Lei Alan Turing
A Lei Alan Turing é o termo informal para uma legislação do Reino Unido, contida na Lei de Policiamento e Crime de 2017,[1] que funciona como uma lei de anistia para conceder perdão a homens que receberam advertência policial ou foram condenados sob leis históricas que criminalizavam atos homossexuais.[2] A medida recebeu esse nome em homenagem a Alan Turing, matemático, criptoanalista da Segunda Guerra Mundial e pioneiro da computação, condenado por atentado ao pudor, em 1952. Turing foi perdoado postumamente em 2013 por meio de uma prerrogativa real de clemência. A lei é aplicável em Inglaterra e País de Gales.[2]
Diversas propostas para uma Lei Alan Turing foram apresentadas antes de sua implementação,[3][4][5] e sua adoção tornou-se política governamental a partir de 2015.[6] Em 20 de outubro de 2016, o governo britânico anunciou apoio a uma emenda a Lei de Policiamento e Crime que concederia um perdão póstumo e ofereceria um perdão formal automático a pessoas vivas cujos registros criminais por tais delitos já haviam sido eliminados.[7][8] Um projeto concorrente, em segunda leitura na época do anúncio, foi bloqueado por obstrução parlamentar [en].[9] A lei recebeu sanção real em 31 de janeiro de 2017, e o perdão foi implementado no mesmo dia.[10] O perdão abrange apenas homens condenados por atos que não são mais considerados crimes; aqueles condenados por delitos ainda vigentes, como cottaging, sexo com menores ou estupro, não foram perdoados.[11]
O deputado por Manchester Withington, John Leech, frequentemente descrito como o "arquiteto" da Lei Alan Turing, liderou uma campanha de destaque para perdoar Turing e apresentou vários projetos ao Parlamento, culminando no perdão póstumo de Turing.[12]
Contexto
Todos os atos homossexuais entre homens eram ilegais até a aprovação da Lei de Ofensas Sexuais de 1967 em Inglaterra e País de Gales, da Lei de Justiça Criminal de 1980 na Escócia e da Ordem de Ofensas Homossexuais de 1982 na Irlanda do Norte. Como essas regiões possuem jurisdições distintas e muitos aspectos do direito penal são competências descentralizadas no Reino Unido, o governo britânico, por convenção, legislou o perdão apenas para Inglaterra e País de Gales.[11]
Alan Turing, que inspirou o nome informal da lei, foi um matemático, criptoanalista e um dos fundadores da ciência da computação. Ele faleceu em 1954 em circunstâncias suspeitas, após ser condenado por atentado ao pudor, em 1952. A campanha para perdoá-lo foi liderada pelo ex-deputado por Manchester Withington, John Leech,[13] que classificou a manutenção da condenação como "absolutamente repugnante e, no fundo, apenas embaraçosa".[14] Turing recebeu um perdão póstumo em 2013, sob o governo de David Cameron, por meio da prerrogativa real de clemência [en].[15][16] Apesar de pedidos de ativistas como Leech, o Astrônomo Real Martin Rees e o jornalista Peter Tatchell [en] por um perdão geral, isso não ocorreu imediatamente.[17][18] Leech apresentou várias moções e continuou a campanha por meia década, mesmo após perder seu assento nas eleições gerais do Reino Unido de 2015.[19]
Propostas
A Lei de Proteção das Liberdades de 2012, proposto por David Cameron, introduziu o procedimento de "desconsideração", permitindo que homens com condenações por "atentado ao pudor entre homens" em seus registros criminais solicitassem a exclusão dessas infrações em verificações de antecedentes por tribunais e empregadores, mas não oferecia um perdão formal.[6]
Enquanto na oposição, o Partido Trabalhista, liderado por Ed Miliband, anunciou que implementaria uma Lei Alan Turing se vencesse as eleições de 2015.[20] Posteriormente, o Partido Conservador, sob Cameron, adotou a mesma política.[6] Quando Theresa May assumiu como Primeira-Ministra após a renúncia de Cameron, ela também declarou apoio à Lei Alan Turing.[21][22]
Projetos concorrentes
Em junho de 2016, o deputado John Nicolson [en] apresentou um projeto de lei de iniciativa privada, o Projeto de lei sobre crimes sexuais (perdões, etc.) 2016-17, para implementar a proposta.[23] Em outubro de 2016, o governo conservador anunciou que, em vez de apoiar o projeto original de Nicolson para um perdão geral, implementaria as mudanças por meio de uma emenda ao Projeto de Lei sobre Policiamento e Crime de 2016. Essa emenda concederia um perdão póstumo aos falecidos, facilitaria a remoção de condenações para os vivos e ofereceria um perdão formal automático àqueles cujos registros já haviam sido limpos pelo processo de desconsideração.[7][8][24] Durante o debate do projeto de Nicolson em 21 de outubro de 2016, o deputado conservador Sam Gyimah o bloqueou por obstrução parlamentar, impedindo seu avanço.[25] A emenda ao Projeto de Lei sobre Policiamento e Crime foi aprovada e recebeu sanção real em 31 de janeiro de 2017.[10]
Os dois projetos diferiam no tratamento de casos em que a condenação envolvia atos ainda considerados crimes sob a legislação atual. Ambos buscavam excluí-los, mas o projeto de Nicolson oferecia um perdão automático, enquanto o do governo exigia o processo de desconsideração prévio. Isso significa que o Ministério do Interior investigaria cada caso de pessoas vivas para garantir que o ato pelo qual foram condenadas não seja mais crime, evitando perdoar homens condenados por sexo com menores ou estupro.[11] De forma controversa, isso também exclui homens presos em banheiros públicos, pois hoje seriam culpados por "atividade sexual em banheiro público".[26] O governo argumentou que, sem essa verificação, homens condenados por tais atos poderiam alegar terem sido perdoados.[9] Nicolson, apoiado pelo grupo LGBT Stonewall, discordou, acusando o governo de "sequestrar" a lei ao anunciar a emenda antes da segunda leitura de seu projeto, afirmando que sua proposta já excluía crimes ainda vigentes.[27] O projeto de Nicolson não limparia registros criminais automaticamente, exigindo o processo de desconsideração, o que poderia gerar casos ambíguos, descritos por James Chalmers, professor da Universidade de Glasgow, como um "perdão de Schrödinger".[28]
Reações
O anúncio foi amplamente bem-recebido, mas alguns grupos consideraram a medida insuficiente. O ativista George Montague declarou que recusaria o perdão, pois isso implicaria culpa, preferindo um pedido de desculpas do governo.[11]
Matt Houlbrook, professor de História Cultural na Universidade de Birmingham, destacou que o anúncio tinha "importância simbólica e prática" para homens gays vivos com tais condenações em seus registros, mas observou que usar Turing como símbolo o transformava retroativamente em um "mártir gay", uma identidade que ele não buscou em vida.[26][29] James Chalmers apontou que o processo de desconsideração já oferecia um perdão efetivo e que nenhuma das implementações da Lei Alan Turing poderia perdoar atos tecnicamente criminosos, mas raramente processados, como sexo entre um jovem de 16 e outro de 15 anos ou em certos locais públicos.[28] Como a lei e o processo de desconsideração aplicam-se apenas à Inglaterra e ao País de Gales, grupos na Irlanda do Norte e na Escócia passaram a defender leis equivalentes em suas jurisdições.[30][28] O Lei de Ofensas Sexuais Históricas (Perdão e Desconsideração) (Escócia) de 2018 introduziu um sistema de "desconsideração" semelhante na Escócia em 2019.[31]
A partir de janeiro de 2017, cerca de 49.000 homens haviam sido perdoados postumamente sob os termos da Lei de Policiamento e Crime de 2017.[32]
Ver também
Referências
- ↑ «Policing and Crime Act 2017 (Part 9, Chapter 1, Sections 164 to 172)» [Policing and Crime Act 2017 (Parte 9, Capítulo 1, Seções 164 a 172)]. legislation.gov.uk. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ a b Alderson, Reevel (15 de outubro de 2019). «Pardon for gay men convicted under abolished laws» [Perdão para homens gays condenados sob leis abolidas]. BBC News (em inglês). Consultado em 12 de março de 2025.
Na Inglaterra e no País de Gales, onde atos homossexuais entre adultos consentintes foram permitidos após 1967, existe uma legislação semelhante – chamada de 'Lei Alan Turing' em homenagem Alan Turing, decifrador de códigos da Segunda Guerra Mundial que, em 2013, recebeu perdão póstumo por ter sido condenado por atentado ao pudor.
- ↑ Al-Othman, Hannah (29 de junho de 2016). «MP proposes new law to pardon people with historic convictions for being gay» [Deputado propõe nova lei para perdoar pessoas com condenações históricas por serem gays]. London Evening Standard. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ Littauer, Dan (25 de outubro de 2016). «Scottish government move for 'Turing law' gay pardons» [Governo escocês propõe indulto para gays com base na “lei de Turing]. BBC. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ Devlin, Kate (29 de junho de 2016). «SNP MP launches bid to pardon those charged under homophobic laws no longer on statute book» [Deputado do SNP lança iniciativa para perdoar acusados sob leis homofóbicas abolidas]. The Herald. Glasgow. Consultado em 12 de março de 2025. Cópia arquivada em 8 de junho de 2023
- ↑ a b c «Cameron Pledges Pardons for 'Outdated' U.K. Gay-Sex Convictions» [Cameron promete perdões para condenações por sexo gay 'ultrapassadas' no Reino Unido]. Bloomberg. 14 de abril de 2015. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ a b Craig, Jon (19 de outubro de 2016). «Gay men convicted of abolished sexual offences to be pardoned» [Homens gays condenados por delitos sexuais abolidos serão perdoados]. Sky News (em inglês). Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ a b Cowburn, Ashley (19 de outubro de 2016). «Government to pardon thousands of gay men under 'Alan Turing Law'» [Governo perdoará milhares de homens gays sob a 'Lei de Alan Turing']. The Independent (em inglês). Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ a b Tara John (21 de outubro de 2016). «Why a British Bill That Would Pardon Men Convicted of Overturned Gay Sex Law Was Filibustered» [Por que um projeto britânico de perdão a homens condenados por leis gays revogadas foi obstruído]. Time. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ a b «Policing and Crime Act» [Lei de Policiamento e Crime]. gov.uk. Consultado em 12 de março de 2025
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- ↑ «'Turing Bill' for gay pardons fails in Parliament» ['Projeto Turing' para perdões gays falha no Parlamento]. BBC News. 21 de outubro de 2016. Consultado em 12 de março de 2025
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- ↑ «UK government accused of trying to 'hijack' plans for 'Turing's law'» [Governo do Reino Unido acusado de tentar 'sequestrar' planos para a 'Lei de Turing']. Evening Telegraph. 21 de outubro de 2016. Consultado em 12 de março de 2025. Cópia arquivada em 26 de março de 2024
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- ↑ Matt Houlbrook (8 de agosto de 2013). «Pardoning Alan Turing might be good politics, but it's certainly bad history» [Perdoar Alan Turing pode ser boa política, mas certamente é má história]. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ «'Alan Turing law': Call for gay and bisexual men in NI to receive pardons» ['Lei de Alan Turing': Pedido de perdão para homens gays e bissexuais na Irlanda do Norte]. BBC News. 20 de outubro de 2016. Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ Alderson, Reevel (15 de outubro de 2019). «Pardon for gay men convicted under abolished laws» [Perdão para homens gays condenados sob leis abolidas] (em inglês). Consultado em 12 de março de 2025
- ↑ «Thousands of gay men pardoned for past convictions» [Milhares de homens gays perdoados por condenações passadas]. BBC News. 31 de janeiro de 2017. Consultado em 12 de março de 2025