Igreja Matriz de São Bento
A ocupação das terras que hoje pertencem ao município de São Bento tem origem na antiga Capitania de Cumã, criada em 1621 pela Coroa Portuguesa, quando o Maranhão foi separado do restante do Brasil, estabelecendo-se duas capitanias principais: Maranhão e Grão-Pará. Essas foram, posteriormente, subdivididas em outras secundárias. Entre elas, o jesuíta Bettendorff — que chegou ao Maranhão em 1661 — menciona Cumã, Itapecuru, Icatu, Ucarí, Gurupi, Vigia, Joanes, Cametá, Gurupá e Norte.
A Capitania de Cumã foi doada por Francisco Coelho de Carvalho, governador do Maranhão entre 1625 e 1636, ao seu irmão, Antônio Coelho de Carvalho, Desembargador do Paço. A carta de doação e sesmaria foi expedida em 12 de junho de 1627. Abrangendo a melhor zona do Estado, esta capitania tinha como limites os rios Mearim, Pindaré e Turiaçu, além da costa maranhense. Era uma vasta e rica região, onde hoje se localizam dez municípios, entre eles São Bento, cujo território foi, diversas vezes, dividido para a criação de outros, como Cajapió (1886), São Vicente Ferrer (1856), Peri-Mirim (1919) e Palmeirândia (1959).
A primeira freguesia criada em Cumã foi a de São Mathias, cuja igreja matriz ficava na sede da capitania, Tapuitapera, elevada à condição de vila em 1648, com o nome de Santo Antônio de Alcântara.
No início da colonização, a catequização e redução dos indígenas eram conduzidas por três Ordens Religiosas — Jesuítas, Mercedários e Carmelitas — presentes na região desde 1650. Elas estabeleceram grandes fazendas de criação de gado, engenhos de açúcar e centros de coleta das chamadas “drogas do sertão”, realizadas pelos indígenas. Esses estabelecimentos eram autossuficientes e possuíam capelas onde o serviço espiritual era oferecido a todos os habitantes próximos.
Os missionários tiveram papel fundamental na formação religiosa dos indígenas e colonos, incutindo as principais devoções católicas e incentivando práticas cristãs para atrair o povo para a vida de fé.
Em 1754, o padre Roberto Martins, vigário colado da Igreja de São Mathias, enviou uma representação ao rei D. José I, relatando que sua freguesia era muito extensa que os fregueses viviam distantes, em lugares como Cumã (Guimarães) e Periaçu (São Bento). Devido às longas distâncias e dos riscos nas travessias, muitos viviam sem atendimento espiritual adequado. Assim, ele sugeriu a criação de duas novas paróquias, uma em Periaçu (São Bento) e outra em Cumã.
O governador Gonçalo Pereira Lobato e Sousa, em documento datado de 12 de maio de 1755, confirmou a solicitação do padre. No entanto, a freguesia de São Bento só seria oficialmente criada pela Provisão Régia de 2 de novembro de 1805.
A capela dedicada a São Bento, mencionada pelo padre Roberto Martins, ficava em São Bento Velho, cerca de duas léguas a leste da atual cidade. Foi edificada na primeira metade do século XVIII pelos criadores de gado, que a dotaram de uma fazenda para manutenção do culto. Segundo o historiador César Marques, o célebre jesuíta Padre Malagrida pregou diversas vezes nessa capela. A invocação de São Bento se deu em razão da abundância de cobras na região — o santo era considerado protetor contra tais pragas, protegendo tanto as pessoas quanto o gado.
Desde o início do século XVII, as terras de São Bento se destacaram pela economia baseada na criação de gado vacum e cavalar. De Alcântara partia a chamada Estrada das Boiadas, que passava por São Bento e seguia até Viana, sendo fundamental para o abastecimento da capital, São Luís.
Um relatório do Conselho Ultramarino de 1774 relatava que, à medida que a região de Cumã se desenvolvia, “...daquele sertão, toda casta de frutos do país era transportada para o Maranhão em embarcações, cinco ou seis por semana, sempre carregadas.”
Apesar do progresso econômico, no início do século XVIII as pequenas vilas e arraiais eram simples extensões rurais, formadas em torno da igreja paroquial e de um pequeno comércio. A maioria dos moradores era composta por lavradores que viviam dispersos e só frequentavam o núcleo urbano aos domingos e dias de festa.
O arraial de São Bento foi elevado à condição de freguesia em 1805, e seu primeiro vigário, Frei Manuel Justino Aires de Carvalho, foi nomeado em 11 de outubro de 1813. Ele tomou posse em 22 de dezembro, no oratório de João Alves Pinheiro, que serviu provisoriamente como igreja matriz até a construção do novo templo.
A Provisão de criação da Igreja Matriz foi emitida em 29 de agosto de 1815, e o vigário ficou responsável por arrecadar esmolas para a obra. A pedra fundamental foi lançada em 5 de outubro, e a capela-mor foi benzida em 20 de outubro de 1816. A conclusão e bênção do corpo da igreja ocorreram em 22 de fevereiro de 1817.
Após 24 anos, a igreja, construída em taipa e madeira, encontrava-se em ruínas. Em 1841, o governador da província Luís Alves de Lima (futuro Duque de Caxias) criou uma comissão para arrecadar recursos para sua reconstrução, composta pelo vigário Manoel Joaquim Pinto Cardozo, Marcolino da Costa Leite, Carlos Guilherme Lobato e Antônio Raimundo da Costa Ferreira.
O tenente-coronel Marcolino da Costa Leite conseguiu erguer as paredes da capela-mor em tijolos, mantendo o corpo da igreja em taipa. Somente em março de 1862, o major João Luís Tavares e o vigário Padre Zaqueu Francisco da Penha, auxiliados pelo Padre Sátiro Celestino da Costa Leite, reiniciaram as obras de reedificação, com recursos obtidos por meio de subscrição popular.
A reforma ampliou o templo, tornando-o maior e mais alto, aproveitando parte da estrutura antiga. A demolição completa foi evitada por respeito aos fiéis que tinham entes sepultados no interior da antiga igreja. Os sepultamentos no templo cessaram em 1866, com a construção do cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Em 1868, o fabriqueiro Antônio Rodrigues de Mello relatou novamente o mau estado da torre e das paredes de taipa, exigindo reparos urgentes para evitar a ruína do edifício. Apesar de novos consertos, a estrutura continuou apresentando problemas e, no início do século XX, a igreja estava quase arruinada.
Por volta de 1900 a 1920, a Matriz de São Bento foi reedificada em tijolos, ganhando a concepção arquitetônica que mantém até hoje, com uma torre sineira central no frontão principal.
Descrição Tipológica
A Igreja Matriz de São Bento está situada em terreno plano, cercada por um jardim bem cuidado e florido, delimitado por um muro baixo de alvenaria rebocada e caiada.
Sua planta é retangular, composta por átrio, nave central, naves laterais, capela-mor, depósito e sacristia no pavimento térreo, além do coro no pavimento superior.
A fachada principal apresenta uma torre sineira central de seção quadrada, coroada por um cone com pináculos nos cantos superiores. No térreo, há três portas em arco pleno no volume da torre e duas laterais em plano recuado. No nível do coro, há um óculo circular e dois vãos em arco pleno com esquadrias de ferro e vidro, além de duas janelas nos planos laterais. Acima, no nível dos sinos, há quatro aberturas em arco pleno em cada face da torre.
No interior, o piso das naves é de lajota cerâmica e o da capela-mor de ladrilho hidráulico decorado. O forro da nave e da capela-mor é de madeira pintada, e o das naves laterais em lambri envernizado. Destaca-se uma escada helicoidal no átrio (lado da epístola), que leva ao coro.
A cobertura possui quatro águas: duas sobre a nave e capela-mor e duas sobre as naves laterais, depósito e sacristia. O telhado é de fibrocimento, sustentado por estrutura de madeira.
Reformas e Restaurações
- 1815–1817 – Construção original em taipa e madeira.
- 1841 – Reforma do corpo da igreja (taipa) e reconstrução da capela-mor em tijolos.
- 1862 – Ampliação de todo o corpo em taipa.
- 1868 – Reforma da torre e corpo, ainda em taipa.
- 1900–1920 – Reconstrução total em tijolos, com torre central única, na forma atual.
Referências Bibliográficas (ABNT)
BERTENDORF, Pe. Felipe. Chronica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, tomo LXXII, parte I, 1910.[1]
VIVEIROS, Jerônimo de. Alcântara no seu passado econômico, social e político. São Luís: Fundação Cultural do Maranhão, SIOGE, 1977. p. 21-22.
MARQUES, César Augusto. Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão. Rio de Janeiro: Ed. Fon-Fon e Seleta, 1970. p. 67, 578.
OFÍCIO da Comissão da Igreja de São Bento ao Presidente da Província do Maranhão. Comissão de Obras Públicas. São Luís, 6 jun. 1841. Arquivo Público do Estado do Maranhão.
OFÍCIO da Comissão da Igreja de São Bento ao Presidente da Província do Maranhão. Comissão de Obras Públicas (Caixa 01). São Luís, 22 jul. 1841. Arquivo Público do Estado do Maranhão.
MELLO, Antônio Rodrigues de. Reparos e obtenção de alfaias para a Igreja Matriz de São Bento de Perizes. São Bento de Perizes d’Alcântara, 20 set. 1868. In: Ofícios de Autoridades Diversas (1861–1873). Arquivo Público do Estado do Maranhão.
Álbum do Maranhão. São Luís, 1922.
FOTO interna da Igreja de São Bento, 1936. Arquivo IPHAN/3ª SR. Documento digitalizado.
- ↑ BERTENDORF, Pe. Felipe (1909). «Chronica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão» (PDF). Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. tomo LXXII, parte I. Consultado em 10 de outubro de 2025