História dos profetas e dos reis
| História dos profetas e dos reis | |
|---|---|
| Autor(es) | Atabari |
| Idioma | árabe |
| Assunto | História do mundo, islamismo e califados |
| Gênero | Biografia histórica |
| Lançamento | século X |
A História dos profetas e dos reis (em árabe: تاريخ الرسل والملوك; romaniz.: Tārīkh al-Rusul wa al-Mulūk), mais conhecida como História de Atabari (تاريخ الطبري / تاریخ طبری, Tarikh Atabari / Tarikh-i Tabari) é uma crônica árabe histórica concluída pelo historiador muçulmano Atabari (838–923) no ano de 915. Inicia-se com a Criação e traça a história muçulmana e a história do Oriente Médio desde os mitos e lendas associados ao Antigo Testamento até a história do Período Abássida, alcançando o ano de 915. Um apêndice[1] ou continuação foi redigido por Abu Abedalá ibne Amade ibne Jafar Alfargani, discípulo de Atabari.[2][3] A obra de Atabari surgiu durante um período particularmente intenso de canonização da história islâmica e, em muitos aspectos, representou um prisma culminante através do qual gerações posteriores de muçulmanos passaram a ler e compreender o passado.[4]
Descritor
Descrição
A obra de Atabari é considerada um dos principais repositórios de informação sobre as origens do Islã e, certamente, figura entre a meia dúzia de textos mais importantes para os eventos das eras islâmicas que descreve. Atabari organiza seu material de maneira analística, isto é, os acontecimentos são dispostos estritamente em ordem cronológica (ano a ano), em vez de biográfica (narrando a vida de uma figura e depois de outra, e assim por diante), o que o torna, em comparação com vários outros textos, muito mais útil para compreender os grandes temas históricos que a obra pretende transmitir. Além disso, o trabalho de Atabari é geralmente considerado representativo da visão islâmica dominante, em vez de estar estreitamente ligado a interesses sectários específicos. Outro aspecto útil é que Atabari frequentemente apresenta múltiplas versões conflitantes dos relatos de eventos de que tinha conhecimento.[5] Por essas razões, Fred Donner escreve:
Consequentemente, é razoável considerar a obra de Atabari como um produto representativo da tradição historiográfica islâmica primitiva, senão, de fato, como a culminação e a glória suprema dessa tradição.[6]
Atabari concentra-se em um número limitado de temas. Uma quantidade significativa de espaço é dedicada à história pré-islâmica da Pérsia; em comparação, muito pouco espaço é reservado às histórias da Grécia Antiga ou do Império Romano. De modo semelhante, um espaço considerável é dedicado à reconstituição da história do Antigo Testamento, mas muito pouco à vida de Jesus e às narrativas relativas à história da comunidade cristã. Muito mais atenção é dada ao Irã e ao Iraque em comparação com a Síria e o Egito. Atabari dedica muito mais espaço ao registro de revoltas políticas (mesmo as menores) e de batalhas do que a temas mais cotidianos, porém relevantes, da vida social, como tributação, comércio, indústria, agricultura e assim por diante. Essa seletividade provavelmente resulta de uma combinação entre os interesses pessoais de Atabari e as fontes de informação que estavam disponíveis para ele enquanto compunha sua história.[7]
Além disso, Atabari fornece uma narrativa-mestra ou história a partir de uma perspectiva islâmica, que é, em última instância, dedicada a demonstrar que o Islã é a verdadeira religião. Os principais episódios dessa narrativa-mestra são:[8]
- A criação do mundo por Deus
- Os muitos profetas enviados por Deus para advertir a humanidade
- A história dos impérios anteriores ao Islã, com especial enfoque no Irã
- Histórias dedicadas dos reinos do sul da Arábia e dos árabes do norte no período pré-islâmico, com foco * em Meca e nos coraixitas
- A vida de Maomé
- A sucessão dos califas (começando por Abacar) após a morte de Muhammad
- As Guerras Rida (durante o reinado de Abacar)
- As primeiras conquistas islâmicas durante o reinado de Omar e posteriormente
- As primeiras guerras civis, especialmente as dos grupos xiitas e carijitas
- A derrubada do Califado Ortodoxo pelo Califado Omíada, seguida pela derrubada do Califado Omíada pelo Califado Abássida
- Uma história do domínio abássida (incluindo revoltas ocorridas nesse período)
- A sucessão de governadores, comandantes e outras figuras que representam a encarnação humana da tradição islâmica nesse período
Outra característica da obra de Atabari foi a introdução de métodos do hádice em seu trabalho, o que significa que ele fornecia isnades (cadeias de transmissão) para os relatos que mencionava. Isso foi importante para o gênero ta'rikh, que então vinha sendo visto como carente de rigor por estudiosos islâmicos especializados nas ciências do hádice (conhecidos como muḥaddithūn). Em certo sentido, Atabari pode ser visto como tendo combinado os formatos de khabar (relato/registro/narrativa) e hádice.[9]
Contexto
Diversas outras narrativas-mestras da história pré-islâmica e islâmica foram escritas na época de Atabari. A mais conhecida é a Al-Sirah al-Nabawiyyah de Ibne Isaque, que se concentra em grande medida na vida de Maomé. Outra é o Kitab al-Maghazi de Uaquidi, bem como o Kitab al-futuh (Livro das Conquistas) de Ibne Atame Alcufi e o Futuh al-buldan de Albaladuri.[10] O Livro dos Ídolos de Hixame ibne Alcalbi concentra-se na história religiosa da Arábia pré-islâmica. Houve também uma obra analítica anterior à de Atabari: o Ta'rikh de Califa ibne Caiate (m. 854). Essa obra segue, em linhas gerais, o mesmo esquema e abordagem de Atabari, com a exceção de omitir uma discussão da história pré-islâmica. Além disso, é consideravelmente mais curta do que a de Atabari. Outro Ta'rikh conhecido é o de Iacubi, que apresenta uma orientação xiita moderada. Iacubi trata com maior detalhe de alguns temas que são abordados de forma mais breve ou sequer aparecem em Atabari, incluindo a administração e comentários sobre a Índia, a China e o Egito. O Kitab al-ta'rikh de Ibne Habibe (m. 852) cobre a história islâmica primitiva com foco em questões administrativas. Ele também trata de biografias de estudiosos do hádice e da região do Alandalus. Outras obras com objetivos semelhantes também foram escritas nesse período.[11]
Referências
- ↑ Bianquis 1998, p. 98.
- ↑ Cahen 2006, p. 203.
- ↑ Atabari 1988, p. 7.
- ↑ Ibrahim 2024, p. 8.
- ↑ Donner 1998, p. 127–128.
- ↑ Donner 1998, p. 128.
- ↑ Donner 1998, p. 128–129.
- ↑ Donner 1998, p. 129–131.
- ↑ Donner 1998, p. 258–259.
- ↑ Donner 1998, p. 132.
- ↑ Donner 1998, p. 132–137.
Bibliografia
- Atabari (1988). Rosenthal, Franz, ed. The History of al-Ṭabarī Vol 1: General Introduction and From the Creation to the Flood. Nova Iorque: Editora da Universidade Estadual de Nova Iorque
- Bianquis, Thierry (1998). «Autonomous Egypt from Ibn Ṭūlūn to Kāfūr, 868–969». In: Petry, Carl F. Cambridge History of Egypt, Volume One: Islamic Egypt, 640–1517. Cambridge: Cambridge University Press. ISBN 0-521-47137-0
- Cahen, Claude (2006). «History and historians». In: Latham, J. D.; Young, M. J. L.; Serjeant, R. B. Religion, Learning and Science in the 'Abbasid Period. Cambrígia: Editora da Universidade de Cambrígia
- Donner, Fred (1998). Narratives of Islamic Origins: The Beginnings of Islamic Historical Writing. Feltham: Darwin Press
- Ibrahim, Ayman S. (2024). Muhammad's military expeditions: a critical reading in original Muslim sources. Nova Iorque: Editora da Universidade de Oxônia. ISBN 978-0-19-776917-1