Isaura Correia Santos

Isaura Correia Santos
Pseudónimo(s)Uma Alentejana
Nascimento
Alegrete, concelho e distrito de Portalegre, Alentejo
Morte
Fevereiro 1989 (75 anos)

Hospital do Carmo, Porto
NacionalidadePortuguesa
CônjugeAbel Santos
OcupaçãoJornalista, Cronista, Tradutora, Conferencista e Professora
Prémios1946 - Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho com a obra “O Senhor Sabe Tudo Contou…”
CondecoraçõesConceção do título de cidadã honorária do Estado do Texas

Isaura Correia Santos (Alegrete, 14 de março de 1914 - Porto, fevereiro de 1989) foi uma jornalista, cronista, tradutora, escritora, conferencista e professora portuguesa, reconhecida, sobretudo, pelo trabalho desenvolvido na área do jornalismo e da literatura infantojuvenil durante o século XX.[1]

Natural da freguesia de Alegrete, no distrito de Portalegre, iniciou cedo a sua atividade na imprensa, colaborando com vários periódicos nacionais, como O Comércio do Porto e República. A sua carreira foi marcada pela valorização da cultura, da educação e das tradições regionais, tornando-se uma figura de destaque no panorama jornalístico e literário português.[2]

Paralelamente ao seu percurso na vertente do jornalismo, dedicou-se à literatura infantojuvenil, publicando obras com forte componente pedagógica e cultural. Entre os seus títulos mais conhecidos encontram-se Braçada de Lendas de Perto e de Longe (1956) e O Regresso do Senhor Sabe-Tudo (1959).[3]

Em 2024, Isaura Correia Santos foi homenageada na sua terra natal, num tributo promovido pelo Município de Portalegre que incluiu a inauguração da Biblioteca Isaura Correia Santos, na Escola Básica de Alegrete, bem como uma exposição dedicada à sua vida e obra.[4][5]

Vida pessoal

Isaura Correia Santos casou-se aos 17 anos com o pintor Abel dos Santos, professor de desenho na Escola Industrial Fradesso da Silveira, em Alegrete.[6] O artista produziu um retrato da autora que se tornou amplamente reconhecido.

Isaura passou muito tempo no estrangeiro a trabalhar para o jornal da BBC em Londres, mas possuía com o seu cônjuge uma casa de férias em Portugal, na Póvoa de Varzim, mais especificamente em Soutelinho, que se destinava ao repouso do casal e do filho. Não se sabe dados acerca deste, mas a redatora menciona num artigo por volta da década de 70 que se recusava de "oferecer o filho para ir para a guerra", referente ao período da Guerra Colonial.[1][6][7]

Ao longo da sua vida, acompanhou mudanças políticas, sociais e culturais significativas do século XX, incluindo a Primeira Guerra Mundial, as ditaduras europeias, a Guerra Fria e a Guerra Colonial. Permaneceu uma longa parte da sua vida em Londres, regressando posteriormente ao Porto, local onde permanece até à sua morte.[2]

Um dos episódios mais marcantes na vida de Isaura ocorreu na Póvoa de Varzim, onde sofreu um acidente de viação. A autora passou algum tempo a recuperar na Ordem da Trindade, no Porto, período durante o qual afirmou ter compreendido ideias e pensamentos que antes não lhe eram claros, conduzindo-a a uma reflexão espiritual. Em julho de 1988, faleceu a sua empregada e amiga Filomena, conhecida por Filó. Pouco tempo depois, Isaura foi internada no Hospital do Carmo, onde faleceu em fevereiro de 1989.[2]

Percurso Profissional

Isaura Correia Santos abordou, sobretudo, temas sociais e culturais, dirigindo-se tanto ao público infantil como aos leitores adultos. A sua carreira jornalística começou no Voz Portalegrense, onde publicou a sua primeira redação a 16 de setembro de 1939. O artigo, intitulado "O nosso Alentejo", surgiu assinado com o pseudónimo Uma Alentejana, designação que utilizou na maioria da sua produção jornalística.[6]

Numa entrevista concedida a Dora Correia da Silva sobre a presença do Alentejo na sua obra, Isaura declarou: "nos meus contos e novelas falo frequentemente da minha terra e da minha província, louvando o comportamento honesto, laborioso, pacifista do povo alentejano. Por exemplo, no meu romance E a Charneca Sorriu…, refiro-me à reforma agrária e às cooperativas."[6]

Colaborou com diversos jornais, entre os quais República, O Comércio do Porto, República, O Primeiro de Janeiro, Jornal de Notícias, O Infante, O Despertar, Correio de Portalegre, Notícias da Figueira, Portugal de Aquém e de Além-Mar e o jornal infantil Pim-Pam-Pum. Trabalhou ainda para O Povo de Aveiro, Democracia do Sul, A Tarde, Defesa da Beira, O Vila Realense, Jornal de Elvas, Poveiro, Comércio de Gaia, Notícias de Guimarães e O Primeiro de Janeiro, vindo a assumir a direção do jornal A Voz do Ave.[6]

Carreira internacional

A carreira de Isaura Correia Santos adquiriu dimensão internacional quando se mudou para Londres, na década de 1940, integrando os serviços de redação da BBC.[2] Até à década de 1970, continuou a desempenhar um papel relevante na elaboração dos textos divulgados pelo jornal, atuando paralelamente como conferencista, primeiro em Londres, sobre o processo de escrita, e posteriormente em Portugal, no Instituto Britânico do Porto.[6]

Tertúlia intelectual

Após regressar a Portugal, organizou uma tertúlia semanal na sua residência, na Praça da Galiza, no Porto, reunindo escritores, jornalistas e outros intelectuais, como Dona Correia da Silva (colaboradora da Crónica Feminina) e o poeta Jorge Condeixa. As discussões centravam-se sobretudo na literatura, mas também na política e na economia.[6] A tertúlia ficou conhecida no meio cultural portuense, em grande parte pela tradição do chá servido em porcelanas finas pela sua empregada Filó. Os sábados eram destinados a um convívio entre amigos e colegas que partilhavam opiniões diversas para a edificação de um Portugal cada vez melhor. Apesar do número reduzido de presentes, essas ideias eram muitas vezes partilhadas por escrito, permitindo aos leitores conhecer os diferentes pontos de vista sobre determinados assuntos.[1][7]

Obras Literárias

O Senhor Sabe Tudo Contou… obra premiada com o galardão Maria Amélia Vaz de Carvalho pelo Secretariado Nacional de Informação.

A autora destacou-se pelas suas contribuições para a literatura portuguesa infantojuvenil e pela escrita de romances, crónicas e textos de carácter biográfico que exploram diversos temas.[3]

Bibliografia selecionada

Entre as suas obras destaca-se O Senhor Sabe Tudo Contou…, publicado em 1946, obra premiada com o galardão Maria Amélia Vaz de Carvalho pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI) no mesmo ano e tornando-se uma referência no panorama literário nacional.[6]

O sucesso desta obra levou a autora a criar a coleção O Senhor Sabe Tudo.[2] Coleção que combina entretenimento e educação, apresentando diferentes culturas, locais e aspectos essenciais da vida. Entre as nove obras que a compõem destacam-se[3]:

  • O Regresso do Senhor Sabe Tudo (1948)
  • O Senhor Sabe Tudo em Évora (1949)
  • O Senhor Sabe Tudo em Lisboa (1951)
  • O Senhor Sabe Tudo na Suíça (1953)
  • O Senhor Sabe Tudo e os Seus Amores (1957)
  • O Senhor Sabe Tudo em Paris (1959)
  • O Senhor Sabe Tudo na América do Norte (1962)

Entre as suas obras destinadas ao público infantil incluem-se ainda[3]:

  • Contos para as Crianças (1942)
  • O Sarapico e Outras Histórias (1943)
  • Fernandinho e o ABC (1947)
  • Madalena e os Pirilampos (1947)
  • A Festa do Galo (1954)
  • Aventuras de um Grãozinho de Areia (1954)

Para além destas coleções, Isaura Correia Santos publicou outras obras, entre as quais se destacam O Quinto Mandamento (1952)[8], um romance escrito em homenagem ao seu marido[9], Abel Santos; Braçada de Lendas de Perto e de Longe (1956), que reúne narrativas da tradição oral portuguesa[10] e História da Minha Vida (1957) de carácter autobiográfico, dedicada à sua mãe.

Contribuições Jornalísticas

A autora colaborou ainda com os jornais O Comércio do Porto e República, abordando temas sociais e culturais, e, tal como conferencista e tradutora, contribuiu para o desenvolvimento da literatura e da cultura portuguesas.[6]

No jornal O Comércio do Porto, Isaura Correia Santos publicou várias das suas obras de carácter romanesco:

  • Eu e Meu Filho (1952)
  • Maria Cruz (1953)
  • E a Charneca Sorriu (1954)
  • Feia (1955)
  • O Melhor Poema da Minha Vida (1956)
  • Bonita (1957)
  • A Vida Vai Começar… (1969)

Contribuições na área da tradução

Como tradutora, contribuiu para a divulgação de literatura estrangeira em Portugal. Entre as obras traduzidas encontram-se Os Emigrantes de Mayford, de Robert N. Webb (1968)[11] e Alberto Schweitzer, de Jo Manton (1960).[12]

Contribuições, relevância e conhecimento

A sua produção para o público juvenil e infantil desempenhou um papel relevante na promoção da leitura entre os mais jovens e mantém-se em catálogos e circuitos editoriais.[3] Atuou como jornalista e cronista em diversos periódicos, distinguindo-se pelas crónicas dedicadas a temas sociais e culturais, que contribuíram para o debate público da época. No plano local, o seu legado literário e jornalístico foi integrado na vida cultural da sua terra natal por meio de iniciativas destinadas a preservar a sua memória e a divulgar as suas obras junto das comunidades escolares e culturais.[5]

A atuação de Isaura abrangeu dois campos que raramente se cruzavam, a literatura infantil e a crónica jornalística, tornando-a uma referência no panorama cultural português do século XX. As suas obras destinadas ao público infantojuvenil ampliaram a oferta literária dirigida às crianças, enquanto a sua produção jornalística reforçou a presença da sua voz em espaços de opinião pública. A relevância de Isaura também resulta da integração das suas obras e figura no património cultural local, consolidando-a como um símbolo da valorização da cultura regional.[3]

Reconhecimento público e distinções honoríficas

O reconhecimento público de Isaura Correia Santos materializou-se em várias homenagens oficiais ao longo da sua vida e após a sua morte. Ainda em vida, foi distinguida com o título honorário de cidadã do Estado do Texas, atribuído pelo respetivo governador.[7]

Em 2024, por ocasião do 110.º aniversário do seu nascimento, teve lugar uma cerimónia na sua vila natal, Alegrete, que incluiu o descerramento de uma placa comemorativa, a inauguração de uma biblioteca escolar e uma exposição dedicada à sua vida e obra.[4]

A autora foi igualmente distinguida com o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho, atribuído em reconhecimento da qualidade da sua produção escrita. O seu nome integra diversas bases de dados dedicadas a escritoras portuguesas, reforçando o enquadramento institucional e académico da sua contribuição para a literatura portuguesa do século XX.[1][6]

Referências e bibliografia

  1. a b c d Silva, H.P. (21 de janeiro de 2021). «Isaura Correia Santos: Uma grande senhora do Alentejo». Notícias de Viseu. Consultado em 28 de outubro de 2025 
  2. a b c d e Silva, H.P. (12 de fevereiro de 2014). «Isaura Correia Santos: uma alentejana de Alegrete». Jornal Mundo Lusíada. Consultado em 28 de outubro de 2025 
  3. a b c d e f Ruas com História (14 de março de 2018). «Recordamos hoje Isaura Correia Santos, escritora e tradutora, que merece ser mais conhecida [Post de blogue]». Ruas com História. Consultado em 28 de outubro de 2025 
  4. a b Câmara Municipal de Portalegre (18 de março de 2024). «Homenagem a Isaura Correia dos Santos em Alegrete». Câmara Municipal de Portalegre. Consultado em 28 de outubro de 2025 
  5. a b Leitão, P. (15 de março de 2024). «Alegrete homenageia escritora Isaura Correia Santos e perpetua memória desta ilustre alegretense». Jornal Alto Alentejo. Consultado em 28 de outubro de 2025 
  6. a b c d e f g h i j Almeida, T. de S. (Coord.) (2019). «Projeto "Escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração"». Mulheres Escritoras. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  7. a b c Silva, H.P. (21 de fevereiro de 2014). «Isaura Correia Santos — uma alentejana de Alegrete». PAZ. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  8. «Dos Livros- O Quinto Mandamento de Isaura Correia Santos» (PDF). Jornal Notícias de Guimarães. 25 de janeiro de 1955. Consultado em 25 de novembro de 2025 
  9. Almeida, Teresa (2019). «O Quinto Mandamento». Mulheres Escritoras. Consultado em 25 de novembro de 2025 
  10. Almeida, Teresa de Sousa (2019). «Braçada de Lendas de Longe e de Perto». Mulheres Escritoras. Consultado em 25 de novembro de 2025 
  11. «Registros de Isaura Correia Santos». Rede de bibliotecas de Castelo Branco. 1968. Consultado em 25 de novembro de 2025 
  12. «Detalhes do registro do livro Alberto Schweitzer». Centro de Documentação e Informação António Sérgio. 1960. Consultado em 25 de novembro de 2025