Julho das Pretas

Na 13.ª edição do Julho das Pretas o tema foi um chamado para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

O Julho das Pretas é uma das maiores articulações políticas de mulheres negras no Brasil, segundo a ONU.[1] Criada em 2013 pelo Odara — Instituto da Mulher Negra,[1][2] organização feministra negra, de Salvador (BA), a iniciativa nasceu com o objetivo de marcar, de forma coletiva e estratégica, o 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, data instituída em 1992 durante o 1.º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, em Santo Domingo (República Dominicana).

Desde então, o Julho das Pretas se consolidou como uma agenda conjunta[1] e propositiva, que envolve organizações, coletivos e movimentos de mulheres negras em diferentes estados brasileiros. Desde 2013, durante todo o mês de julho, são realizadas centenas de atividades, como seminários, encontros, marchas, lançamentos de pesquisas, rodas de diálogo, oficinas, atos públicos e produções culturais, que reafirmam o papel central das mulheres negras na luta contra o racismo, o sexismo, a violência e todas as formas de opressão.

O Julho das Pretas coloca em evidência temas fundamentais para a superação das desigualdades de gênero e raça, pautando debates sobre democracia, justiça social, saúde, educação, direitos humanos, participação política, cultura, memória e Bem Viver. Ao longo de mais de uma década, o Julho das Pretas tem contribuído para ampliar a visibilidade das agendas do movimento de mulheres negras, fortalecendo a sua ação coletiva, autônoma e transformadora em todas as esferas da sociedade.

Em cada edição, um tema orientador é escolhido para guiar os debates e reflexões, sempre dialogando com os desafios do presente e com a construção de um futuro livre de racismo e desigualdade. Assim, o Julho das Pretas reafirma o protagonismo das mulheres negras como sujeitas políticas e reforça o chamado para que toda a sociedade reconheça e valorize suas lutas, saberes e contribuições históricas.

Julho das Pretas nas Escolas

O Julho das Pretas nas Escolas é uma iniciativa criada em 2019, também criada pelo Odara — Instituto da Mulher Negra, através do Projeto Ayomide Odara, inicialmente direcionada às escolas baianas. A ação nasceu com o propósito de estimular reflexões, diálogos e práticas de enfrentamento ao racismo e às diversas formas de violência que afetam meninas e adolescentes negras, fortalecendo a luta por uma educação antirracista.

Em 2025, durante a 13.ª edição do Julho das Pretas — Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver, a iniciativa ganha dimensão nacional e passa a se chamar Julho das Pretas nas Escolas do Brasil, com a realização de 236 atividades[3] propostas por educadores, estudantes e ativistas em diferentes regiões do país.

A ação é organizada pela Rede de Mulheres Negras do Nordeste e pelo Instituto Odara, por meio do seu Programa de Educação, que reúne os projetos Ayomide Odara e Escola Beatriz Nascimento (EBN). Conta ainda com a parceria da Abayomi - Coletiva de Mulheres Negras na Paraíba e do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa), ampliando a rede de mobilização em defesa da educação que combata o racismo.[4]

Temas e edições

Logo da primeira edição do Julho das Pretas em 2013

Todos os anos, o Julho das Pretas propõe um tema que orienta os debates e ações da agenda política e social das mulheres negras no Brasil. Desde a edição de 2023 esse mês de luta ecoa um chamado urgente e necessário: fortalecer a construção da 2.ª Marcha Nacional de Mulheres Negras, prevista para novembro de 2025.

Falar em reparação histórica é reconhecer que o Brasil, segundo dados do IBGE, foi o país que mais recebeu africanos escravizados nas Américas.[5] Entre os séculos XVI e XIX, cerca de quatro milhões de pessoas, homens, mulheres e crianças, foram trazidas à força, representando mais de um terço de todo o tráfico transatlântico. Foram 388 anos de trabalho forçado, sustentando a economia colonial e moldando profundamente as estruturas sociais. Uma lógica de exploração que perdurou até 13 de maio de 1888, data da assinatura da Lei Áurea, uma abolição formal, mas que não garantiu justiça, inclusão ou direitos à população negra.

O tema também aciona o paradigma do Bem Viver,[6] pactuado pelo Movimento de Mulheres Negras na Carta da Marcha contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver de 2015,[7] que rejeita o modelo desenvolvimentista violento do capitalismo e propõe  uma outra dinâmica política, através da superação do racismo, do sexismo, da LGBTQIA+fobia e de todas as formas de discriminação. É uma agenda que visa a efetivação da justiça social, onde todos possam coexistir com respeito e dignidade, em convivência harmoniosa com a natureza e o meio ambiente.

As atividades da agenda coletiva geralmente são encerradas com caminhadas, festivais e marchas, evento que reúnem mulheres negras de diferentes idades e setores da sociedade. Em 2025 com a proximidade da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que acontece em novembro em Brasília, a agenda reúniu um várias caminhadas chamadas de pré-marchas.[8]

Edições e temas do Julho das Pretas (2013 - 2025)[2]
Ed. ANO TEMA
1.ª 2013 Fortalecimento Institucional das Organizações de Mulheres Negras na região do Nordeste Brasileiro.
2.ª 2014 Mostra de Arte e Cultura de Mulheres Negras
3.ª 2015 A participação da mulher negra na políticas: estratégias e desafios
4.ª 2016 Mulheres Negras no Foco: Mídia, Representação e Memória
5.ª 2017 Negras Jovens e as lutas de enfrentamento ao racismo, a violência e pelo Bem Viver
6.ª 2018 Mulheres Negras Movem o Brasil
7.ª 2019 Mulheres Negras Por Um Nordeste Livre
8.ª 2020 Em Defesa das Vidas Negras, pelo Bem Viver
9.ª 2021 Para o Brasil Genocida, Mulheres Negras apontam a solução
10.ª 2022 Mulheres Negras no Poder, Construindo o Bem Viver
11.ª 2023 Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver
12.ª 2024 Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver
13.ª 2025 Mulheres Negras em Marcha por Reparação e Bem Viver

Referências

  1. a b c VibeThemes. «A história do Julho das Pretas: maior agenda conjunta e propositiva de incidência política de organizações e movimento de mulheres negras do Brasil nasceu na Bahia». ONU Mulheres. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  2. a b «Odara - Julho das Pretas». 18 de abril de 2018. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  3. «Odara - Está no ar a Agenda Coletiva da 13.º Edição do Julho das Pretas 2025». 2 de julho de 2025. Consultado em 25 de setembro de 2025 
  4. «Odara - Meninas e jovens negras levam reflexões sobre Bem Viver e Reparação histórica para escolas baianas durante o Julho das Pretas». 5 de agosto de 2023. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  5. «Navios portugueses e brasileiros fizeram mais de 9 mil viagens com africanos escravizados». BBC News Brasil. Consultado em 22 de outubro de 2025 
  6. «Mulheres negras reivindicam 'Bem Viver' e reescrita da história durante ato em Salvador». www.correio24horas.com.br. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  7. «Carta da Marcha das Mulheres Negras 2015 - AMNB». 18 de novembro de 2020. Consultado em 22 de outubro de 2025 
  8. Robichez, Adele (24 de julho de 2025). «Marcha das Mulheres Negras toma ruas do país nesta sexta (25) em defesa da vida e por reparação». Brasil de Fato. Consultado em 23 de outubro de 2025