Império Chaluquia Ocidental

O Império Chaluquia Ocidental (em canará: ಪಶ್ಚಿಮ ಚಾಲುಕ್ಯ ಸಾಮ್ರಾಜ್ಯ) governou grande parte do Decão ocidental, no sul da Índia, entre os séculos X e XII.
A dinastia é por vezes chamada Chaluquia Caliani, em homenagem à sua capital real, Caliani, atual Basavacaliã em Carnataca, ou Chaluquia Tardia, devido à sua teórica relação com a dinastia Badami Chaluquia, do século VI. A dinastia é chamada Ocidental para a distinguir da contemporânea Chaluquia Oriental de Vengi.
Antes da ascensão da dinastia, o império Rashtrakuta de Manyakheta controlava grande parte do Decão e da Índia central, governando durante cerca de dois séculos. Em 973, aproveitando a confusão que se seguiu à invasão do império pelos Paramara de Malwa, Tailapa II, um feudal do governante Rashtrakuta, que governava o distrito de Bijapur, derrotou o seu senhor e fez de Manyakheta a capital do seu novo reino. A dinastia que fundou cresceu rapidamente em poder e força militar, e o seu reino tornou-se um império sob o governante Somesvara I, que transferiu a capital para Kalyani.
Durante mais de um século, os dois impérios do Norte da Índia, os Chaluquias Ocidentais e os Cholas de Tanjore, lutaram ferozmente pelo controlo da fértil região de Vengui. Durante estes conflitos, os Chaluquias Orientais de Vengui, parentes afastados dos Chaluquias Ocidentais, mas mais próximos em sangue dos Cholas devido a casamentos arranjados, entraram no conflito ao lado dos Cholas, complicando ainda mais a situação. Foi apenas sob o reinado de Vicramaditia VI, no final do século XI, que os Chaluquias Ocidentais eclipsaram os seus rivais Cholas e atingiram o auge da sua expansão territorial. Vastas áreas entre o rio Narmada, a norte, e o rio Caveri, a sul, passaram a ser controladas pelo Império Chaluquia. Durante este período, as outras grandes casas de Decão — os Hoissalas, os Seuna Iadavas de Devaguiri, a dinastia Cacatia e os Calachuris do Sul — foram todas súbditas dos Chaluquias Ocidentais e só conquistaram a sua independência com a dissolução do poder Chaluquia no final do século XII.
Os Chaluquias Ocidentais desenvolveram o seu próprio estilo arquitetónico, conhecido hoje como estilo de transição, uma arquitetura intermédia entre os estilos do início da dinastia Chaluquia e do final do Império Hoissala. A maioria dos seus monumentos está localizada nos distritos que ladeiam o rio Tungabadra, no centro de Karnataka. Exemplos notáveis deste estilo são o Templo Kasi Vishveshvara em Lakkundi, o Templo Mallikarjuna em Kuruvati, o Templo Kalleshwara em Bagali e o Templo Mahadeva em Itagi. O seu reinado marcou um período muito importante no desenvolvimento das belas-artes no sul da Índia, nas pinturas murais, mas especialmente na literatura, pois os governantes desta dinastia incentivaram os escritores a criar e a escrever nas suas línguas nativas, o canarês e o sânscrito.
História
Grande parte do nosso conhecimento sobre a história do Império Chaluquia Ocidental advém do exame das epígrafes em canará deixadas pelos seus governantes e do estudo da literatura da época e das suas obras-primas, como o Gada Yuddha (982) escrito em canará por Ranna e o Vikramankadeva Charitam (1120) escrito em sânscrito por Bilhana.[1][2] As inscrições mais antigas datam de 957, escritas durante o reinado de Tailapa II, quando o império Chaluquia era ainda um feudo dos Rashtrakutas e Tailapa II governava de Tardavadi, no actual distrito de Bijapur, Karnataka.[3][4] A genealogia dos governantes deste império é ainda motivo de debate. Uma teoria, baseada na análise da literatura da época, sugere que os reis do império Chaluquia Ocidental pertenciam à mesma casa da ilustre dinastia Badami Chaluquia, que remonta ao século VI,[5][6] enquanto outras inscrições indicam que constituíam uma linhagem distinta, sem qualquer ligação sanguínea com os Chaluquias anteriores.[7] Poucos anos depois, Tailapa II restaurou o governo chalúquida e derrotou os Rashtrakutas governados por Karka II iniciando a sua revolta em conjunto com os problemas que surgiram na capital do reino Rashtrakuta, Manyakheta, causados pela invasão dos Paramara da Índia central em 973.[8][9] Após derrotar os Rashtrakutas, Tailapa II mudou a sua capital para Manyakheta e consolidou o império Chaluquia no Decão ocidental subjugando os Paramaras e outros povos rivais, estendendo assim o seu domínio sobre a cintura de território entre os rios Narmada e Tungabadra.[10] No entanto, algumas inscrições indicam que Balagamve, no território de Mysore, era ainda o centro de um importante poder, mesmo na época do governante Somesvara I, em 1042.[11]
A intensa rivalidade entre os reinos do Decão Ocidental e os reinos Tâmeis atingiu o seu auge durante o século XI pelo controlo dos vales férteis na região atravessada pelos rios Krishna e Godavari, denominados Vengui. As dinastias Chaluquia e Chola Ocidentais travaram muitas batalhas renhidas pelo controlo desta área estratégica. Os Cholas conquistaram um poder considerável durante o reinado do famoso rei Rajaraja Chola I e sob o reinado do príncipe Rajendra Chola I.[12] Os Chaluquias Orientais de Os Vengui eram primos dos Chaluquias Ocidentais, mas gradualmente foram-se tornando cada vez mais subjugados pelos Cholas através de uma política de casamento com o reino Tamil. Como isto era prejudicial aos interesses dos Chaluquias Ocidentais, estes não tardaram a fazer sentir a sua influência política e militar em Vengui. Quando o Rei Satyasraya sucedeu a Tailapa II, conseguiu proteger o seu reino da agressão Chola contra os territórios do norte de Konkan e Guzerate, embora o seu controlo sobre Vengui fosse bastante ténue.[13] O seu sucessor, Jayasimha II, travou inúmeras batalhas contra os Cholas no Sul, enquanto ambos os poderosos impérios lutaram também pela eleição do governante Vengui.[14] Simultaneamente a estes acontecimentos, Jayasimha II subjugou os Paramara da Índia Central.
O filho de Jayasimha, Somesvara I, transferiu a capital chalúquida para Kalyani em 1042, enquanto as hostilidades com os Cholas continuavam sem grandes resultados de ambos os lados[15][16][17][18] Em 1068 Somesvara I, sofrendo de uma doença incurável, suicidou-se por afogamento no rio Tungabhadra (Paramayoga).[19][20] Apesar das muitas dificuldades trazidas pelo conflito com os Cholas, Somesvara I conseguiu manter o controlo sobre os territórios do norte de Konkan, Guzerate, Malwa e Calinga durante todo o seu reinado. O seu sucessor, o seu filho mais velho Somesvara II, entrou em conflito com o seu irmão mais novo Vicramaditia VI, um guerreiro valente e ambicioso que tinha sido governador da região de Gangavadi no sul do Decão. Casado com uma princesa Chola (filha de Virarajendra Chola), Vicramaditia VI manteve relações de amizade com a dinastia rival. Após a morte do governante Chola em 1070, Vicramaditia VI invadiu o reino tâmil e instalou o seu cunhado, Adhirajendra, no trono, criando assim uma séria rixa com Kulothunga Chola I, o poderoso governante de Vengui que pretendia reclamar o trono Chola para si.[21] Ao mesmo tempo, Vicramaditia VI tentou enfraquecer o poder do seu irmão, Somesvara II, conquistando assim a lealdade dos seus feudatários chalúquidas: os Hoysalas, os Seunas e os Kadambas de Hanagal. Antecipando o início de uma possível guerra interna, Somesvara II procurou ajuda junto dos inimigos do seu irmão Vicramaditia VI, Culotunga Chola I e dos Cadambas de Goa. No conflito que se seguiu entre ambos, em 1076, Vicramaditia VI saiu vitorioso e autoproclamou-se rei do Império Chaluquia.[22][23]
Referências
- ↑ Kamath (2001), pp. 10–12, p. 100
- ↑ Sastry, Shama & Rao, N. Lakshminarayana. «Inscrições em Kannada». Levantamento arqueológico da Índia, inscrições do Sul da Índia, sábado, 18 de Novembro de 2006. What Is India Publishers (P) Ltd. Consultado em 28 de dezembro de 2006
- ↑ A província de Tardavadi, situada no coração do império Rashtrakuta, foi confiada a Tailapa II como um "feudo" por Rashtrakuta Krishna III pelos serviços prestados durante a guerra (Sastri 1955, p. 162)
- ↑ Kamath (2001), p. 101
- ↑ Os governantes da linhagem Chaluquia de Vemulavada, que eram definitivamente da linhagem da casa Badami Chaluquia, faziam uso do título "Malla", que é frequentemente referido também no caso dos Chaluquias ocidentais. Nomes como "Satyasraya", utilizados na dinastia Badami Chaluquia, são também utilizados na dinastia dos reis Chaluquias Ocidentais (Gopal B.R. in Kamath 2001, p. 100)
- ↑ Lendas posteriores e tradição historiográfica apontam para Tailapa como uma encarnação do deus Krishna que travou 108 batalhas contra a raça Ratta (Rashtrakuta) e capturou 88 fortalezas dos mesmos (Sastri 1955, p. 162)
- ↑ De acordo com uma inscrição que remonta a 973, Tailapa II, auxiliado pelos aliados Kadamba de Hangal, destruíram os Rattas (Rashtrakutas), matou o valente Munja (governante Paramara), cortou a cabeça a Panchala (governante Ganga) e restaurou a dignidade real dos Chaluquias (Moares 1931, pp. 93–94)
- ↑ Sastri (1955), p. 164
- ↑ Cousens (1926), p. 10, p. 105
- ↑ O Rei Rajaraja Chola conquistou algumas regiões do território chalúquida, no actual sul de Karnataka, e subjugou a dinastia Ganga Ocidental de Gangavadi (Kamath 2001, p. 102).
- ↑ De algumas inscrições de Hottur que datam de 1007 – 1008, Satyasraya foi capaz de destronar o príncipe Rajendra Chola (Kamath 2001, p. 102)
- ↑ A escolha de Jayasimha foi Vijayaditya VII, enquanto os Cholas tentaram eleger Rajaraja Narendra, o genro de Rajendra Chola I (Kamath 2001, p.102)
- ↑ Ganguli in Kamath 2001, p103
- ↑ Sastri (1955), p. 166
- ↑ Somesvara I apoiou a causa de Shaktivarman II, filho de Vijayaditya II, enquanto os Cholas apoiaram a causa de Rajendra, filho do anterior governante, Rajaraja Narendra (Kamath 2001, p. 103)
- ↑ Sastri (1955), p. 169
- ↑ Kamath (2001), p104
- ↑ Sastri (1955), p. 170
- ↑ Sastri (1955), p171
- ↑ Sastri 1955, p. 172
- ↑ Desculpando-se pelo seu governante Vicramaditia VI, o poeta caxemir Bilhana escreveu no seu Vikramanakadeva Charita que foi o próprio Shiva quem aconselhou o Chaluquia Vicramaditia VI a substituir o seu irmão mais velho no trono (Thapar 2003, p. 468)