João Joaquim Gomes

João Joaquim Gomes
Nascimento
30 de junho de 1934

Santa Catarina, Lisboa
Morte
24 de março de 2020

Hospital de Santa Maria
EducaçãoLicenciatura em Jornalismo - Escola Superior de Jornalismo de Lille

João Joaquim Gomes (Lisboa, 30 de junho de 1934 – Lisboa, 24 de março de 2020) foi o primeiro profissional português com uma licenciatura em Jornalismo. Desempenhou funções relevantes em diversos órgãos de comunicação social e manteve intensa atividade política em instituições de caráter social.[1]

Vida

Nasceu a 30 de junho de 1934 na freguesia lisboeta de Santa Catarina. Casou-se aos 25 anos com Maria Eugénia Gomes e teve dois filhos.[1]

Iniciou a sua atividade profissional na área do comércio, mas seguiu o sonho de ser jornalista, profissão que teve início no Diário de Lisboa, em novembro de 1961. Enquanto estagiário exerceu funções nas seguintes categorias: repórter informador, redator e subchefe de redação.[1]

Associado da Casa da Imprensa desde 1963, foi presidente da Direção entre 1970 e 1972, presidiu à Assembleia Geral em 1973 e integrou o Conselho Geral da associação mutualista dos jornalistas de 2009 a 2014.[2]

Além da sua contribuição a nível jornalístico, envolveu-se intensamente na política, mesmo antes da Revolução dos Cravos. Durante o Estado Novo, esteve preso ao longo de vários meses nas cadeias do Aljube e Caxias, tendo sido julgado e absolvido pelo Tribunal Militar de Santa Clara. Voltou a ser detido pela PIDE em 1967. Mais tarde, foi fundador do Partido Socialista (PS) em abril de 1973, sendo deputado da Assembleia Constituinte em 1975 e da Assembleia da República, pelo círculo de Lisboa nas legislaturas seguintes, até 1985.[1]

João Gomes exerceu também outros cargos tais como o de provedor da Santa Casa da Misericórdia, entre 1983 e 1986 e de presidente da Caixa de Previdência do Pessoal das Companhias Reunidas Gás e Eletricidade (EDP), entre 1986 e 2000.[3]

Teve ainda uma passagem pelo domínio do ensino na década de 90, lecionando a cadeira de Turismo Internacional na Universidade de Aveiro.[3]

Formação Académica

É uma figura relevante no jornalismo, por ter sido considerado o primeiro português a obter uma licenciatura na área, em 1966. Formou-se na Escola Superior de Jornalismo de Lille, em França, uma vez que o ensino superior para aspirantes a jornalistas era então proibido em Portugal.[1]

Prática Jornalística

Ao longo da sua vida, desempenhou uma forte atividade jornalística. Apesar de ter iniciado a sua vida profissional na área do comércio, o jornalismo foi sempre a sua vocação. Assim, após estagiar e concluir a licenciatura, em 1971, já mantinha presença, periodicamente, no matutino Novidades e chefiou a redação da revista Flama.[1]

Esteve intensamente envolvido em organizações profissionais de jornalistas, integrando os corpos gerentes do Sindicato Nacional de Jornalistas no final da década de 60. Pertenceu também ao corpo docente do primeiro curso de jornalismo em regime pós-laboral lançado pelo movimento sindicalista. Além disso, presidiu ao Conselho Técnico de Disciplina – atual Conselho Deontológico. Em 1971, João Joaquim Gomes foi eleito para presidir à Casa da Imprensa. Posteriormente ao 25 de Abril, ingressou como um dos representantes dos jornalistas no Conselho de Imprensa.[2]

No ano de 1972, juntamente com Fernando Assis Pacheco, Afonso Praça, Álvaro Guerra e Vítor Direito, transformou e renovou o República, que passou a ser o principal jornal de oposição à ditadura de Marcello Caetano. No dia 25 de Abril de 1974, o República apresentou na primeira página: “Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura”. Após o encerramento do República no ano de 1975, fundou o jornal A Luta, composto, maioritariamente, pelos jornalistas que antes integravam o República.[1]

Durante a vigência do I Governo Constitucional, em 1976, foi nomeado diretor do Diário de Notícias, o maior jornal português e de propriedade estatal, permanecendo no cargo até fevereiro de 1978. No ano seguinte, fundou Portugal Hoje, um matutino financiado pelo Partido Socialista – tal como A Luta – e dirigiu-o até ao seu encerramento em 1982.[1]

Manteve a atividade jornalística até à reforma (primeiro dia de 1999), tendo a sua carreira durado cerca de quatro décadas.[1]

Atividade Política

João Gomes iniciou a sua atividade política antes da Revolução de 25 de Abril de 1974, durante um período marcado pela repressão do Estado Novo. Nas décadas de 1950 e 1960, envolveu-se de forma ativa nos movimentos sociais ligados à Igreja Católica, como a Juventude Operária Católica (JOC) que, sob uma perspetiva de intervenção cívica, procurava afirmar valores de justiça social e dignidade no trabalho.[4]

Já em abril de 1973, participou na fundação do Partido Socialista (PS), na cidade alemã de Bad Münstereifel, tornando-se um dos primeiros militantes portugueses a integrar o novo partido em território nacional. Após o 25 de Abril de 1974, assumiu um papel ativo na reorganização institucional do país. Nesse mesmo ano, foi também nomeado presidente da Junta Central das Casas do Povo, por indicação da secretária de Estado da Segurança Social do I Governo Provisório, Maria de Lourdes Pintasilgo.[1]

João Joaquim Gomes foi eleito deputado da Assembleia Constituinte pelo círculo de Lisboa, em 1975, onde participou nos trabalhos de redação da nova Constituição, promulgada em 1976. Com a consolidação do regime democrático, continuou ligado à vida parlamentar, tendo sido reeleito deputado nas três legislaturas seguintes (I, II e III), sempre pelo Partido Socialista. Durante este período, desempenhou um papel relevante nas comissões parlamentares e nas discussões sobre a comunicação social, tema que marcou a sua trajetória política.[1]

Integrou também o II Governo Constitucional, formado em 1978 sob a liderança de Mário Soares, exercendo a função de secretário de Estado da Comunicação Social. Mais tarde, entre 1983 e 1986, voltou a colaborar com Mário Soares, desta vez no IX Governo Constitucional.[1]

Encerrou a sua atividade parlamentar em 1985, ficando a sua carreira marcada pela defesa de uma política humanista e pela fidelidade aos valores do Partido Socialista.[1]

Luta Pela Liberdade

Joaquim Gomes foi ainda militante da Ação Católica, estando associado ao catolicismo progressista e à oposição à ditadura. Entre os anos de 1958 e 1959, foi presidente nacional da Juventude Operária Católica (JOC), bem como presidente diocesano da mesma associação. Em 1959, envolveu-se numa tentativa de golpe militar contra a ditadura de Oliveira Salazar, que acabou por não ter o resultado esperado e, consequentemente, foi preso.[1] Após esta ocorrência, foi preso uma vez mais pela PIDE, em 1967.

João Gomes era dirigente da Pragma (Cooperativa da Difusão Cultural e Ação Comunitária), iniciativa com a participação de católicos opositores ao regime que foi invadida pela polícia política. Seguidamente, entre 1972 e 1974, foi presidente da Liga Operária Católica (LOC).[5]

Já em democracia, criou a revista Actos – Cristãos na Sociedade Nova, que visava unir a recente democracia com o catolicismo. Tratava-se, portanto, de um jornalismo moderno com uma orientação político-social à esquerda. Dirigiu esta revista enquanto a mesma existiu, ou seja, até 1979.[6]

Posteriormente, em 1996, foi um dos responsáveis pela fundação de uma organização não-governamental (ONG), o Fórum Abel Varzim – Desenvolvimento e Solidariedade, que tinha como objetivo promover a cidadania, o desenvolvimento e a solidariedade. O padre exilado em Cristelo que deu origem ao nome da organização opunha-se ao regime de Salazar. João Gomes esteve também envolvido na origem do movimento Base-Frente Unitária de Trabalhadores.[1]

Na sua última entrevista, com o historiador Pedro Marques Gomes, datada de 2017, o jornalista afirmou o seguinte, relativamente ao jornal A Luta, que ajudou a fundar: “Era a luta pela democracia. Nós vivíamos constantemente com receio de que o Partido Comunista pudesse vencer. Foi uma luta em que se puseram em confronto várias posições e nós situávamo-nos do lado de quem estava a defender a democracia. Acima de tudo isso: os partidos e o regime democrático. No fundo o espírito que dominava era esse espírito contra o ‘gonçalvismo’ e contra o que ele representava.”.[1]

Morte

Diabético, foi internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a 4 de março de 2020, onde esteve internado durante dez dias. Regressado a casa, em Campo de Ourique, viu o seu estado de saúde agravar-se e, levado pelo INEM, faleceu de problemas cardíacos nas primeiras horas de dia 24. Tinha 85 anos.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q Castanheira, J. «João Gomes (1934-2020). O primeiro profissional com uma licenciatura em jornalismo». Expresso. Consultado em 20 de outubro de 2025 
  2. a b «Morreu João Joaquim Gomes, ex-presidente da Casa da Imprensa - Notícia - | Casa da Imprensa». Casa da Imprensa. Consultado em 20 de outubro de 2025 
  3. a b Socialista, Ação. «Falecimento do fundador João Gomes». Site oficial do PS - Partido Socialista. Consultado em 28 de novembro de 2025 
  4. «JOC – Juventude Operária Católica». JOC. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  5. Lopes, J. «Cooperativa Pragma (1964-1972)». nunoteotoniopereira.pt. Consultado em 20 de outubro de 2025 
  6. Marujo, A. «João Gomes (1934-2020): jornalista, católico e socialista». Sete Margens. Consultado em 21 de outubro de 2025