Inundações em Moçambique em 2026

Inundações em Moçambique de 2026 refere-se à série de inundações e cheias que afetaram a República de Moçambique entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, causadas por chuvas intensas e sistemas meteorológicos extremos durante a época chuvosa. O evento resultou em pelo menos 103 mortes, afetou cerca de 173 mil pessoas, destruiu 1 160 casas completamente e danificou parcialmente milhares de habitações, com potencial de afetar até dois milhões de pessoas até ao final da época chuvosa em abril de 2026.[1][2]

O governo moçambicano ativou alerta vermelho em todo o território nacional, ordenando retiradas compulsivas de populações das áreas de maior risco, particularmente na província de Gaza, onde se estima que 400 mil pessoas estejam em risco de serem deslocadas.[3] O evento é descrito pelas autoridades como a pior época chuvosa dos últimos anos, comparável aos eventos extremos de 2000 e 2001.

Contexto meteorológico

As enchentes de 2026 resultaram de uma combinação de fatores meteorológicos e hidrológicos. A época chuvosa 2025-2026 em Moçambique, que começou em outubro de 2025 e estende-se até abril de 2026, foi marcada pela ocorrência de chuvas intensas e extremas a partir de dezembro.[4]

Em janeiro de 2026, o Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) de Moçambique emitiu sucessivos avisos vermelhos indicando precipitações superiores a 100 milímetros em 24 horas em várias regiões, acompanhadas de trovoadas severas.[5] O ciclone tropical intenso Dzuzai, embora não tenha afetado diretamente o território continental moçambicano, contribuiu para o sistema meteorológico extremo ao formar-se na bacia sudoeste do Oceano Índico, apresentando velocidades de vento de 175 quilómetros por hora e rajadas até 250 quilómetros por hora.[6]

A situação meteorológica agravou-se pela descarga elevada de volume nas barragens regionais, particularmente a Barragem de Massingir que, segundo relatos de autoridades, atingiu em 16 de janeiro de 2026 o seu nível máximo de 127 metros, situação não registada desde 1977.[7] Adicionalmente, o Limpopo, Incomáti e outros rios transbordaram, causando cheias generalizadas no sul do país. Este cenário é comparável ao de 2000, quando a combinação de chuvas intensas, cheias e o ciclone Eline causaram aproximadamente 700 mortes em Moçambique.

Impacto

Impacto humanitário

Até 15 de janeiro de 2026, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) contabilizava 103 pessoas mortas desde o início da época chuvosa, com 173 mil pessoas afetadas.[1] O número de vítimas distribuía-se desigualmente, com a província de Gaza como epicentro das perdas humanas, embora províncias do centro e sul como Manica, Sofala, Inhambane e Maputo também registassem vítimas significativas.

Na localidade de Chinhacanine, no Distrito de Guijá da província de Gaza, cerca de 2 000 pessoas foram desalojadas das suas habitações pelas águas, incluindo aproximadamente mil crianças.[2] A Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos estimou que pelo menos 400 mil pessoas na província de Gaza (em particular nos distritos de Chókwè, Guijá, Chibuto e Xai-Xai) correriam risco de deslocação compulsiva, com potencial aumento para meio milhão na eventualidade de junção dos rios Incomáti e Limpopo.[3]

Centros de acomodação foram ativados em diversos pontos do país para abrigar desalojados. Por exemplo, no centro de acolhimento de Mafassitela, no distrito de Mapai, todas as pessoas cercadas pelas cheias foram encaminhadas para receber assistência.[1]

Impacto na infraestrutura

As inundações provocaram danos extensos na infraestrutura física de Moçambique. Segundo o INGD, 1 160 casas foram completamente destruídas e mais de 4 000 ficaram parcialmente inundadas desde o início da época chuvosa até janeiro de 2026.[2] Estimativas adicionais apontam para 19 mil residências inundadas em todo o país.

A Administração Nacional de Estradas (ANE) registou intransitabilidade generalizada em troços críticos da rede rodoviária. Particularmente grave foi a interrupção do tráfego na Estrada Nacional 1 (EN1), o principal eixo de ligação entre o norte, centro e sul do país, afetada entre o Rio Save e Muxungue, particularmente nos trechos sobre os rios Muar e Ripembe.[8] A ANE havia previamente estimado que aproximadamente 5 000 quilómetros de estradas não revestidas poderiam ser afetados, com potencial de prejuízos superiores a mil milhões de meticais.[9]

Na província de Nampula, a intransitabilidade afetou trechos críticos em nove distritos, incluindo a Estrada Regional 683 que liga Mametil a Chalaua, tornada intransitável pelo galgamento de águas e danos estruturais na ponte metálica sobre o rio Muririmue.[10]

Relativamente a instalações de saúde e educação, a Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos registou a afetação de aproximadamente 150 escolas e cerca de 80 unidades hospitalares nas zonas de risco, limitando o acesso a serviços essenciais.[3] O Parque Nacional da Zona Úmida de Xinguti, localizado em Maputo, também foi afetado, com suspensão de todas as atividades de safari desde meados de janeiro.

Impacto económico

O impacto económico das enchentes estendeu-se particularmente ao setor agrícola. Desde o início da época chuvosa em outubro de 2025, foram perdidos mais de 54 000 hectares de área agrícola, prejudicando 5 698 agricultores.[4] A Direção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos estimou que aproximadamente 10 mil hectares adicionais de produção agrícola estariam em risco nas zonas vulneráveis. As perdas na produção alimentar têm implicações diretas na segurança alimentar de comunidades vulneráveis, particularmente considerando os efeitos acumulados das secas induzidas pelo fenómeno climático El Niño nos anos anteriores.

Resposta

Resposta governamental

Em resposta à crise, o governo de Moçambique, através do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), ativou protocolo de alerta vermelho em 15 de janeiro de 2026, reforçando mecanismos de coordenação centralizada e mobilização de recursos de emergência.[11] O Conselho de Ministros de Moçambique convocou sessão extraordinária em 15 de janeiro para avaliar a situação e coordenar respostas. O governo ordenou retiradas compulsivas de populações das zonas de alto risco, com prioridade nas províncias de Manica, Sofala, Inhambane, Gaza e Maputo.

A Assembleia da República de Moçambique aprovou contribuição de recursos para assistência imediata. Em 16 de janeiro de 2026, a comissão permanente deliberou que os deputados contribuiriam com dois dias de salários, num total de 2 709 120 meticais (aproximadamente 36 400 euros), a serem canalizados para o INGD.[12]

Coordenação com Nações Unidas

As Nações Unidas, através de diversas agências, coordenaram resposta humanitária em Moçambique. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) solicitou cinco milhões de dólares em financiamento de emergência até março de 2026 para compra de 20 mil caixas de suplementos nutricionais destinados a tratar desnutrição aguda grave, estimando que 15 mil crianças estavam em risco de morte e 100 mil necessitariam de tratamento, embora apenas 20% pudessem ser apoiadas com recursos disponíveis.[13]

O escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) estimou necessidade de 346 milhões de dólares (294 milhões de euros) em 2026 para apoio humanitário urgente em Moçambique, envolvendo aproximadamente 1,1 milhões de pessoas afetadas pelo agravamento de condições climáticas extremas e insegurança.[14]

Atividades de organizações não governamentais

A organização não governamental internacional World Vision Moçambique mobilizou assistência humanitária para famílias desalojadas, com distribuição de jerricãs, baldes, cobertores e purificadores de água, além de atividades de proteção à criança. A organização concentrou-se particularmente no distrito de Guijá, onde previu assistir famílias nos centros de acolhimento.[2]

A Cruz Vermelha de Moçambique, em coordenação com o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC), ampliou operações de resposta a emergências fornecendo abrigo, água, saneamento, higiene e proteção a populações vulneráveis em áreas afetadas.

Contexto histórico e comparações

As enchentes de 2026 ocorrem num contexto de vulnerabilidade climática recorrente de Moçambique. O país é considerado um dos mais severamente afetados pelas alterações climáticas globais, enfrentando ciclicamente eventos extremos.[4]

O evento de 2026 é comparável a desastres naturais anteriores significativos. Em 2000, Moçambique foi devastado por enchentes seguidas do ciclone Eline (de categoria 2), evento que causou aproximadamente 700 mortes, 500 mil deslocados e destruição de 12% da área cultivada do país.[15]

Entre 2024 e 2025, Moçambique foi atingido pelos ciclones Chido, Dikeledi e Jude, que causaram 313 mortes, 1 255 feridos e afetaram mais de 1,8 milhões de pessoas. O mais notório evento recente anterior foi o ciclone Idai de março de 2019, descrito como o ciclone mais forte a afetar Moçambique desde o Eline, com categoria 3 e velocidades de vento de 200 quilómetros por hora, tendo causado mais de mil mortes na região.[16]

Estudos académicos indicam que no período de 1983 a 2023, Moçambique foi impactado por mais de 26 ciclones tropicais, resultando em 6 249 273 pessoas afetadas e 1 352 óbitos, com períodos especialmente críticos entre 1999-2000, 2002-2003, 2011-2012 e 2018-2022.[17]

Ver também

Referências

  1. a b c «País sob alerta. Cheias em Moçambique já causaram mais de 100 mortes». RTP Notícias. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  2. a b c d «Mais de 3.000 pessoas com casas inundadas no sul de Moçambique». Correio da Manhã Canadá. 17 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  3. a b c «Moçambique. 400 mil pessoas em risco de retirada compulsiva». Observador. 14 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  4. a b c «Moçambique acompanha formação de ciclone Dzuzai na bacia do Índico». Correio da Manhã Canadá. 12 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  5. «Moçambique com novo aviso vermelho de chuvas muito fortes até sexta-feira». RTP Notícias. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  6. «INAM alerta que tempestade "Dzuzai" evoluiu para estágio de ciclone tropical intenso». Diário Económico. 13 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  7. «Governo moçambicano convoca reunião urgente devido às cheias». Deutsche Welle. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  8. «Colapsos rodoviários recorrentes levantam dúvidas sobre a qualidade das obras». Revista Tempo. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  9. «Cinco mil quilómetros de estrada poderão ser afectados na presente época chuvosa e ciclónica 2025-2026». Rádio Moçambique. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  10. «Nampula: chuva provoca intransitabilidade em troços de nove distritos». AIM News. 3 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  11. «Governo activa alerta vermelho em todo o território nacional». AIM News. 16 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  12. «Deputados doam mais de 2,7 milhões de meticais às vítimas das inundações». AIM News. 16 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  13. «Moçambique: Unicef precisa de US$ 5 milhões para salvar milhares de crianças». UN News. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  14. «Nações Unidas precisam 294 ME face ao agravar da situação humanitária em Moçambique». Correio da Manhã Canadá. 1 de janeiro de 2026. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  15. «Desafios de Moçambique após os ciclones Idai e Kenneth». Instituto de Estudos Políticos, Universidade Católica Portuguesa. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  16. «Entenda o ciclone que devastou Moçambique e Zimbábue». RFI. 21 de março de 2019. Consultado em 17 de janeiro de 2026 
  17. «Vulnerabilidade geográfica de Moçambique e seus desafios». Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, UNESP. Consultado em 17 de janeiro de 2026