Igreja da Luz de Lagos

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sem protecção legal (d) |
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A Igreja da Luz de Lagos, também referida como Igreja de Nossa Senhora da Luz, é uma igreja situada na vila e na freguesia da Luz, no município de Lagos, na região do Algarve, em Portugal.[1]
A capela-mor da Igreja da Luz de Lagos está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1944.[1]
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Descrição
A igreja situa-se no interior da vila, nas imediações do castelo, das ruínas romanas, e da praia.[2] No lado setentrional da igreja encontra-se uma pequena área ajardinada, onde antes era o cemitério.[2] É considerada como um dos mais importantes monumentos religiosos no concelho de Lagos.[3]
O edifício está orientado de oriente para ocidente, como era habitual na época de construção, sendo a porta principal virada para poente.[4] Inclui uma torre com relógio.[2] Apresenta uma miscelânea de elementos tardo-góticos, manuelinos e barrocos.[5]
A capela-mor é de planta quadrada,[4] de três tramos, e possui uma abóbada estrelada com cadeia central e três bocetes ornamentados com medalhões, sendo provavelmente a parte mais antiga da igreja que foi preservada.[5] Com efeito, segundo o arqueólogo José Formosinho, a capela-mor foi a única parte da igreja que não foi destruída pelo Sismo de 1755 e depois reconstruída, tendo permanecido com a sua aparência original, de influência gótica.[4] José Formosinho descreveu a capela-mor como «no género da Igreja de N.ª S.ª de Guadalupe, mas posterior e mais rica».[4] O acesso à capela-mor é feito através de um arco ogival tríplice, sustentada por três colunelos, e com capitéis ornamentados com motivos animais e vegetais, no estilo românico.[4] O retábulo está decorado com talha dourada setecentista,[3] apresentando as imagens de Nossa Senhora da Luz, ladeada pelas de São Romão e Santo Estêvão.[2] A abóbada é artesoada, embora de decoração muito sóbria, com bocetes tanto nos pontos de cruzamento como nos cantos.[4] De acordo com José Formosinho, a influência gótica é principalmente visível nas ligações entre as abóbadas cruzadas, nas chaves dos artesões e nas colunas fasciculadas e capitéis.[4] Enquadrou estes elementos «no estilo ogival secundário», uma vez que «não tem a robustez que o período primário conservou do românico, nem o flamejante com a sua abundância de adornos e entrelaçados do períoào terciário. Como êsse período secundário teve a sua quadra no seculo XIV, predominando no século XV e parte do XVI o estilo florido ou flamejante, repito, se não fôra a data, erraria a conclusão a que devia chegar sôbre a época da sua construção.[4] Sobre o altar-mor, considerou que este estava erradamente encostado ao fundo, tendo-o descrito como sendo «de madeira trabalhada em talha, estilo barrôco pobre; seria outrora dourada e destôa em absoluto do estilo da capela».[4]
No interior destaca-se igualmente o zimbório, onde está inscrita a data de 1521 e algumas letras góticas, de significado desconhecido, e uma pia baptismal, de configuração única no Algarve, e que está ornamentada com sete quinas, representando os sete sacramentos.[2] Segundo José Formosinho, um dos florões de letra gótica tinha a inscrição «Amt.º de Freitas mandou a fazer», enquanto que a outra ostentava uma grande cruz de forma florelizada, com a inscrição «na era de 1521» nas suas hastes.[4] No passado a igreja tinha quatro altares, sendo os das Almas e e de São Pedro no lado direito, enquanto que no lado esquerdo encontravam-se os de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Encarnação, tendo esta última acolhido durante algum tempo uma imagem da Capela de Espiche, que depois regressou à sua origem.[2] No lado esquerdo também existia um púlpito.[2] A igreja tambem contava com um baptistério e outras divisões na fachada Norte da igreja, que foram destruídas, tendo os seus vestígios sido descobertos durante trabalhos arqueológicos.[6]
Na área da igreja foi descoberto um conjunto de espólio dos períodos romano, moderno e contemporâneo, que é quase totalmente formado por materiais cerâmicos, com algumas peças metálicas e em vidro.[6] O conjunto inclui fragmentos de cerâmica doméstica, faianças, cerâmica vidrada e terracota, sendo o material romano composto por terra sigillata, uma ânfora e cerâmica comum.[6] Segundo José Formosinho, nos lados nascente e setentrional da igreja existiam vestígios de uma parede amuralhada, que provavelmente servia para defender o santuário, sendo este igualmente protegido pelo castelo, situado a cerca de 50 m de distância.[4]
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História
Antecedentes e construção
O local onde se ergue a igreja foi ocupado pelo menos desde os finais da época romana, devido à presença de uma estrutura com a tipologia de uma sepultura, na qual foram reaproveitados elementos de outros edifícios, provavelmente oriundos de uma povoação próxima.[6]
O santuário foi construído em data desconhecida, sendo originalmente apenas uma ermida.[2] Devido aos elementos constantes na capela-mor, José Formosinho avançou a hipótese que teria sido edificada no século XIV.[4] Segundo a tradição popular, a imagem de Nossa Senhora presente no interior foi resgatada dos mouros que assolavam a baía de Lagos, tendo o monarca reinante ordenado que fosse preservada nesta igreja, que seria protegida por estruturas defensivas em redor e pelo castelo.[2] No zimbório da capela-mor existe a data de 1521,[2] mas José Formosinho argumenta que a arquitectura da capela-mor, e a própria cruz de Avis no florão apontam para uma construção anterior.[4]
Séculos XVIII a XX
O edifício da igreja foi muito danificado pelo Sismo de 1755,[7] só tendo sido reconstruída em 1874, embora tenha ficado com uma nova aparência.[4] O único elemento original a permanecer foi a capela-mor, que tinha sobrevivido ao sismo.[4] As obras de reconstrução do corpo da igreja foram supervisionadas por João Marreiros Neto,[2] tendo a data sido recordada com uma inscrição de 1874 na porta principal.[8] A torre foi construída com o apoio das populações locais, que também adquiriram o relógio.[2]
A igreja foi muito atingida por um ciclone de 1941, tendo perdido grande parte do telhado.[8] Foram depois feitas obras de restauro, financiadas pelo governo.[8] Porém, pouco tempo depois o telhado ruiu, tendo o arqueólogo José Formosinho referido no seu artigo A Igreja de Nossa Senhora da Luz, publicado no jornal Correio de Lagos em 9 de Janeiro de 1943, que o edifício tinha caído há poucos dias atrás, quando estava a preparar a sua classificação, em colaboração com o arquitecto Baltazar de Castro, director da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.[4] José Formosinho defendeu que a igreja deveria ser classificada com a categoria de Monumento Nacional, «visto que são poucos os exemplares góticos tam perfeitos que temos no Algarve, e datado como êste não conheço mais nenhum».[4] Tal como sucedera em 1755, a única parte da igreja que sobreviveu ao colapso na década de 1940 foi novamente a capela-mor.[4] A capela-mor foi classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 33:587, de 27 de Março de 1944.[9]
O escritor José António Pinheiro e Rosa especulou que a queda do telhado terá sido devido a obras de reparação mal executadas.[8] Pinheiro e Rosa, que estava a fazer o inventário da arte sacra no Algarve em 1945, relatou que «parecia que passara por ali o terremoto. Todo o telhado caíra. A igreja era um montão de tábuas, traves, telhas partidas e entulho».[8] No relatório que enviou para a Junta de Província, em 10 de Outubro desse ano, referiu que «foi no concelho de Lagos que encontrei a maior miséria arquitectónica que se pode ver em edifícios sacros da Província. Refiro-me à igreja da Luz de Lagos, cujo telhado caiu por inteiro, ficando de pé só a capela-mór - de valor arquitectónico -, a torre e as paredes. Devo dizer que a manutenção daquele estado de coisas é uma autêntica vergonha para a Província e que a solução alvitrada pelos Monumentos Nacionais - demolir toda a igreja deixando só a capela-mór - é contrária aos interesses espirituais da paróquia e até aos princípios da própria Arte Sacra. Nunca se viu construir-se apenas ... uma capela-mór».[8] Pinheiro e Rosa voltou a exortar para o restauro da igreja durante o II Congresso Regional Algarvio, em 1951, onde afirmou que o problema do restauro e conservação dos templos algarvios ... só pode encontrar-se num entendimento entre as autoridades civis e religiosas».[8] Outro investigador que também chamou a atenção para as condições da igreja foi José Formosinho, do Museu Municipal de Lagos, que alertou a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.[8] Nessa época, o pároco da Luz era o reverendo José António Monteiro, que tentou, sem sucesso, proceder a obras de reparação, devido principalmente a problemas financeiros e burocráticos, uma vez que desde a sua classificação que a igreja passou a ser propriedade dos Monumentos Nacionais.[8] Segundo Pinheiro e Rosa, o processo para o restauro da igreja só ganhou um grande impulso após o padre Manuel Madeira Clemente ter assumido a paróquia, em 1950.[8] Manuel Clemente conseguiu conciliar o governo central com a Diocese do Algarve, permitindo a reconstrução do monumento por parte dos Monumentos Nacionais ainda na década de 1950.[8]
A nova igreja foi descrita por Pinheiro e Rosa como «esbelta frente ao mar, graciosa na sua frontaria singela e no elegante denticulado que lhe rodeia exteriormente a capela-mór. O interior ficou sobriamente luminoso, com a teoria de pequenas frestas em ogiva, que lhe abriram no alto das paredes. A capela-mór foi «limpa». E lá admiramos o seu arco de puro ogival, com três colunelos e outras tantas arquivoltas; o tecto artesoado, cujas nervuras descansam em interessantes mísulas; e os três florões da nervura central que são curiosíssimos, pois um tem em monograma as iniciais J. H. S., outro a inscrição: "Mandou fazer Ant.º de Freitas", e o terceiro ostenta, em volta da cruz de Avis, a legenda: "Fes se§na§era§de 1521". Um escorço histórico lavrado em pedra. O fundo da capela-mór é ocupado por um retábulo do século XVIII, que agora foi redourado, e, evidentemente, foi para ali aproveitado de outra parte. Quando fiz o Inventário Artístico, deixei lá a interrogação se não estariam por detrás desse retábulo as duas mísulas exigidas pelas nervuras e até se não estaria entaipada qualquer interessante janela ou fresta gótica. Como os Monumentos Nacionais costumam ser escrupulosos na pesquisa dessas coisas, devo ter-me infelizmente enganado. Foi pena que não se tivessem reconstruído os dois altares - de N. Senhora da Conceição e S. José - que a igreja tinha em 1712, como anotou o Bispo D. António Pereira da Silva, no «Livro para me guiar no Governo do Bispado», manuscrito existente na Câmara Eclesiástica do Algarve. Foi feito um baptistério, que a igreja não possuia, e nele reposta a pia antiga que, embora tosca, é única no Algarve pela sua forma - taça heptagonal- em que se vê um simbolismo riquíssimo - o baptismo, alicerce dos sete sacramentos».[8] Esta intervenção incluiu igualmente a demolição de um edifício antigo e da supressão do cemitério, ambos situados junto da igreja.[8] Pinheiro e Rosa igualmente que estava a ser planeada a instalação de um salão paroquial, de forma a aproveitar as receitas provenientes do Cortejo das Oferendas, que originalmente se destinavam ao restauro da igreja.[8]
Século XXI
Entre Junho e Julho de 2012 a área envolvente foi alvo de trabalhos arqueológicos, devido à planeada construção do Salão Paroquial, tendo sido descoberta uma sepultura tardo-romana, um conjunto de espólio romano, e vestígios do cemitério e de de antigas divisões da igreja.[6] Em 12 de Setembro de 2023, o jornal Barlavento noticiou que estava prevista a realização de obras de restauro na igreja, que iriam abrangir a pintura exterior e o muro envolvente.[3] Esta intervenção iria ser feita pela Fábrica Paroquial da Senhora da Luz, com o apoio financeiro da Câmara Municipal de Lagos, tendo-se integrado na estratégia da autarquia para a preservação dos seus monumentos religiosos, que também incluiu o restauro da Igreja de Santa Maria, no centro da cidade.[3]
Ver também
- Lista de património edificado em Lagos
- Capela de Nossa Senhora da Encarnação de Espiche
- Castelo da Senhora da Luz
- Estação Arqueológica Romana da Praia da Luz
- Capela de São João Baptista (Lagos)
- Convento da Trindade (Lagos)
- Convento de Nossa Senhora do Loreto (Lagos)
- Ermida de Nossa Senhora dos Aflitos
- Ermida de Santo Amaro (Lagos)
- Igreja de Santa Maria da Graça (Lagos)
- Igreja do Compromisso Marítimo de Lagos
- Igreja Paroquial de Santa Maria de Lagos
- Igreja de São Sebastião (Lagos)
- Igreja de Nossa Senhora da Graça (Lagos)
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Lagos)
Referências
- ↑ a b Ficha na base de dados SIPA
- ↑ a b c d e f g h i j k l «Igreja de Nossa Senhora da Luz». Turismo. Junta de Freguesia da Luz. Consultado em 6 de Janeiro de 2024
- ↑ a b c d «Lagos: Igreja da Nossa Senhora da Luz vai ser intervencionada». Barlavento. 12 de Setembro de 2023. Consultado em 7 de Janeiro de 2024
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r FORMOSINHO, José (9 de Janeiro de 1943). «A Igreja de Nossa Senhora da Luz de Lagos» (PDF). Jornal de Lagos. Ano XVII (751). Lagos. p. 1-4. Consultado em 18 de Setembro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ a b «Igreja da Luz de Lagos». Património e monumentos. Câmara Municipal de Lagos. Consultado em 6 de Janeiro de 2024
- ↑ a b c d e «Lagos - Igreja de Nossa Senhora da Luz». Portal do Arqueólogo. Direcção-Geral do Património Cultural. Consultado em 7 de Janeiro de 2024
- ↑ PUTLEY, Julian (Abril de 2021). «The Algarve and the Earthquake of 1755». Tomorrow (em inglês) (113). Lagos. p. 12. Consultado em 28 de Abril de 2021 – via Issuu
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n ROSA, José António Pinheiro (15 de Setembro de 1957). «Uma ressureição: A Igreja da Luz de Lagos» (PDF). Jornal de Lagos. Ano XXXI (1063). Lagos. p. 1-4. Consultado em 17 de Setembro de 2025 – via Hemeroteca Digital do Algarve
- ↑ PORTUGAL. Decreto n.º 33:587, de 27 de Março de 1944. Ministério da Educação Nacional - Direcção-Geral do Ensino Superior e das Belas Artes. Publicado no Diário do Governo n.º 63, Série I, de 27 de Março de 1944.
Ligações externas
- «Página sobre a Igreja da Luz de Lagos, no portal Wikimapia»
- «Página sobre a Igreja da Luz de Lagos, no portal do Turismo do Algarve»
- Capela-mor da igreja da Luz na base de dados Ulysses da Direção-Geral do Património Cultural
- Igreja Paroquial da Luz de Lagos / Igreja de Nossa Senhora da Luz na base de dados SIPA da Direção-Geral do Património Cultural
- Lagos - Igreja de Nossa Senhora da Luz na base de dados Portal do Arqueólogo da Direção-Geral do Património Cultural