Imigração italiana em São João del-Rei

A imigração italiana em São João del-Rei refere-se ao movimento migratório de italianos para a cidade de São João del-Rei, em Minas Gerais, ocorrido principalmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.[1] Diferentemente de outros centros, a presença de imigrantes em São João del-Rei foi motivada tanto pela necessidade de mão de obra quanto pelo desejo de "embranquecimento" da nação e de reacender a economia local, que havia arrefecido após o ciclo do ouro.[1]

Contexto

A imigração italiana em Minas Gerais, de forma mais ampla, está ligada ao fim do tráfico negreiro (1850) e à abolição da escravatura (1888), que geraram a necessidade de substituição da mão de obra escrava pela força de trabalho assalariada.[2] A Itália, por sua vez, passava por dificuldades econômicas, miséria, desemprego e crise no campo após a Unificação Italiana de 1871, o que estimulou um grandioso processo migratório.[2]

O estado de Minas Gerais, apesar de possuir a maior população do Brasil no século XIX e, em tese, mão de obra suficiente, via na imigração europeia uma solução para o problema da mão de obra nas lavouras de café e um meio de desenvolver a agricultura local com técnicas mais eficientes, além de ser influenciado pelo sucesso da imigração em São Paulo.[2] Adicionalmente, havia uma forte crença na época na superioridade racial do europeu e na inferioridade do trabalhador nacional (especialmente o afrodescendente), o que impulsionava a ideia de um "branqueamento" da sociedade brasileira.[2] Os imigrantes eram vistos como "agentes do progresso" e da modernidade.[1]

Para São João del-Rei, a atração de imigrantes não se justificava por uma grande lavoura de exportação ou por estar desabitada.[1] Em vez disso, a motivação principal era o desejo de reacender a economia local e o prestígio da cidade, que havia declinado pós-mineração.[1] Políticos locais, como o Aureliano Mourão e Severiano Nunes de Rezende, empenharam-se para que São João del-Rei tivesse uma hospedaria de imigrantes, filial da de Juiz de Fora, e para a aquisição de terras na Várzea do Marçal para a construção de casas para os colonos.[1]

Várzea do Marçal: núcleo colonial de São João del-Rei

A hospedaria de imigrantes em São João del-Rei foi inaugurada em 28 de novembro de 1888.[1] Entre 1888 e 1901, 68.474 imigrantes italianos entraram em Minas Gerais.[1] Somente em 1888, 639 imigrantes italianos chegaram a São João del-Rei, a maioria em famílias, vindos predominantemente do Norte da Itália, especialmente das províncias de Bolonha (203), Ferrara (200) e Verona (126).[1] Cerca de 86% foram destinados ao núcleo colonial na Várzea do Marçal, enquanto outros foram contratados por fazendeiros ou se estabeleceram no comércio da cidade.[1] O núcleo colonial ficou conhecido como "colônia Bolonha-Ferrara" devido à predominância de emilianos.[1]

No entanto, a implementação do núcleo colonial em São João del-Rei enfrentou consideráveis dificuldades iniciais.[1] Os imigrantes encontraram galpões mal construídos em vez de casas, falta de utensílios domésticos e víveres estragados. Houve surtos de varíola, levando à transferência da hospedaria para o bairro de Matosinhos.[1] Essa situação gerou descontentamento, com relatos de imigrantes ameaçando a cidade, embora as fontes indiquem que esses incidentes foram exagerados pela imprensa local, que os utilizava para fins políticos.[1]

Apesar dos problemas, o governo provincial decidiu manter o núcleo, ordenando a construção de casas e assistência agrícola para os colonos.[1] A produção inicial incluía frutas, verduras, flores e bordados, vendidos no Mercado Municipal[1]. Relatórios de 1896 e 1898 indicaram um crescimento na produção agrícola e manufatureira (telhas e tijolos), além de um aumento no número de colonos, incluindo brasileiros que se mudaram para as colônias.[1]

Os Registros Torrens revelaram que muitos imigrantes, após receberem os lotes do Estado, os revenderam a outros italianos ou brasileiros, o que alterou a configuração social da colônia. As colônias em Minas Gerais, ao contrário das do Sul do Brasil, não eram formadas exclusivamente por estrangeiros e acabaram sendo absorvidas pelas áreas urbanas à medida que as cidades cresciam.[2]

Inserção na sociedade são-joanense

Com as dificuldades no núcleo colonial, muitos imigrantes se mudaram para a área urbana de São João del-Rei.[1] Nas cidades, eles se inseriram em diversas atividades, muitas vezes em ofícios que já exerciam na Itália, como sapateiros, marceneiros, barbeiros e alfaiates.[1] Tornaram-se também proprietários de pequenos estabelecimentos comerciais que vendiam produtos secos e molhados, tanto nacionais quanto estrangeiros, para atender tanto a comunidade imigrante quanto a população local.[1]

Os impostos prediais indicam um aumento significativo de propriedades em posse de italianos ou seus descendentes. Em 1901, cerca de 3% das residências da cidade pertenciam a eles, subindo para 9% em 1908. Ruas como Cristóvão Colombo, Paulo Freitas e Avenida Carneiro Felipe (atual Tancredo Neves) concentravam essas famílias, muitas das quais possuíam mais de um imóvel.[1]

A Companhia Industrial São-joanense, fundada em 1891, foi um importante empregador. Cerca de 30% dos 200 primeiros operários eram italianos ou seus descendentes, sendo 54% deles mulheres, ocupando principalmente funções de fiação e tecelagem.[1] A Estrada de Ferro Oeste de Minas também empregou muitos imigrantes, inclusive fornecendo serviços de extração de madeira para dormentes e lenha.[1]

Dentre os profissionais notáveis, destaca-se André Bello, fotógrafo premiado, natural da província de Salermo, Itália, que estabeleceu seu ateliê em São João del-Rei por volta de 1906. Ele também foi tesoureiro da comissão de donativos para vítimas de catástrofes na Itália e, em parceria, fundou o cinematógrafo Ítalo-Brasileiro.[1]

Identidade e assimilação cultural

A identidade italiana no contexto da emigração era complexa, pois a Itália era um estado recém unificado (1870), e os imigrantes muitas vezes se identificavam mais com suas regiões de origem (vênetos, calabreses, sicilianos) do que como "italianos".[2] No entanto, ao chegarem ao Brasil, os brasileiros os viam indistintamente como italianos, o que contribuiu para o enfraquecimento das identidades regionais e o fortalecimento de uma identidade nacional italiana entre os imigrantes.[2]

A Società Italiana Figli del Lavoro (Filhos do Trabalho) de São João del-Rei desempenhou um papel crucial na preservação da identidade italiana, organizando festividades e comemorações que acionavam símbolos do nacionalismo italiano.[1] Eventos como o 7 de setembro (com Garibaldinos e alegorias com as bandeiras italiana e brasileira), o 20 de setembro (data da unificação italiana), a celebração fúnebre pela morte do Rei Humberto I em 1900, e campanhas de arrecadação de fundos para a Itália em momentos de catástrofes ou guerras (como o terremoto na Sicília e Calábria em 1909 ou a Guerra Ítalo-Turca em 1911-1912), mantinham viva a conexão com a pátria de origem e reforçavam a identidade do grupo.[1] A presença constante da bandeira brasileira ao lado da italiana nessas celebrações simbolizava a interação e a redefinição dessa identidade em terras estrangeiras.[1]

A interação com a sociedade local foi intensa e multifacetada. Processos criminais revelam que festas, jogos de azar e o consumo de bebidas (inclusive a cachaça, bebida brasileira) eram comuns entre imigrantes e locais nas colônias e no meio urbano.[1] A presença de um italiano como Inspetor de Quarteirão, Luigi Giarola, demonstra a inserção e o reconhecimento de alguns imigrantes na estrutura social local.[1] Houve também uma mudança nos padrões alimentares, com a disseminação de padarias italianas e a incorporação do pão e massas na dieta local.[1] A participação conjunta em festividades brasileiras, como o carnaval, também indica a apropriação cultural mútua.[1]

Legado

Apesar da rica história de interação, a falta de renovação do grupo de imigrantes italianos em São João del-Rei (o fluxo não foi contínuo após a instalação inicial) e o fato de serem minoria em comparação com a população local, levaram ao gradual desaparecimento de suas manifestações culturais mais proeminentes.[1] Os italianos e seus descendentes se integraram à sociedade local, perdendo parte de seus costumes enquanto incorporavam novos hábitos.[1]

Atualmente, o legado da imigração italiana em São João del-Rei se manifesta principalmente nos sobrenomes de muitas famílias da cidade e nos nomes de algumas ruas, especialmente nas proximidades das antigas colônias.[1]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah Teixeira, Mariana Eliane. "Ser italiano em São João del-Rei (1888 – 1914)". Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2011.
  2. a b c d e f g Lanna, Ana Lúcia Duarte. "A transformação do trabalho: a passagem para o trabalho livre na Zona da Mata Mineira, 1870-1920". Dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas, 1985.

Ver também