Lábris

Lábris minoico ornamentado de ouro

Lábris[1] (em latim: λάβρυς; romaniz.: lábrys), também chamado machado da dupla lâmina, é um machado de dupla face simétrica, conhecido pelos gregos clássicos como pelequis (pelekys) ou sagáris.[2]

Também era usado como cetro pela deusa DeméterÁrtemis — deusa da Terra, e os rituais associados à deusa Demétria envolviam atos lésbicos. Uma teoria sugere que ele poderia ter sido utilizado originalmente na batalha das mulheres guerreiras citas. Outra teoria aponta que o machado é utilizado normalmente em muitas sociedades matriarcais.[3] Ele era usado como símbolo apenas, e talvez como ferramenta, uma vez que sua cabeça pesada o faz impossível de manejar durante um combate. Atualmente é um símbolo lésbico, um dos mais conhecidos.

Etimologia

Plutarco relata que a palavra lábrys era uma palavra lídia para “machado”: Λυδοὶ γὰρ ‘λάβρυν’ τὸν πέλεκυν ὀνομάζουσι.[4] (“Pois os lídios nomeiam o machado de dois gumes ‘Labrys’”). Muitos estudiosos, inclusive Arthur Evans, afirmam que a palavra labirinto é derivada de lábris e, portanto, implica “casa do machado duplo”.[5] Uma corporação sacerdotal em Delfos chamava-se Labyades; o nome original era provavelmente Labryades, servos do machado duplo. Na era romana, em Patrai e Messênia, adorava-se a deusa Laphria, comumente identificada com Ártemis. Dizia-se que seu nome era derivado da região em torno de Delfos.[6][7]

Em Creta, o “machado duplo” não é uma arma e sempre acompanha deusas femininas, não deuses masculinos, referindo-se ao próprio deus touro masculino.[8] Robert S. P. Beekes considera especulativa a relação de labirinto com lábris e propõe uma relação com laura (λαύρα), “rua estreita”, ou com o teônimo cariano Dabraundos (Δαβραυνδος).[9]

Também é possível que a palavra labirinto seja derivada do egípcio, que significa: “o templo na entrada do lago”. O labirinto egípcio próximo ao Lago Moeris é descrito por Heródoto e Estrabão.[10] A inscrição em Linear B, na tábua ΚΝ Gg 702, diz 𐀅𐁆𐀪𐀵𐀍𐀡𐀴𐀛𐀊 (da-pu2-ri-to-jo-po-ti-ni-ja). A leitura convencional é λαβυρίνθοιο πότνια (labyrinthoio potnia; “senhora do labirinto”). De acordo com alguns estudiosos modernos, poderia ser lido como *δαφυρίνθοιο (*daphyrinthoio), ou algo semelhante, e, portanto, sem uma certa ligação com o λάβρυς ou com o labirinto[11].

Também foi sugerida uma ligação com os símbolos do machado duplo em Çatalhöyük, que datam do Neolítico.[12] Em Labraunda, na Cária, bem como na cunhagem dos governantes hecatomnidas da Cária, o machado duplo acompanha o deus da tempestade Zeus Labraundos. Arthur Evans observa,

"Parece natural interpretar os nomes dos santuários carianos, como Labranda, no sentido mais literal, como o local do lábris sagrado, que era o nome lídio (ou cariano) para o grego πέλεκυς [pelekys], ou machado de dois gumes. Nas moedas de Carian, de fato de data bastante tardia, o lábris, colocado em sua longa alça semelhante a um pilar, com dois filetes dependentes, tem muito a aparência de uma imagem de culto."[13]

Bandeira do lábris

A bandeira lésbica do lábris foi criada em 1999 pelo designer gráfico Sean Campbell e publicada em junho de 2000 na edição de Palm Springs do Gay and Lesbian Times.[14][15]O desenho é composto por um lábris, um machado de duas lâminas, tradicionalmente associado às amazonas da mitologia sobreposto a um triângulo preto invertido, com fundo violeta com base na organização chamada Ameaça Lavanda.[16]

O lábris foi adotado na década de 1970 como símbolo de força e resistência pela comunidade lésbica feminista.[17] Já o triângulo preto invertido remete ao símbolo utilizado pelo regime nazista para identificar mulheres consideradas "associais", incluindo lésbicas, que eram perseguidas e enviadas a campos de concentração.[18] Esse símbolo foi posteriormente reivindicado por parte da comunidade lésbica, em analogia à apropriação do triângulo rosa por homens gays, embora as lésbicas não estivessem contempladas no parágrafo 175 do código penal alemão, ainda assim foram alvo de repressão.

A cor violeta utilizada na bandeira é tradicionalmente associada à cultura lésbica, em especial em referência à poesia da escritora grega Safo.[19] A bandeira tem sido alvo de críticas e debates dentro da comunidade LGBTQIA+, sobretudo por ter sido criada por um homem gay cisgênero, por ter sido adotada por grupos TERFs (feministas radicais trans-excludentes) e pela presença do triângulo invertido, que pode remeter a interpretações controversas em relação ao nazismo e ao antissemitismo.[20][21] Em resposta, algumas versões alternativas da bandeira foram desenvolvidas, removendo o triângulo e modificando o lábris.[22]

Galeria

Referências

  1. Cardoso 1953, p. 12.
  2. O termo que se referia a um machado de lâmina única era hēmipelekys "meio-pelequis", e.g. Il. 23.883.
  3. Biedermann, Hans (1992). Dictionary of Symbolism: Cultural icons and the meanings behind them [Knaurs Lexikon der Symbole]. New York: Facts on File. p. 24 
  4. Plutarch, Moralia [Greek Questions]. 45, 2.302a
  5. Hornblower, Simon; Spawforth, Antony; Eidinow, Esther (29 de março de 2012). The Oxford Classical Dictionary (em inglês). [S.l.]: OUP Oxford. Consultado em 18 de julho de 2025 
  6. Sweeney, Emmet John (2009). Gods, Heroes and Tyrants: Greek Chronology in Chaos (em inglês). [S.l.]: Algora Publishing. Consultado em 18 de julho de 2025 
  7. Platon, Nicolas (1 de julho de 2016). La Civilisation égéenne - tome 2: Le Bronze récent et la civilisation mycénienne (em francês). [S.l.]: ALBIN MICHEL. Consultado em 18 de julho de 2025 
  8. NILSSON, JAN (14 de fevereiro de 2008). «Allozyme variation of Macoma baltica (L.) in the Bothnian Sea». Hereditas (2): 277–280. ISSN 0018-0661. doi:10.1111/j.1601-5223.1985.tb00626.x. Consultado em 18 de julho de 2025 
  9. Beekes, Robert Stephen Paul (2009). Etymological dictionary of Greek. Col: Leiden Indo-European etymological dictionary series. Leiden: Brill 
  10. «Labyrinth | History, Design & Uses | Britannica». www.britannica.com (em inglês). Consultado em 18 de julho de 2025 
  11. Melena, José L.; Morpurgo Davies, A. (2014). "Mycenaean writing". In Duhoux, Y. (ed.). Companion to Linear B: Mycenaean Greek texts and their world. Bibliothèque des Cahiers de l'Institut de Linguistique de Louvain (BCILL 133). Vol. 3. p. 73 – via Academia.edu.
  12. Coulborn, Rushton (1 de abril de 1966). «Die Minoische Kultur des Alten Kreta. By Fritz Schachermeyr. (Stuttgart: W. Kohlhammer Verlag. 1964. Pp. 366. DM 65.)». The American Historical Review (3): 918–919. ISSN 1937-5239. doi:10.1086/ahr/71.3.918. Consultado em 18 de julho de 2025 
  13. Arthur Evans (1901). The Mycenaean Tree and Pillar Cult and Its Mediterranean Relations; with ... Harvard University. [S.l.]: Macmillan. p. Journal of Hellenic Studies. § XXI, page 108 ff – via Internet Archive (archive.org). 
  14. Bendix, Trish (8 de setembro de 2015). «Why don't lesbians have a pride flag of our own?». AfterEllen 
  15. Brabaw, Kasandra (19 de junho de 2019). «A Complete Guide To All The LGBTQ+ Flags & What They Mean». refinery29 
  16. Juventude, Ana Keil Militante do Levante Popular da; FioCruz, fonoaudióloga e pesquisadora pela (29 de agosto de 2024). «Brasil de Fato» 
  17. Zimmerman, Bonnie (2000). Lesbian histories and cultures: an encyclopedia. New York: Garland Pub. p. 748 
  18. Elman, R. Amy (Originally published in the Journal of Homosexuality, 1996, 30 (3): pp.1–11,). «Triangles and Tribulations: The Politics of Nazi Symbols». Remember.org  Verifique data em: |data= (ajuda)
  19. Prager, Sarah (29 de janeiro de 2020). «Four Flowering Plants That Have Been Decidedly Queered (Sapphic Violets». JSTOR Daily 
  20. Arzuff, Ana Sierra (10 de junho de 2021). «Historia de la creación de las banderas lésbicas» 
  21. «Quais são as bandeiras LGBTQIA+ e o que elas significam?». Revista Galileu. 11 de junho de 2021 
  22. Brabaw, Kasandra (19 de junho de 2019). «A Complete Guide To All The LGBTQ+ Flags & What They Mean» 

Bibliografia

  • Cardoso, Julimar (1953). No país de Ulisses: uma historia da literatura grega. Salvador: Progresso