Lago Burnett

José Carlos Lago Burnett, mais conhecido como Lago Burnett (São Luís, 14 de agosto de 1929 — São Luís, 02 de janeiro de 1995) foi um jornalista e escritor brasileiro.[1][2]

Em São Luís, atuou intensamente na imprensa local e em veículos de cultura com Bandeira Tribuzi e Ferreira Gullar. Considerado um dos expoentes da Geração de 45, passou a exercer atividade jornalística no Rio de Janeiro, principalmente no Jornal do Brasil.[3]

Livro Ouro Pg30 (Large)

Lançamento de "O Ballet das Palavras"

A obra "O Ballet das Palavras" foi lançada em 27 de outubro de 1951 em São Luís, durante um almoço no restaurante A Brasileira, propriedade dos franceses Charles e Lucia P. Dell Eva. O estabelecimento localizava-se no antigo Beco do Teatro (atual Rua Godofredo Viana), no trecho entre as ruas Grande e da Paz - onde hoje se encontra a Academia de Letras do Maranhão.

Convidados ilustres

O evento contou com a presença de importantes personalidades maranhenses:

  • José Sarney Costa (ex-Presidente da República, na época acadêmico de Direito)
  • Tácito Caldas (Desembargador e Presidente em exercício dos Tribunais de Justiça e Eleitoral)
  • José Vera Cruz Santana (renomado advogado e jornalista)
  • João Ignácio de Souza (Catedrático de Direito)
  • José Ribamar Santos (advogado conceituado)
  • João Albino de Araújo Souza (Promotor Público)
  • José Teixeira de Araújo (Ministro do Tribunal de Contas)
  • Manuel Costa Araújo
  • Sousa Domingues Teixeira

Produção intelectual e obras

A obra de Lago Burnett transita entre a poesia lírica e a prosa ensaística, refletindo suas duas vocações principais: a literatura e o jornalismo. Como poeta, ele é associado à chamada Geração de 45 maranhense, caracterizada pelo esforço de renovação estética e pela assimilação de correntes modernas na poesia local. Seus poemas de juventude já revelavam uma “ânsia de renovação” e o desejo de romper com formas ultrapassadas. Em Estrela do Céu Perdido (1949), seu livro de estreia, Burnett apresenta versos introspectivos e imagéticos, apontando influências tanto da poesia moderna brasileira (comum no pós-Modernismo) quanto de uma sensibilidade local refinada. Já O Ballet das Palavras (1951) reforça sua busca por novas expressões poéticas, mesclando lirismo e experimentação formal – o título sugere a dança das palavras, indicando preocupação com ritmo e musicalidade. A coletânea 50 Poemas (1959) consolidou sua produção poética, reunindo textos selecionados que abrangem uma década de criação. Nessas obras, Burnett aliou temáticas universais (amor, solidão, angústias existenciais) a referências regionais sutis, inserindo-se na tradição literária maranhense sem cair em folclorismos.

Além da poesia, Lago Burnett distinguiu-se como ensaísta e crítico da linguagem. Sua obra A Língua Envergonhada e outros escritos sobre comunicação, publicada em 1976 pela Editora Nova Fronteira, reúne uma série de artigos e ensaios em que analisa fenômenos da língua portuguesa e da mídia brasileira.[4] No texto que dá título ao livro (“A Língua Envergonhada”), Burnett discute as inseguranças e complexos em torno do uso culto do idioma, possivelmente abordando questões como o confronto entre a norma culta e a linguagem coloquial ou estrangeirismos na fala nacional – temática pertinente num período de afirmação da identidade linguística brasileira. Outros capítulos, como “Patologia do deboche nacional” (1975) e “Os palavrões”, indicam seu interesse em dissecar vícios de linguagem, expressões vulgares e o comportamento linguístico no Brasil da época. Com fina ironia e erudição, Burnett utilizou esses ensaios para questionar modismos, clichês e a pobreza vocabular que identificava na comunicação social. Seu rigor com a língua transparece também no Manual de Redação que redigiu para o Jornal do Brasil, onde elencou dez princípios de escrita concisa e elegante, aconselhando desde evitar metáforas e adjetivos excessivos até repudiar vulgaridades e jargões passageiros.[5] Essa faceta de teórico da comunicação completa seu perfil intelectual: Burnett não só produziu literatura criativa, mas também refletiu criticamente sobre a própria linguagem e o fazer jornalístico.

Principais obras

  • Estrela do Céu Perdido, (São Luís: Edições AML, 1949) – Coletânea de poemas de estreia, marcada pelo tom lírico introspectivo e pela busca de renovação da poesia maranhense do pós-guerra.
  • O Ballet das Palavras, (São Luís: Edições AML, 1951) – Livro de poemas lançado em evento cultural de destaque; apresenta experimentações formais e consolida a voz poética de Burnett na Geração de 45
  • 50 Poemas, (São Luís, 1959) – Reunião de cinquenta composições poéticas, selecionadas para representar a produção do autor ao longo da década de 1950, evidenciando sua maturidade lírica.
  • A Língua Envergonhada, (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976) – Coletânea de ensaios e artigos de crítica, abordando questões de língua, mídia e cultura; inclui reflexões sobre os vícios de linguagem, a influência da mídia de massa e a ética do comunicador.

Referências

  1. Motta, Cezar (2020). Por trás das palavras: As intrigas e disputas que marcaram a criação do dicionário Aurélio, o maior fenômeno do mercado editorial brasileiro. [S.l.]: Editora Máquina de Livros. p. 70 
  2. «José Carlos Lago Burnett». Academia Maranhense de Letras. Consultado em 25 de abril de 2023 
  3. Malin, Mauro (11 de fevereiro de 2014). «Velhos e bons conselhos». Observatório da Imprensa. Consultado em 8 de maio de 2025 
  4. Burnett, Lago (1976). A língua envergonhada e outros escritos sobre comunicação. [S.l.]: Editora Nova Fronteira. Consultado em 15 de maio de 2025 
  5. Malin, Mauro (11 de fevereiro de 2014). «Velhos e bons conselhos». Observatório da Imprensa. Consultado em 15 de maio de 2025 

Bibliografia

  • COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional / Academia Brasileira de Letras, 2001. 2v. ISBN 8526007238. (Verbete “Lago Burnett”).
  • BRASIL, Assis (org.). A Poesia maranhense no século XX: antologia. São Luís: SIOGE, 1994. 377p. ISBN 8531203864. (Inclui poemas de Lago Burnett e nota biográfica).
  • CORRÊA, Rossini. Formação social do Maranhão: o presente de uma arqueologia. São Luís: SIOGE, 1993. (Análise histórico-social da cultura maranhense, com referência à geração de Lago Burnett).
  • CORRÊA, Rossini. Atenas brasileira: a cultura maranhense na civilização nacional. São Luís, 2001. (Estudo sobre a vida cultural do Maranhão, aborda o legado de escritores maranhenses, incluindo Burnett).
  • MOTTA, Cezar. Até a Última Página – Uma história do Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: Máquina de Livros, 2017. (História do JB, trazendo informações sobre a equipe de redação dos anos 1960 e 1970).
  • MORAES, Jomar. O Maranhão na Literatura. São Luís: AML, 2006. (Coletânea de ensaios e prefácios sobre escritores maranhenses; inclui referências a Lago Burnett).
  • RIBEIRO, Sérgio. Imprensa e Literatura no Maranhão do Século XX. Dissertação (Mestrado em História), UFMA, 2010. (Estudo acadêmico que analisa a interface entre imprensa e produção literária, citando o papel de Burnett como jornalista e poeta).

Precedido por
Fran Paxeco
AML - cadeira 05
1954 — 1995
Sucedido por
Clóvis Sena