Jean-François de Surville

Jean-François de Surville
Conhecido(a) porExploração do Oceano Pacífico
Nascimento
Port-Louis, Bretanha, França
Morte
4 de agosto de 1770 (53 anos)

Causa da morteAfogamento
CônjugeMarie Jouaneaulx
Filho(a)(s)2
Ocupação
  • Oficial da Marinha
  • capitão mercante
  • explorador
Serviço militar
País Reino da França
Anos de serviço1740–1764
PatenteCapitão
ComandoBagatelle
Renommée
Duc de Orleans
La Fortuné
ConflitosGuerra de Sucessão Austríaca
Guerra dos Sete Anos
CondecoraçõesCruz de São Luís

Jean-François Marie de Surville (18 de janeiro de 1717 – 8 de abril de 1770)[1] foi um capitão mercante a serviço da Companhia Francesa das Índias Orientais. Ele comandou uma viagem de exploração ao Oceano Pacífico entre 1769 e 1770.

Nascido na província da Bretanha [en], na França, Surville ingressou na Companhia Francesa das Índias Orientais em 1727, aos 10 anos de idade.[2] Nos anos seguintes, navegou em diversas viagens pelas águas da Índia e da China. Em 1740, alistou-se na Marinha Nacional Francesa; lutou na Guerra de Sucessão Austríaca e na Guerra dos Sete Anos, tornando-se prisioneiro de guerra em duas ocasiões. Após encerrar sua carreira militar, retornou à Companhia Francesa das Índias Orientais. Em 1769, no comando do Saint Jean-Baptiste, partiu da Índia em uma expedição ao Pacífico em busca de oportunidades comerciais. Explorou os mares ao redor das Ilhas Salomão e da Nova Zelândia antes de seguir para leste através do Pacífico Sul em direção à América do Sul. Parte de sua rota ao redor da Nova Zelândia coincidiu com a de James Cook a bordo do HMS Endeavour, que o havia precedido por apenas alguns dias. De Surville morreu afogado na costa do Peru em 8 de abril de 1770, enquanto buscava ajuda para sua tripulação, gravemente afetada pelo escorbuto.

Primeiros anos

Nascido em 18 de janeiro de 1717, Jean-François Marie de Surville era filho de Jean de Surville, funcionário do governo em Port-Louis, na Bretanha, e de sua esposa, Françoise Mariteau de Roscadec, filha de um dono de navios. Um dos nove filhos,[1] Surville deixou a casa da família aos 10 anos de idade e ingressou na Companhia Francesa das Índias Orientais. Já existiam vínculos familiares com a companhia; um irmão mais velho já trabalhava para ela[2] e sua mãe era sobrinha de um dos diretores da empresa.[1] Seu empregador era uma empresa comercial apoiada pelo governo francês, criada alguns anos antes para atuar no comércio das Índias Orientais,[3] e Surville participou de viagens comerciais pela Índia e pela China. Em 1740, alcançou o posto de segundo alferes.[2]

Carreira naval

Com o início da Guerra de Sucessão Austríaca em 1740, Surville ingressou na Marinha Nacional Francesa e participou do conflito.[4] Serviu a bordo do Hercule como alferes e tornou-se prisioneiro de guerra em 1745, quando a embarcação foi capturada pela Marinha Real Britânica ao largo de Sumatra.[5] Após ser libertado em 1746, passou a servir no Duc de Chartres, que transportava mercadorias da França para a África Ocidental, de onde levava pessoas escravizadas para o Caribe e, posteriormente, melaço do Caribe para a França, processo conhecido como comércio triangular. Em 1747, Surville recebeu o comando do Bagatelle e uma carta de corso, que o autorizava a atuar como corsário em nome da França. Durante uma dessas missões, foi novamente capturado pela Marinha Real Britânica e levado como prisioneiro para a Inglaterra.[5]

Libertado em 1748, Surville retornou à Companhia Francesa das Índias Orientais como primeiro-tenente a bordo do Duc de Béthune, um navio mercante armado com 40 canhões que operava na rota comercial até a China. Ao retornar à França em 1750,[5] casou-se com Marie Jouaneaulx em Nantes. O casal teve dois filhos, que posteriormente ingressaram no Exército Real Francês.[4][Nota 1] Nos anos seguintes, Surville realizou viagens comerciais entre portos franceses no Oceano Índico e, nesse período, adquiriu uma propriedade rural na ilha de Reunião.[7]

Em 1753, Surville tornou-se comandante do Renommée e fez contato com Marc-Joseph Marion du Fresne, que mais tarde se tornaria conhecido por suas viagens ao Pacífico.[8] Durante a Guerra dos Sete Anos, iniciada em agosto de 1756, Surville retornou ao serviço ativo na Marinha Nacional Francesa e navegou no Oceano Índico com a frota naval do Conde d'Aché como comandante do Duc d'Orléans.[5] Foi bem avaliado por seus superiores por sua habilidade náutica e liderança,[9] sendo nomeado “oficial dos azuis”, título utilizado para oficiais não aristocratas.[10]

Surville participou da Batalha de Cuddalore [en] em 1758[2] e foi ferido no ano seguinte na Batalha de Pondicherry [en]. Em reconhecimento à sua conduta, recebeu a Cruz de São Luís. Terminou a Guerra dos Sete Anos como comandante do La Fortuné, um navio de guerra de 64 canhões. Ao transportar soldados de volta à França, enfrentou mau tempo ao largo da costa da África do Sul.[10] O navio passou a apresentar vazamentos e naufragou próximo à Cidade do Cabo. Surville conseguiu conduzir toda a tripulação e os passageiros em segurança até a costa e, posteriormente, até a Cidade do Cabo. Esse episódio atrasou seu retorno à França até o início de 1764.[11]

Índia Francesa

Surville retomou o serviço na Companhia Francesa das Índias Orientais em 1765 e, ainda nesse ano, comandou o Duc de Praslin na viagem que transportou o novo governador de Pondicherry, Jean Law de Lauriston [en], para a Índia Francesa. Posteriormente, juntamente com Lauriston e Jean-Baptiste Chevalier, governador de Chandannagar — assim como Pondicherry, um assentamento francês na costa leste da Índia —, Surville organizou um empreendimento voltado ao comércio no Oceano Índico. Retornando à França em 1766, obteve a aprovação da Companhia Francesa das Índias Orientais para seus planos comerciais. Necessitando de um navio, supervisionou a construção do Saint Jean-Baptiste, um grande navio mercante armado com 36 canhões, em Port-Louis. Em junho de 1767, partiu com a embarcação rumo à Índia. Nos meses seguintes, realizou uma série de viagens comerciais ao longo da costa indiana.[9] Também exerceu a função de vice-governador de Pondicherry.[12]

uma gravura colorida mostrando um porto, com um navio em primeiro plano e edifícios ao fundo à direita
Vista de Pondicherry no final do século XVIII

No final de 1768, a Companhia Francesa das Índias Orientais enfrentava graves dificuldades financeiras, e seu monopólio sobre o comércio nas Índias Orientais estava ameaçado de revogação. Surville e seus associados perceberam que isso poderia representar novas oportunidades para seu consórcio[13] e planejavam uma expedição comercial às Filipinas.[9] Nesse mesmo período, tomaram conhecimento de rumores sobre uma recente descoberta britânica de terras no Pacífico Sul, supostamente a ilha de Davis Land [en]. Esses rumores baseavam-se nos relatos do HMS Dolphin [en] sobre o Taiti.[14][15]

Davis Land representava uma possibilidade comercial significativa para o consórcio de Surville, mas também era necessário estabelecer uma presença francesa no Pacífico Sul antes que os britânicos o fizessem, sob risco de exclusão da região. Assim, decidiu-se que Surville lideraria uma expedição ao Pacífico Sul.[16] O plano previa que ele navegasse com o Saint Jean-Baptiste até Malaca e, em seguida, para o Mar da China Meridional e as Filipinas. Depois, deveria percorrer as latitudes norte e sul do Pacífico em busca de Davis Land. Esse objetivo deveria permanecer em segredo, inclusive para os oficiais da expedição. No retorno, Surville faria escalas em Manila e Batavia.[17] Para evitar suspeitas britânicas quanto ao real propósito da viagem, os destinos oficiais do Saint Jean-Baptiste eram Manila e Cantão.[18]

Após mais de dois meses de preparação, Surville partiu de Chandannagar a bordo do Saint Jean-Baptiste em 3 de março de 1769, transportando uma variedade de mercadorias comerciais como carga.[19] Caso não fosse possível negociá-las com os mercadores judeus que se acreditava viverem em Davis Land, os produtos seriam vendidos em Manila no retorno da expedição, aumentando sua rentabilidade.[17] Também estavam a bordo diversos mapas e relatos de viagens ao Pacífico, incluindo um relato da jornada de Abel Tasman à Nova Zelândia em 1642.[17] Após escalas em assentamentos franceses ao longo da costa indiana para reabastecimento,[20] Surville fez sua última parada em Pondicherry,[21] onde incorporou alguns granadeiros ao contingente da expedição.[22] A expedição, então com 172 homens,[23] partiu em 22 de junho de 1769.[21]

Exploração do Pacífico

Mapa dos oceanos Índico e Pacífico mostrando a rota do navio Saint Jean-Baptiste
Rota do navio Saint Jean-Baptiste

Surville navegou inicialmente até as Ilhas Nicobar para tentar verificar a presença de uma colônia dinamarquesa, mas encontrou ventos adversos quando as ilhas já estavam à vista. Em vez de perder tempo tentando manobrar para uma posição mais favorável, seguiu para Malaca, onde chegou em 29 de junho de 1769.[24] A recepção inicial, cordial por parte do governador neerlandês, rapidamente se deteriorou quando outra embarcação, um navio britânico, chegou com acusações de que os franceses se dirigiam às Índias Orientais, onde os neerlandeses detinham o monopólio comercial. Surville partiu prontamente,[25] navegando até Trenganu, na península da Malásia, e depois até as ilhas do canal de Bashi, entre Taiwan e as Filipinas, onde reabasteceu água e alimentos.[26] Vários tripulantes desertaram e, não conseguindo localizá-los, Surville sequestrou alguns habitantes das ilhas Bashi para substituir os homens ausentes.[27]

Para surpresa da maior parte da expedição, Surville então seguiu rumo sudeste, afastando-se do destino oficial de Cantão, em conformidade com suas instruções secretas de procurar Davis Land.[28] Avançando em direção às Ilhas Salomão, que não eram avistadas por europeus desde sua descoberta em 1568,[29] a tripulação começou a sofrer com o escorbuto. Eles alcançaram a costa da Ilha de Santa Isabel, nas Ilhas Salomão, em 7 de outubro de 1769.[30] No primeiro ancoradouro, que Surville denominou “Port Praslin”,[31] foram recebidos de forma hostil. Na tentativa de obter alimentos frescos para auxiliar os doentes, um grupo desembarcou, mas foi atacado pelos habitantes locais. Vários franceses ficaram feridos, um deles fatalmente, e mais de 35 moradores da ilha foram mortos.[32][30] A expedição tentou então outro ancoradouro, mas não conseguiu realizar trocas comerciais nem reabastecer o navio sem sofrer novos ataques.[33]

Nesse momento, o Saint Jean-Baptiste enfrentava grave escassez de alimentos frescos, e muitos tripulantes já haviam morrido de escorbuto. A motivação da tripulação estava baixa, agravada pelo mau estado do navio, que apresentava vazamentos. Surville foi forçado a buscar um ancoradouro seguro, mas não quis arriscar uma nova parada nas Ilhas Salomão. Assim, após consultar os mapas de Tasman, decidiu, em meados de novembro, seguir para a Nova Zelândia. Para evitar perder o ponto de chegada devido a erros de longitude,[34] navegou inicialmente para sudoeste através do Mar de Coral,[35] antes de rumar para leste na latitude do norte da Nova Zelândia.[34] Durante grande parte do trajeto ao sul, manteve-se aproximadamente paralelo à costa da Austrália e, antes de virar para leste, é provável que tenha chegado próximo a alcançar e descobrir a costa da atual Nova Gales do Sul. Foram avistadas várias aves e a tripulação relatou sentir cheiro de terra, mas, ainda assim, Surville manteve a mudança de rumo.[36][37]

Nova Zelândia

Mapa do norte da Ilha Norte da Nova Zelândia mostrando as rotas do Saint Jean-Baptiste e do Endeavour
Rota do Saint Jean-Baptiste ao redor do extremo norte da Nova Zelândia em dezembro de 1769. Também é indicada a rota do Endeavour. As datas correspondem aos diários de bordo das respectivas embarcações, que diferem em pelo menos um dia devido a métodos distintos de marcação do tempo e ao porto de origem

Em 12 de dezembro de 1769, às 11h15, o Saint Jean-Baptiste avistou a costa da Nova Zelândia e navegou até próximo de Hokianga [en], na costa oeste da parte norte da Ilha Norte. Considerando a costa inóspita, Surville seguiu para o norte. Em 16 de dezembro, o navio contornou o Cabo Norte e, rumando ao sul, passou pela área que o HMS Endeavour de James Cook havia atravessado um ou dois dias antes.[Nota 2] Surville e Cook foram os primeiros europeus a navegar pelas águas da Nova Zelândia desde a viagem de Abel Tasman, 127 anos antes.[34]

Navegando pela costa leste, Surville alcançou, em 17 de dezembro de 1769, o local que chamou de “baía de Lauriston”. Cook já havia denominado a área como baía Doubtless ao passar por ali menos de duas semanas antes.[34] Maoris em canoas aproximaram-se do Saint Jean-Baptiste e realizaram algumas trocas por peixes frescos, dissipando os temores da tripulação, que tinha conhecimento da recepção hostil enfrentada por Tasman em sua chegada à Nova Zelândia. Surville então conduziu o navio mais para dentro da baía, ancorando no final do dia ao largo da praia de Tokerau, próximo a Whatuwhiwhi [en].[39]

No dia seguinte, Surville, acompanhado por alguns marinheiros e soldados, desembarcou. O grupo foi recebido por um chefe maori, que lhes indicou uma fonte de água e ofereceu agrião e aipo.[40] Nos dias seguintes, os alimentos frescos coletados ou obtidos por troca com os maoris ajudaram a maioria dos doentes da expedição a se recuperar do escorbuto.[41] É provável que o padre Paul-Antoine Léonard de Villefeix [en], capelão do Saint Jean-Baptiste, tenha realizado o primeiro culto cristão na Nova Zelândia e possivelmente celebrado uma missa no dia de Natal de 1769. Se confirmado, isso antecederia o culto realizado pelo reverendo Samuel Marsden no Natal de 1814, geralmente considerado o primeiro serviço religioso no país.[4][42]

Algumas ações dos franceses podem ter causado ofensa aos maoris. Surville prendeu uma pena branca de avestruz à cabeça de um chefe, o que era considerado altamente tapu. Os corpos daqueles que morreram de escorbuto na baía foram lançados ao mar, o que teria contaminado a pesca, levando os maoris (caso tivessem conhecimento) a impor um rāhui, ou proibição temporária de pesca na área. Os maoris também podem ter se preocupado com a quantidade de alimentos retirada pelos franceses e, como consequência, as trocas por peixes e aipo cessaram. Isso resultou em um deterioramento das relações entre franceses e maoris.[43] Surville, que inicialmente havia se esforçado para manter uma postura cordial, tornava-se cada vez mais frustrado.[44]

Em 27 de dezembro, uma tempestade deixou um grupo de homens isolado em terra, em Whatuwhiwhi, onde foram tratados de forma hospitaleira pelos maoris. Na mesma tempestade, o navio arrastou suas âncoras, que precisaram ser cortadas por ordem de Surville. Ele e parte da tripulação passaram várias horas tentando conduzir o Saint Jean-Baptiste para um ancoradouro mais protegido. O bote do navio, que estava sendo rebocado, chocou-se contra rochas e precisou ser abandonado.[45] Após a tempestade, o grupo isolado retornou ao navio, que havia sofrido a quebra do leme.[46] Surville, abalado pela perda das âncoras e do bote — o que comprometia os planos de exploração da região —,[45] desembarcou em 30 de dezembro com dois oficiais e alguns marinheiros para pescar. O grupo foi convidado para uma aldeia por um chefe local e compartilhou uma refeição antes de retornar ao navio.[47]

No dia seguinte, 31 de dezembro, um oficial avistou o bote em terra na praia de Tokerau, cercado por maoris, e um grupo armado partiu do Saint Jean-Baptiste para recuperá-lo.[46] Surville considerou que o bote havia sido roubado; pela tradição local, qualquer destroço levado à costa pertencia ao chefe da região. Ao chegar à praia, o grupo francês encontrou maoris portando lanças, mas não havia sinal do bote. O chefe local, Ranginui,[Nota 3] aproximou-se de Surville carregando um ramo de folhas verdes, sinal de paz na cultura maori. Com a paciência esgotada, Surville prendeu Ranginui sob acusação de roubo do bote. Seu grupo incendiou cerca de 30 cabanas, destruiu uma canoa cheia de redes e confiscou outra canoa. Ranginui foi levado de volta ao navio, onde os tripulantes que haviam ficado isolados durante a tempestade o reconheceram como o chefe que os havia tratado com hospitalidade. Surville decidiu manter o prisioneiro, e o Saint Jean-Baptiste partiu rumo ao leste naquele mesmo dia, com Ranginui a bordo.[47][49]

Viagem à América do Sul

Após consultar seus oficiais e considerar o mau estado do navio e da tripulação, Surville rejeitou a ideia de navegar para o norte, em direção às Filipinas ou às Índias Orientais Neerlandesas, optando por seguir para leste rumo à América do Sul.[50] Essa rota aproveitava ventos favoráveis e oferecia a perspectiva lucrativa de descobrir terras até então desconhecidas à medida que avançavam para leste.[50] Surville manteve, em caráter privado, a esperança de localizar Davis Land.[51] Os espanhóis consideravam seus portos ao longo da costa pacífica da América do Sul fechados a outras nações, havendo o risco de que os franceses fossem presos ao chegar. Esperava-se que a aliança existente entre França e Espanha e um apelo em bases humanitárias evitassem essa possibilidade.[52]

Inicialmente navegando pelas latitudes sul de 34° e 35°, a expedição continuou a sofrer perdas devido ao escorbuto,[53] sendo a primeira morte desde a partida da Nova Zelândia registrada em 19 de fevereiro de 1770.[51] Surville logo direcionou o navio para a latitude de 27° sul, onde se acreditava estar localizada Davis Land.[54] No início do mês seguinte, com as reservas de água baixas, Surville admitiu o fracasso na busca pela ilha e, após consultar seus oficiais, estabeleceu o rumo para o Peru.[55][56] Em 24 de março, quando o navio se aproximava do arquipélago Juan Fernández, Ranginui morreu de escorbuto.[57] Embora inicialmente abalado pelo sequestro, ele havia sido bem tratado e costumava jantar regularmente com Surville.[58]

Em vez de parar no arquipélago Juan Fernández para reabastecimento, Surville decidiu seguir diretamente para o Peru, a apenas cerca de 640 quilômetros de distância.[59] O Saint Jean-Baptiste alcançou o povoado de Chilca [en], na costa peruana, em 7 de abril.[60] Uma tentativa de desembarque foi feita naquela tarde, mas as condições do mar eram perigosas. No dia seguinte, Surville, trajando uniforme cerimonial completo, e três tripulantes partiram em um pequeno barco para buscar auxílio junto ao vice-rei espanhol em Chilca. Em condições adversas, a embarcação virou, e Surville e outros dois tripulantes se afogaram.[61] Seu corpo foi encontrado por moradores locais e sepultado em Chilca.[60]

Enquanto isso, o Saint Jean-Baptiste foi conduzido para o norte até o porto de Callao, conforme as instruções deixadas por Surville para o caso de ele não retornar ao navio. O uniforme de Surville, a Cruz de São Luís e uma mecha de seu cabelo foram entregues a Guillaume Labè, primeiro-oficial da embarcação.[62] As autoridades espanholas apreenderam o Saint Jean-Baptiste e detiveram a tripulação sobrevivente por mais de dois anos antes de permitir seu retorno à França.[63] Em 20 de agosto de 1773, quando o navio chegou a Port-Louis, apenas 66 dos 173 homens originais haviam completado a expedição de Surville; 79 haviam morrido em decorrência de doenças ou ataques de nativos hostis, e outros 28 haviam desertado.[64][Nota 4] O Saint Jean-Baptiste ainda transportava as mercadorias embarcadas em Pondicherry, que foram vendidas para permitir que os investidores da expedição recuperassem parte de seus aportes.[66] A viúva de Surville recebeu uma pensão concedida pelo rei da França, Luís XV.[6] Ela também recebeu os pertences pessoais de Surville, entregues por Labè.[66]

Legado

fotografia em preto e branco de um pedestal de concreto com uma placa, com vista para uma encosta
Placa comemorativa que marca a ancoragem do Saint Jean-Baptiste na baía Doubtless, na Nova Zelândia. A inscrição diz: “Jean François Marie de Surville ancorou seu navio Saint Jean Baptiste na baía Doubtless de 17 a 31 de dezembro de 1769 para reabastecer seus homens. Ele visitou um pā [en] neste promontório em 30 de dezembro.”

Embora comercialmente malsucedida, a viagem de Surville permitiu que os geógrafos da época confirmassem a dimensão das Ilhas Salomão e da Nova Caledônia, bem como a provável inexistência de Davis Land. Forneceu ainda mais evidências de que não existia uma Terra Australis no Pacífico Sul e ampliou o conhecimento sobre a Nova Zelândia e seus habitantes.[67] Surville e seus homens foram os primeiros europeus a atravessar o Mar de Coral e a realizar uma travessia de oeste para leste pela zona temperada do Pacífico Sul, uma rota importante para exploradores futuros da região.[68]

Uma rua na cidade natal de Surville, Port-Louis, leva seu nome.[69] Ele é lembrado na Nova Zelândia por meio do nome das Surville Cliffs, o ponto mais ao norte do território continental do país. Cap Surville foi o nome original do que hoje é conhecido como Cabo Norte.[70] Uma placa comemorativa pelos 200 anos da visita de Surville à região foi instalada em Whatuwhiwhi em 1969.[71] Duas das âncoras do Saint Jean-Baptiste perdidas na baía Doubtless foram descobertas em 1974 e estão expostas, respectivamente, no Museu Regional do Extremo Norte, em Kaitaia [en], e no Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa, em Wellington.[72]

Notas

  1. O filho mais velho alcançou o posto de capitão no Regimento de Artois e morreu sem deixar descendentes.[6] O filho mais novo morreu em decorrência de ferimentos sofridos no cerco de Pondicherry em 1778.[7]
  2. Há incerteza quanto às posições exatas do Saint Jean-Baptiste e do Endeavour nesse período. Em seus diários, tanto Surville quanto Cook utilizaram datas náuticas, nas quais o dia se inicia ao meio-dia, mas a bordo também se usavam datas civis, que começavam à meia-noite. Cook, ao navegar para oeste a partir do Cabo Horn, cruzou o meridiano de 180°, hoje a Linha Internacional de Data, mas não avançou a data, enquanto Surville não cruzou o meridiano de 180°, pois partira da Índia.[38]
  3. Em relatos posteriores da expedição, os franceses atribuíram ao chefe os nomes “Naguinoui” ou “Naquinovi”.[48]
  4. Dois desses desertores eram o capelão Villefeix e um sobrinho de Surville. Ambos haviam partido para procurar ouro enquanto o Saint Jean-Baptiste estava retido em Callao.[65]

Referências

Citações

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Bibliografia

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