Infância (romance de Liev Tolstói)
| Детство | |
|---|---|
| Infância | |
![]() Primeira página da primeira publicação (1852) | |
| Autor(es) | Liev Tolstói |
| Idioma | russo |
| País | |
| Gênero | Romance semi-autobiográfico |
| Série | Quatro Épocas de Crescimento |
| Linha temporal | Século XIX (1830-1840) |
| Localização espacial | Rússia |
| Editora | Современник (revista "O Contemporâneo") |
| Lançamento | 1852 |
Infância (em russo: Детство; romaniz.: Détstvo) foi o primeiro romance publicado pelo escritor russo Liev Tolstói. A publicação ocorreu na edição de novembro de 1852 da prestigiada revista literária russa "O Contemporâneo" (em russo: Современник; romaniz.: Sovremennik).[1]
Infância e suas sequências, Adolescência, publicada em 1854, e Juventude, publicada em 1856, formaram uma trilogia, que tornou o jovem escritor famoso e reconhecido como uma promessa do cenário literário russo.[2]
Escrita e publicação
Após deixar a universidade em 1847, e herdar a propriedade de Iasnaia Poliana, Tolstói pretendia se dedicar a administrar a fazenda e ao sustento dos servos. Seu diário, no entanto, mostra que os quatro anos seguintes foram passados em grande parte em Moscou, São Petersburgo e Tula. Em 1851, foi para o Cáucaso, onde se reuniu com o irmão, Nikolay, que servia o exército russo.[3] Como o irmão, Tolstói também se alistou, na unidade de artilharia. Posicionado em uma vila cossaca distante, longe de suas distrações favoritas — vinho, mulheres e jogatina —, acabou se dedicando à escrita, e, em 1852, compôs seu primeiro trabalho, Infância.[4]
Em 1848, Nikolai Nekrássov, poeta e radical, comprou "O Contemporâneo" (em russo: Современник; romaniz.: Sovremennik), revista literária fundada dez anos antes, por Alexandre Pushkin que, sob sua direção, tornou-se o principal periódico literário da época,[5] bem como a casa da intelligentsia de mentalidade progressista e liberal, publicando importantes autores ocidentalistas, como Herzen e Turguêniev, e contar com a colaboração de críticos proeminentes, como Vissarion Belinski.[6]
Em julho de 1852, Tolstói enviou o manuscrito de Infância a Nekrássov, sem revelar sua verdadeira identidade, identificando-se somente pelas iniciais de seu nome, "L. N.".[6] Tolstói explicou que Infância era a primeira parte de uma tetralogia, que ele planejava chamar "Quatro Épocas de Crescimento".[5]
Em meados de agosto daquele mesmo ano, Nekrássov respondeu a Tolstói, dizendo-lhe que, após ler seu manuscrito, decidira publicá-lo, por considerar o romance cativante, e um material que tinha muito de interessante.[5]
A obra, que acabou inicialmente sendo publicada como História da Minha Infância (em russo: История моего детства; romaniz.: Istoriya moyego detstva), foi bem recebido por críticos e leitores,[7] inclusive atraindo a atenção de romancistas russos famosos, como Ivan Turguêniev e Fiódor Dostoiévski.[4] No entanto, Tolstói ficou profundamente insatisfeito, e expressou sua frustração em uma carta enérgica enviada a Nikolai Nekrássov, em que reclamou que o título que fora dado à obra distorcia sua intenção original, já que sugeria uma narrativa pessoal e desinteressante, ao passo que Infância refletia um propósito mais amplo e literário.[7]
Enredo
Infância é uma obra escrita como uma coleção de cenas e retratos construídos a partir de lembranças de Nikolai "Nikolenka" Irtêniev — alter ego de Tolstói —, contados em primeira pessoa e unidos através de comentários e generalização. Reflete a vida familiar da nobreza russa, e mescla autobiografia e ficção, retratando lembranças que o protagonista tem de sua infância, marcada por brincadeiras, descobertas e sensações próprias dessa fase da vida,[8][9][10][11] sendo, aos 10 anos de idade, precoce, cheio de imaginação, vaidoso e desajeitado.[12] A infância de Nikolai é descrita até o momento da morte de sua mãe, através de uma narrativa sensível e detalhada das experiências e sentimentos da criança, revelando sua visão de mundo e as relações familiares. É uma obra que busca reviver e dar permanência a esse período da vida, com uma linguagem introspectiva e poética.[13][8][9]
Os vinte e oito curtos capítulos da obra se concentram, em sua maior parte, nos eventos de dois dias específicos da infância do narrador — um deles passado no campo, e outro, na cidade.[12] Os capítulos de 1 a 13 representam um dia no campo, e contêm descrições de lições, visitas, caça, jogos, e "algo similar à natureza do primeiro amor", além de ilustrações do tutor do menino, de sua mãe, seu pai e sua babá. Um pequeno interlúdio descreve, em dois capítulos, a mudança do campo para a cidade. Já os capítulos de 16 a 24 são dedicados ao dia do nome da avó, ocorrido um mês depois, enquanto uma coda final descreve um momento ocorrido seis meses depois, onde a doença da mãe do menino à leva a morrer, e onde também ocorre a morte de sua antiga babá.[12]
Personagens
Personagens principais[14]
Nikolai Irtêniev (Nikólenka, Koko): protagonista e narrador, em primeira pessoa de toda a trilogia. A história é contada a partir de suas lembranças, e seu desenvolvimento emocional e intelectual é o foco principal da narrativa.
Natália Nikoláevna (a mãe): mãe de Nikólenka, retratada como uma figura de amor, ternura e pureza. Sua doença e morte representam um ponto de virada emocional significativo na vida do narrador.
Piotr Aleksândrytch (o pai): pai de Nikólenka, um cavalheiro da velha guarda com traços de empreendedorismo, autoconfiança e gosto pela boemia. Ele é uma figura influente na educação e nas decisões da família.
Karl Ivânytch (Mauer): tutor alemão de Nikólenka e Volódia. Inicialmente visto com irritação pelo narrador, sua história de vida e seu bom coração são revelados, marcando-o como uma figura bondosa, embora de destino infeliz.
Vladímir Petróvitch (Volódia, Volódenka): irmão mais velho de Nikólenka, seu companheiro de infância, fonte de admiração e, por vezes, de complexos para o narrador. Suas paixões e comportamentos influenciam diretamente a percepção de mundo de Nikólenka.
Natália Sávichna: antiga e devotada criada da casa, que ajudou na criação dos filhos e serviu à mãe de Nikólenka com lealdade inabalável. Sua figura é associada ao amor puro e ao sacrifício, e sua morte é um evento marcante na história.
Sônetchka: jovem por quem Nikólenka desenvolve seu primeiro amor platônico, introduzida em um baile. Ela é um catalisador para as primeiras experiências sociais e emocionais do narrador, fora do ambiente familiar.
Personagens secundários[14]
Liúbotchka: irmã mais nova de Nikólenka, é sua companheira de brincadeiras e parte integrante das dinâmicas familiares e sociais dos jovens protagonistas.
Mária Ivânovna (Mimi): governanta das meninas, frequentemente vista como rígida e tradicional. Suas interações com as crianças revelam as convenções sociais da época.
Kátenka (Iekaterina): filha da governanta Mimi, uma amiga próxima de Liúbotchka. Suas conversas com Nikólenka sobre as diferenças de classe e o futuro são importantes para o amadurecimento do narrador.
Iákov Mikháilov: administrador da propriedade da família, encarregado dos negócios e finanças, figura que demonstra astúcia e submissão aos senhores.
Gricha: um beato e peregrino, cuja presença na casa da avó suscita curiosidade, piedade e reflexões sobre a fé e a vida errante.
Princesa Varvara Iliínitchna (Kornakova): parente da avó, conhecida por sua loquacidade e por suas opiniões sobre a educação dos filhos.
Príncipe Ivan Ivânytch: general idoso e parente da avó, muito respeitado e influente na sociedade. Nele estão presentes os valores aristocráticos do século anterior.
Serioja (Ívin): filho do meio da família Ívin, admirado por Nikólenka por sua coragem e firmeza de caráter, sendo um amigo importante para o narrador.
Herr Frost: preceptor alemão dos irmãos Ívin, cujas características são contrastadas com as de Karl Ivânytch, representando um novo tipo de educador.
Ilinka Grap: colega de Nikólenka, filho de um estrangeiro pobre, frequentemente alvo de zombaria e brincadeiras por parte dos outros meninos.
Saint-Jérôme: preceptor francês que substitui Karl Ivânytch. Sua severidade e o foco no "comme il faut" — saber se portar na alta sociedade — causam atrito com Nikólenka, mas o forçam a confrontar suas próprias ideias de virtude e comportamento.
Macha: jovem camareira, por quem Nikólenka nutre uma paixão adolescente. Ela também tem um romance com o criado Vassíli, o que adiciona uma camada de intriga ao quarto dos criados.
Vassíli (Grúskov): criado que havia comprado sua liberdade. Ele acompanha Nikólenka em suas viagens e está envolvido em um romance com Macha, sendo um personagem com papel significativo na vida dos criados.
Semiônov: estudante que Nikólenka conhece nos exames de admissão à universidade. Ele é descrito como grisalho e enérgico, e seu desempenho é notável.
Recepção
No final de outubro de 1852, Tolstói recebeu um exemplar da edição de setembro de "O Contemporâneo". Depois de constatar que seu texto havia sido bastante editado pelo censor, e que havia sido publicado com o título "Uma história da minha infância", ficou extremamente irritado, já que havia decidido, expressamente, não escrever a história de sua própria infância.[6] Precisando de dinheiro, porém sem estar familiarizado com a prática dos periódicos literários russos — que não costumavam pagar aos autores novatos por suas primeiras publicações — acabou tendo que concordar em não receber sequer um centavo por seu trabalho, uma vez que ao menos contava com o fato de que havia um editor interessado em publicar outros textos de sua autoria.[6]
Ivan Turguêniev e Fiódor Dostoiévski, dois outros escritores russos famosos, teceram elogios à obra, o que garantiu seu sucesso estrondoso e solidificou a reputação de Tolstói. Foi à partir daquele momento que, de acordo com o escritor inglês Andrew Norman Wilson, Tolstói tornou-se um escritor.[15]
Os críticos literários demonstraram apreciar a obra, sobretudo por sua análise psicológica, e os leitores russos também fizeram muitos elogios ao misterioso, mas extremamente promissor, autor. Os familiares de Tolstói, que não tinham sido avisados de antemão sobre a publicação de um livro seu, ficaram agradavelmente surpresos quando descobriram sua identidade.[6]
Embora Tolstói tenha posteriormente afirmado não ter gostado de Infância e de suas duas sequências, a trilogia se destaca ainda hoje como um retrato sensível da infância e um retrato vívido da vida familiar russa. Nestas primeiras obras é possível notar, ainda de forma incipiente, as preocupações morais e igualitárias características da ficção posterior do autor. Tolstói nunca escreveu o quarto livro da tetralogia "Quatro Épocas de Crescimento", que originalmente planejou e mencionou a Nekrássov em 1852.[2]
Referências
- ↑ Tolstoy, Leo; O'Brien, Dora (2010). Childhood, boyhood, youth. Richmond: Oneworld Classics. p. 358. ISBN 978-1-84749-142-8. OCLC 467773389. Consultado em 12 de junho de 2025
- ↑ a b Husband, Janet G.; Husband, Jonathan F. (2009). Sequels: An Annotated Guide to Novels in Series (em inglês). [S.l.]: American Library Association. p. 657. ISBN 9780838909676. Consultado em 12 de junho de 2025
- ↑ McGraw-Hill Encyclopedia of World Drama: An International Reference Work in 5 Volumes (em inglês). [S.l.]: McGraw-Hill. 1984. pp. 32–33. Consultado em 16 de junho de 2025
- ↑ a b Lillios, Anna (dezembro de 2017). «Leo Tolstoy». Critical Survey of World Literature: p. 2892. Consultado em 16 de junho de 2025
- ↑ a b c Knowles, A. V. (12 de outubro de 2012). Count Leo Nikolaevich Tolstoy: The Critical Heritage (em inglês). [S.l.]: Routledge. pp. 47–50. ISBN 9781134724321. Consultado em 12 de junho de 2025
- ↑ a b c d e Bartlett, Rosamund (12 de agosto de 2013). Tolstói, a biografia. [S.l.]: Globo Livros. Consultado em 12 de junho de 2025
- ↑ a b Naginski, Isabelle (1982). «Tolstoy's "Childhood": Literary Apprenticeship and Autobiographical Obsession». Ulbandus Review (2): 191–208. ISSN 0163-450X. Consultado em 16 de junho de 2025
- ↑ a b «4 motivos para ler Infância, adolescência e juventude». Editora Todavia. 1 de agosto de 2018. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ a b «Infância, Adolescência e Juventude - Lev Tolstói». Poetria. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ «Infância, Adolescência e Juventude por Lev Tolstoi». Portal da Literatura. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ Nogueira, Paulo (14 de julho de 2018). «Tolstoi faz autoficção em 'Infância, Adolescência, Juventude'»
. Estadão. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ a b c Christian, R. F. (1969). Tolstoy a Critical Introduction (em inglês). [S.l.]: CUP Archive. p. 21. Consultado em 16 de junho de 2025
- ↑ «Infância, adolescência, juventude, Liev Tolstói». Editora Todavia. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ a b Tolstói, Leon (30 de abril de 2013). «cap. I a XXVIII». Infância, adolescência e juventude. [S.l.]: L&PM Pocket. ISBN 9788525429773. Consultado em 17 de junho de 2025
- ↑ Stauffer, Rachel, ed. (2014). «The Old Magician in Pursuit of Truth: Lev Tolstoy's Lifelong Search for Meaning». Russia's golden age. Col: Critical insights. Amenia, NY: Grey House Publ. [u.a.] p. 176. ISBN 978-161925222-6. Consultado em 12 de junho de 2025
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