Kanjire
Kanjire é uma prática corporal tradicional do povo indígena Kaingang, classificada como arte marcial ou etno-desporto. Trata-se de um jogo de guerra simbólico, realizado em grupo, que cumpria funções formativas, recreativas e de afirmação identitária.
Descrição
O jogo consistia em um embate entre dois grupos, que se enfrentavam arremessando pedaços curtos de madeira (cacetes) uns contra os outros em um campo aberto[1]. As mulheres participavam recolhendo os bastões e auxiliando os feridos, usando escudos feitos de casca de árvore. Os confrontos resultavam em ferimentos como contusões, queimaduras e fraturas, mas não geravam ressentimentos, sendo vistos como forma de diversão e preparação física e simbólica para a guerra.
Aqueles que saíam mais feridos eram considerados mais valentes (turumanin). Desde a infância, os jovens eram iniciados nessas práticas para desenvolver sua força e coragem, em consonância com a noção de tare, ligada à identidade corporal e social Kaingang.
Registros históricos
A prática do Kanjire foi registrada desde o século XIX por cronistas como Franz Keller (1867), Telêmaco Borba (1908), Curt Nimuendaju, e o etnógrafo Horta Barbosa (1947). As descrições indicam que o jogo funcionava como uma simulação ritualizada da guerra, com regras internas, papéis definidos e reconhecimento social aos participantes mais destacados.
Na versão noturna do jogo, chamada Pinjire, os bastões eram acesos em uma das extremidades, provocando queimaduras durante os confrontos. A prática, embora perigosa, era considerada quase infantil pelos próprios Kaingang.
Supressão e silenciamento
Com o avanço do processo de colonização e da imposição dos valores ocidentais, o Kanjire foi gradativamente proibido e silenciado, processo que ocorreu, também, com outras práticas corporais Kaingang, como o RáRá. Considerado bárbaro por autoridades e missionários, passou a ser reprimido. Relatos apontam que o sentimento de vergonha associado a essa prática contribuiu para seu desaparecimento da memória coletiva Kaingang.
Reinterpretação cultural
Segundo o antropólogo José Ronaldo Fassheber[1], embora o Kanjire imitasse a guerra, tratava-se de uma prática com regras próprias. A crítica à visão eurocêntrica da violência indígena aponta para a importância de entender o Kanjire dentro de seu contexto cultural.
No século XX, práticas como o futebol passaram a cumprir papel semelhante na constituição da identidade corporal Kaingang, sendo incorporadas como formas contemporâneas de etno-desporto e mimesis cultural.
Ver também
Referências
- ↑ a b Fassheber, José Ronaldo Mendonça (2007). «Kanjire X Estado: um etno-desporto Kaingang e a colonização brasileira no século XIX» (PDF). Associação Nacional de História – ANPUH. XXIV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA - 2007. Consultado em 14 de junho de 2025
Bibliografia
- BORBA, Telêmaco. Actualidade Indígena. Curitiba: Imprensa Paranaense, 1908.
- FASSHEBER, José Ronaldo Mendonça. Kanjire X Estado: um etno-desporto Kaingang e a colonização brasileira no século XIX. In: XXIV Simpósio Nacional de História – ANPUH, 2007.
- KELLER, Franz. Noções sobre os indígenas da Província do Paraná. 1867.
- BARBOSA, Horta. Epidemias entre os Kaingang. Revista do Museu Paulista, 1954.
- METRAUX, Alfred. Handbook of South American Indians. Smithsonian Institute, 1946.
- GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan, 1989.
- ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.