Itaitu
A Vila de Itaitu, localizada no distrito de Itaitu-BA, 30 km ao sul do município de Jacobina-BA, é contemplada com inúmeras riquezas naturais, sobretudo hídrica, e uma arquitetura histórica que preserva a memória da época em que foi construída. Geograficamente, Itaitu está localizada em uma zona de transição entre a Caatinga e os ecossistemas de mata atlântica serrana. A região é marcada por formações rochosas do período neoarqueano e inúmeros materiais datados de bilhões de anos, como serras, vales e uma vasta hidrografia composta por rios, nascentes e, principalmente, cachoeiras. Entre as mais conhecidas estão a Cachoeira Véu de Noiva, a Cachoeira dos Sonhos e a Cachoeira do Piancó — locais que se tornaram pontos turísticos de destaque na região.[1]
A Praça da Matriz apresenta uma igreja histórica, com uma marca da Companhia de Jesus, sendo rodeada por inúmeros casarões históricos. Deles destaca-se a casa de cultura Pedro José da Silva, que pertencia a um antigo proprietário de terras do local.
Não se sabe precisamente quando a Igreja Matriz foi construída, mas durante um trabalho de restauração da Igreja, foi encontrado um bloco datado de 1810 com inscrições hebraicas [2], o que pode indicar a presença de judeus ou de cripto-judeus na vila, sendo possível a descendência destes em famílias tradicionais nativas.
Itaitu já foi chamada de Serra Azul e Riachão de Jacobina; a maioria de suas cachoeiras também tinham outros nomes. A Cachoeira Véu de Noiva já foi conhecida como Cachoeira de Clarindo, a Cachoeira das Arapongas como Jaqueira, e a Cachoeira do Coxinho como Cachoeira do Cocino. Apesar da alteração, entre os moradores mais antigos da vila, os nomes anteriores seguem sendo utilizados.
Segundo a tradição oral da vila, os primeiros a chegarem ao local foram os exploradores de ouro, que garimpavam o mineral próximo à Cachoeira das Arapongas[3], anteriormente conhecida como Jaqueira. Com o passar do tempo, a principal atividade econômica passou a ser a agricultura, com destaque para o cultivo de açúcar e produção de rapadura. Dessa fase, ainda hoje, sobrevivem alguns engenhos que são importantes para a preservação da memória do lugar.
A religiosidade, que sempre esteve presente na Vila de Itaitu, ganha destaque com a festa de São Roque e a Festa do Divino Espírito Santo. Antigamente, a principal festa era a Festa do Sagrado Coração de Jesus, porém, após uma epidemia de Febre-amarela, por volta de 1920, tornou-se comum entre os habitantes fazer promessas a São Roque. Após a epidemia, a principal festa passou a ser a do próprio São Roque.[4]
A Vila é composta majoritariamente por famílias tradicionais que até hoje vivem da agricultura, da produção artesanal e, mais recentemente, de pequenas atividades relacionadas ao turismo. A cultura local ainda é fortemente marcada pela religiosidade, pelas festas populares e por um estilo de vida comunitário. A população local demonstra grande senso de pertencimento e zelo pelo território, pois muitos dos moradores têm raízes profundas em Itaitu, com famílias que ali vivem há gerações. Esse vínculo com a terra é visível tanto na conservação dos costumes quanto na preocupação crescente com a preservação ambiental diante do avanço da atividade turística.
Por ser palco dessa riqueza e biodiversidades naturais, a Vila atrai turistas de diversos lugares, o que consequentemente impacta diretamente em problemáticas relacionadas à preservação ambiental e identitária do local. Nos últimos anos, o turismo em Itaitu cresceu de forma acelerada, impulsionado pelas redes sociais e pelo ecoturismo. O aumento no fluxo de visitantes trouxe, por um lado, benefícios econômicos à comunidade: surgiram pousadas, restaurantes, guias turísticos locais e o comércio foi dinamizado. Por outro lado, essa expansão não foi acompanhada por um planejamento adequado ou por políticas públicas de regulação e preservação ambiental.
Esse crescimento desordenado é o que caracteriza o chamado turismo predatório, uma prática que, ao invés de respeitar os limites ecológicos e culturais de uma região, os ignora em prol do lucro imediato. Em Itaitu, isso tem se manifestado de diversas formas, como o aumento do lixo nas trilhas e nas cachoeiras, degradação de áreas naturais, construções sem licença ambiental e exploração comercial de espaços comunitários. Acampamentos na Cachoeira Véu de Noiva, por exemplo, são proibidos, já que é de lá que se capta a água que abastece a vila. Em um exame laboratorial, já foi detectada a presença de Coliforme fecal na amostra da água, que a torna prejudicial para o consumo dos habitantes. A cachoeira Véu de Noiva recebe centenas de turistas por dia e frequentemente há acúmulo de lixo.[5] Além do impacto ambiental, o turismo predatório tem gerado uma pressão social crescente, uma vez que a especulação imobiliária tem elevado o preço dos terrenos e dificultado o acesso à moradia para os próprios moradores, o que resulta também no risco da descaracterização cultural da Vila.[6]
Diante desse cenário, tem ganhado força entre os moradores e líderes comunitários a ideia de um turismo sustentável e comunitário, visando promover o turismo como ferramenta de desenvolvimento local, mas com respeito à natureza, à cultura e aos modos de vida da população. Alguns moradores também têm buscado apoio para desenvolver projetos de educação ambiental, mapeamento de espécies e recuperação de áreas degradadas. Essas ações, no entanto, ainda são isoladas e necessitam de apoio institucional mais amplo, especialmente do poder público municipal e estadual.[7][8]
Referências
- ↑ MACEDO, Renata Elen Santos. Itaitu-BA cenário ambiental e turístico. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 4, n. 2, p. 1992-2002, 2021.
- ↑ «Do Coração de Jacobina: Relatos e Retratos de Itaitu». calameo.com. Consultado em 15 de fevereiro de 2021
- ↑ {{url =https://viajecomnorma.com.br/cachoeira-das-arapongas-itaitu-jacobina-ba/}}
- ↑ «Do Coração de Jacobina: Relatos e Retratos de Itaitu». calameo.com. Consultado em 23 de junho de 2020
- ↑ george.brito (22 de abril de 2020). «MP ajuíza ação para garantir preservação da Cachoeira Véu de Noiva em Jacobina». Ministério Público do Estado da Bahia. Consultado em 23 de junho de 2020
- ↑ ABREU, Momó; BOKAPIU, Marcos; DUARTE, Andreia; ITAITU, Jorge. Riachão de Jacobina: Memórias, Patrimônio e Identidades de Um Lugar. Direção: Andreia Duarte, Jorge Itaitu, Marcos Bokapiu, Momó Abreu.
- ↑ DA SILVA SANTOS, Fabiane Pereira; DE ARAÚJO, Joseane Gomes; SERRÃO, Susana Oliveira Valois Coutinho. A aplicação da educação ambiental no contexto do Distrito de Itaitú, Jacobina, Bahia. Ateliê Geográfico, v. 5, n. 2, p. 154-168, 2011.
- ↑ SANTOS, Manuela Ribeiro Costa; OLIVEIRA, Taíse Carvalho de; SOUZA, Thaíse Pereira Peregrino. Análise do potencial turístico do Distrito de Itaitu (Jacobina-BA) e seus reflexos para o desenvolvimento local. 2012.
