Introdução da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau da Bahia

Introdução da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau da Bahia
LocalBahia Bahia
LocalizaçãoSul da Bahia
InquéritoArquivado

A Introdução da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau da Bahia, também conhecido como ataque bioterrorista da vassoura-de-bruxa ou ainda Operação Cruzeiro do Sul, refere-se à introdução e disseminação intencional da praga vassoura-de-bruxa (causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa) nas plantações de cacau do sul da Bahia, no final da década de 1980.

A hipótese mais aceita para explicar o desencadeamento da crise que devastou cerca de 600 mil hectares de lavouras é a de bioterrorismo.[1] A autoria do suposto crime foi atribuída pela Veja à ação deliberada de militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), com o objetivo de enfraquecer politicamente e economicamente os produtores locais, e facilitar a ascensão política do PT na região, em denúncia veiculada pela VEJA que teve por base a "confissão" de um ex-técnico da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC) e administrador de empresas. O evento transformou o Brasil de segundo maior produtor mundial de cacau em importador líquido, gerando prejuízos estimados em US$ 10 bilhões e impactos sociais profundos, incluindo falências, suicídios e migração em massa.[2][3][4][5][6]

A conclusão do inquérito da Polícia Federal em 2006 reforçou a hipótese de bioterrorismo, e classificou o caso como um "ato humano intencional", porém, não apontou nenhum suspeito, arquivando o caso com base na prescrição do suposto crime e também devido à falta de evidências da suposta confissão.[1]

Em 2011, a Controladoria Geral da União (CGU) do governo Dilma Rousseff optou pelo mesmo desfecho: arquivamento do processo, alegando a impossibilidade de investigar algo que havia ocorrido 20 anos antes.[1]

Antecedentes

A Bahia, especialmente o sul do estado, foi historicamente o coração da cacauicultura brasileira. No final dos anos 1980, o Brasil produzia cerca de 400 mil toneladas anuais, representando 15% do mercado global, atrás apenas da Costa do Marfim. A cultura do cacau sustentava uma economia próspera, com mais de 200 mil empregos diretos e uma elite rural influente. A vassoura-de-bruxa é endêmica na Amazônia, onde não causa danos significativos devido ao clima e à ausência de monocultura. Na Bahia, no entanto, as plantações no sistema cabruca favoreceram sua letalidade.

A crise e a disseminação

O primeiro foco foi detectado em 22 de maio de 1989, na Fazenda Conjunto Santana, de Francisco Lima Filho, presidente da União Democrático Ruralista (UDR) local e opositor político do petismo. Focos simultâneos surgiram em locais distantes, sem contaminação intermediária, padrão incompatível com dispersão natural (vento, água ou insetos), segundo relatórios da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC). Técnicos encontraram ramos infectados amarrados aos troncos das árvores, facilitando a propagação. Várias hipóteses foram inicialmente levantadas para explicar o ocorrido, incluindo sabotagem internacional por parte de países africanos,[7] bioterrorismo político,[8] ou até mesmo introdução por “curiosidade ou ignorância” de produtores da região norte.[7]

Documentos oficiais mostram que vários itens que serviram como prova do crime desapareceram.[9]

O caso da "confissão" de bioterrorismo de Luiz Henrique Timóteo

Em 2006, dezessete anos após o primeiro foco ser detectado, o técnico da CEPLAC Luiz Henrique Franco Timóteo, dizendo-se arrependido, confessou e detalhou o crime à Polícia Federal (PF) e reafirmou a confissão na CPI do Cacau.[9][10][11]

Segundo o relato, em 1987 ele participou de uma reunião realizada no bar e churrascaria Caçuá, localizado na Praça Camacan, em Itabuna (BA). Nesse encontro, reuniram-se cerca de oito a dez pessoas, entre as quais estariam Geraldo Simões, Wellington Duarte, Elieser Corrêa, Everaldo Anunciação e Jonas Nascimento, todas ligadas à CEPLAC e filiados ao PT, com exceção do próprio Timóteo, que militava no Partido Democrático Trabalhista (PDT). Na ocasião, foi proposto por Geraldo Simões que se introduzisse deliberadamente a praga vassoura-de-bruxa na região cacaueira do sul da Bahia, com dois objetivos principais: enfraquecer econômica e politicamente os grandes produtores de cacau, sob a justificativa de que “eles só se candidatavam a vereador e prefeito quem eles queriam”, e abrir caminho para que o PT assumisse protagonismo no poder local.[7][11][12]

Durante a reunião, foram formulados os meios para concretizar a operação, batizada de "Operação Cruzeiro do Sul", com a estrela de quatro pontas significando que a vassoura-de-bruxa seria disseminada nos quatro pontos cardeais. O próprio Timóteo foi escalado para buscar os ramos infectados da praga no estado de Rondônia, onde a doença é endêmica. A logística envolveu viagens de ônibus a partir de Ilhéus trazendo uma primeira leva de material infectado, entre quarenta e cinquenta ramos, em um saco plástico no bagageiro do ônibus. Nos quatro anos seguintes repetiria a viagem com intervalos de quatro a seis meses entre uma e outra, agora trazendo o material infectado em sacos de arroz umedecido.[7][11]

Os ataques às fazendas aconteciam sempre nos fins de semana, quando diminui o número de funcionários. O grupo tinha o cuidado de usar um carro com logotipo da CEPLAC para criar um álibi: se eles fossem descobertos por alguém, diriam que estavam fazendo um trabalho de campo. Uma vez na região alvo, os ramos eram amarrados diretamente em troncos de árvores-cacaueiro nas fazendas consideradas de alta influência política e econômica. O método visava garantir o início de focos da doença que, por meio da contaminação vegetativa, espalhassem-se rapidamente pelo território, provocando o colapso da lavoura.[7][11]

Timóteo afirma que, a partir dessa ação intencional, a praga emergiu “de uma hora para outra” no sul da Bahia, espalhando-se com rapidez e atingindo grandes áreas de produção de cacau. E ainda sobre o atentado, emenda: “No início de 1992, parou. Geraldo Simões disse que a praga estava se propagando de forma assustadora. Não precisava mais.”.[7]

Durante o depoimento em 2006, à CPI do Cacau, que durou mais de três horas, ele também apresentou mais uma denúncia: Um grupo de cacauicultores e empresários baianos teriam tentado introduzir intencionalmente, em 1993, a vassoura-de-bruxa também na Costa do Marfim – país africano que hoje é o maior produtor de cacau do mundo. Presente à sessão, o superintendente da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Geraldo Dantas Landim, informou, no entanto, que não existe vassoura-de-bruxa no continente africano.

Além disso, vários dos acusados, negaram participação na sabotagem biológica que o administrador de empresa fez. Os técnicos da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), Jonas Nascimento e Everaldo Anunciação, e o chefe do centro de extensão do órgão, Elieser Barros Correia, disseram na comissão que sequer conhecem pessoalmente o autor das denúncias, publicadas pela primeira vez numa reportagem da revista Veja. Elieser Correia foi além e disse ter sido informado pelo agricultor Luciano Thomas sobre a ocorrência de uma reunião na qual o ex-coordenador da Ceplac, Carlos Viana (que já depôs na CPI), teria dito que estava preparando uma bomba contra o PT na região. Essa reunião, segundo ele, teria sido realizada oito meses antes das denúncias terem sido publicadas na revista e teria contado com a participação de Timóteo. Correia garantiu que o agricultor inclusive confirmou essa informação em depoimento prestado à Polícia Federal.[13]

Apesar da confissão de Timóteo, a investigação foi arquivada pela PF sem apresentar culpados, com base na prescrição do crime.[9][12] Também, o vice-presidente da CPI, Valmir Assunção (PT), por exemplo, observou que a CPI precisa agora buscar as provas de que Timoteo está falando a verdade, já que ele alega ter destruído todos os documentos relacionados ao caso após orientação de Geraldo Simões. Entre outras acusações, Timóteo disse ainda que a cúpula do PT teria furtado uma máquina off-set da Ceplac para imprimir material de campanha. Contudo, o próprio confesso admitiu não ter provas de qualquer acusação apresentada.[14]

Seis anos após a confissão à PF, Timóteo reafirmou, mesmo sem as provas, o relato ao documentário O Nó – Ato Humano Deliberado, mas depois do objetivo inicial de enfraquecimento dos “barões do cacau”, houve uma mudança de motivação: passou-se a “provar à Ceplac sua necessidade”, ou seja, produzir-se o desastre para demonstrar que o órgão ainda teria função central na defesa da lavoura.[9]

Impactos

A introdução e rápida disseminação da vassoura-de-bruxa provocaram um colapso na cadeia produtiva do cacau baiano. Estima-se que cerca de 600 mil hectares de plantações tenham sido devastados ou severamente comprometidos, sendo a maior parte de minis, pequenos e médios produtores que tinham propriedades de até 100 hectares,[9] resultando em perdas econômicas acumuladas da ordem de 10 bilhões de dólares ao longo da década de 1990 e início dos anos 2000.[7] O Brasil, que já ocupou posição de destaque entre os maiores produtores e exportadores globais de cacau, perdeu competitividade e chegou à condição de importador da matéria-prima.[9]

A súbita queda da produção gerou o desemprego direto de mais de 200 mil trabalhadores rurais, além de impactos indiretos em toda a economia regional. Calcula-se que aproximadamente 800 mil pessoas tenham migrado devido ao evento, dando origem a fluxos migratórios intensos em direção às periferias de grandes centros urbanos. Muitas famílias, antes inseridas na economia agrícola, passaram à informalidade urbana e a condições precárias de moradia, ampliando processos de favelização. Além disso, houve um aumento nos casos de depressão e suicídios entre aqueles que perderam tudo.[9]

No campo político, o enfraquecimento econômico dos grandes produtores de cacau, historicamente influentes, alterou o equilíbrio de poder regional. Nesse contexto, a suposta Operação Cruzeiro do Sul foi um sucesso. Em 1992, no primeiro pleito eleitoral depois da devastação, Geraldo Simões, apontado como mentor da operação, elegeu-se prefeito de Itabuna pelo Partido dos Trabalhadores.[4]

Referências

  1. a b c «A bruxa do cacau». Super. Consultado em 11 de janeiro de 2026 
  2. Schmitt, Paula. «O cacau, a bruxa e os motivos nobres». Poder360. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  3. «Veja 2 – O bioterrorismo dos petistas | Reinaldo Azevedo». VEJA. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  4. a b Editor (21 de junho de 2006). «AGROTERRORISMO - Petistas Acusados de propagar praga do Cacau». DefesaNet. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  5. «Administrador confirma denúncias em depoimento à CPI do Cacau». Assembleia Legislativa da Bahia. 12 de setembro de 2006. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  6. Erro de citação: Etiqueta <ref> inválida; não foi fornecido texto para as "refs" nomeadas :42
  7. a b c d e f g Editor (21 de junho de 2006). «AGROTERRORISMO - Petistas Acusados de propagar praga do Cacau». DefesaNet. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  8. Homewood, Brian (20 de julho de 2025). «Fungus threat to Brazil's 300 million cocoa trees». New Scientist (em inglês). Consultado em 30 de outubro de 2025 
  9. a b c d e f g Schmitt, Paula. «O cacau, a bruxa e os motivos nobres». Poder360. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  10. «Veja 2 – O bioterrorismo dos petistas | Reinaldo Azevedo». VEJA. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  11. a b c d «Administrador confirma denúncias em depoimento à CPI do Cacau». Assembleia Legislativa da Bahia. 12 de setembro de 2006. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  12. a b «Pronunciamento de César Borges em 20/06/2006 - Pronunciamentos - Senado Federal». www25.senado.leg.br. Consultado em 30 de outubro de 2025 
  13. Oficial, Diário (14 de Dezembro de 2006). «Acusados negam participação na disseminação da vassoura-de-bruxa». al.ba.gov.br. Consultado em 11 de Janeiro de 2026 
  14. «Administrador confirma denúncias em depoimento à CPI do Cacau». Assembleia Legislativa da Bahia. 12 de setembro de 2006. Consultado em 18 de janeiro de 2025