José Carlos Rates
José Carlos Rates | |
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| 2.º Secretário-Geral do Partido Comunista Português | |
| Período | 12 de novembro de 1923 30 de maio de 1926 |
| Antecessor(a) | José de Sousa |
| Sucessor(a) | Bento António Gonçalves |
| Dados pessoais | |
| Nascimento | 19 de fevereiro de 1880 Santa Maria da Graça, Setúbal |
| Morte | 21 de janeiro de 1961 (80 anos) Alcântara, Lisboa |
| Partido | Partido Comunista Português (1921-1926) União Nacional (1931-1961) |
| Profissão | operário conserveiro |
| Parte de uma série sobre o |
| Partido Comunista Português |
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| Parte da série sobre o |
| Comunismo |
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José Carlos Rates (Santa Maria da Graça, Setúbal, 19 de fevereiro de 1880 — Alcântara, Lisboa, 21 de janeiro de 1961)[1] foi um marinheiro, operário conserveiro, ensaísta, escritor e político português, dirigente sindical das primeiras décadas do século XX. Em 1911 era secretário da Associação dos Trabalhadores das Fábricas de Conservas de Setúbal. Foi secretário-geral do Partido Comunista Português entre 1923 e 1925.[2][3][4]
Biografia
Era filho do trabalhador Pedro de Rates e de Maria José Martins de Rates, doméstica, ambos naturais de Setúbal (ele da freguesia de Santa Maria da Graça e ela da freguesia de São Sebastião).[5]
Aos 15 anos, começou a trabalhar como ardina e numa fábrica conserveira. Aos 17 anos, alistou-se na Marinha, onde se revelou bastante indisciplinado, chegando a ser considerado "incorrigível" e deportado para o Ultramar. Durante o período na Marinha, tomou pela primeira vez contacto com autores anarquistas, como Piotr Kropotkin. Novamente em Setúbal, passa a trabalhar como operário nas fábricas de conservas e torna-se sindicalista, organizando greves no Alentejo nos primeiros anos do século XX.[6]
José Carlos Rates foi um dos mais destacados e dinâmicos dirigente sindicalistas da primeira geração. Teve presença interveniente no I Congresso Sindicalista e Cooperativista (Lisboa, 1909), no I Congresso Sindicalista (1911) e no congresso de criação da União Operária Nacional (Tomar, 1914). Foi um bom propagandista e organizador de sindicatos em Setúbal na Madeira, no Alentejo, nas Beiras e Trás-os-Montes. Em 1912, como membro da Comissão Executiva do Congresso Sindicalista, encabeçou a "tournée" de propaganda pelos campos alentejanos. Foi duramente reprimido pela sua militância sindicalista revolucionária, tendo sofrido penas de prisão. Colaborador assíduo na imprensa operária ('O Sindicalista', 'A Batalha', 'O Comunista', Renovação (1925-1926) [7] etc.) foi também um ensaísta prolífico. Tinha do sindicalismo uma perspetiva de educação da classe operária, no que era criticado pelos seus pares, e foi influenciado pela obra de Georges Sorel, nomeadamente no que toca ao pessimismo antropológico e ao combate à democracia liberal. Era fadista e dirigiu O Fadinho: Semanário de critica e propaganda do Fado (1910).[1][8][9] Era pai da escritora Celeste de Andrade, fruto da relação com Maria Freire de Andrade, doméstica, natural de Lisboa (freguesia do Beato).[10]
Tendo-se mantido sempre distante do anarquismo, após a Revolução de Outubro aderiu aos princípios do bolchevismo, integrando a Federação Maximalista Portuguesa. Foi um dos fundadores, em 1921, do Partido Comunista Português. Inicialmente, fruto do seu caráter autodidata e individualista, Rates posicionava-se contra o percurso seguido por Lenine na Rússia, declarando-se contra a insurreição comunista em Portugal sem uma revolução internacional e preconizando a revolução como “obra duma minoria consciente”. Esta posição, característica da ala moderada do partido, esteve na origem de um conflito com a fação juvenil do PCP, liderada por José de Sousa, que chegou a ser secretário-geral do PCP entre março e maio de 1923 e propunha um programa progressista para o PCP, nomeadamente advogando a emancipação das colónias portuguesas. Neste contexto, chegou a ser ponderada a expulsão de muitos militantes, como Rates. Em maio de 1923, Rates tornou-se diretor do semanário O Comunista, abandonando também a Maçonaria, que chegara a integrar com o pseudónimo Babeuf. Em novembro de 1923, um delegado da Internacional Comunista, Jules Humbert-Droz, deslocou-se a Portugal como forma de procurar sanar a luta interna no partido e apoiou a ala moderada. Assim, Rates foi eleito secretário-geral do PCP no I Congresso do partido. José de Sousa é suspenso, Henrique Caetano de Sousa é expulso do partido e Rates manteve-se no cargo até 1925. Rates era defensor de uma frente defensiva antifascista com o Partido Radical e a Esquerda Democrática de Domingues dos Santos, numa União dos Interesses Sociais contra a União dos Interesses Económicos patrocinada pelas associações patronais, de modo a conter o avanço da ideologia fascista e avançar para a revolução operária e camponesa, aproximando-se, assim, do percurso seguido por Lenine. Ainda em 1924, Rates viajou para a URSS, mas não chegou a tempo de participar no V Congresso da Internacional Comunista. Nas eleições de 1925, o PCP concorreu nas listas da Esquerda Democrática, sem conseguir eleger qualquer deputado. O frentismo defendido por Rates passou a colidir com as diretrizes do V Congresso da Internacional Comunista (1924), que previa uma orientação programática rígida para os partidos comunistas, em detrimento da defesa de uma frente única com outros movimentos políticos. No final de 1925, pouco depois de o jornal O Século ter sido adquirido pela União dos Interesses Económicos (que antes combatera), Rates foi convidado para redator do jornal, um cargo bem remunerado incompatível com os regulamentos da Internacional Comunista, o que levou à sua expulsão do PCP, no II Congresso do partido, em maio de 1926, marcado pelo regresso da fação de José de Sousa à vida ativa no partido. Fruto da instabilidade na vida interna do partido, apenas em 1929 Bento António Gonçalves assumiu o cargo de secretário-geral, tendo criticado o desempenho de Rates.[11][1]
Após a Revolução de 28 de Maio de 1926, que instaurou a Ditadura Militar, Rates encarou com expectativa o novo regime, embora tecesse críticas à repressão contra a classe operária e à falta da reorganização municipal que defendia, e acabou por concordar com a obra "disciplinadora" de Salazar e a perspetiva corporativista do novo regime, que considerava irem ao encontro das ideias por si defendidas por influência de Georges Sorel. Neste sentido, em 1931, aderiu à União Nacional.[12] Foi redator do Diário da Manhã e colaborador do Secretariado Nacional de Informação. Tendo ascendido socialmente, adquiriu hábitos um pouco mais burgueses e um certo pendor para soluções administrativas e tecnocráticas para os problemas sociais.[1]
Embora o seu pensamento tenha hoje apenas um interesse de curiosidade histórica, era um homem estudioso e refletido, que deixou alguma obra teórica: O problema português: os partidos e o operariado (1919); A ditadura do proletariado (1920); A Rússia dos Sovietes (1925); e Democracias e ditaduras (1927).
A 26 de fevereiro de 1958, casou civilmente em Lisboa com Aura da Conceição Andrade, natural de Portalegre (freguesia de São Lourenço).[5]
No período final da sua vida, interessou-se por questões coloniais, apesar de anteriormente ter advogado a venda das colónias à melhor oferta. Escreveu ainda dois romances, um dos quais A Colmeia (1932).[1]
Morreu vítima de cardiosclerose e insuficiência cardíaca a 21 de janeiro de 1961, em sua casa, na Rua dos Lusíadas, n.º 78, 2.º esquerdo, freguesia de Alcântara, em Lisboa. Foi sepultado no Cemitério da Ajuda.[13]
Notas
- ↑ a b c d e João Arsénio Nunes, Comunismo e antifascismo : Artigos e ensaios, pp. 309-314. ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, 2017.
- ↑ O Comuneiro: Sejamos marxistas.
- ↑ Almanaque Republicano: José Carlos Rates (Parte I).
- ↑ «José Carlos Rates» in Maria Fernanda Rollo et al. (editores), Dicionário da República e do Republicanismo, Lisboa, 2013.
- ↑ a b «Livro de registo de batismos da paróquia de Santa Maria da Graça - Setúbal (1880)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Distrital de Setúbal. p. 5v e 6, assento 9
- ↑ Carlos Rates, o líder "maldito" do PCP que acabou sozinho a elogiar a ditadura, Pedro Prostes da Fonseca, Diário de Notícias.
- ↑ Jorge Mangorrinha (1 de Março de 2016). «Ficha histórica:Renovação : revista quinzenal de artes, litertura e atualidades (1925-1926)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 18 de maio de 2018
- ↑ FÉLIX, Pedro, "Ao Fado muito se deve a Implantação da República", VVAA, Fado 1910, [s. l.], EGEAC EEM/Museu do Fado, 2010, pp. 131-148.
- ↑ Pina, André Costa. «A Federação Maximalista Portuguesa e a sociogénese do Partido Comunista Português» (PDF). UP
- ↑ Fortuna, Cláudia Ribeiro (28 de novembro de 2022). «Relatório de Estágio na Ponto de Fuga». Consultado em 1 de dezembro de 2023
- ↑ Caetano de Sousa, o primeiro secretário-geral do PCP, Público 06.03.2021
- ↑ Adesão à União Nacional de José Carlos Rates, José Pacheco Pereira, Estudos sobre o Comunismo no Wordpress.
- ↑ «Livro de registo de óbitos da 4.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1961-01-02 - 1961-06-19)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 36v, assento 72
| Precedido por José de Sousa (1923) |
Secretário-Geral do Partido Comunista Português 1923 - 1925 |
Sucedido por Vacante Bento António Gonçalves só assume o cargo em 1929 |


