Instituto Terra

Interior do Instituto Terra em Aimorés, Minas Gerais, Brasil, em 2014.
Logotipo do Instituto Terra
Instituto Terra em seu segundo ano de funcionamento, 2000. disponibilizada pelo Studio Sebastião Salgado para o site do Instituto Terra.

Instituto Terra é uma organização não governamental (ONG) que atua como centro de recuperação ambiental com sede no município brasileiro de Aimorés, no estado de Minas Gerais.[1] Foi fundada pelo fotógrafo Sebastião Salgado e por sua esposa, Lélia Wanick Salgado, em 1998.[1][2] A instituição administra a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Bulcão e áreas vizinhas, somando 2 346 hectares em restauração e conservação da Mata Atlântica. Até 2024, foram produzidas mais de 7,5 milhões de mudas e plantadas mais de 3 milhões de árvores nativas, com registro de retorno de mais de 230 espécies de fauna.[3]

Histórico e descrição

O Instituto Terra surgiu de uma iniciativa de Sebastião e Lélia Salgado de reflorestarem a Fazenda Bulcão, localizada nas margens das nascentes que formam o córrego Bulcão em Aimorés, Minas Gerais. O córrego Bulcão é um afluente do rio Doce. O fotógrafo viveu nessa fazenda em sua infância com sua família, que utilizava a área para a criação de gado. Essa atividade provocou o desmatamento do lugar, composto por mares de morros.[4]

Na década de 1990, Sebastião e Lélia Salgado retornaram ao Brasil depois de passarem uma temporada fotografando tragédias humanitárias pelo mundo, como a fome na Etiópia, o pós-guerra no Kuwait, o Genocídio em Ruanda e migrações de refugiados. Após esse retorno, como meio de se recomporem, deram início a uma organização não governamental com o objetivo de recuperarem a mata e as nascentes da antiga Fazenda Bulcão.[4] Sua criação, efetivada em abril de 1998,[5][6] teve o auxílio do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade e doações de empresas e famosos.[4]

Instituto Terra depois de quase 30 anos de reflorestamento. Por Sebastião Salgado.

As condições ambientais enfrentadas incluíam temperaturas elevadas, solos compactados, relevo íngreme e longos períodos de seca. Apesar das dificuldades, o projeto de reflorestamento consolidou-se com o plantio de mais de 3 milhões de árvores nativas em 26 anos de atuação.[3][7]

Cerca de 2 milhões de árvores foram plantadas na área da Fazenda Bulcão.[8] Da área de 709,84 h da fazenda, 608,69 h foram reconhecidos como reserva particular do patrimônio natural (RPPN)[9] mediante a Portaria Nº 081 do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais (IEF-MG) em 7 de outubro de 1998.[10] Em 2001, o Instituto Terra começou a produzir mudas de Mata Atlântica típicas do Vale do Rio Doce para serem usadas na RPPN Fazenda Bulcão e em projetos externos.[11] Dez anos depois, o domínio da floresta pelos morros era explícito.[1]

A atuação do instituto foi ampliada posteriormente a outros locais. Cabe ressaltar o estímulo a proprietários de terra da bacia do rio Doce em Minas Gerais e no Espírito Santo que possuam nascentes a proteger esses mananciais, através da doação de materiais, compensações com infraestrutura e reflorestamento com Mata Atlântica para cercá-las.[8][12] Até 2021, pelo menos 2 mil nascentes já haviam sido atendidas pelo Instituto Terra.[13] As mudas e árvores utilizadas nos plantios são produzidas nos viveiros da própria ONG.[12]

Retorno da fauna

Evolução do reflorestamento do Instituto Terra

O processo de restauração florestal favoreceu o retorno da fauna nativa, com o registro de mais de 200 espécies de animais na área da RPPN e fazendas contíguas. Entre elas estão papagaio-chauá, bugio-ruivo, tamanduá-de-colete, lobo-guará, jaguatirica e onça-parda.[3][14]

Expansão territorial e de atuação

A partir de 2023, o Instituto ampliou sua área com a aquisição das fazendas Cantinho do Céu, Maria Bonita, Chucha e Constância, todas contíguas à RPPN Fazenda Bulcão. Com isso, a área total sob gestão passou a 2.346 hectares.[3]

O viveiro-escola do Instituto já produziu mais de 7,5 milhões de mudas de espécies nativas, utilizadas em projetos internos e externos. Esse trabalho consolidou o Instituto como um polo de irradiação de biodiversidade e um laboratório vivo de práticas de restauração.[15]

Sob a presidência de Juliano Ribeiro Salgado, filho dos fundadores, o Instituto Terra expandiu sua atuação institucional, integrando redes internacionais de restauração e mudanças climáticas. A organização passou a ser reconhecida como referência global em práticas de sustentabilidade e regeneração florestal.[16]

Educação ambiental

Em 2005 foi criado o Centro de Educação em Restauração Ambiental (CERA), dedicado à sensibilização comunitária e à formação profissional. Entre os programas desenvolvidos estão o Terrinhas, voltado a estudantes e professores da região, que inclui o TerrinhasCast;[17] o Núcleo de Estudos em Restauração Ecossistêmica (NERE), curso intensivo de 11 meses que capacita jovens como agentes de restauração;[15] e o Terra Jovens, criado em 2023, que incentiva a participação juvenil em atividades comunitárias.[3]

Desenvolvimento rural

Em 2010, o Instituto começou a executar o programa Olhos d'Água, responsável pela recuperação de mais de 2 000 nascentes em propriedades rurais da bacia do rio Doce. A iniciativa se consolidou como referência em segurança hídrica e conservação de solo.[17]

Em 2023, o Instituto lançou o Terra Doce, evolução do Olhos d'Água, que além da recuperação de nascentes passou a implementar sistemas agroflorestais, sistemas silvipastoris, pomares agroecológicos e outras práticas produtivas adaptadas às condições de cada agricultor.[3][18]

Infraestrutura

Além dos viveiros, a estrutura do Instituto Terra em Aimorés abrange duas residências que foram preservadas da antiga fazenda. O complexo também possui cine-teatro, teatro de arena, alojamentos para estudantes e professores, alojamentos de empregados, refeitório, biblioteca, museu arqueológico, salão de exposições e áreas de lazer. O cine-teatro é destinado sobretudo a escolas e à comunidade da região.[1]

Reconhecimento

O Instituto Terra já foi tema de exposições no Brasil e no exterior,[19] recebeu apoio da Iniciativa BNDES Mata Atlântica[7] e é citado em publicações nacionais e internacionais como exemplo de restauração ambiental de larga escala.[14]

Referências

  1. a b c d Geraldo Benicio (14 de agosto de 2015). «Instituto Terra: a ONG de Sebastião Salgado no Vale do Rio Doce». ArchDaily. Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  2. Empresa Brasil de Comunicação (EBC) (5 de junho de 2019). «Ong promove desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce». Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  3. a b c d e f «Relatório de Atividades 2024» (PDF). Instituto Terra. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  4. a b c Pedro Carvalho (7 de maio de 2018). «A batalha de Sebastião Salgado para (ainda) tentar salvar Mariana». GQ. Consultado em 5 de maio de 2022. Cópia arquivada em 9 de fevereiro de 2019 
  5. Instituto Terra. «O que antes era pasto agora é floresta». Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  6. O Estado de S.Paulo (15 de maio de 2010). «Quem é Lélia Salgado». GQ. Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  7. a b «Projeto Instituto Terra - Iniciativa BNDES Mata Atlântica». BNDES. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  8. a b Miriam Leitão (19 de abril de 2015). «Instituto inicia projeto para proteger nascentes do Vale do Rio Doce». O Globo. Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 13 de maio de 2015 
  9. Alexandre Guzanzhe e Carlos Herculano Lopes (2 de junho de 2014). «Instituto Terra concretiza sonho de Lélia e Sebastião Salgado e é tema de exposição». Uai. Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  10. Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo (IEMA) (4 de abril de 2009). «Novas áreas de Mata Atlântica no Espírito Santo recebem título de Posto Avançado». Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  11. Instituto Terra. «Produção de mudas nativas da Mata Atlântica». Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  12. a b Bragança, Laudino e Silva 2017, p. 291
  13. G1 (14 de março de 2021). «Instituto Terra recupera mais de duas mil nascentes no ES e em MG». Consultado em 15 de agosto de 2022. Cópia arquivada em 15 de agosto de 2022 
  14. a b «From barren land to thriving forest: Instituto Terra». Global Voices (em inglês). 5 de junho de 2025. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  15. a b «Instituto Terra: um lugar e um método de recuperação ambiental». Projeto Preserva. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  16. «Juliano Ribeiro Salgado». G20 Land Initiative. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  17. a b «Instituto Terra multiplica nascentes e biodiversidade no Vale do Rio Doce». Projeto Colabora. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  18. «Instituto Terra: uma inspiração para todo o planeta». Reflorestar.org. Consultado em 24 de setembro de 2025 
  19. «Instituto Terra concretiza sonho de Lélia e Sebastião Salgado e é tema de exposição». UAI. Consultado em 24 de setembro de 2025 

Bibliografia

Ligações externas