Historiografia goiana

A historiografia goiana é toda uma vasta produção historiográfica que tematiza a História de Goiás enfocando a evolução particular desse espaço no tempo, sua formação histórica e geográfica, suas cidades, sua população, seus elementos sociais, econômicos e culturais. A historiografia goiana não se limita à produção de historiadores de formação (pois a criação de cursos de História, assim como a regulamentação profissional do ofício do historiador no Brasil foram tardias)[1][2][3], mas àquelas narrativas que impactaram e constituíram o sentido da evolução histórica da sociedade goiana.

Dos cronistas, políticos e intelectuais que mais impactaram a construção de sentido sobre o passado goiano antes da expansão da atividade historiadora em meados da década de 1970 estão Luiz Antônio da Silva e Souza, Raymundo José da Cunha Mattos, Auguste de Saint-Hilaire, Luís D'Alincourt, José Martins Pereira de Alencastre, Johann B.E. Pohl, Camargo Fleury, Rodrigues Jardim e Americano do Brasil.[4] Os viajantes Saint-Hilaire, D'Alincourt e Pohl, juntamente com os políticos Cunha Mattos e Silva e Souza são reputados pelas análises mais depreciativas da realidade "decadente", "atrasada", "desorganizada" e "imoral" do passado colonial e presente oitocentista na então Província de Goiás.[4][5]. Cunha Mattos, nomeado Comandante de Armas da província em 1823, discursaria acerca da necessidade de impor à região o braço forte do Império para romper com o passado decadente.[6]

Alencastre e Americano do Brasil, por outro lado, são nomes reconhecidos atualmente pela normatividade metodológica e recurso empírico à documentação histórica, ainda que a forma de representação seja marcada pela "mágoa", "tristeza", e portanto fruto de um passado decadente e negativo.[4][7] Historiadores do século XXI reputam a Alencastre e Americano do Brasil o início da tradição memorialista da historiografia goiana que marcou as décadas seguintes. Essa tradição, que representava o uso político do passado para legitimar — ou combater — discursos de permanência e inércia política, reuniria três elementos constituintes do pensamento histórico goiano: a memória, a história e a região.[8]

Essa produção historiográfica apresenta diferentes fases de produção, algumas alinhadas à desdobramentos nacionais ou inter-regionais, outras voltadas ao interesse dos pesquisadores nas dinâmicas e processos próprios da região.[9]Houve até a década de 1980 uma predominância de narrativas que tentavam articular a história de Goiás à uma perspectiva de ampliação e desenvolvimento do Estado Nacional brasileiro[9], seja a partir das dicotomias (centro-periferia; litoral-sertão; moderno-atrasado), ou a partir da análise estrutural, centrada na longue durée ou no materialismo histórico.[10] A partir da década de 1980 houve uma nova expansão da malha universitária nacional, com a criação de novos programas de pós-graduação (PPG's) públicos e privados em todo o país. Em meados da década de 1990, a produção de trabalhos no campo historiográfico mais que duplicara desde a expansão.[11][12]

A criação do Programa de Pós-Graduação em História da UFG (PPGH–UFG) ainda em 1972 marcou o início de um movimento profissionalizante e reordenador da historiografia do Estado. Da criação do PPGH até o ano de 2010, mais de 300 trabalhos foram defendidos, dos quais cerca de 60% tematizavam a história regional[13]. Em 1996 a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC–GO) fundou o Instituto de Pesquisa Histórica do Brasil Central (IPHBC), que reuniu um acervo documental volumoso sobre a história de Goiás.[14]

Atualmente, são as iniciativas dessas duas instituições que movimentam a pesquisa historiográfica regional, embora haja um descompasso em relação a outras regiões do Brasil, e uma dificuldade maior em estabelecer diálogos que superem a tradição memorialista do passado goiano, no âmbito da memória oficial e também na crítica da cultura material.[15]

Historiadores

Ver também

Ligações externas

Referências

  1. «ESTUDO SOBRE OS CURSOS DE GRADUAÇÃO NO BRASIL (LICENCIATURA E BACHARELADO)». anpuh.org.br. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  2. «Publicada lei que regulamenta a profissão de historiador». Senado Federal. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  3. «Legislação Federal - Senado Federal». legis.senado.leg.br. Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  4. a b c ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. p. 42. ISBN 978-85-495-0185-1 
  5. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. p. 60. ISBN 978-85-495-0185-1 
  6. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. pp. 302–304. ISBN 978-85-495-0185-1 
  7. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. pp. 48–49. ISBN 978-85-495-0185-1 
  8. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. p. 27. ISBN 978-85-495-0185-1 
  9. a b ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. pp. 20–22. ISBN 978-85-495-0185-1 
  10. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. p. 306. ISBN 978-85-495-0185-1 
  11. FICO, Carlos; POLITO, Ronald (1994). «A historiografia brasileira dos últimos 20 anos: tentativa de avaliação critica» (PDF). Vária História (13). Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  12. FICO, Carlos; POLITO, Ronald (1996). «Teses e dissertações de História defendidas em 1995». Estudos Históricos (17). Consultado em 19 de dezembro de 2025 
  13. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. pp. 310–311. ISBN 978-85-495-0185-1 
  14. ARRAIS, Cristiano; SANDES, Noé (2018). A história escrita: percursos da historiografia goiana (PDF). Goiânia: Cegraf–UFG. p. 308. ISBN 978-85-495-0185-1 
  15. «XXVII Encontro Estadual de História da Anpuh-SP - Disputas pela memória goiana: o Projeto Goiás +300 e o Patrimônio Cultural na comemoração da "Civilização Goiana"». www.encontro2024.sp.anpuh.org. Consultado em 19 de dezembro de 2025