Joan Scott
| Joan Scott | |
|---|---|
![]() Joan W. Scott | |
| Nome completo | Joan Wallach Scott |
| Conhecido(a) por | Contribuições para os estudos de gênero |
| Nascimento | 18 de dezembro de 1941 (84 anos) |
| Nacionalidade | Norte-americana |
| Progenitores | Mãe: Lottie Wallach Pai: Sam Wallach |
| Ocupação | Instituto de Estudos Avançados de Princeton |
| Profissão | Historiadora |
Joan Wallach Scott é uma historiadora norte-americana, nascida em 18 de dezembro de 1941 no Brooklyn, cujo trabalho, inicialmente dedicado à história francesa (movimento operário e história intelectual) foi direcionado na década de 1980 para a história das mulheres a partir da perspectiva de gênero[1]. Ela atualmente ocupa a cadeira Harold F. Linder na Instituto de Estudos Avançados de Princeton.[2]
Entre suas publicações mais notáveis está o artigo ""Gênero: uma categoria útil de análise histórica"", publicado em 1986 no American Historical Review. Este artigo, "sem dúvida, um dos artigos mais lidos e citados na história da revista"[3], foi essencial na formação de um campo de história de gênero dentro dos estudos históricos anglo-americanos. O artigo foi traduzido para o português[4] e é referência teórica importante no estabelecimento dos estudos de gênero no Brasil.
É mãe do crítico de cinema e jornalista A. O. Scott.[5]
Carreira Acadêmica
Joan Scott graduou-se na Universidade Brandeis, em 1962. Em 1969, obteve seu Ph.D. pela Universidade de Wisconsin. Em seguida, ela ensinou sucessivamente na Universidade de Illinois em Chicago e na Universidade Northwestern, na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, na Universidade de Rutgers e na Universidade Johns Hopkins. Após ocupar brevemente o cargo de diretora de estudos associados à École des Hautes Études en Sciences Sociales (em 1984), obteve em 1985 a cadeira Harold F. Linder do Instituto de Estudos Avançados. Em janeiro de 2006, ela se juntou ao conselho editorial do The Journal of Modern History.
Atualmente, Scott é professora emérita na Faculdade de Ciências Sociais no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e continua seu trabalho, participando de conferências, lecionando e escrevendo.[2] A historiadora também mantém sua afiliação com o departamento de história e com o comitê de Globalização e Mudanças Sociais no Centro de Graduação da Cidade de Nova Iorque.
Premiações
- Prêmio Herbert Baxter Adams (1974)[6]
- Prêmio Joan Kelly (1989)[7]
- Prêmio Nancy Roelker para mentoria de alunos de pós-graduação (1995)[8]
- Prêmio Hans Sigrist (1999)[9]
- Prêmio Academic Freedom (2006)[10]
- Prêmio de Distinção Acadêmica (2008)[11]
- Prêmio Talcott Parsons (2016)[12]
- Prêmio Edgar Picciotto International (2020)[13]
Obras centrais
Gênero: uma categoria útil para análise histórica
No artigo seminal "Gênero: Uma Categoria Útil de Análise Histórica", Joan Scott argumenta que o gênero deve ser adotado como uma ferramenta analítica central para a historiografia, capaz de transformar a compreensão do poder e da organização social. De acordo com sua análise sobre o que é o gênero, Scott aponta que: “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos , e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”[14]
Com relação ao primeiro, Scott aponta a existência de quatro elementos relacionados e simultâneos que o gênero implica: primeiro, as representações simbólicas presentes na cultura, como as figuras bíblicas de Eva e Maria, que representam a figura da mulher em culturas cristãs ocidentais, e mitos dicotômicos da luz e escuridão, inocência e corrupção. Segundo, os conceitos normativos apresentados por doutrinas religiosas, educativas, políticas, científicas e jurídicas, que tomam uma forma binária de oposição entre o masculino e feminino, produtos de um conflito social mas tratado como um consenso que é naturalizado por instituições religiosas, políticas e sociais. Terceiro, o gênero se aplica ao contexto da vida privada e doméstica (sistema de parentesco) e a vida pública, ao mercado de trabalho, o sistema educacional e o sistema político, todos marcados pela desigualdade de gênero.
Em um quarto aspecto defendido por Scott está a identidade subjetiva dos indivíduos. Segundo a historiadora, o gênero é utilizado como meio de decodificação e atribuição de sentido à complexidade das relações humanas e de suas diversas interações. De acordo com Scott:
Quando os(as) historiadores(as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas particulares, situadas em contextos específicos, como a política constrói o gênero e o gênero constrói a política[15]
Historicamente, o gênero foi utilizado pela teoria política de formas literais ou analógicas, como um meio de justificar ou criticar monarcas ou para expressar as relações entre governantes e governados. Esses usos do gênero são percebidos nos debates contemporâneos sobre os reinados de Elizabeth I da Inglaterra e de Catherine de Médici da França, como forma de questionar a capacidade das mulheres em posições de governação, por exemplo. (SCOTT. 26, 1989) Em essas e outras ocasiões políticas, o gênero está diretamente ligado e representa de forma primeira as relações de poder. Um elemento que apesar de muitas vezes não receber ênfase explícita ainda constitui uma dimensão organizacional entre igualdade e desigualdade.[15]
O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o poder político tem sido concebido, legitimado e criticado. Ele não apenas faz referência ao significado da oposição homem/mulher; ele também o estabelece. Para proteger o poder político, a referência deve parecer certa e fixa, fora de toda construção humana, parte da ordem natural ou divina. Desta maneira, a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam-se parte do próprio significado de poder; pôr em questão ou alterar qualquer de seus aspectos ameaça o sistema inteiro[16]
De acordo com Scott, tendo em vista que as significações de gênero se constroem de forma recíproca, a forma de mudá-las possui origens diversas, com o propósito de reconstruir as ordens políticas antigas em favor de novas, revisar termos do gênero para criar novas formas de legitimação. Entretanto, há a escolha de não estabelecer essas mudanças, a reinterpretação e ressignificação dos símbolos culturais pode reescrever a história Edipiana ou atualizar os símbolos já impostos em termos ainda mais complexificados. Por isso, Scott defende que para escrever a história desse processo de reinterpretação, é necessário reconhecer que “homem” e “mulher” são categorias vazias por não possuírem significado definitivo, e ao mesmo tempo transbordantes por possuírem definições alternativas negadas ou reprimidas, mesmo quando fixas.[17]
Os usos e abusos do gênero
Publicado no Brasil em 2012, na Revista Projeto História, trata-se de um texto cujo título é auto-explicativo. Scott tem como foco os usos e os abusos sofridos pela categoria gênero em meio a avanços de movimentos conservadores durante a primeira década do século XXI. Seu início parte da constatação de que a categoria gênero estaria esgotada. Todavia, tal contestação se inverte quando a autora se vê diante de uma polêmica envolvendo gênero, grupos conservadores e um manual de estudos para admissão no ensino superior francês.[18]
Para dar fundamentação ao seu trabalho, Scott promove uma contextualização. É com esse sentido, que as categorias “mulher” e “mulheres”, conceitos que antecederam a formulação do gênero, são retomadas pela autora. Pontuando as críticas sofridas por elas e suas relações com gênero, seja dentro do ambiente acadêmico, seja fora dele.[19] E é precisamente ao dissecar estes contextos, que Scott passa a pontuar os diversos usos que são dados para a categoria gênero. Desse modo, diversos campos são analisados: os usos realizados pelos Estados (como o Estado francês),[20] o uso por movimentos sociais (como os feminismos),[21] o uso pela intelectualidade (de Judith Butler à Simone[22] de Beauvoir[18]), o uso por organizações internacionais (como a ONU)[23] e os usos feitos em movimentações conservadoras (como as feitas pelo Vaticano).[24]
É com essa ideia de gênero enquanto um termo com diferentes usuários e com diferentes usos que a autora afirma: “parece não haver um único lugar no qual o gênero possa confortavelmente ou finalmente repousar”.[25] Nessa lógica, gênero é entendido como um verdadeiro campo de batalha, cuja definição é disputada por diferentes grupos, sendo inerentemente uma categoria não fixa. Desse modo, a autora conclui que gênero ainda se mantém como uma categoria útil e não resolvida:
Gênero se torna não um guia para categorias estatísticas de identidade sexuada, mas para a interação dinâmica da imaginação, regulação e transgressão nas sociedades e culturas que estudamos. Há uma política de gênero e uma generificação da política que chama a nossa atenção – sobre a forma de um conjunto interminável sobre como, quando, onde e sob quais condições individuais, sociedades e culturas tentaram responder àquilo que não pode finalmente e definitivamente ser respondido (ou mesmo perguntado). Longe de ser um exercício de frustração, esta abordagem abre caminho para novos pensamentos, novas interpretações e talvez até mesmo para novas políticas. E longe de estar resolvido, como uma vez eu pensei que estava, gênero é uma questão perpetuamente aberta: quando pensamos que foi resolvido, sabemos que estamos no caminho errado[26]
O enigma da igualdade
No artigo publicado em 2005 nomeado “O enigma da igualdade”, Joan Scott discute os conceitos de igualdade e diferença, identidade individual e de grupo e do gênero. Segundo a historiadora, igualdade e diferença, identidade individual e de grupo são conceitos interdependentes que estão em constante tensão. E, para que haja a resolução dessas tensões, é necessário reconhecer suas especificidades históricas e analisá-las nas suas incorporações políticas particulares.[27] É nesse sentido que Scott apresenta alguns paradoxos para que sua argumentação tome sentido ao leitor:
1. A igualdade é um princípio absoluto e uma prática historicamente contingente. 2. Identidades de grupo definem indivíduos e renegam a expressão ou percepção plena de sua individualidade. 3. Reivindicações de igualdade envolvem a aceitação e a rejeição da identidade de grupo atribuída pela discriminação. Ou, em outras palavras: os termos de exclusão sobre os quais essa discriminação está amparada são ao mesmo tempo negados e reproduzidos nas demandas pela inclusão[28]
A igualdade, como argumenta Scott, não é caracterizada pela inexistência da diferença, e sim pelo reconhecimento ou pela decisão de ignorar essa diferença. Na revolução francesa, por exemplo, a igualdade foi tida como universal, uma promessa garantida para que todos os indivíduos pudessem participar da política e na representação legal, entretanto, o direito de cidadania foi primariamente garantido somente a homens que possuíam uma determinada renda e quantia de propriedade. Assim, “diferenças de nascimento, de posição, de status social entre homens não eram levadas em consideração naquele momento; diferenças de riqueza, cor e gênero sim”.[29]
Diante desse exemplo sobre a Revolução Francesa, Scott destaca que o conceito de igualdade tem se alterado ao longo do tempo, estando sempre relacionado à concessão e aquisição de direitos. Apesar das mudanças políticas e históricas que hoje torna possível que poucos lugares no mundo enfrentem proibições no que diz respeito ao direito de voto por motivos de raça ou sexo, as desigualdades educaiconais, de trabalho ou outros recursos sociais ainda são uma realidade.[30] (SCOTT, p. 17, 2005)
Scott propõe colocar o problema da seguinte forma:
[...] a idéia de que todos os indivíduos poderiam ser tratados igualmente inspirou aqueles que se encontraram excluídos do acesso a algo que eles e suas sociedades consideravam um direito (educação, trabalho, salários de subsistência, propriedade, cidadania) a reivindicarem a inclusão através de um desafio aos modelos que garantiam a igualdade para uns e a negavam para outros. Os trabalhadores socialdemocratas que exigiam o voto universal masculino na França em 1848 insistiam que “não é cidadão aquele que disser para outro ‘você é mais soberano do que eu’[30]
Quanto ao segundo tópico no conjunto de paradoxos, Scott argumenta que as identidades em grupo são inevitáveis no contexto da vida social e política, uma vez que as diferenças entre determinados grupos se tornam mais aparentes e salientadas em determinados contextos políticos. É diante dessas diferenças que os conflitos entre grupos distintos surgem e o indivíduo que antes possuía a identidade em grupo como uma entre diversas dimensões de sua individualidade multifacetada é sujeito a ser determinado por um único elemento de sua identidade: religiosa, étnica, racial ou de gênero.[31] O problema, de acordo com Scott, está no fato de que a identidade em grupo, ao mesmo tempo em que necessária, é também insuficiente para tecer a complexidade da auto-identificação de um indivíduo. Para ilustrar seu argumento, Scott cita como exemplo o movimento feminista:
Outro exemplo da necessidade e da inadequação das identificações com o grupo vem do feminismo, que levanta diferentes tipos de problemas mas, mesmo assim, segue a mesma lógica. Quando perguntada, na virada do século, sobre sua definição do que o feminismo deveria conquistar, a psiquiatra francesa Madeleine Pelletier respondeu que ele a auxiliaria a “não ser uma mulher do modo que a sociedade espera”. E mesmo assim, é claro, foi como mulher, e em nome do grupo – mulheres –, que Madeleine Pelletier e outras feministas travaram suas batalhas pela igualdade[32]
Quanto ao terceiro e último paradoxo, a historiadora aponta que ao lutar pela igualdade, a diferença é repudiada mas também evocada como um instrumento de luta. Novamente, Scott evoca a luta feminista como exemplo dessa interdependência entre os conceitos de igualdade e diferença, uma vez que é pela produção de uma diferença entre mulheres e homens que as diferenças e desigualdades entre esses grupos são reconhecidas.[33]
É diante desses paradoxos propostos por Scott que deixa clara a tensão entre identidade de grupo e individual, uma questão da qual não pode ser resolvida, uma consequência da diferença como instrumento de organização social. Por isso, a política democrática deve ser definida, de acordo com a historiadora, como a negociação do impossível, marcada por tentativas de aproximação da igualdade, que ao falharem abrem espaço para novas formulações, arranjos e negociações. A autora finaliza sua argumentação destacando que, de certa forma, “estou afirmando que paradoxos do tipo que descrevi são o próprio material a partir dos quais políticas são construídas e a história é feita”.[34]
Prefácio a Gender and Politics of History
Publicado originalmente em 1988, trata-se do prefácio escrito para o livro Gender and Politcs of History, que reúne ensaios escritos por Scott. Se por um lado o livro em sua íntegra não foi traduzido, seu prefácio foi traduzido e publicado em 1994 na revista Cadernos Pagu. Como se verá um pouco mais abaixo, o prefácio retoma e aprofunda debates que já haviam sido tratados pela autora em outros de seus estudos, entre eles, o já resumido “Gênero: uma categoria útil para análise histórica”.
O seu conceito de gênero foi retomado e caracterizado como “[...] a organização social da diferença sexual”. Nesse sentido, a autora ainda reforça o caráter de gênero como um saber que dá significado às diferenças físicas. Caracterizando gênero como um saber mutável, que varia no tempo e espaço, em que diferentes significados são dados para o corpo sexuado. Assim, gênero seria profundamente conectado a história, não só porque esta é capaz de reunir exemplos das mudanças que ocorrem na organização do gênero. Mas também porque a história também participa da produção de sentido acerca da diferenciação sexual. Scott afirma que parte do princípio de que “[...] as representações históricas do passado ajudam a construir o gênero no presente”.[35]
Entretanto, a definição de gênero não é o único elemento resgatado pela autora. No prefácio, Scott retoma a necessidade de se produzir uma teoria da história de gênero, uma vez que a mera descrição da mulheres do passado não parecia ser o suficiente para produzir rupturas:
Mas escrever a respeito das mulheres como, digamos, trabalhadoras ou integrantes das classes trabalhadoras, não alterava efetivamente as definições estabelecidas dessas categorias, nem esclarecia porque aqueles que escrevem sobre a história do trabalho ignoraram por tanto tempo evidências a respeito das mulheres. [...] O que parecia necessário era uma análise da discriminação que incluísse as próprias categorias, categorias como classe, trabalhador, cidadão - e até homem e mulher[36]
No lugar de uma história descritiva, Scott propõe o estudo de como as hierarquias, no estilo das de gênero, são criadas e legitimadas.[37] Assim, em diálogo com o pós-estruturalismo (desde as teorias sobre saber de Foucault, até a ideia de desconstrução de Derrida), Scott propõe um projeto que é também político, com a preocupação de contestar as estruturas de poder. Um compromisso não só de “[...] apontar e modificar as desigualdades entre homens e mulheres”, mas que também “[...] é uma motivação que as feministas compartilham com os que estão preocupados em modificar a representação de outros grupos deixados fora da história em razão da raça, etnicidade e classe, tanto quanto em razão do gênero”.[38]
A invisibilidade da experiência
“A invisibilidade da experiência”, artigo publicado em 1998 por Joan Scott, aborda a crítica da historiadora norte-americana sobre a documentação da experiência de grupos minoritários como prova incontestável e como ponto de explicação originário. De acordo com Scott, estudos que possuem essa estrutura excluem considerações e impulsos sobre a diferença ao tomar as narrativas e identidades dos indivíduos documentados como auto-evidentes, tornando naturais suas diferenças. Questões complexas, como a natureza da construção da experiência, como a visão de um indivíduo é estruturada e a diferente constituição dos assuntos, são ignoradas. Dessa forma, documentações sobre a experiência construídas por meio da metáfora de visibilidade reforçam sistemas ideológicos dados.[39]
Mas o projeto de tornar a experiência visível impede o exame crítico do funcionamento do sistema ideológico em si, suas categorias de representação (homossexual-heterossexual, homem-mulher, branco-negro, como identidades fixas imutáveis), suas premissas sobre o que essas categorias significam e como elas operam, e de suas idéias de sujeito, origem e causa[39]
A apresentação de uma história tomada por dicotomias e tidas como entidades fixas impede a historicização dessas categorias e descarta a existência de um inter-relacionamento historicmaente variável entre, por exemplo, os sentidos “heterossexual” e “heterossexual”. O projeto de tornar uma experiência visível nesse contexto impede a análise dos funcionamentos do sistema em que estão inseridos e sua historicidade, reproduzindo termos estabelecidos.
Como alternativa para contornar o problema da experiência, Scott sugere uma historicização radical da experiência. Para a autora, historiadores devem tornar visível a “tarefa das posições do sujeito” com o propósito de tentar compreender os processos discursivos e complexos pelos quais as identidades dos grupos documentados são afirmadas, resistidas ou atacadas, processos efetivos por não serem notados. Para isso, é necessária uma mudança de objeto que “tome o surgimento de conceitos e identidades como acontecimentos históricos em busca de explicação”.[40]
De acordo com Scott, a experiência deve ser estudada com o propósito de trazer seus status originário na explicação histórica. Para isso, historiadores devem considerar produzir pesquisas em que a reprodução e transmissão do conhecimento venham por meio da análise produtiva desse conhecimento ao invés de vir através da experiência. A experiência deixa de ocupar o cerne da explicação e passa a ser o objeto que o historiador quer explicar.[41]
Sobre o futuro da liberdade acadêmica
Publicado originalmente em 2019 como introdução do livro Knowledge, Power, and Academic Freedom. Foi traduzido para o português em 2021 como abertura para o livro História das Mulheres, Relações de Gênero e Sexualidades em Goiás. Um dos primeiros esforços promovidos por Scott neste artigo foi o de realizar uma contextualização histórica acerca da temática da liberdade acadêmica. Assim, diferentes momentos da história estadunidense foram abordados, desde o macartismo até as movimentações do primeiro governo Trump e de grupos de extrema-direita norte-americana.[42]
Um segundo movimento realizado por Scott foi o de diferenciar e definir a liberdade acadêmica da liberdade de expressão. Nesse cenário, em diálogo com John Higgins, Scott aponta o caráter contraditório da liberdade acadêmica, seja porque é evocada nos momentos em que ela está em falta. Ou seja porque, ao mesmo tempo em que a livre investigação é essencial para a liberdade acadêmica, é a investigação vigiada e legitimada por uma autoridade acadêmica que garante a autonomia em relação a pressões externas. Ademais, liberdade acadêmica não poderia ser confundida com a liberdade de externar qualquer opinião, uma liberdade de expressão irrestrita.[43] Scott, propõe, então, uma visão geral dos elementos que compõe a liberdade acadêmica:
[...] a autonomia da universidade em relação à intervenção do Estado; liberdade do corpo docente de realizar suas pesquisas e ensinar em suas áreas de especialização; bem como o direito da/o professora/o e de qualquer cidadã/o de expressar opiniões políticas fora da sala de aula; o direito da/o membra/o do corpo docente indiciada/o ao processo justo e ao julgamento de suas/seus pares[43]
Associado a estas questões e ocupando um papel decisivo está o estudo das universidades como produtoras de bens públicos, como instituições voltadas para a produção de conhecimentos que buscam o bem comum. Segundo a autora, tal crença serviu de infraestrutura para a liberdade acadêmica, passando a levantar questões acerca da capacidade da sobrevivência da liberdade acadêmica sem esta crença e da sua legitimidade no século XXI.[44]
Para responder tais questões, Scott revisita e relaciona questões como: a descentralização do ensino superior, o financiamento e a governança das universidades, a dívida estudantil, as formas de ingresso nesses espaços, a mercantilização e instrumentalização do conhecimento, o crescimento do individualismo, além de outros impactos da influência neoliberal. Pontos que, em sua análise corroboram para o enfraquecimento do bem comum.[45] O artigo é finalizado com um levantamento acerca das resistências aos processos de corrosão do bem comum e da liberdade acadêmica. Resistências que também visam elevar e complexificar o que deveria ser considerado como liberdade acadêmica.[46]
Influência no Brasil
Apesar de nunca ter vindo ao Brasil, Joan tem bastante influência nos estudos de gênero no Brasil. Sua principal obra traduzida e utilizada em artigos científicos “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, tendo alto número de citações.[47] Em 1998, as antropólogas brasileiras Miriam Grossi (UFSC), Maria Luiza Heilborn (IMS/UERJ) e Carmen Rial (UFSC) conseguiram fazer uma entrevista com a historiadora e publicaram na Revista Brasileira de Ciências Sociais (RBCS) e na Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais (BIB).[48]
Em 2005, o artigo “Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica” é publicado por Joana Maria (UFSC), professora emérita, que faz um grande aumento das publicações de artigos e presença. Com a popularização de sua contribuição, hoje não se limita às ciências sociais e História, mas pode ser percebida em áreas do conhecimento como o Direito.[49] Em discussões mais recentes, o deputado Franscisco Jr. (PSD-GO) substituir o termo “gênero” por “sexo” em três artigos daLei Marinha Penha, para alterá-la na violência de gênero para violência de sexo que tramita na Câmara dos Deputados, Adélia Moreira Pessoa, presidente da Comissão de Gênero e Violência Doméstica do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM discorreu sobre a disposição, utilizando de Joan Scott:
Ela acrescenta: ‘Já ensinava Joan Wallach Scott que ‘gênero é um elemento constitutivo de relações sociais ... [e] é um primeiro modo de dar significado às relações de poder’. Scott ainda esclarece que através da categoria gênero pode-se saber como as relações de poder – de dominação e de subordinação – são construídas’. Para a especialista, vale refletir em quais contextos políticos os significados da diferença sexual são criados e/ou criticados e, então, verificar como, o projeto é reducionista. ‘As propostas legislativas podem reforçar os estereótipos e os preconceitos podendo contribuir para uma legislação mais excludente, como é o caso deste projeto que, se aprovado amputará a Lei Maria da Penha’, conclui[50]
Em anos mais recentes, com a sua mais recente publicação - A Fantasia da História Feminista - ela amplia a sua presença no Brasil.[51]
Referências
- ↑ SIQUEIRA, Tatiana Lima. Joan Scott e o papel da história na construção das relações de gênero Arquivado em 3 de março de 2016, no Wayback Machine.. Revista Ártemis, vol. 8, jun. 2008, p. 110-117.
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- ↑ «IBDFAM: Projeto de lei substititui palavra "gênero" por "sexo" na Lei Maria da Penha; especialista avalia como retrocesso». ibdfam.org.br. Consultado em 5 de dezembro de 2025
- ↑ Scott, Joan Wallach (28 de fevereiro de 2024). A fantasia da história feminista. Belo Horizonte, MG: Autêntica Editora
Ver também
- Joan Scott CV Arquivado em 20 de outubro de 2020, no Wayback Machine.[1] Arquivado em 20 de outubro de 2020, no Wayback Machine.
- MELO, Érica. Feminismo: velhos e novos dilemas uma contribuição de Joan Scott. Cadernos Pagu, Campinas, n. 31, Dec. 2008 . Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332008000200024&lng=en&nrm=iso. Acessado em 21/03/2013.
