Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina

Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina
Secretária de Estado da Saúde de Santa Catarina
LocalizaçãoAvenida Engelberto Koerich, 333, Colônia Santana, São José, SC, Brasil
Fundação10 de novembro de 1941 (84 anos)
TipoPúblico
Rede hospitalarSUS
Leitos160
EspecialidadesPsiquiatria

O Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ) é um hospital público brasileiro, localizado na cidade catarinense de São José. Aberto em 1996, é referência para psiquiatria em Santa Catarina, atendendo para emergências e internação nesta área, além de também ter especialidades em neurologia e clínica geral.

Apesar da reforma antimanicomial ocorrida no século XX no Brasil, profissionais de saúde do IPQ Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina costumam ser acusados por familiares de pacientes internados de maltratarem tais pacientes, e de acobertarem crimes contra eles a exemplo de agressão física e abuso sexual, tendo sido alvo de processos judiciais, o que levanta importantes discussões a respeito da garantia dos direitos de pacientes com doenças mentais internados e da continuação da luta antimanicomial, problemas semelhantes a outras unidades públicas de saúde do Estado. Em abril de 2023 esteve entre os seis hospitais classificados pela Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina como em situação estrutural crítica prestes a colapsar.[1][2][3][4] O Ministério Público do Estado de Santa Catarina já chegou a implementar o Programa de Fiscalização das Internações Psiquiátricas Involuntárias e aprimorar o registro tecnológico detalhado desse tipo de internação. Em 2025, duas pacientes foram presas em flagrante após fugirem desesperadamente do Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ), e roubarem um veículo no bairro Colônia Santana, em São José, para obterem sucesso no escape. No entanto, após o roubo, a dupla acabou batendo em outro carro estacionado, o que frustrou a fuga do hospital, e foram detidas pela polícia na ocasião.[5] [6] [7] [8] [9] [10] [11]

O IPQ é o sucessor do Hospital Colônia Santana, um dos hospitais mais antigos do estado, que existiu entre 1941 e 1995, criando em seu entorno uma comunidade que originou o bairro Colônia Santana. Este hospital foi criado durante o período das políticas higienistas, sendo um local de destino para pessoas com transtornos mentais serem afastadas do convívio social, ficando longe dos principais núcleos urbanos da Região Metropolitana de Florianópolis. Com as novas políticas de saúde mental, o Hospital foi extinto e sua estrutura foi convertida no Instituto de Psiquiatria e no Centro de Convivência Santana, voltado aos internos que não retornaram as suas famílias.

No ano de 1976, durante a Ditadura Militar (1964-1985) no Brasil, o célebre cantor Gilberto Gil esteve internado durante alguns dias neste hospital após condenação judicial por portar um cigarro de maconha durante a realização de um show em Florianópolis, tendo a pena sido substituida por tratamento médico e ele transferido para o Rio de Janeiro posteriormente; à época a legislação em relação às drogas ilícitas eram mais severas devido ao autoritarismo governamental não distinguindo usuário de traficante. A internação teria inspirado a Gilberto Gil na composição de duas músicas: "Sandra" e "Aqui Agora".[12][13][14]

História

Hospital Colônia Santana

O higienismo lançou tendências para a organização das cidades nos séculos XIX e XX. Uma delas consistia em afastar pessoas consideradas na época inadequadas para o convívio com a sociedade, como prisioneiros, prostitutas e portadores de doenças diversas, criando locais distantes dos centros urbanos para envia-los. Em Florianópolis, essa política levou ao surgimento da Penitenciária da Pedra Grande em 1930 e do Hospital Nereu Ramos, voltado inicialmente a tuberculosos, em 1943, ambos no atual bairro Agrônomica, que na época era considerado longe do Centro.[15][16] Já em São José, além da Vila Palmira, em Barreiros, para onde foram enviadas nos anos 1960 as casas de prostituição para manter a "moral e os bons costumes" do Centro[17] dois hospitais foram construídos no interior do município: o Hospital Santa Tereza, de 1940, voltado a portadores de hanseníase, que hoje fica em São Pedro de Alcântara, e o Hospital Colônia Santana, alguns quilômetros ao leste do Santa Tereza.[18]

Construído no então Salto do Maruim, o Hospital Colônia Santana foi aberto pelo presidente Getúlio Vargas e pelo governador Nereu Ramos no dia 10 de novembro de 1941 com 311 pacientes - o local foi construído para trezentas pessoas, e em 1947 já tinha 428. O nome Santana veio da santa de devoção dos donos do terreno onde foi construído o Hospital, e com a chegada dos construtores em 1939, e depois das pessoas que trabalhavam lá, uma comunidade começa a se formar em torno do local. Foi a origem do atual bairro Colônia Santana. Até hoje, Colônia Santana é usada popularmente como metonímia para se referir ao Instituto de Psiquiatria.[18]

Os pacientes do Hospital Colônia Santana não eram, necessariamente, pessoas com transtornos mentais, apesar do hospital ter esse objetivo. A Colônia Santana também foi o local para envio daqueles que precisavam - ou foram obrigados a - se retirar do convívio social, o que incluía, por exemplo, pessoas que foram afastados por seus familiares, como pais ou cônjuges, pelos mais diversos motivos, não apenas de saúde - por exemplo, maridos que queriam ficar livres de suas esposas. Antes de 1971, quando o governo catarinense assume a gestão do hospital, não havia qualquer triagem que definisse quem de fato precisasse de tratamento, levando a superlotação, e os trabalhadores do hospital eram escolhidos por indicação e não por concurso. O local chegou a ter 2,7 mil internos, mais que nove vezes o previsto inicialmente, e os funcionários não eram tão numerosos para atender efetivamente a todos.[18][19][20]

O hospital usava técnicas que mais tarde foram revisadas com as novas diretrizes de saúde mental, como o eletrochoque, usado até 1984 como castigo, quando foi proibido - hoje é usado apenas em casos específicos de procedimentos cirúrgicos. Psicotrópicos só passaram a ser usados nos anos 1970, e tratamentos com insulina foram largamente usados.[18][19][20]

Instituto de Psiquiatria

Em 1995, o Hospital Colônia Santana foi descredenciado e fechado, e sua estrutura foi reaberta em 1996 como uma nova instituição, o Instituto de Psiquiatria. O IPQ tem, na atualidade, 160 leitos, e é voltado para pacientes de curta permanência - diretrizes estabelecidas pela Lei da Reforma Psiquiátrica.[21] Ao fechar, o Hospital tinha mil internos, e muitos foram transferidos ou enviados a suas famílias, mas alguns não tinham para onde ir, e parte da estrutura do antigo Hospital Colônia Santana se tornou o Centro de Convivência Santana, onde ficaram seiscentos internos. No início de 2020, ainda haviam pouco mais de cem internos.[18][19]

Estrutura

O Instituto de Psiquiatria é mantido pela Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina, e seus gastos mensais ficam em cerca de 2,6 milhões de reais mensais. As especialidades clínicas do IPQ são Psiquiatria, Neurologia e Clínica Geral, também contando com outros serviços de apoio a diagnose e terapia para Farmácia, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Serviço Social e Radiologia. O Instituto conta também com Terapeuta Ocupacional e Educador Físico. São mais de 35 profissionais no corpo clínico e mais de trezentos funcionários. Como outras unidades de saúde, problemas de financiamento e estrutura existem no IPQ. Em 2019, 7836 pacientes foram atendidos na emergência.[22][23]

Outras estruturas relacionadas ao IPQ são o Centro de Documentação e Pesquisa (Cedope), que guarda a história do local, a Residência Terapêutica e o Centro de Convivência Santana, voltado aos internos que não retornaram as suas famílias após as mudanças de 1995-1996.[24][19]

Apesar da reforma antimanicomial ocorrida no século XX no Brasil, profissionais de saúde do IPQ Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina costumam ser acusados por familiares de pacientes internados de maltratarem tais pacientes, e de acobertarem crimes contra eles a exemplo de agressão física e abuso sexual, tendo sido alvo de processos judiciais, o que levanta importantes discussões a respeito da garantia dos direitos de pacientes com doenças mentais internados e da continuação da luta antimanicomial, problemas semelhantes a outras unidades públicas de saúde do Estado. Em abril de 2023 esteve entre os seis hospitais classificados pela Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina como em situação estrutural crítica prestes a colapsar.[25] [26] [27]

O Ministério Público do Estado de Santa Catarina já chegou a implementar o Programa de Fiscalização das Internações Psiquiátricas Involuntárias e aprimorar o registro tecnológico detalhado desse tipo de internação com o intuito de evitar violação de direitos. Em 2025, duas pacientes foram presas em flagrante após fugirem desesperadamente do Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPQ), e roubarem um veículo no bairro Colônia Santana, em São José, para obterem sucesso no escape. No entanto, após o roubo, a dupla acabou batendo em outro carro estacionado, o que frustrou a fuga do hospital, e foram detidas pela polícia na ocasião.[28] [29] [30]

Referências

  1. Borges, Viviane Trindade (dezembro de 2013). «Um "depósito de gente": as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant'Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996». História, Ciências, Saúde-Manguinhos: 1531–1549. ISSN 0104-5970. doi:10.1590/S0104-59702013000500006. Consultado em 5 de julho de 2025 
  2. «Polícia investiga suspeita de abuso sexual contra paciente no Instituto de Psiquiatria, em São José». NSC Total. Consultado em 13 de junho de 2025 
  3. «Interdições e 'colapso' evidenciam abandono do Instituto de Psiquiatria em São José». ndmais.com.br. 19 de abril de 2023. Consultado em 5 de julho de 2025 
  4. SC, Do G1 (12 de setembro de 2014). «Vigilância fecha hospital após suspeita de violência contra pacientes». Santa Catarina. Consultado em 5 de julho de 2025 
  5. «MPSC reúne médicos psiquiatras para apresentar sistema de registro e acompanhamento de internações involuntárias». MPSC. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  6. «Mulheres fogem de hospital psiquiátrico, roubam carro e acabam presas após colisão». Rádio Cidade. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  7. Silveira, Leandro (13 de outubro de 2025). «Dupla de mulheres foge de hospital psiquiátrico, rouba carro, sofre acidente e é presa em SC». CBN Total. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  8. «Polícia investiga suspeita de abuso sexual contra paciente no Instituto de Psiquiatria, em São José». NSC Total. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  9. «Interdições e 'colapso' evidenciam abandono do Instituto de Psiquiatria em São José». ndmais.com.br. 19 de abril de 2023. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  10. SC, Do G1 (12 de setembro de 2014). «Vigilância fecha hospital após suspeita de violência contra pacientes». Santa Catarina. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  11. Borges, Viviane Trindade (2013). «Um "depósito de gente": as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant'Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996». História, Ciências, Saúde-Manguinhos: 1531–1549. ISSN 0104-5970. doi:10.1590/S0104-59702013000500006. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  12. LOPES, FERNANDA (19 de novembro de 2019). «Documentário da HBO mostra julgamento e condenação de Gilberto Gil por maconha». Notícias da TV. Consultado em 5 de julho de 2025 
  13. «O hospício». CartaCapital. 24 de setembro de 2015. Consultado em 5 de julho de 2025 
  14. «Imagens da História: o dia em que Gil foi condenado por uso de maconha». Consultor Jurídico. Consultado em 5 de julho de 2025 
  15. «A penitenciária de Florianópolis e sua evolução no tempo». Âmbito Jurídico. 1 de outubro de 2010. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  16. «Referência em doenças pulmonares, Hospital Nereu Ramos atende 22 mil pacientes por ano». Nd+. 4 de julho de 2019. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  17. «Uma vila chamada Palmira, onde a perdição era a regra». Notícias do Dia. 29 de dezembro de 2020. Consultado em 25 de novembro de 2017 
  18. a b c d e Marcela, Ximenes (18 de janeiro de 2020). «Colônia Santana: o hospital que deu origem ao bairro em São José». ND+. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  19. a b c d Caldas, Mariella (10 de novembro de 2011). «Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina comemora 70 anos». Notícias do Dia. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  20. a b Borges, Viviane Trindade. «Um "depósito de gente": as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant'Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996» (PDF). Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  21. «LEI No 10.216, DE 6 DE ABRIL DE 2001.». Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Presidência da República. 6 de abril de 2001. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  22. «Instituto de Psiquiatria». Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina. 20 de Agosto de 2018. Consultado em 22 de Dezembro de 2020 
  23. «Servidores do Instituto de Psiquiatria, de São José, ficam sem refeições pela 2ª vez em menos de um mês». Hora de Santa Catarina. 9 de outubro de 2019. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  24. «IPQ: um hospital chamado de casa». Notícias do Dia. 20 de setembro de 2011. Consultado em 29 de dezembro de 2020 
  25. «Polícia investiga suspeita de abuso sexual contra paciente no Instituto de Psiquiatria, em São José». NSC Total. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  26. «Interdições e 'colapso' evidenciam abandono do Instituto de Psiquiatria em São José». ndmais.com.br. 19 de abril de 2023. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  27. Borges, Viviane Trindade (2013). «Um "depósito de gente": as marcas do sofrimento e as transformações no antigo Hospital Colônia Sant'Ana e na assistência psiquiátrica em Santa Catarina, 1970-1996». História, Ciências, Saúde-Manguinhos: 1531–1549. ISSN 0104-5970. doi:10.1590/S0104-59702013000500006. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  28. «MPSC reúne médicos psiquiatras para apresentar sistema de registro e acompanhamento de internações involuntárias». MPSC. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  29. «Mulheres fogem de hospital psiquiátrico, roubam carro e acabam presas após colisão». Rádio Cidade. Consultado em 7 de dezembro de 2025 
  30. Silveira, Leandro (13 de outubro de 2025). «Dupla de mulheres foge de hospital psiquiátrico, rouba carro, sofre acidente e é presa em SC». CBN Total. Consultado em 7 de dezembro de 2025