Léon Mba
Léon Mba | |
|---|---|
![]() Léon Mba em 1962. | |
| 1º Presidente do Gabão | |
| Período | 12 de fevereiro de 1961 a 27 de novembro de 1967 |
| Vice-Presidente | Paul-Marie Yembit (1961-1966) Omar Bongo (1966-1967) |
| Antecessor(a) | Cargo criado |
| Sucessor(a) | Jean-Hilaire Aubame (em função do golpe de 1964) Omar Bongo (vice assume após a morte de Mba em 1967) |
| 1º Primeiro-ministro do Gabão | |
| Período | 27 de fevereiro de 1959 a 21 de fevereiro de 1961 |
| Antecessor(a) | Cargo criado |
| Sucessor(a) | Léon Mébiame |
| Dados pessoais | |
| Nome completo | Gabriel León Mba |
| Nascimento | 9 de fevereiro de 1902 Librevile, África Equatorial Francesa |
| Morte | 27 de novembro de 1967 (65 anos) Paris, França |
| Cônjuge | Pauline Mba |
| Partido | CMG (1946-1954) BDG (1954-1967) |
| Religião | Catolicismo bouiti |
| Profissão | Político, funcionário público e comerciante |
Gabriel Léon Mba (Librevile, 9 de fevereiro de 1902 - Paris, 27 de novembro de 1967) foi um político, funcionário público e comerciante gabonês. Foi Primeiro-Ministro do Gabão entre fevereiro de 1959 e fevereiro de 1961 e primeiro Presidente do Gabão, governando entre fevereiro de 1961 a novembro de 1967.
Biografia
Membro da etnia fangue,[1] Mba nasceu em 9 de fevereiro de 1902 em Librevile, Gabão.[2] Seu pai, um pequeno empresário e chefe tribal, trabalhou como cabeleireiro do explorador franco-italiano Pierre Savorgnan de Brazza.[1][2][3] Sua mãe, Louise Bendome, era costureira.[1] Ambos eram instruídos e estavam entre os primeiros "evoluídos" em Librevile.[1][2] O abade Jean Obame, meio-irmão de Mba, também desempenhou um papel importante na hierarquia colonial: ele foi o primeiro padre católico originário do Gabão.[3]
Em 1909, Mba ingressou em um seminário para receber sua educação primária.[1] Obteve seu certificado de ensino fundamental em meados da década de 1910.[1] A partir de 1920, trabalhou como gerente de loja, negociante de madeiras e comerciante antes de entrar para a administração colonial francesa como agente alfandegário.[1]
Início do percurso político
Apesar de seu bom desempenho no trabalho enquanto comerciante e funcionário público, Mba se interessou particularmente pelo ativismo em favor dos direitos tribais do povo fangue.[1] Tal postura preocupava os administradores coloniais em Librevile.[4] Sua militância e seus escritos irritaram as autoridades, e ele sofreu as consequências em dezembro de 1922, quando foi condenado à prisão após ter cometido um crime de fornecer documentos falsificados a um colega,[4] além de outras contravenções geralmente nunca punidas como poligamia e por falta de compreensão das medidas de higiene.[4]
Em meados da década de 1920, Mba reconciliou-se com as autoridades coloniais[2][4] e foi escolhido para suceder o falecido chefe do bairro fangue de Librevile.[3] Rapidamente ganhou reputação como um homem forte, confiante e capaz.[2] No entanto, Mba não tinha uma visão idealista do seu trabalho como chefe do bairro fangue;[4] pensava no trabalho como uma forma de enriquecer e ascender socialmente rapidamente.[4] Em meados da década de 1920, se aproxima da Liga dos Direitos do Homem, entidade que lhe presta apoio e o ajuda na construção ideológica no período.[5] Apesar de sua associação com setores mais à esquerda na Liga, as autoridades francesas não se opuseram à nomeação de Mba como chefe da província do Estuário.[4] No período, abandonou o catolicismo e tornou-se seguidor da seita religiosa bwiti (ou bouiti),[1] à qual os fangues eram particularmente receptivos.[2][6]
Após o envolvimento de seguidores bwiti em crimes,[2] particularmente no assassinato e ocultação de cadáver de uma mulher em 1931,[2] da qual Mba teve conhecimento e encobertou os envolvidos,[4] ele foi mandado para cumprir três anos prisão e dez anos de exílio na colônia francesa de Ubangui-Chari, actualmente Centráfrica, primeiro na cidade de Bambari e depois na de Bria.[1] Oficialmente, a condenação se deu por peculato de impostos e maus-tratos à mão de obra local.[4] Mba continuou a exercer influência entre os fangues através de correspondência com seus compatriotas em Librevile.[4]
Durante seus anos de exílio, ele escreveu sobre os direitos consuetudinários do povo fangue numa obra intitulada "Ensaio sobre os direitos consuetudinários dos povos de lingua fangue" e o publicou no Boletim da Sociedade dos Pesquisadores Congoleses em 1938.[4] Esta obra rapidamente se tornou a principal referência sobre o direito consuetudinário tribal fangue.[2]
Ele também gozava de considerável prestígio entre seus congêneres fangues na Centráfrica, o qual obtinha por meio das atividades de religiosas que praticava.[4] Explorou o preconceito e o temor pelas atividades ocultistas da seita bwiti para extorquir as pessoas que tinha sob sua influência, obrigando-as a se filiar a cabala que ele próprio havia criado.[4] Por outro lado, sabia como bajular os representantes coloniais, enganando sua vigilância e conquistando sua confiança.[4] Foi por isso que cometera todo tipo de abuso sem jamais se preocupar com as consequências.[4]
Apesar de estar exilado, Mba foi empregado por administradores locais. Alocado em funções secundárias e sem poder propriamente dito, ele era um funcionário competente e valioso.[2] Graças a relatórios elogiosos de seus superiores, ele foi novamente visto como um elemento nativo leal no qual a administração colonial podia confiar.[2] Em 1942, foi-lhe concedida uma redução de pena.[2] Após sua libertação, tornou-se funcionário público em Brazavile, àquela altura capital da França Livre, onde seu prestígio aumentou.[7]
Retorno ao Gabão
Em 1946, Mba retornou ao Gabão, onde foi recebido com entusiasmo por seus apoiadores.[1] Ele conseguiu um emprego como gerente de loja da empresa comercial britânica John Holt.[1] Nesse mesmo ano, fundou o Comitê Misto Gabonês (CMG), um partido político próximo a Assembleia Democrática Africana (RDA), um partido interafricano liderado por Félix Houphouët-Boigny.[6] O principal objetivo do partido era obter autonomia para seus estados membros e opor-se à ideia de federalismo do líder senegalês Léopold Sédar Senghor.[2] Explorando seu passado como exilado e por meio da rede de seguidores do bwiti, Mba conseguiu angariar apoio dos povos fangues e mienes.[2] Seu objetivo era conquistar cargos administrativos e judiciais tribais.[4]
Em 1951, o CMG decidiu romper definitivamente os seus laços com os setores da esquerda, alinhando-se com a posição conservadora defendida por Houphouët-Boigny, enquanto este fazia o mesmo.[5] Ao mesmo tempo, Mba, embora mantivesse a sua aparência de "rebelde" perante o eleitorado, aproximou-se secretamente da administração francesa.[2] As classes sociais mais urbanizadas e os franceses no Gabão tinham preferência pelo seu principal opositor, o congressista Jean-Hilaire Aubame, um antigo protegido de Mba e filho adotivo do seu meio-irmão Jean Obame.[2] Em oposição a Mba, que tinha visões dúbias e tribalistas, Aubame deixava claro suas visões multirraciais e modernizantes ligadas à Secção Francesa da Internacional Operária (SFIO).[2] Nas eleições legislativas de 17 de junho de 1951, Aubame foi facilmente reeleito, uma vez que Mba recebeu apenas 3.257 votos, apenas 11% do eleitorado.[2] Nas eleições territoriais de março de 1952, a União Democrática e Social Gabonesa (UDSG) de Aubame ganhou 14 dos 24 lugares em disputa, contra dois do CMG; no entanto, o CMG recebeu 57% dos votos expressos em Librevile.[2]
Ascensão ao poder no regime colonial
Mba deixou o CMG para se juntar ao Bloco Democrático Gabonês (BDG) liderado por Paul Gondjout em 1954.[8] Gondjout, secretário do BDG, nomeou Mba secretário-geral e formou uma aliança estratégica contra Aubame.[5] Mba, porém, almejava a influência política de Gondjout e buscava maios de derrubá-lo.[1] Nas eleições legislativas de 2 de janeiro de 1956, Mba recebeu 36% dos votos contra 47% de Aubame.[2] Embora não tenha sido eleito, Mba tornou-se o líder do território tribal fangue em Librevile, e alguns membros da UDSG começaram a se aliar a ele.[4]
Nas eleições municipais de 1956, Mba recebeu apoio da indústria madeireira francesa, especialmente da grande burguesia sob a figura de Roland Bru, e foi eleito prefeito de Librevile com 65,5% dos votos.[8] Em 23 de novembro, foi nomeado o primeiro prefeito africano da capital.[2] Foi a primeira vitória significativa do BDG sobre o UDSG.[5] Na prática francesa de acumular vários cargos, Mba atuou como prefeito e vice-prefeito.[8]
Nas eleições territoriais de março de 1957, sua reputação de "homem dos madeireiros" jogou contra ele;[8] o BDG ficou em segundo lugar novamente, conquistando 16 das 40 cadeiras disputadas, contra 18 da UDSG.[2] Bru e outros membros da burguesia francesa no Gabão subornaram vários deputados da UDSG para que mudassem de partido político para o BDG.[2] O partido de Mba conquistou 21 cadeiras contra 19 do partido de Aubame após uma recontagem.[9] No entanto, na ausência de uma maioria absoluta, ambos os partidos foram obrigados a apresentar, em 21 de maio de 1957, uma lista de indivíduos que ambos concordavam serem adequados para a formação de um governo.[2] Nesse mesmo dia, Mba foi nomeado vice-presidente do conselho de governo sob o governador francês Yves Digo.[9] Logo, as divisões aumentaram dentro do governo, e Aubame renunciou ao cargo e apresentou uma moção de censura contra o governo. A moção foi rejeitada por 21 votos a 19.[2] Com a vitória de Mba, muitos membros eleitos da UDSG juntaram-se à maioria parlamentar, dando ao partido uma maioria com 29 dos 40 assentos legislativos. Bem instalado no governo, ele começou lentamente a reforçar o seu poder.[2]
Ascensão a Primeiro-Ministro e Presidente

A partir de julho de 1958, a mobilização do Partido da União Nacional Gabonesa (PUNGA), liderado por René-Paul Sousatte e Jean-Jacques Boucavel, passou a reunir as correntes mais radicais pela total e irrestrita independência nacional, conquistando forte apoio dos comunistas, socialistas, nacionalistas, sindicalistas e da população em geral.[5] Tal movimeto, recebeu apoio da UDSG e exerceu enorme pressão sobre a posição dúbia e conservadora de Mba e sobre a burguesia francesa no Gabão, que muito se assustou com a rápida e avassaladora mobilização.[5] Após votar a favor da Comunidade Franco-Africana, semelhante à Comunidade Britânica de Nações, no referendo constitucional de 28 de setembro de 1958,[10][2] o Gabão tornou-se pseudopoliticamente independente,[7] sob o nome Comunidade Gabonesa.[9] Em dezembro de 1958, a Assembleia votou pela criação do legislativo e, em seguida, promulgou a constituição da República do Gabão em 19 de fevereiro de 1959.[9] Como resultado imediato, e para conter a rápida evolução política popular sob liderança de Sousatte e Boucavel,[2] Mba tornou-se primeiro-ministro do Gabão semi-independente em 27 de fevereiro de 1959.[10] O jornalista francês Pierre Péan afirmou que Mba tentou de todas as maneiras secretamente impedir a independência gabonesa;[11] em vez disso, fez lobby para que se tornasse um território ultramarino da França.[11] Depois de Mba ter declarado abertamente a favor da departamentalização do Gabão em novembro de 1959,[4] Jacques Foccart, porta-voz e assessor-geral de Charles de Gaulle para a política africana, disse-lhe que essa solução era impensável.[12]
Em março de 1960, após a independência já ter sido conquistada de forma irrestrita, Mba reprimiu severamente o PUNGA,[2] revogando o registro do partido e emitindo mandado de prisão contra Sousatte,[2] e também contra membros da UDSG,[2] acabando com qualquer possibilidade de organização de uma esquerda radical e nacionalista na nação recém-independente.[2]
Em 20 de maio de 1960, o governo de Léon Mba recebeu, pelo voto da Assembleia Legislativa Gabonesa, o mandato de negociar com a antiga potência colonial as fases da transição entre o estado autônomo do Gabão e a independência plena.[10] Em meados de julho de 1960, a comissão formada por Léon Mba, com o presidente da Assembleia Legislativa Paul Gondjout e vários outros políticos, como Félix Adande-Rapontchombo, Eugène Amogho, André Gustave Anguilé, Pierre Avaro, Jean Aveno Davin, Birinda de Boudieguy, Jean Félix Mba e N'Nah Bie, partem de Librevile para Paris.[10] A delegação francesa era liderada por Michel Debré, primeiro ministro do General de Gaulle.[10]
Em 19 de junho de 1960, as eleições legislativas foram organizadas através do sistema de votação por lista.[2] No entanto, um estratagema realizado pelas autoridades e pela burguesia francesa promoveu a reorganização dos limites dos distritos e das circunscrições eleitorais, com o BDG de Mba recebendo arbitrariamente 244 assentos, enquanto a UDSG de Aubame recebeu 77.[10] No mês anterior à conquista da plena independência política do Gabão, em 13 de agosto, Mba assinou 15 acordos de cooperação com a França, relativos à defesa nacional, cooperação técnica, apoio econômico, acesso a materiais e estabilidade nacional, sacramentando o controle neocolonial francês sob o país africano.[7] Em 17 de agosto de 1960,[Nota 1] a independência é proclamada por Jean Risterucci, alto comissário da França para o Gabão e, a partir de então, embaixador da França no Gabão.[9] O primeiro governo independente do Gabão é formado com Léon Mba como primeiro-ministro.[10]
Em novembro de 1960, uma crise eclodiu dentro do partido maioritário BDG.[2] Depois do Primeiro-Ministro Mba decidir remodelar o gabinete sem consultar o Parlamento, o presidente da Assembleia Nacional, Paul Gondjout, apresentou uma moção de censura.[2] Gondjout, percebendo a constante concentração de poderes em Mba, buscou apresentar um projeto para melhor equilíbrio de poder, com um parlamento independente e um primeiro-ministro como chefe de governo.[4] O projeto suscitou uma reação extremamente negativa e repressiva de Mba.[2] Em 16 de novembro de 1960, sob o pretexto de uma conspiração, ele declarou estado de emergência, ordenou a prisão de opositores e a dissolução da Assembleia Nacional.[1] Gondjout foi condenado a dois anos de prisão, e Sousatte, que também se opunha à concentração de poderes, foi novamente preso.[8] Tanto Gondjout quanto Sousatte foram libertados e reabilitados politicamente em 1963, mas permaneceram sob vigilância durante todo o governo de Mba.[8]
Com a prisão de Gondjout, seu principal adversário partidário, em 4 de dezembro de 1960 Mba foi eleito como Secretário-Geral do partido BDG.[2] Para fortalecer sua posição, firmou uma aliança política do BDG com Aubame e a UDSG, e em 12 de fevereiro de 1961 foi eleito Presidente do Gabão, sendo o único candidato.[1] Nomeou Aubame, anteriormente seu maior adversário, como ministro das Relações Exteriores (que esteve nesta função até 1963).[1]
Em 21 de fevereiro de 1961, uma nova constituição foi adotada por unanimidade, prevendo um regime "hiperpresidencial".[1] Mba passou a ter plenos poderes executivos:[1] ele podia nomear ministros cujas funções e responsabilidades eram decididas por ele; podia dissolver a Assembleia Nacional por escolha própria ou prolongar seu mandato além dos cinco anos normais; podia declarar estado de emergência quando acreditasse que surgisse a necessidade, embora para essa alteração tivesse que consultar o povo por meio de um referendo.[13]
A partir de então, o regime de Mba passou a ter um alto grau de culto à personalidade.[1][14] Canções eram cantadas em seu louvor e selos e tangas eram impressos com sua efígie.[1] Sua fotografia era exibida em lojas e hotéis por todo o Gabão, em prédios governamentais pendurada ao lado da de Charles de Gaulle.[13] Eliminando qualquer resquício ou possibilidade de oposição entre de 1961 a 1963, a insatisfação ao seu governo cresceu entre a população, ocorrendo manifestações contra as frequentes dissoluções da Assembleia Nacional e a degradação da situação política e econômica do país.[1] Mba chegou ao ponto de, diante de qualquer questionamento ou possibilidade mínima de desobediência à sua figura, ordenar a prisão e proceder pessoalmente sessões de tortura com chicotadas.[12]
Léon Mba, durante seu governo, manteve seu grupo de confiança centrado no chefe de gabinete Albert-Bernard Bongo, nos gabinetes dos serviços administrativos e obras de Vincent de Paul Nyonda e Jacques Pigot, nos gabinetes da economia, das minas e do plano de André Gustave Anguilé e Michel Abessolo, nos gabinetes militares de Jean François Ondo e Pierre Avaro e nos gabinetes da justiça de Paul-Marie Yembit e Augustin Boumah.[15]
Tentativa de golpe contra Mba
Entre 17 e 18 de fevereiro de 1964, 150 militares gaboneses, liderados pelos tenentes Jacques Mombo e Valére Essone, prenderam o presidente da Assembleia Nacional, Louis Bigmann, ministros gaboneses e os comandantes franceses Claude Haulin e Royer.[12] Através da Radio Libreville, pediram ao povo do Gabão para manter a calma e garantiram que a política externa pró-França do país permaneceria inalterada.[1] Mba recebeu instruções para transmitir um discurso abdicando do poder, reconhecendo os novos líderes e o fim de seu regime.[1]
Durante esses eventos, nenhum tiro foi disparado.[1] Não houve reação popular, o que, segundo os militares, foi um sinal de aprovação.[1] Um governo provisório foi formado e a presidência foi oferecida a Aubame, que não havia tomado parte no golpe.[1] O governo era composto por políticos civis tanto da UDSG quanto do BDG, como Paul Gondjout (que havia rompido com Mba em 1960).[1][16] Os líderes do golpe buscaram garantir a segurança dos civis, evitando prender ou perseguir partidários de Mba.[12] O pequeno exército gabonês não interveio no golpe;[12] composto principalmente por oficiais franceses, eles permaneceram em seus quartéis.[12]
Mba foi transferido pelos militares para Lambaréné.[17] Os líderes golpistas entratam em contato rapidamente com o embaixador francês Paul Cousseran, para assegurar-lhe que a propriedade de cidadãos estrangeiros estava protegida e para pedir-lhe que impedisse qualquer intervenção militar francesa.[1] Porém, o Presidente francês Charles de Gaulle optou por não dar suporte ao golpe, pois considerava Mba um dos aliados mais leais da França na África.[12] Sob seu regime de Mba, os franceses gozavam de um tratamento privilegiado.[1] As autoridades francesas decidiram, portanto, remeter aos acordos franco-gaboneses assinados por Mba, optando por restaurar ele ao posto de presidente.[12] Menos de 24 horas depois do anúncio do golpe, tropas francesas estacionadas em Dacar e Brazavile desembarcaram em Librevile e restauraram Mba ao poder.[12][1][16]
Governo "sob a tutela da França"
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Após ser reintegrado ao poder, Mba passou a se deparar com manifestações antigovernamentais que traziam eslogãs como "Léon Mba, presidente dos franceses!" ou que exigiam o fim da ditadura.[1] As manifestações demonstraram solidariedade a Aubame.[1] Apesar de não ter participado do planejamento do golpe, Aubame foi condenado, em seu julgamento, a 10 anos de trabalhos forçados e 10 anos de exílio.[1]
Apesar desses eventos, as eleições legislativas, que haviam sido planejadas antes do golpe, foram realizadas em abril de 1964. Os principais partidos de oposição foram privados de seus líderes, que foram impedidos de participar das eleições devido ao seu suposto envolvimento no golpe.[1] A UDSG desapareceu do cenário político, e a oposição passou a ser composta por partidos tribalistas sem articulação nacional. A oposição ainda assim conquistou 46% dos votos e 16 das 47 cadeiras, enquanto o BDG recebeu 54% dos votos e 31 cadeiras na assembleia, num claro sinal de desgaste de seu governo pró-ocidente.[1]
Seus amigos franceses o cercavam constantemente, protegendo-o ou aconselhando-o. Uma guarda presidencial foi criada por Bob Maloubier, um ex-agente secreto francês, e cofinanciada por grupos petrolíferos franceses.[12] Os grupos petrolíferos, ativos no país desde 1957, fortaleceram seus interesses em 1962 após a descoberta de depósitos de petróleo em alto-mar.[18] O Gabão rapidamente se tornou um importante fornecedor de petróleo para a França. Eles exerciam tanta influência no Gabão que, após o golpe de fevereiro de 1964, a decisão de reforçar a intervenção militar francesa no Gabão para proteger o regime de Mba foi tomada pelo CEO da Elf Aquitaine, Pierre Guillaumat e outros membros da burguesia francesa.[8][18] Mais tarde, outro executivo da Elf, Guy Ponsaillé, foi nomeado conselheiro político do presidente e tornou-se o representante de Mba nas discussões com empresas francesas.[18] No entanto, o presidente gabonês temia conflitos internos ou assassinatos, por isso permaneceu recluso dentro de seu palácio presidencial fortemente defendido.[12] Ponsaillé ajudou Mba a obter apoio de segmentos políticos mais conservadores e o acompanhou em suas visitas pelo país, a fim de restaurar sua reputação nacionalmente.[12]
A partir de 1965, os franceses começaram a procurar um sucessor para Mba, que estava idoso e doente. Encontraram o candidato perfeito em Albert Bernard Bongo (mais tarde conhecido como Omar Bongo), um jovem ambicioso que trabalhava no gabinete do Presidente.[12] Bongo foi pessoalmente "testado" pelo General de Gaulle em 1965, durante uma visita ao Palácio do Eliseu. Confirmado como sucessor de Mba, Bongo foi nomeado em 24 de setembro de 1965 como Representante Presidencial e encarregado da defesa e coordenação política.[12]
Em agosto de 1966, Mba foi internado no Hospital Bichat-Claude-Bernard em Paris.[5] Apesar de sua incapacidade de governar, o presidente se agarrou ao poder.[15] Somente após longa insistência do assessor-geral Jacques Foccart, Mba concordou em nomear Bongo como vice-presidente em substituição a Paul-Marie Yembit, anunciando sua decisão por meio de uma mensagem de rádio e televisão gravada em seu quarto em 14 de novembro de 1966. Uma reforma constitucional em fevereiro de 1967 legitimou Bongo como sucessor de Mba.[15] Os preparativos para a sucessão foram finalizados pelas eleições legislativas e presidenciais antecipadas realizadas em 19 de março de 1967.[5] Como ninguém ousou se candidatar pela oposição, Mba foi reeleito com 99,9% dos votos, enquanto o BDG conquistou todas as cadeiras na Assembleia.[15]
Morte
Em 28 de novembro de 1967, poucos dias depois de prestar juramento presidencial na embaixada gabonesa, Mba morreu de câncer em Paris, onde estava sendo tratado desde agosto daquele ano. Ele deixou esposa, Pauline Mba, e 11 filhos.[14] No dia seguinte à morte de Mba, Omar Bongo o sucedeu constitucionalmente como presidente do Gabão.[5] Em homenagem, o Aeroporto Internacional de Librevile foi rebatizado com seu nome.[19]
Notas e referências
Notas
- ↑ Ou às 23:20 do dia 16 de agosto de 1960.
Referências
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