Israel Shahak
| Israel Shahak | |
|---|---|
![]() Israel Shahak em 1989. | |
| Nascimento | Israel Himmelstaub 28 de abril de 1933 |
| Morte | 2 de julho de 2001 (68 anos) |
| Ocupação | Professor universitário, químico e ativista dos direitos humanos |
| Principais trabalhos | História judaica, religião judaica: O peso de três mil anos |
| Escola/tradição | Liberalismo |
| Religião | Ateísmo |
| Assinatura | |
Israel Shahak (em hebraico: ישראל שחק, nascido Israel Himmelstaub, 28 de abril de 1933 – 2 de julho de 2001) foi um professor israelense de química orgânica na Universidade Hebraica de Jerusalém, sobrevivente do Holocausto, intelectual liberal e ativista dos direitos civis em defesa de judeus e gentios (não judeus). Por vinte anos, liderou a Liga Israelense para os Direitos Humanos e Civis (1970-1990) e foi um crítico público das políticas do Estado de Israel. Shahak é autor da importante obra História Judaica, Religião Judaica: O Peso de Três Mil Anos (1994), importante para críticos do sionismo.[1]
Biografia
Israel Shahak nasceu com o nome de Israel Himmelstaub, em 1933, em Varsóvia, Polônia, era o caçula de uma família sionista culta de judeus asquenazes.[2][3] Durante a Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista da Polônia (1939–1945) internou a família Shahak no Gueto de Varsóvia. No entanto, seu irmão mais velho escapou da Polônia para o Reino Unido, onde se juntou à Força Aérea Real. Na Polônia ocupada, a mãe de Shahak pagava a uma família católica para esconder menino Israel, mas, quando não pôde mais arcar com os custos, a criança foi devolvida.
Em 1943, os nazistas enviaram a família Shahak para o campo de concentração de Poniatowa, a oeste de Lublin. Lá, o pai morreu. O menino de dez anos e sua mãe conseguiram escapar do campo de Poniatowa e retornaram a Varsóvia. Dentro de alguns meses, porém, enquanto os nazistas tiravam os judeus da cidade, recapturaram Israel e sua mãe e os aprisionaram no campo de concentração de Bergen-Belsen. Lá, sobreviveram por dois anos, até que o campo e seus prisioneiros fossem libertados em 1945 pelo Exército Britânico.[4][5] Aos 13 anos, em 1946, ele reexaminou a ideia da existência de Deus e concluiu que faltavam evidências para a teoria.[4] Como pessoas deslocadas, mãe e filho conseguiram emigrar para o Mandato Britânico da Palestina, onde o pedido de Shahak para ingressar em um kibutz foi negado, por ser considerado muito magro.[4]
Depois da guerra, Israel, então com doze anos, trabalhou, estudou e sustentou sua mãe, cuja saúde havia se deteriorado em Bergen-Belsen. Após uma educação judaica religiosa em um internato na vila de Kfar Hassidim, Israel e sua mãe se mudaram para a cidade de Tel Aviv. Ao se formar no ensino médio, Shahak serviu nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Concluído o serviço militar, obteve um doutorado em química na Universidade Hebraica.[6]
Ao longo de sua carreira científica, o trabalho de Shahak em química orgânica produziu descobertas sobre compostos orgânicos do elemento flúor (F) e contribuiu para a pesquisa do câncer, pela qual obteve reputação internacional.[7] Foi assistente de Ernst David Bergmann, o físico nuclear que presidiu (1952) a Comissão de Energia Atômica de Israel (CEAI).[8][9] Em 1961, Shahak fez pós-doutorado na Universidade Stanford, nos EUA. Em 1963 retornou a Israel, onde se tornou um professor popular e um pesquisador de química na Universidade Hebraica.
Em 1990, o acadêmico Shahak se aposentou do corpo docente da Universidade Hebraica, devido à saúde debilitada (diabetes mellitus) e ao maior interesse em pesquisas em outros campos de investigação intelectual.[10] Durante a maior parte de sua vida adulta, Shahak residiu no bairro de Rehavia, em Jerusalém Ocidental. Era solteiro, morava sozinho, levava uma vida austera e se permitia um luxo anual: viajar para ver ópera.[11] Aos 68 anos, morreu de complicações diabéticas e foi enterrado no cemitério de Givat Shaul.[12]
Suas atividades como intelectual público, nas quais lutava pelos direitos humanos e por um Estado laico, transformaram-no numa figura polêmica e lhe renderam muitas vexações. Levava cusparadas frequentes[4], recebia ameaças de morte[4] e era difamado de várias maneiras, sendo chamado de detrator de Israel, judeu que se odeia, além de traidor e inimigo do povo.[13]
Política
Intelectual público
No final da década de 1950, Shahak se politizou ao ouvir David Ben-Gurion dizer que, com a Guerra de Suez (29 de outubro de 1956 – 7 de novembro de 1956), o Estado de Israel lutava para alcançar "o reino de Davi e Salomão".[14] Na década de 1960, juntou-se à Liga Israelense Contra a Coerção Religiosa.[1] Em 1965, começou o ativismo político contra o "Judaísmo Clássico" e o Sionismo;[10] e escreveu uma carta ao Haaretz sobre ter testemunhado um judeu ortodoxo "recusando-se a deixar que seu telefone fosse usado no Shabat para ajudar um não judeu que havia desmaiado nas proximidades". Em Israel, a queixa de Shahak iniciou um longo debate sobre as atitudes (religiosas e culturais) do Judaísmo Ortodoxo em relação aos gentios.[15]
Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de junho de 1967), Shahak deixou de ser membro da Liga Contra a Coerção Religiosa por considerar os seus membros "falsos liberais", já que usavam os princípios do liberalismo para combater a influência religiosa coercitiva na sociedade israelense, mas não aplicavam tais proteções aos palestinos israelenses que viviam na Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza.[1] Em seguida, Shahak juntou-se à Liga Israelense para os Direitos Humanos e Civis, tornando-se seu presidente em 1970.[2] Composta por cidadãos judeus e árabes de Israel, a Liga denunciava as políticas restritivas de Israel contra os palestinos e lhes fornecia assistência jurídica. Alguns colonos na cidade de Hebron, na Cisjordânia, o odiavam tanto que, em 1971, picharam na caminhonete a frase "Dr. Shahak para a Forca".
Em 1969, Shahak e outro professor da Universidade Hebraica organizaram um protesto pacífico contra a política do governo israelense de prender estudantes palestinos politicamente ativos através da detenção administrativa autorizada pelas leis do estado de emergência. Shahak também apoiou os esforços políticos dos estudantes palestinos para alcançar a igualdade de direitos, como os concedidos aos israelenses judeus, na Universidade Hebraica.[10] Em 1970, Shahak estabeleceu o Comitê Contra as Detenções Administrativas para se opor formalmente a essa repressão política legalizada.[1]
Para tornar pública, diante do mundo, a discriminação legalizada antiárabe e antipalestina, Shahak traduziu para o inglês reportagens em hebraico sobre ações ilegais e injustas do governo israelense contra os cidadãos gentios de Israel. As reportagens em inglês de Shahak destinavam-se à comunidade judaica dos EUA[2][10] e apresentavam manchetes como "Tortura em Israel" e "Punição Coletiva na Cisjordânia". Ele as enviava a jornalistas, acadêmicos e ativistas de direitos humanos, garantindo assim que a população comum dos EUA fosse informada sobre a discriminação religiosa praticada pelo governo de Israel.[15]
Defensor dos direitos civis
Shahak escreveu sobre as ações do governo israelense contra os cidadãos não-judeus do Estado de Israel, tais como: a supressão da liberdade de expressão e da atividade política em geral; decretos fundiários, restrições de moradia e confisco de terras; a destruição de casas; desigualdade salarial e restrições de trabalho legalmente sancionadas; regulamentos de defesa de emergência que permitem a prisão sumária, a detenção e a tortura de prisioneiros (civis e militares); a punição coletiva de comunidades; os assassinatos de líderes (religiosos, políticos e acadêmicos); a discriminação racial no acesso à educação; e a privação da cidadania israelense.[10] Tais atividades políticas renderam a Shahak muita hostilidade e ameaças de morte. Após a Guerra do Líbano de 1982 (junho de 1982 – junho de 1985), Shahak também relatou abusos israelenses contra a população do Líbano.[2]
Tentando encontrar uma explicação para o comportamento do Estado de Israel em relação aos gentios, Shahak propôs que a interpretação israelita da história judaica produziu uma sociedade que desconsidera os direitos humanos dos povos árabes, dentro e ao redor de Israel,[15] e que o sionismo era um "regime baseado na discriminação estrutural e no racismo".
Em cartas publicadas nos jornais Haaretz e Kol Ha'ir, Shahak criticou a hipocrisia política demonstrada pela esquerda radical em seu apoio acrítico aos movimentos nacionalistas palestinos.[1] Em seu obituário de Shahak, Christopher Hitchens disse que a casa de Shahak era "uma biblioteca de informações sobre os direitos humanos dos oprimidos" e que:
As famílias dos prisioneiros, os funcionários de publicações fechadas e censuradas, as vítimas de despejo e confisco... Ele não virou as costas para ninguém. Conheci palestinos influentes da "sociedade civil" que estão vivos hoje e que foram protegidos quando eram estudantes, na época em que Israel era professor de química na Universidade Hebraica. Com ele, aprenderam a nunca generalizar sobre os judeus. E o respeitavam, não apenas por sua postura consistente contra a discriminação, mas também por nunca os ter tratado com condescendência. Ele detestava o nacionalismo e a religião, e não escondia seu desprezo pela gananciosa comitiva de Arafat. Mas, como ele me disse certa vez: "Agora só me encontrarei com porta-vozes palestinos quando estivermos fora do país. Tenho algumas críticas severas a apresentar a eles. Mas não posso fazer isso enquanto eles estiverem vivendo sob ocupação, e posso 'visitá-los' como um cidadão privilegiado."[14]
Shahak atuou no protesto contra a queima pública de livros cristãos, como ocorreu em 23 de março de 1980, quando <i id="mwARI">Yad Le-akhim</i>, uma organização religiosa que na época era beneficiária de subsídios do Ministério da Religião, incinerou cerimonialmente centenas de cópias do Novo Testamento publicamente em Jerusalém.[16]
Escritor
Entre os livros publicados por Israel Shahak estão O Fundamentalismo Judaico em Israel (1994), em coautoria com Norton Mezvinsky, História Judaica, Religião Judaica: O Peso de Três Mil Anos (1994) e Segredos Abertos: As Políticas Nucleares e Externas de Israel (1997).
Em seu ativismo como tradutor, foi bem importante a publicação do [[Plano Yinon em inglês.
Morte
Shahak morreu de diabetes em julho de 2001 e foi enterrado no cemitério Giv'at Shaul, em Jerusalém.[17] Seu falecimento ensejou homenagens e críticas. O historiador Haim Genizi, da Universidade Bar-Ilan, afirmou que "as declarações anti-Israel extremas de Shahak foram bem recebidas pela OLP e amplamente divulgadas em círculos pró-árabes", em detrimento dos interesses do Estado de Israel.[18] Gore Vidal disse que Shahak era "o mais recente, senão o último, dos grandes profetas"[19], tendo em vista a influência da religião judaica sobre o direito civil da sociedade. Norton Mezvinsky disse que seu amigo e colaborador era "um gigante intelectual raro e um humanista superior". Nesse sentido, Edward Said disse que Shahak era "um homem muito corajoso que deveria ser homenageado por seus serviços à humanidade"[10]. Um obituário no Haaretz o chamou de "flagelo dos nacionalistas"[17].
Christopher Hitchens considerava Shahak um "querido amigo e camarada... um brilhante e dedicado estudante da arqueologia de Jerusalém e da Palestina", que, "durante sua presidência da Liga Israelense para os Direitos Humanos e Civis, deu um exemplo pessoal que seria muito difícil de imitar"[14]. Além disso, Michel Warschawski disse que Israel Shahak era "o último liberal israelense", que era "acima de tudo, um dos últimos filósofos da escola do século XVIII do iluminismo, do racionalismo e do liberalismo, no sentido americano do conceito".[1]
Bibliografia selecionada
- Israel Shahak (org.), The Non-Jew in the Jewish State; a collection of Documents, Jerusalém, 1975. [O não-judeu no Estado Judeu; uma coleção de documentos]
- Israel Shahak (ed), Begin & Co as they really are, Glasgow 1977. [Begin & Cia tal como são de verdade]
- Israel Shahak, Israel's Global Role: Weapons for Repression (Special Reports, No. 4), Association of Arab-American University Graduates, 1982. [O papel global de Israel: Armas para repressão]
- Israel Shahak, (ed.), The Zionist Plan for the Middle East (a translation of Oded Yinon's "A Strategy for Israel in the Nineteen Eighties" or the "Yinon Plan", Association of Arab-American University Graduates, Inc., October 1982, paperback, ISBN 0-937694-56-8 [O plano sionista para o Oriente Médio]
- Israel Shahak, Jewish History, Jewish Religion: The Weight of Three Thousand Years: Pluto Press, London, 1994, ISBN 978-0-7453-0819-7; Pluto Press, London, 2008, ISBN 978-0-7453-2840-9 [História judaica, religião judaica: O peso de três mil anos]
- Israel Shahak, Open Secrets: Israeli Foreign and Nuclear Policies, Pluto Press, London, 1997. [Segredos abertos: As políticas externas e nucleares de Israel]
- IIsrael Shahak & Norton Mezvinsky, Jewish Fundamentalism in Israel (Pluto Middle Eastern Series), Pluto Press (UK), October 1999, hardcover, 176 pages, ISBN 0-7453-1281-0; trade paperback, Pluto Press, (UK), October 1999, ISBN 0-7453-1276-4; 2nd edition with new introduction by Norton Mezvinsky, trade paperback July 2004, 224 pages. [O fundamentalismo judaico em Israel]
Referências
- ↑ a b c d e f Warschawski, Michel. «The Last Israeli Liberal: Remembering Israel Shahak (1933-2001)». Institute for Palestine Studies. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ a b c d Adams, Michael (26 jul. 2001). «Israel Shahak». The Independent. Arquivado do original em 6 ago. 2011
- ↑ Shahak, Israel; Garton Ash, Timothy (29 jan. 1987). «The Life of Death: An Exchange». The New York Review. Consultado em 19 jan. 2026. Cópia arquivada em
|arquivourl=requer|arquivodata=(ajuda) 🔗 - ↑ a b c d e Pallis, Elfi (6 jul. 2001). «Israel Shahak: Belsen survivor who attacked Israel's treatment of Palestinians». The Guardian. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ O'Dwyer, Thomas (12 jul 2001). «Scourge of Everyone». Haaretz. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ Pallis, Elfi (6 jul. 2001). «Israel Shahak: Belsen survivor who attacked Israel's treatment of Palestinians». The Guardian. Consultado em 19 jan. 2026
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- ↑ Adams, Michael (26 jul. 2001). «Israel Shahak». The Independent. Arquivado do original em 6 ago. 2011
- ↑ a b c d e f Mezvinsky, Norton (20 ago. 2001). «Israel Shahak (1933-2001)». Washington Report on Middle East Affairs. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ Adams, Michael (26 jul. 2001). «Israel Shahak». The Independent. Arquivado do original em 6 ago. 2011
- ↑ Pallis, Elfi (6 jul. 2001). «Israel Shahak: Belsen survivor who attacked Israel's treatment of Palestinians». The Guardian. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ O'Dwyer, Thomas (12 jul 2001). «Scourge of Everyone». Haaretz. Consultado em 19 jan. 2026
- ↑ a b c Hitchens, Christopher (23 jul 2001). «Israel Shahak, 1933-2001». The Nation. Consultado em 23 jul 2001. Arquivado do original em 30 ago. 2013
- ↑ a b c Rickman, Dan (17 mai. 2009). «Israel Shahak: a voice of controversy». The Guardian. Consultado em 20 jan. 2026. Cópia arquivada em 22 ago. 2014 Verifique data em:
|data=(ajuda) - ↑ Shahak, Israel; Mezvinsky, Norton (1999). Jewish Fundamentalism in Israel (PDF). [S.l.]: Pluto. ISBN 0 7453 1281 0
- ↑ a b Katzman, Avi (17 jul. 2001). «Prof. Israel Shahak, Scourge of Nationalists, Laid to Rest». Haaretz. Consultado em 20 jan. 2026
- ↑ Genizi, Haim (2002). The Holocaust, Israel, and Canadian Protestant churches. [S.l.]: McGill-Queen's Press. p. 94. ISBN 978-0-773-57039-9
- ↑ Vidal, Gore (Jewish History, Jewish Religion). Introduction. [S.l.]: Pluto. p. 4. ISBN 978-0-745-30819-7 Verifique data em:
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