Jaime Rebelo
| Jaime Rebelo | |
|---|---|
| Nascimento | 22 de dezembro de 1900 Setúbal |
| Morte | 7 de janeiro de 1975 |
| Cidadania | Portugal |
Jaime Rebelo (Troino, Nossa Senhora da Anunciada, Setúbal, 22 de dezembro de 1900 – Pena, Lisboa, 7 de janeiro de 1975) foi um militante anarquista e antifascista português.
Biografia
Nasceu no bairro de bairro de Troino, freguesia de Nossa Senhora da Anunciada, em Setúbal. Era filho do pescador Gonçalo José Rebelo, natural de Lisboa (freguesia de Santa Catarina), e de Leopoldina Amélia, natural de Setúbal (freguesia de São Sebastião).[1]
Começou a trabalhar como pescador, tal como o pai. Desde cedo se inscreveu como membro da Confederação Geral do Trabalho, iniciando-se o seu envolvimento com o movimento anarquista e opositor ao Estado Novo, e participou na fundação da Associação de Classe dos Trabalhadores do Mar, em Setúbal.[2][3][4]
A 21 de janeiro de 1922, casou primeira vez civilmente, em Setúbal, com Miquelina da Conceição Rocha, falecida a 26 de dezembro de 1969.[1]
Em 1928, foi preso pela primeira vez, devido ao seu envolvimento na Revolta do Castelo de S. Jorge, tendo sido condenado à pena de deportação para Angola e para os Açores. Em 1931, regressado a Setúbal, foi um dos dirigentes da greve dos marítimos, a chamada "greve dos 92 dias".[4]
Em 1934, integra o Comité Revolucionário de Setúbal que prepara a revolta de 18 de janeiro. Acabou por ser detido por uma patrulha da GNR na Serra da Arrábida, em fevereiro de 1934. Recusou responder a todas as perguntas e denunciar quaisquer envolvidos na revolta, tendo chegado a cortar a língua para evitar responder às questões. Foi seguidamente transportado ao Hospital da Misericórdia de Setúbal, onde foi tratado. O escritor Jaime Cortesão dedicou-lhe um poema intitulado Romance do Homem da Boca Fechada[5], homenageando a sua atitude durante os interrogatórios a que foi submetido pela polícia política. O poema circulou clandestinamente nos anos 30 do século XX, durante o Estado Novo, tendo sido publicado, em 1937, no jornal Avante!, órgão clandestino do Partido Comunista Português. David Mourão-Ferreira escreveu o conto Solução, igualmente inspirado neste episódio. Nesta sequência, Jaime Rebelo foi condenado a quatro anos de desterro, a uma multa de oito mil escudos e perda de direitos políticos por 10 anos, tendo sido deportado para Angra do Heroísmo em setembro de 1934. Em janeiro de 1936, foi restituído à liberdade e fixou novamente residência em Setúbal.[4][6]
Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), juntou-se a milícias da CNT (Confederação Nacional do Trabalho), confederação operária anarco-sindicalista, e aí comandou uma unidade que combateu na frente meridional do conflito. Perante as sucessivas derrotas das forças republicanas face aos falangistas de Francisco Franco, acabou por se refugiar em Barcelona, última cidade controlada pelas forças republicanas, onde conheceu uma refugiada basca, Eloisa Gutierrez Jaurigui. Os dois tiveram um filho, também chamado Jaime Rebelo, que ficou ao cuidado de Eloisa e com quem só retomaria o contacto na década de 1960, e acabaram por se refugiar em França - Eloisa foi enviada para a Bretanha e Jaime Rebelo foi internado em campos de concentração franceses, primeiro em Argèles-sur-Mer e depois em Gurs. Jaime Rebelo casou com Eloisa apenas após a morte da primeira mulher, Miquelina, tendo o casamento sido celebrado civilmente em Almada, a 2 de junho de 1971.[1][7]
Em dezembro de 1940, regressou a Portugal pela fronteira de Valência de Alcântara e foi preso pela PVDE no posto da estação de Marvão-Beirã. Ainda nesse mês, foi transferido para a Cadeia do Aljube, em Lisboa, e depois para o Depósito de Presos de Peniche, em fevereiro de 1941. Em maio de 1941, foi libertado pelo facto de ter contraído tuberculose e foi tratado em diversos sanatórios, tendo sido declarado curado em 1952. Nesta fase, Jaime Rebelo já havia deixado a faina e, na fase final da vida, foi revisor de imprensa do jornal República, juntamente com Francisco Quintal, fundador da Federação Anarquista Ibérica.[4][6][7][8]
Foi presidente honorário do Sindicato dos Pescadores de Setúbal. Após ter participado numa reunião da assembleia geral do sindicato, de onde terá saído desanimado devido aos desentendimentos entre socialistas e comunistas, regressou à sua casa em Lisboa, onde teve um ataque cardíaco. Acabou por morrer a 7 de janeiro de 1975, no hospital de São José, na freguesia da Pena, em Lisboa.[1][8]
Homenagens
Em Setúbal o seu nome foi dado a uma avenida, junto ao rio Sado.[8]
Em setembro de 1996, a companhia de teatro A Barraca estreou a peça Viva La Vida, inspirada na história de Jaime Rebelo e Eloisa Gutierrez, com base no texto de César de Oliveira, Jaime Rebelo: Um Homem Para Além do Tempo. A peça foi encenada por Hélder Costa e Maria do Céu Guerra interpretou o papel das duas mulheres de Jaime Rebelo.[8]
Fontes
- ARRANJA, Álvaro. «Jaime Rebelo : O Homem da Boca Fechada» in ARRANJA, Álvaro, Anarco-Sindicalistas e Republicanos : Setúbal na I República. Setúbal : Centro de Estudos Bocageanos, 2009, pgs. 120-123. ISBN 978-972-986821-9-0 Erro de parâmetro em {{ISBN}}: comprimento
- FREITAS, Helena de Sousa. A Expressão Anarquista nas Paredes de Setúbal: O Cavalo de Batalha de Troia, pgs. 13-14.
- OLIVEIRA, César. «Jaime Rebelo: Um Homem Para Além do Tempo», in História, ano XVII (nova série), n.º 6, março de 1995, pgs. 42-47
- Jaime Rebelo no site libertário Estel Negre.
- «Jaime Rebelo», in Ação Libertária, n.º 2, pg. 7
Referências
- ↑ a b c d «Livro de registo de batismos da paróquia de Nossa Senhora da Anunciada - Setúbal (1901)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Distrital de Setúbal. p. 12v e 13, assento 30
- ↑ Constituição da Associação de Classe dos Trabalhadores do Mar de Setúbal[ligação inativa].
- ↑ QUINTAS, Maria da Conceição. Associações de Classe Arquivado em 3 de março de 2016, no Wayback Machine..
- ↑ a b c d Albérico Alho (2020). «Setúbal no centro do mundo: 165 anos do jornal O Setubalense - Jaime Rebelo». Primeira Hora – Editora e Comunicação. Consultado em 10 de novembro de 2025
- ↑ Ver o poema na página do poet'anarquista.
- ↑ a b «Jaime Rebelo - Registo Geral de Presos (PVDE/PIDE)». Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Consultado em 10 de novembro de 2025
- ↑ a b Giovanni Licciardello (23 de novembro de 2023). «PENSAR SETÚBAL: Jaime Rebelo, o Homem da Boca Cerrada (parte I)». O Setubalense. Consultado em 10 de novembro de 2025
- ↑ a b c d Giovanni Licciardello (27 de novembro de 2023). «Jaime Rebelo, o Homem da Boca Cerrada (parte II)». O Setubalense. Consultado em 10 de novembro de 2025