of four lineages. Molecular Phylogenetics and Evolution, v. 34, n. 2, p. 512-528, 2005.
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