Manuel Ivo Cruz (pai)
| Manuel Ivo Cruz | |
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| Nascimento | 19 de maio de 1901 Corumbá |
| Morte | 8 de setembro de 1985 (84 anos) Lisboa |
| Cidadania | Portugal |
| Ocupação | compositor, maestro |
Manuel Ivo da Cruz (Corumbá, 19 de Maio de 1901 — Coração de Jesus, Lisboa, 8 de Setembro de 1985) foi um compositor, músico e professor de música que se destacou como fundador da Orquestra Filarmónica de Lisboa (1937) e diretor do Conservatório Nacional de Lisboa (1938-1971), sucedendo neste cargo a Vianna da Motta. Foi pai do também maestro Manuel Ivo Cruz, maestro-director no Teatro Nacional de São Carlos.

Biografia
Nasceu em Corumbá, Mato Grosso do Sul, Brasil, e era filho do industrial Manuel Pereira da Cruz e de sua mulher Palmira Machado da Cruz, doméstica, um casal português de origem algarvia (Olhão). Partiu ainda criança para Lisboa, cidade onde fez os seus estudos secundários, ingressando na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Direito, em 1924.[1][2]
Iniciou os seus estudos musicais em Lisboa com António Tomás de Lima e Tomás Borba.[3] Em 1923, juntamente com Eduardo Libório, foi criador do movimento de "Renascimento Musical", movimento de cunho monárquico e neotomista.[4] Ao contrário de outras escolas nacionalistas, que defendiam a referência ao folclorismo como forma de criar uma "música nacional", este movimento almejava "reportugalizar" a música portuguesa salvando o património musical antigo, de modo a contribuir para legitimar o discurso de uma musicologia histórica emergente.[5]
A 31 de dezembro de 1924, casou primeira vez civilmente em Lisboa com Isaura Adriana Galo Cavalheiro (São Vicente de Fora, Lisboa, c. 1903 — 27 de janeiro de 1926), doméstica, filha do advogado António Rodrigues Pio Cavalheiro, natural de Coimbra (freguesia da Sé Nova), e de Maria Adriana Galo de Sá Cavalheiro, doméstica, natural de Torre de Moncorvo. A 3 de janeiro de 1925, os dois casaram na Igreja de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. Deste casamento nasceu Maria Teresa Cavalheiro Cruz (1926).[2][1]
Preferindo a música à advocacia, depois de casar e terminar a licenciatura em Direito, em 1925 partiu para Munique, na Alemanha, onde estuda Composição, Direcção de Orquestra, Estética e História da Música.[1] Regressado a Lisboa, em 1931, passou a trabalhar como professor do Conservatório Nacional de Lisboa, instituição então dirigida por Vianna da Motta. Nessas funções, e como compositor, cultivou o seu interesse pela música portuguesa pré-clássica, compondo novas obras integradas nesse estilo e fundando a Sociedade Coral Duarte Lobo, em 1931, especialmente voltada para executar tal repertório. Estes esforços levaram a que aquele estilo musical se tornasse conhecido do grande público e tivesse divulgação internacional. Nesse esforço promoveu as primeiras audições modernas e edições de algumas das mais notáveis obras de compositores como Carlos Seixas (1704-1742) e João de Sousa Carvalho (1745-1798).[1]
A 19 de julho de 1931, casou segunda vez civilmente, em Lisboa, com Maria Adelaide Soares Cardoso (Alcântara, Lisboa, c. 1901 — 24 de janeiro de 1983), doméstica, filha dos Viscondes do Marco, o proprietário Carlos Alberto Soares Cardoso e sua esposa Carolina Burnay Soares Cardoso, doméstica, natural de Lisboa (freguesia da Encarnação). Foi padrinho de casamento Eduardo Libório. Deste casamento nasceu o também futuro maestro Manuel Ivo Cruz.[6]
Com o passar do tempo, denotou-se a integração dos líderes do Renascimento Musical no meio cultural e educativo do regime do Estado Novo, tendo sido este processo fundamental para o desenvolvimento de uma forma aristocrática e elitista de comunicação musical, que perdurará nos anos seguintes. Nesse sentido, Manuel Ivo Cruz desempenhou diversas funções públicas durante o Estado Novo: Presidente da Associação dos Músicos Portugueses e, por inerência, Procurador à Câmara Corporativa (1933); Presidente do Sindicato Nacional dos Músicos (1936-1948); Vice-presidente da Caixa dos Profissionais de Espectáculos (1936); Vereador da Câmara Municipal de Lisboa (1938-1941) sob as presidências de Duarte Pacheco e Eduardo Rodrigues de Carvalho; e deputado à Assembleia Nacional em quatro legislaturas (1935-1949).[1][7][5]
Em 1935, dirigiu a Orquestra da Emissora Nacional. Em 1937 organizou a Orquestra Filarmónica de Lisboa, com a qual divulga o repertório musical português no país e no estrangeiro. No ano seguinte substituiu Vianna da Motta na direcção do Conservatório Nacional, cargo que manteve até 1971.[1]
Para além da sua actividade como compositor e músico, Ivo Cruz ao longo da sua vida colaborou regularmente em diversas publicações, tendo publicado uma autobiografia em 1985.[8] Encontra-se colaboração da sua autoria nas revistas Contemporânea[9] (1915-1926) e Música (1924-1925).[10]
Entre a sua vasta e diversificada obra musical, num estilo impressionista ao gosto português, incluem-se duas sinfonias, dois concertos para piano e múltiplas canções e peças instrumentais. A sua obra mais conhecida é talvez a Sinfonia de Amadis, estreada em Lisboa em 1953.[1]
Em 1961, foi publicada a sua partitura manuscrita de obras de música sinfónica sobre Lisboa, a qual entregou à Câmara Municipal de Lisboa. Em 1971, passou a dirigir a Orquestra Filarmónica Municipal.[1]
Reuniu uma importante colecção bibliográfica de temática musical que se encontra integrada na Biblioteca Nacional de Lisboa, onde constitui a Colecção Ivo Cruz, que inclui impressos raríssimos e outros únicos, e o maior conjunto conhecido de autógrafos de João Domingos Bomtempo (1775-1842). Dirigiu vários concertos de festivais e as temporadas dos Bailados Verde Gaio, bem como foi diretor de concertos do Museu Condes de Castro Guimarães. Foi consultor do Teatro Nacional de São Carlos e do Instituto de Alta Cultura.[1]
Ivo Cruz foi uma das figuras mais relevantes nas relações culturais luso-brasileiras e da difusão da cultura musical de Portugal no Brasil e na Europa.
Morreu vítima de involução de síndrome demencial a 8 de setembro de 1985, na freguesia do Coração de Jesus, em Lisboa, onde residia na Rua do Salitre, n.º 166, 2.º esquerdo. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres.[11]
Obras
Orquestra
- Motivos Lusitanos (1928)
- Idílio de Miraflores (1952)
- Sinfonia de Amadis (1952)
- Sinfonia de Queluz (1964)
Solista e Orquestra
- Tríptico para Voz e Orquestra (1930)
- Os Amores do Poeta para Voz e Orquestra (1942)
- 1º Concerto Português para Piano e Orquestra (1945)
- 2º Concerto Português para Piano e Orquestra (1946)
Música de Câmara
- Sonata para Violino e Piano (1922) - Foi interpretada em várias ocasiões pelo famoso violinista Henryk Szeryng.
- Pastoral (versão para 2 pianos) (1954)
- Vida da Minha Alma para Violoncelo e Piano
- 2º Concerto Português (versão para 2 pianos)
- Ritornellos e Danças para 2 pianos
Voz e Piano
- Canções Perdidas (1923)
- Os Amores do Poeta (1942)
- Baladas Lunáticas (1944)
- Canções Profanas (1968)
- Canções Sentimentais (1972)
Piano Solo
- Paisagens Sentimentais (1920)
- Aguarelas (1922)
- Homenagens (1955)
- Caleidoscópio (1957)
- Suite (1960)
Bailado
- Pastoral (1942)
Arranjos
- 1º Tento de "Flores de Música" (de Manoel Rodrigues Coelho) (1924)
- Sonata (de Joaquim Casimiro) (1965)
- Sonata para Violino e Cravo (de Francisco Xavier Baptista)
- O Amor Industrioso ( de João de Sousa Carvalho)
- Suite nº 1 (de João de Sousa Carvalho)
- Concerto para Cravo e Cordas (de João de Sousa Carvalho)
- Abertura para Orquestra de Cordas (de João de Sousa Carvalho)
Outras Obras
- Dança Nobre (Instrumentação Desconhecida)
Condecorações
Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (5 de outubro de 1931)
Comendador da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada de Portugal (21 de junho de 1938)
Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública de Portugal (15 de setembro de 1971)[12]- Medalha Municipal de Lisboa (1981)[1]
- Ordem Civil de Afonso X, O Sábio (Espanha)[1]
- Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul (Brasil)[1]
Notas
- ↑ a b c d e f g h i j k l «Praceta Maestro Ivo Cruz». Toponímia de Lisboa. Consultado em 22 de novembro de 2025
- ↑ a b «Livro de registo de casamentos da 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1924-11-10 - 1925-04-13)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 64 e 64v, assento 64
- ↑ Informação sobre Ivo Cruz Arquivado em 5 de dezembro de 2006, no Wayback Machine..
- ↑ Nery, Rui Vieira (1991). History of Music (em inglês). [S.l.]: Europália
- ↑ a b Deniz Da Silva, Manuel (2004). «O projecto nacionalista do renascimento musical (1923-1946): «Reaportuguesar» a música portuguesa». Ler história (46): 27–57. ISSN 2183-7791. Consultado em 14 de novembro de 2024
- ↑ «Livro de registo de casamentos da 4.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1931-01-01 - 1931-11-18)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 148 e 148v, assento 148
- ↑ Portugalia. [S.l.: s.n.] 1925
- ↑ Ivo Cruz, O que fiz e o que não fiz. Lisboa : [s.n.], 1985.
- ↑ Contemporânea (1915-1926) cópia digital, Hemeroteca Digital
- ↑ Jorge Mangorrinha (1 de outubro de 2013). «Ficha histórica: Música: revista de artes (1924-1925)» (pdf). Hemeroteca Municipal de Lisboa. Consultado em 15 de Janeiro de 2015
- ↑ «Livro de registo de óbitos da 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1985-08-02 - 1985-12-11)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 335, assento 671
- ↑ «Entidades Nacionais Agraciadas com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Ivo da Cruz". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 3 de outubro de 2020
Referências
- Ivo Cruz, O que fiz e o que não fiz (autobiografia). Lisboa : [s.n.], 1985.
- Teresa Sancha Pereira, Ivo Cruz : maestro : 1901-1985. Lisboa : Câmara Municipal. Comissão Municipal de Toponímia, 1995.