Jogos fúnebres
Jogos fúnebres são competições atléticas realizadas em honra de uma pessoa recém-falecida. A celebração dos jogos fúnebres foram comum em várias civilizações antigas. Atletas e jogos como luta são descritos em estátuas sumérias datando de aproximadamente 2 600 a.C.,[1] e segundo numerosas tradições, jogos fúnebres foram uma característica regular da sociedade micênica grega. A Ilíada descreve os jogos fúnebres realizados por Aquiles em honra de Pátroclo,[2] e uma competição similar foi atribuída por Virgílio a Eneias, que realizou jogos no aniversário da morte de seu pai.[3] Muitas das disputas foram similares aquelas realizadas nos Jogos Olímpicos, e embora realizados em honra de Zeus, muitos estudiosos veem a origem da competição olímpica em jogos fúnebres mais antigos.[4]
Competições similares conhecidas como feiras ou assembleias (Aonachs) eram realizadas na Irlanda, a mais famosa delas a Feira de Talti. Segundo os Anais do Reino da Irlanda, as feiras foram estabelecidas pelo rei lendário Lug (r. 1849–1 809 a.C.) em honra de sua mãe adotiva, Tailtiu.[5] Estes jogos eram conhecidos durante o período medieval da Irlanda, talvez tão cedo quanto o século VI, mas deixaram de ser praticados após a invasão normanda da ilha no século XII. Alguns estudiosos datam os jogos no meio do reinado de Lug, em 1 829 a.C., alegando que eles antecederam as olimpíadas gregas em aproximados 1000 anos, e inclusive poderiam ter inspirado os jogos da Grécia.[6]
Os rituais fúnebres, em geral, tinham caráter religioso e era comum, nas sociedades antigas, que os aniversários fossem comemorados com grandes e longas celebrações, seja dos vivos ou dos mortos. Estes rituais poderiam durar vários dias e, na tradição latina, segundo textos de diversos autores como Horácio, Tácito, Ovídio e Cícero, que o luto fosse mantido por nove dias, o que indica que era uma tradição forte na sociedade romana (CARDOSO, 1997 p. 110). No livro V da Eneida, Eneias faz um grande ritual em honra de seu pai, Anquises e justamente ele diz que farão a invocação do espírito do morto e sacrifícios de caráter apotropaico (tipo de técnica, rito, magia ou objeto que tem o poder de afastar influências maléficas) (CARDOSO, 1997 p. 110) e, ao fim de nove dias, praticarão os jogos fúnebres. Por cerca de 500 versos, Eneias descreve minuciosamente quais serão os jogos e os prêmios para os vencedores. Os rituais fúnebres preenchem cerca de dois terços de todo o Livro V. [7]
“Virgílio, com seu texto sobre os jogos fúnebres em homenagem a Anquises, faz eco às vozes de sua época e participa, como em toda a Eneida, da política de reconstrução levada a termo por Augusto.”[8]
Este livro da Eneida foi inspirado e tem diversas semelhanças com o canto XXIII da Ilíada (GANIBAN, 2012, p. 378), no qual Aquiles propõe rituais e jogos fúnebres muito similares aos presentes na Eneida: na Ilíada, isto acontece logo após a morte de Pátroclo, enquanto na Eneida, acontece um ano e nove dias após a morte de Anquises. Segundo a tradição helênica, os mortos deveriam ser honrados com os sacrifícios humanos que, posteriormente, foram substituídos pelo sacrifício dos atletas que derramaram seu sangue durante os jogos. (CARDOSO, 1997 p. 111)
Referências
- ↑ Chiu 2004, p. 5-.
- ↑ Homero século VIII a.C., XXIII.
- ↑ Virgílio século I a.C., V.
- ↑ Raschke 1988, p. 22-.
- ↑ O'Donovan 1849.
- ↑ Freeman 2011, p. 80-.
- ↑ Cardoso, Zélia de Almeida (19 de dezembro de 1997). «Virgílio e os jogos fúnebres troiano-romanos». Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos (9/10): 107–118. ISSN 2176-6436. doi:10.24277/classica.v9i9/10.516. Consultado em 27 de novembro de 2025
- ↑ Cardoso, Zélia de Almeida (19 de dezembro de 1997). «Virgílio e os jogos fúnebres troiano-romanos». Classica - Revista Brasileira de Estudos Clássicos (9/10): 107–118. ISSN 2176-6436. doi:10.24277/classica.v9i9/10.516. Consultado em 27 de novembro de 2025
Bibliografia
- Chiu, David (2004). Wrestling: Rules, Tips, Strategy, and Safety. [S.l.]: The Rosen Publishing Group. ISBN 978-1-4042-0187-3
- Freeman, William H. (2011). Physical Education, Exercise and Sport Science in a Changing Society. [S.l.]: Jones & Bartlett Publishers. ISBN 978-0-7637-8157-6
- Homero (século VIII a.C.). Ilíada. [S.l.: s.n.]
- O'Donovan, John (1849). Annals of the Kingdom of Ireland by the Four Masters: From the Earliest Period to the Year 1171. Dublim: [s.n.]
- Raschke, Wendy J. (1988). Archaeology Of The Olympics: The Olympics & Other Festivals In Antiquity. [S.l.]: Univ of Wisconsin Press. ISBN 978-0-299-11334-6
- Virgílio (século I a.C.). Eneida. [S.l.: s.n.]
- VIRGÍLIO. Eneida. Estudo introdutivo de Paulo Rónai, tradução e notas de David Jardim Júnior, ilustrações de Johann Grüninger. Rio de Janeiro: Ediouro, 1985
- GANIBAN, R. T. et al. (ed.). Vergil. Aeneid Books 1–6. Indianapolis: Focus Publishing, 2012.
- DE ALMEIDA CARDOSO, Zélia. Virgílio e os jogos fúnebres troiano-romanos. Classica-Revista Brasileira de Estudos Clássicos, v. 9, n. 9/10, p. 107-118, 1997.