Jaime Batalha Reis
| Jaime Batalha Reis | |
|---|---|
![]() Retrato de Jaime Batalha Reis (1892), por Columbano Bordalo Pinheiro. | |
| Nascimento | |
| Morte | 24 de janeiro de 1935 (87 anos) |
| Nacionalidade | |
| Ocupação | Escritor, agrónomo, diplomata, geógrafo e publicista |
| Magnum opus | Estudos geográficos e históricos |
| Movimento estético | Geração de 70 |
Jaime Batalha Reis (São José, Lisboa, 24 de Dezembro de 1847 — Turcifal, Torres Vedras, 24 de Janeiro de 1935) foi um engenheiro agrónomo, diplomata, geógrafo e publicista português.
Biografia
Era filho de António Nunes dos Reis, produtor vinícola da Quinta da Viscondessa, no Turcifal, Torres Vedras, e de Maria Romana Batalha Reis. O pai, liberal e republicano, era amigo de Almeida Garrett. Tinha dois irmãos mais velhos, Adelina e António. Estudou no Colégio Alemão, conhecido como Colégio Roeder, pois era detido e dirigido por Hermann Roeder, e teve uma educação linguisticamente diversificada (além de português, inglês, alemão e francês).[1][2][3][4]
Em 1866, formou-se em Agronomia e Engenharia Florestal pelo Instituto Geral de Agricultura (atual Instituto Superior de Agronomia), onde arrecadou vários prémios e o apreço dos professores Ferreira Lapa e Andrade Corvo durante o curso. No entanto, não conseguiu colocação imediata como professor universitário, não deixando de participar em júris de análise da qualidade da produção agrícola e de fazer palestras junto dos agricultores.[2][3]
Paralelamente, mantinha-se inserido na vida intelectual e artística da época. A amizade com Eça de Queiroz, iniciada durante uma visita de Jaime à redação da Gazeta de Portugal, levou-o a alargar o círculo de amigos, tendo daí nascido a tertúlia literária Cenáculo, que se reunia na casa de Jaime, na Travessa do Guarda-Mor (atual Rua do Grémio Lusitano), no Bairro Alto, em Lisboa (1868-1871), e que seria o núcleo da que viria ser conhecida por Geração de 70. Eça, Antero e Jaime Batalha Reis criaram o heterónimo coletivo Fradique Mendes (1869). A amizade com Antero de Quental ampliou bastante os horizontes intelectuais e filosóficos de Jaime Batalha Reis e permitiu-lhe colmatar as suas fragilidades culturais. Acompanhou de perto todo o percurso dos Vencidos da Vida, com quem se relacionou. Em 1870, Jaime, Antero e Oliveira Martins fundaram o jornal A República. Jaime partilhava casa em Lisboa com Antero de Quental, onde as tertúlias com Eça e agora também Oliveira Martins prosseguiam, tendo nascido deste convívio as Conferências do Casino (1871), que acabariam proibidas por ordem do então presidente do Conselho de Ministros, o duque de Ávila e Bolama, António José de Ávila, e nas quais Jaime Batalha Reis se afirmou socialista. Pretendendo casar-se com Celeste Cinatti, filha de Giuseppe Cinatti, e em busca de um emprego estável, Jaime Batalha Reis concorre pela primeira vez à carreira diplomática, mas fica em terceiro lugar, sendo Eça de Queiroz o primeiro classificado.[3][4]
Em fevereiro de 1872, foi nomeado chefe do Serviço Agrícola do Instituto Geral de Agricultura. Especialista em filoxera (que afetava sobremaneira a vinha naquela época), em setembro de 1872, substituiu Andrade Corvo como professor das cadeiras de Botânica e Economia Rural e Florestal. Era colaborador da Revista Agrícola, editada pela Real Associação Central da Agricultura Portuguesa, onde escreveu a série de artigos Princípios de Agricultura Popular.[4][3]
A 5 de setembro de 1872, já com emprego fixo, casou na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, em Lisboa, com Celeste Maria Luísa Cinatti (Igreja do Loreto, Lisboa, c. 1848 — agosto de 1900), filha de Giuseppe Cinatti e de Maria Anastácia Antónia Sava Rivatta Cinatti. Foram padrinhos de casamento o arquiteto Achille Rambois, colega do pai de Celeste, e o pai de Jaime, António Nunes dos Reis. Deste casamento nasceram Pedro, Beatriz, Celeste, Maria e Victor Cinatti Batalha Reis.[2][3][4][5][6]
Organizou uma campanha de angariação de fundos para a fundação da Revista Ocidental, com empenho de Antero e de Oliveira Martins, tendo o primeiro número da revista saído em fevereiro de 1875. Na Revista Ocidental foi publicada a primeira versão de O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, e eram publicados artigos de intelectuais portugueses e espanhóis. Contudo, a revista acabou por fechar em julho de 1875 por falta de financiamento.[3][4] Foi também colaborador da revista O Occidente (1878-1915) e da Revista do Conservatório Real de Lisboa [7] (1902).
Em 1876, foi nomeado comissário do setor agrícola da Exposição Universal de 1876, em Filadélfia, realizada no âmbito da comemoração do centenário da independência dos Estados Unidos, tendo sido encarregado de estudar as culturas da vinha, do algodão e do tabaco, o que não chegou a concluir devido a uma mudança de governo.[3]
Em 1880, continuou a colaborar em jornais e revistas com crónicas sobre ópera, pintura e literatura e o seu envolvimento na vida intelectual e cultural estende-se também à pintura, por via da amizade com os irmãos Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro. Torna-se membro efetivo da Sociedade de Geografia de Lisboa, que o nomeou delegado às comemorações do bicentenário da morte de Calderón de la Barca, e foi membro da comissão executiva do tricentenário da morte de Luís de Camões. Ainda em 1880, chegou a professor catedrático de Microscopia e Nosologia Vegetal do Instituto Geral de Agricultura, utilizando pela primeira vez o microscópio, técnica que aprendeu com o amigo Curry Cabral. Era membro da Association Scientifique Internationale d'Agronomie, tendo sido relator principal de um estudo sobre o trabalho agrícola e o emprego das populações locais nos países tropicais.[3][4]
Em julho de 1882, conseguiu finalmente prover a vaga de 1.º cônsul de Portugal em Newcastle (onde já estivera Eça de Queiroz) e ingressou na carreira diplomática, abandonando a carreira académica em agosto de 1883, quando partiu para Inglaterra com a família. Nessas funções, dedicou-se à defesa da presença colonial portuguesa em África, publicando nos jornais ingleses textos em defesa da posição portuguesa, enviando relatórios e planos alertando o governo em Lisboa sobre o assunto e proferindo palestras nas sociedades científicas inglesas, como a Real Sociedade Geográfica. Pelo seu domínio da questão, foi também nomeado perito para a Conferência Anti-Esclavagista de Bruxelas (1889-1890). Foi nomeado para, em Berlim e Paris, executar missões confidenciais relacionadas com a questão da disputa com Inglaterra em África (a questão do Mapa cor-de-rosa) e o endividamento de Portugal face à Europa. Em 1897, foi nomeado cônsul-geral de Portugal em Londres. Em 1900, participou na Conferência Internacional para a Proteção da Fauna Africana, em Londres, da qual resultou uma convenção sobre a matéria, assinada por Portugal.[3][4]
As mortes de Antero (1891), Oliveira Martins (1894) e Eça (1900) levaram Jaime Batalha Reis a escrever textos memorialísticos sobre os três escritores, consagrando-o como membro da Geração de 70, pelo convívio com os três protagonistas dessa geração.[3]
No momento da Implantação da República, em 1910, Jaime encontrava-se em Bruxelas. O então ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernardino Machado, chamou-o a Lisboa e encarregou-o da remodelação do ministério. Em julho de 1911, foi nomeado ministro plenipotenciário para São Petersburgo, na Rússia, e apresentou credenciais ao czar Nicolau II, mas em agosto de 1911 foi logo colocado em comissões de serviço em Paris e Londres. Em 1913, foi novamente enviado à Rússia para representar Portugal nas comemorações da dinastia Romanov, onde acabou por presenciar as duas revoluções de fevereiro e outubro de 1917. Apenas saiu da Rússia em 1918, através da fronteira de Murmansk. Em 1919, foi nomeado delegado plenipotenciário à Conferência de Paz de Paris e representante de Portugal na comissão de elaboração do Pacto da Sociedade das Nações, tendo sido fundador do Secretariado da Sociedade das Nações e vice-presidente da Associação Portuguesa para a Sociedade das Nações.[3][4]
Aposentou-se em agosto de 1921. Quase cego, mesmo após uma operação às cataratas, e impossibilitado de organizar o seu espólio, instalou-se na propriedade herdada do pai, a Quinta da Viscondessa, no Turcifal, juntamente com as duas filhas solteiras.[3][4]
Morreu vítima de trombose a 24 de janeiro de 1935, na Quinta da Viscondessa, freguesia do Turcifal, em Torres Vedras. A filha, Beatriz, acabou por organizar o seu espólio, tendo efetuado a sua doação à Biblioteca Nacional de Portugal.[1][3][4]
Obras
- A agricultura no districto de Vizeu (1871)
- Os portuguezes na região do Nyassa (1889)
- Estudos geográficos e históricos (1941, póstumo)
Referências
- ↑ a b «Livro de registo de batismos da paróquia de São José - Lisboa (1846-1851)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. 29v
- ↑ a b c «Rua Jaime Batalha Reis». Toponímia de Lisboa. Consultado em 22 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k l m Maria José Marinho. «Jaime Batalha Reis». Camões - Instituto da Cooperação e da Língua. Consultado em 22 de novembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j «Jaime Batalha Reis». Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Consultado em 22 de novembro de 2025
- ↑ «Livro de registo de casamentos da paróquia da Encarnação - Lisboa (1863-1873)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. 199, assento 29
- ↑ «Oferta de espólio bibliográfico de Jaime Batalha Reis». Arquivo Digital do Ministério das Finanças. Consultado em 22 de novembro de 2025
- ↑ Helena Roldão (7 de novembro de 2014). «Ficha histórica: Revista do Conservatório Real de Lisboa: publicação mensal ilustrada (1902)» (PDF). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 23 de julho de 2015
