Joana Vaz

Joana Vaz
Nascimento1500
Morte1570 (69–70 anos)
Ocupaçãoescritora

Joana Vaz (Coimbra, c. 1500 - depois de 1570), também conhecida como A Filósofa foi uma humanista e poeta renascentista que fez parte da corte de Catarina da Áustria, rainha de Portugal.[1][2][3]

Biografia

Pensa-se que fosse filha de João Vaz e irmã do cónego e doutor António Vaz, e oriunda de Coimbra.[4][5]

A corte de Catarina incluía várias mulheres eruditas, incluindo Joana Vaz, Maria de Portugal, Duquesa de Viseu, prima de Catarina, e as irmãs Angela e Luisa Sigea de Velasco. [1] Vaz serviu como dama de corte de Catarina desde 1929 e teria sido bibliotecária e diretora da aula régia. [2][5][6] Joana Vaz era fluente em latim, grego e hebraico, para além de português e castelhano, tendo uma obra extensa em latim. [1][6] Serviu como tutora da prima de Catarina e da princesa, Maria Manuela de Portugal. [7]

Era claramente considerada uma autoridade pelos seus estudiosos contemporâneos: o poeta Francisco de Sá de Meneses referiu-se a ela como tal numa carta,[3][5][8] e o Papa Paulo III admirava a sua escrita. [1] João de Barros incluiu-a no seu Espelho de Casados, e Aires Barbosa visitou-a, quando em Coimbra: a fama dos seus escritos chegara até ele; ao não a encontrar, dirigiu-lhe versos (publicados em Arii Barbosa Lusitani Anti-Moria) em que louvava a sua escrita e lamentava o desencontro:[4]

Qvis te doctorum nostris is putet eße Iohanna
In terris ortam, qui tua ſeripta legit?
Te uel in exquilijs natam, mediaue ſuburra,
Vrbs te romanam uendicet alta Remi.
Tam comptum: tam dulce ſimul componis: vipsa
Que nectis, latio uerba lepore fluunt.
Barbarie in tanta, qua uix exculta uirorum:
Quo tua uirgo fuit lingua diſerta modo?
Nunc dole, q, cum pottuiſſem uiſere: uiſi
Non te, cum uestra nuper in urbe ſui.
Nam qui delector calamo: iuncundius ore
Praefenti fruerer: colloquioq; tuo.
Dulcius est pomum quod carpitur arbore in ipſa:
Et magis ex ipſo fonte bibiſſe iuuat.[nota 1]

— Aires Barbosa, AD IOHANNAM VAAZ., Arii Barvosae Lusitani Antimoria. Eiusdem nonnulla epigrammata. - Conimbricae : apud Coenobium diuae Crucis[9]

O poeta Clenardus descreveu-a como "elegantemente treinada em literatura" e pediu-lhe que contribuísse com um poema para o funeral de Erasmo.[10] André de Resende parece aludir à sua poesia, mas isto talvez seja um erro de transcrição.[4] Foi ainda admirada por outros humanistas como Luís Teixeira e Francisco de Melo. O humanista Baltazar de Teive, em carta a Rodrigo Sanches, capelão da Rainha, descreveu-a como

um milagre da nossa época, uma excepcão entre as do seu sexo, destinada por Minerva à eloquência, para não faltar, na ocasião devida, quem tomasse o lugar da deusa. Não lhe escrevo, para não ficar outra vez na espectativa inerte de carta sua.

— Baltazar de Teive, traduzido do latim por Américo da Costa Ramalho[11][12]

Rodrigo Sanches, respondeu descrevendo-a desta forma:

Sobre essa mulher superior que se chama Joana Vaz, estrela rara do nosso país e do nosso século, crê na verdade de tudo quanto te digam em seu louvor. Julgo mesmo, que a fama, de invejosa, tem dela apregoado menos do que deve. Para não falar da erudição admirável, que uma rapariga de tenros anos adquiriu entre mestres "mudos", como chamam aos livros, e fora do convívio de homens doutos, quantas virtudes se requrem numa jovem da nobreza, tudo nela se encontra, recato, honestidade e modéstia.

Se não respondeu à tua carta, não deves ficar surpreendido. Embora educadíssima e de feitio acolhedor, todavia considera ser de importância para a sua honra não escrever ou responder jamais a himem algum, sem que primeiro o pai lho imponha

— Rodrigo Sanches, traduzido do latim por Américo da Costa Ramalho[12]

Quando saiu da corte de Catarina, em 1533, Joana Vaz incorporou a casa da Infanta D. Maria de Portugal, de quem foi professora até a Infanta atingir os vinte anos.[5] Pensa-se que teria casado com Fernão Álvares da Cunha, um obscuro fidalgo da corte, embora não haja provas conclusivas deste facto.[4][5]

Notas

  1. Qual dos nossos professores pensaria que tu, Joana, nascida na Terra, que lês os seus escritos? Ou nascida no meio da planície, a alta cidade romana de Remi irá vingá-la. Tão habilmente, tão docemente compõe: tece, as suas palavras fluem com encanto. Em tal barbárie, em tal lugar, onde os homens são escassamente educados: como era a língua da sua donzela tão fluente? Agora lamento que, quando a poderia ter visto, não a tenha visto, quando estive recentemente na sua cidade. Pois eu, que me deleito num junco, prefiro desfrutar da sua conversa. Mais doce é a maçã que é colhida da própria árvore, sendo mais benéfico beber da própria fonte.

Referências

  1. a b c d Boxer, Charles Ralph (1981). João de Barros: Portuguese Humanist and Historian of Asia. New Delhi: Concept Publishing Company. pp. 17–18. ISBN 9788170221821 
  2. a b Stevenson, Jane (2005). Women Latin Poets: Language, Gender, and Authority, from Antiquity to the Eighteenth Century. [S.l.]: Oxford University Press. ISBN 9780198185024 
  3. a b Castro, Inês de Ornellas e (1 de janeiro de 2014). «Latine loquor: Women Acquiring Auctoritas (Portugal 1500-1800)». Brill (em inglês): 41–61. ISBN 978-94-012-1112-3. doi:10.1163/9789401211123_004. Consultado em 19 de julho de 2025 
  4. a b c d Michaëlis de Vasconcelos, Carolina (1902). A infanta D. Maria de Portugal e suas damas. Porto: Typ. a vapor de Arthur José de Souza & irmão. pp. 38–42 
  5. a b c d e Costa Ramalho, Américo da (1986). «A Infanta D. Maria e o seu Tempo» (PDF). Humanitas. XXXVII-XXXVIII: 163-189 
  6. a b Pinto, Carla Cristina Alferes Salgado da Silva (1996). «O Mecenato da Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577)». Consultado em 19 de julho de 2025 
  7. Walsby, Malcolm; Constantinidou, Natasha (2013). Documenting the Early Modern Book World: Inventories and Catalogues in Manuscript and Print. [S.l.]: Brill 
  8. Sanz, Amelia; Scott, Francesca; van Dijk, Suzan (2014). Women Telling Nations. [S.l.]: Rodopi. pp. 41–42. ISBN 9789401211123 
  9. Barbosa, Aires (1536). Arii Barvosae Lusitani Antimoria. Eiusdem nonnulla epigrammata. - Conimbricae : apud Coenobium diuae Crucis. [S.l.: s.n.] 
  10. de Resende, André (1998). Poemata Latina. Traduzido por John R. C. Martyn. [S.l.]: Edwin Mellen Press. ISBN 9780773483316 
  11. Futre Pinheiro, Marília P. (março de 2016). «The Feminine Face of Portuguese Humanism». Giornale Italiano di Filologia: 313–327. ISSN 0017-0461. doi:10.1484/J.GIF.5.112489. Consultado em 19 de julho de 2025 
  12. a b Costa Ramalho, Américo da (Outubro 1962). «Joana Vaz, Femina Doctíssima». Fundação Calouste Gulbenkian. Colóquio - revista de artes e letras (20): 48. Consultado em 19 julho 2025