Ivo Noal
| Ivo Noal | |
|---|---|
| Nascimento | 1935 |
| Morte | 2023 |
Ivo Noal (1935 – São Paulo, 12 de novembro de 2023) foi um bicheiro e empresário brasileiro.[1] Apelidado de "Il capo di tutti capi" ("o chefão de todos os chefões", em italiano),[2] Noal era considerado o maior bicheiro de São Paulo,[3][4][5] sua fortuna chegou, em valores corrigidos, a superar R$ 2 bilhões no início dos anos 2000.[3] Além do jogo do bicho, Noal também explorava máquinas caça-níqueis, e sua atividade empresarial englobava uma fábrica de panelas, uma empresa de taxi aéreo, compra e venda de telefones, lotéricas, e uma mineradora.[6][7]
Biografia
Nascido em 1935, Ivo Noal cresceu no bairro do Brás, em São Paulo.[1] Formou-se em Direito pela Universidade de Guarulhos. A relação com o jogo do bicho já era familiar: o avô de Ivo já explorava o jogo antes da proibição em 1946, e o comando havia passado para o pai de Ivo, Luís Noal. Com a prisão de Luís em 1950, Ivo Noal assumiu o comando da contravenção, aos 15 anos de idade. Noal se transformou no principal bicheiro de São Paulo, controlando 40% de todas as apostas da cidade, segundo a polícia.[6] Também foi acusado de transformar mansões no bairro do Morumbi em cassinos e explorar jogos de azar.[8]
Possuía um apreço por elefantes: possuía uma presa do animal como enfeite na mesa de jantar de seu apartamento em São Paulo,[9] e manifestou o desejo de incluir um desenho do animal na camisa do Santo André durante o período em que era cartola do clube.[10] Também era entusiasta do automobilismo, tendo participado das 6 Horas de Interlagos em 1964.[11]
Prisões
Em 1955, foi preso pela primeira vez, por oito meses, em flagrante de contravenção pelo jogo do bicho. Voltou à cadeia dez anos depois, por fazer ligações de telefone clandestinas, desta vez pelo período de dez meses.[6] Em 1989, foi acusado de ter sido o mandante da morte do bicheiro rival Adilson Ribeiro da Silva, assassinado dois anos antes. Noal fugiu e ficou desaparecido por 11 meses.[12] Foi detido novamente em 1991, passando apenas um dia preso. Em agosto de 1993, Noal foi acusado de ser o mandante da morte de outro rival, o bicheiro Wilson Nanini, morto em 1987; Noal novamente fugiu para os Estados Unidos, onde foi detido em janeiro de 1994, e deportado para o Brasil, ficando preso por um dia.[12] Em maio do mesmo ano, teve a prisão preventiva decretada pelo envolvimento na morte de outro bicheiro rival, Basílio de Jesus Leandro, morto em 1986.[13][14] A decisão foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal em 1996.[15] No mesmo ano, ficou preso por 42 dias sob acusações de formação de quadrilha, corrupção ativa, coação de testemunha, ameaça e falsidade ideológica.[16] Em 1998 foi condenado a um ano de prisão em regime semiaberto, por conta da exploração de cassinos clandestinos. A condenação foi anulada pelo STF no mesmo ano.[17]
Em agosto de 2001, Ivo Noal foi condenado a seis anos e oito meses de prisão e multa de 500 salários mínimos, por prática de crimes contra a ordem tributária, sonegação fiscal e por dar declarações falsas à Receita Federal. Após recorrer em instâncias superiores, conseguiu baixar a pena para cinco anos em regime semiaberto.[18] Foi preso em setembro de 2004, sendo detido na Superintendência da Polícia Federal em São Paulo.[7][16] Após cumprir pena no Centro de Progressão Penitenciário de São Miguel Paulista, recebeu habeas corpus do STF em fevereiro de 2005.[19]
Envolvimento no futebol
Torcedor do Corinthians, Ivo Noal tentou apadrinhar o clube do coração assim como Castor de Andrade no Bangu, mas não conseguiu.[10] Em 1986, entrou para a diretoria do Esporte Clube Santo André e se tornou o principal investidor da equipe. Foi responsável pela contratação do zagueiro Luís Pereira, e pagou, de seu próprio bolso, Cr$ 350 milhões para trazer o lateral Wladimir.[10][20]
Política
Filiado ao Partido Democrático Trabalhista, Ivo Noal tentou a eleição para deputado federal constituinte em 1986. A candidatura foi impugnada devido aos antecedentes criminais.[1] Sua principal bandeira era a liberação do jogo do bicho.[21]
Ligações com a máfia italiana
Em depoimento à polícia italiana, Lillo Lauricella, um dos líderes da Banda della Magliana, declarou que fazia pagamentos mensais de US$ 80 mil a Ivo Noal, em troca da instalação de caça-níqueis nos pontos controlados pelo bicheiro em São Paulo.[22] A operação dos italianos teria com objetivo principal a lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de cocaína.[23][24]
Problemas de saúde e morte
Em 2019, Ivo Noal sofreu um AVC e passou a morar com a filha, Sandra Regina Noal, que também administrava seu patrimônio após uma procuração. Neste período, começou uma batalha judicial entre seus familiares por sua herança, incluindo acusações de que a filha havia falsificado a assinatura de sua falecida mãe para passar a Fazenda São Mathias, uma mansão em estilo colonial de 42 mil metros quadrados na Praia da Feiticeira, em Ilhabela, para seu nome.[1]
Em 2023, foi internado no hospital Albert Einstein ao contrair COVID-19. Ivo Noal faleceu no dia 12 de novembro de 2023, devido à complicações de uma pneumonia bacteriana ligada à doença.[7] Deixou aproximadamente R$ 21,2 milhões em dívidas,[3] assim como um patrimônio estimado em mais de setenta propriedades. A mansão de Noal em Ilhabela, avaliada em mais de R$ 20 milhões, foi a leilão para pagamento de dívidas de pensão alimentícia.[25][26]
Referências
- ↑ a b c d Farias, Adriana (12 de dezembro de 2023). «A morte de Ivo Noal, 88, o maior bicheiro de São Paulo». Piauí. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Lopes, Fabiana; Farias, Adriana (18 de outubro de 2020). «Aos 85 anos, Ivo Noal, maior bicheiro de SP, vive em mansão na capital paulista». CNN Brasil. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b c Molina, Thomaz (13 de dezembro de 2023). «Morre, aos 88, Ivo Noal, apontado como o maior bicheiro de São Paulo». Metrópoles. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Polícia Federal confirma prisão de Ivo Noal». Estadão. 4 de março de 2012. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Morre maior bicheiro de SP; empresário deixa mais de R$ 21 mi em dívidas». Folha do Estado. 14 de dezembro de 2023. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b c Cordeiro, Claudio (10 de agosto de 1999). «Empresário assumiu negócio da família nos anos 50». Folha de S.Paulo. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b c «Ivo Noal, apontado como o maior bicheiro de São Paulo, morre aos 88 anos». Folha de S.Paulo. 13 de dezembro de 2023. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Ex-genro acusa Ivo Noal de montar cassinos em mansões de SP». Estadão. 3 de março de 2012. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Souza, Percival de (1 de fevereiro de 2021). «Ivo Noal, o grande imperador do bicho». R7. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b c Rodriguez, Luiz Fernando (26 de janeiro de 1986). «Santo André sonha em ser grande com o elefante». Folha de S.Paulo: 37
- ↑ «Jornalistas promovem as "6 Horas de Interlagos"». Correio da Manhã. 16 de julho de 1964. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b «Folha de S.Paulo». 26 de agosto de 1994. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Godoy, Marcelo (23 de agosto de 1994). «Justiça paulista decreta prisão de Ivo Noal». Folha de S.Paulo. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Castro, Daniel; Godoy, Marcelo (26 de agosto de 1994). «Bicheiro Ivo Noal é preso em São Paulo». Folha de S.Paulo. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «STF dá habeas corpus para bicheiro Noal e anula prisão». Folha de S.Paulo. 12 de junho de 1996. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ a b «Polícia: PF prende Ivo Noal, considerado o principal bicheiro de São Paulo». Folha de S.Paulo. 27 de setembro de 2004. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «STF anula condenação de banqueiro de jogo do bicho». Folha de S.Paulo. 25 de junho de 1998. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Negada prisão domiciliar ao bicheiro Ivo Noal». Estadão. 8 de julho de 2004. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «STF concede liberdade para empresário Ivo Noal, de São Paulo». Supremo Tribunal Federal. 24 de fevereiro de 2005. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Borges, Ari (17 de fevereiro de 1986). «Chevrolet, rei do ABC». Abril. Placar (821): 44-45. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ Motta, Édison (1987). «Bicheiro sem mandato não perde a esperança» (PDF)
- ↑ Figueiredo, Lucas (10 de agosto de 1999). «Polícia: Italiano liga Noal a crime internacional». Folha de S.Paulo. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «De dom Pedro ao Cachoeira». CartaCapital. 1 de maio de 2012. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Corleones do Brasil». Super Interessante. 31 de outubro de 2016. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Ivo Noal: mansão do 'maior bicheiro de SP' vai a leilão por R$ 22 milhões». UOL. 14 de dezembro de 2023. Consultado em 19 de setembro de 2025
- ↑ «Avaliada em R$ 22 milhões, mansão de bicheiro que construiu império milionário vai a leilão no litoral de SP». G1. 16 de dezembro de 2023. Consultado em 19 de setembro de 2025