Helena de Montenegro

Helena
Serva de Deus
Condessa de Pollenzo
Retrato por Ugo Bettini, 1900
Rainha Consorte da Itália
Reinado29 de julho de 1900
a 9 de maio de 1946
PredecessoraMargarida de Saboia
SucessoraMaria José da Bélgica
Imperatriz Consorte da Etiópia
Reinado9 de maio de 1936
a 5 de maio de 1941
PredecessoraMenen Asfaw
SucessoraMenen Asfaw
Rainha Consorte da Albânia
Reinado16 de abril de 1939
a 8 de setembro de 1943
PredecessoraGeraldina Apponyi de
Nagyappony
SucessoraMonarquia abolida
Dados pessoais
NascimentoJelena Petrović-Njegoš
8 de janeiro de 1873
Cetinje, Principado do Montenegro
Morte28 de novembro de 1952 (79 anos)
Montpellier, França
Sepultado em15 de novembro de 2017
Santuário de Vicoforte, Vicoforte, Itália
MaridoVítor Emanuel III da Itália
Descendência
Iolanda de Saboia
Mafalda de Saboia
Humberto II da Itália
Joana de Saboia
Maria de Saboia
CasaPetrović-Njegoš (por nascimento)
Saboia (por casamento)
PaiNicolau I de Montenegro
MãeMilena Vukotić
ReligiãoCatolicismo
(anteriormente Ortodoxa Montenegrina)
AssinaturaAssinatura de Helena
Brasão

Helena (nascida Jelena Petrović-Njegoš; Cetinje, 8 de janeiro de 1873; 27 de dezembro de 1872 no calendário julianoMontpellier, 28 de novembro de 1952) foi a esposa do Rei Vítor Emanuel III e Rainha Consorte da Itália de 1900 até 1946. Além disso, ela foi Imperatriz Consorte da Etiópia, entre 1936 e 1941, e também Rainha Consorte da Albânia de 1939 até 1943. Após a abdicação do marido, assumiu o título de Condessa de Pollenzo. Com a abertura de seu processo de beatificação em 2001, ela recebeu o título de Serva de Deus.

Nascida princesa de Montenegro, filha do príncipe e, depois de 1910, rei Nicolau I, foi educada no Instituto Smolny, um internato feminino para damas nobres em São Petersburgo, na Rússia. Em razão de seu casamento com Vítor Emanuel da Itália, realizado em 24 de outubro de 1896, Helena converteu-se do cristianismo ortodoxo ao catolicismo. Tornou-se Rainha quando seu marido ascendeu ao trono em 1900, após o assassinato do rei Humberto I.

Como rainha, Helena destacou-se por seu forte engajamento humanitário. Em 28 de dezembro de 1908, a cidade de Messina foi atingida por um terremoto devastador, e Helena participou diretamente dos resgates, o que aumentou significativamente sua popularidade no país. Durante a Primeira Guerra Mundial, trabalhou como enfermeira da Cruz Vermelha e, com a ajuda da rainha-mãe Margarida da Itália, transformou o Palácio do Quirinal e a Villa Margherita em hospitais.

Seu reinado foi testemunha de mudanças radicais no cenário político mundial, como a ascensão do fascismo na Itália. Em 1936, após a conquista fascista da Etiópia, e novamente em 1939, com a ocupação da Albânia, Helena passou a usar brevemente os títulos de imperatriz da Etiópia e rainha da Albânia, abandonados em 1943, quando Vítor Emanuel III renunciou formalmente a eles.

Em 1939, poucos meses após a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista e a consequente declaração de guerra da França e do Reino Unido, Helena escreveu uma carta às seis rainhas europeias ainda neutras, entre elas as rainhas da Dinamarca, dos Países Baixos, da Bélgica e da Bulgária, assim como a grã-duquesa de Luxemburgo e a rainha-mãe da Iugoslávia, na esperança de impedir a expansão do conflito que se tornaria a Segunda Guerra Mundial.

Em 1941, exerceu influência sobre o rei para pressionar o duce Benito Mussolini a favor da criação de um reino independente de Montenegro. Dois anos depois, em 1943, interveio diplomaticamente para obter a libertação de seu sobrinho, o príncipe Miguel, e de sua esposa, que haviam sido presos na Alemanha após o príncipe recusar-se a aceitar o trono montenegrino sob proteção italiana. No mesmo ano, em 25 de julho, Vítor Emanuel III ordenou a prisão de Mussolini. Após a rendição da Itália em setembro e a subsequente ocupação alemã, o rei deixou Roma e fugiu para Brindisi com o apoio dos Aliados, sendo acompanhado por Helena.

Com o fim da guerra, em maio de 1946, Vítor Emanuel III abdicou em favor de seu filho Humberto e partiu para o exílio no Egito ao lado de Helena. Ela e o marido assumiram o título de condes de Pollenzo. Em junho daquele ano, um referendo popular proclamou a república, encerrando oficialmente o reinado da Casa de Saboia na Itália. O casal foi recebido com honras pelo rei Faruque, mas permaneceu no exílio. Vítor Emanuel III faleceu em 1947, em Alexandria. Pouco depois, Helena deixou o Egito e mudou-se para a França, onde morreu em novembro de 1952, em Montpellier, em decorrência de um câncer.

Sessenta e cinco anos após sua morte, em 15 de dezembro de 2017, os restos mortais de Helena foram repatriados da França para o Santuário de Vicoforte, na Itália. Os restos mortais de Vítor Emanuel III foram transferidos dois dias depois do Egito e sepultados ao lado dos dela.[1]

Início de vida

Nascimento e família

Retrato de Helena em traje nacional de Montenegro, por Vlaho Bukovac, em 1888.

Helena nasceu em Cetinje, a capital histórica do então Principado de Montenegro, em 8 de janeiro de 1873 (27 de dezembro de 1872 no calendário juliano), na já numerosa família do príncipe Nicolau, pertencente à dinastia de Petrović-Njegoš, e de sua esposa Milena Vukotić.[2] Seu padrinho foi o Imperador russo Alexandre II.[3] Sexta de doze filhos, Helena foi inicialmente confiada aos cuidados de uma governanta, Lilian Crown (cuja nacionalidade é incerta) e, depois, por volta de 1878, começou a receber uma educação "real" da governanta suíça Louise Neukomm.[2]

Uma princesa montenegrina na corte imperial russa

O Instituto Smolny.

De 1882 a 1890, ela frequentou, assim como suas irmãs mais velhas, Zorka, Milica e Anastásia, o Instituto Smolny, em São Petersburgo. Tratava-se de um internato feminino reservado às filhas da alta nobreza, mantido pela própria Imperatriz da Rússia, que supervisionava a educação das alunas e nomeava sua diretora. Durante seus anos de formação, Helena conciliou seus estudos artísticos e literários com a escrita de vários poemas sob o pseudônimo de "Borboleta Azul".[2]

Após concluir seus estudos, a princesa retornou a Cetinje. Ela se dedicou à literatura e compôs versos, alguns dos quais foram publicados na revista literária russa Nedelja. Durante suas viagens ao exterior, as artes eram seu tema de observação predileto. Dotada de uma aptidão singular para o desenho a caneta e aquarela, ela promoveu a arte em Montenegro: ela mesma projetou o monumento ao príncipe Daniel. Também se dedicou com paixão à caça e à pesca,[4] bem como a horticultura; sua flor favorita era o ciclame.[carece de fontes?]

Casamento

Pretendentes

A jovem Helena.

Conhecida por sua beleza eslava, Helena foi descrita da seguinte forma: "seu rosto era belíssimo, de perfil nobre, e sua testa irradiava inteligência. Tinha grandes olhos negros, com um olhar ao mesmo tempo gentil e perspicaz. O nariz era delicado, assim como seus traços, e os cabelos, abundantes e sedosos."[5]

Ela era a candidata favorita do imperador e da imperatriz da Rússia, ambos adeptos do pan-eslavismo, para se casar com o filho e herdeiro, o Czarevich Nicolau, futuro Imperador Nicolau II.[2][4] No entanto, Nicolau não se interessou por Helena, pois estava apaixonado pela princesa Alice de Hesse, uma neta da rainha Vitória, com quem se casou em 1894, após ascender ao trono.

A princesa montenegrina também foi cortejada pelo príncipe Arsênio da Sérvia e pelo nobre Carl Gustaf Emil Mannerheim, futuro presidente da Finlândia e, à época, membro da Guarda Imperial Russa. Ambos chegaram, inclusive, a duelar pela mão de Helena.[6]

Noivado e casamento

Em 1894, o primeiro-ministro italiano Francesco Crispi, a convite da rainha Margarida, esposa de Humberto I, iniciou, por intermédio de seu embaixador em Cetinje, Fábio Sanminiatelli, negociações visando à possibilidade de um matrimônio entre o herdeiro do trono italiano, o Príncipe de Nápoles Vítor Emanuel, e uma princesa montenegrina.[3]

Além da necessidade de assegurar com brevidade um descendente para a dinastia italiana, capaz de revitalizar a já desgastada dinastia de Saboia, na qual, ao longo de duas gerações, primos em primeiro grau haviam se casado,[nota 1] e um casamento com uma princesa montenegrina traria "sangue novo". Ademais, a eventual ligação com o pequeno Estado balcânico, sob a proteção da Rússia, abria à Itália uma perspectiva política relevante. Tal aproximação poderia ser explorada no âmbito da Tríplice Aliança, o pacto defensivo firmado em 1882 com a Alemanha e a Áustria-Hungria. Após a apresentação do relatório do representante diplomático acerca das duas princesas disponíveis, Ana e Helena, a escolha recaiu sobre esta última.[3]

Helena e Vítor Emanuel.

Seguindo um protocolo sigiloso, o primeiro encontro entre os dois futuros cônjuges foi organizado em abril de 1895, em Veneza.[3] Em junho do ano seguinte, o rei Humberto I encarregou o embaixador italiano em Viena, Costantino Nigra, de contatar o pai de Helena, então em trânsito pela corte austríaca, com o objetivo de formalizar o noivado.[3] Apesar do contexto político delicado e da resistência da mãe de Helena, contrária à renúncia da fé cristã ortodoxa pela filha em favor do catolicismo romano, uma condição exigida para o casamento, as negociações chegaram a um desfecho positivo.[3] A Rússia também apoiou o acordo, interessada em dificultar uma aproximação entre a Itália e a Áustria-Hungria, cujas relações eram tradicionalmente tensas, inclusive no que se referia ao controle do Adriático.[3] Em agosto de 1896, Vítor Emanuel partiu a bordo do iate Gajola para pedir oficialmente a mão da princesa.[3]

A notícia, contudo, não foi recebida com entusiasmo por todos. A crítica mais conhecida da época partiu do jornalista Edoardo Scarfoglio, que em 27 de setembro de 1896 publicou no jornal Il Mattino di Napoli um artigo severo intitulado Le nozze coi fichi secchi.[3] Nele, manifestou-se contra o casamento iminente, que, segundo sua avaliação, selaria a união entre um príncipe "cuja forma e estatura já não correspondiam ao ideal físico que o povo atribuía aos reis e uma princesa descrita como uma criatura graciosa, gentil e doce, mas que, em sua visão, não era uma Helena grega capaz de inflamar corações".[3]

Helena e Vítor Emanuel. A diferença de altura entre o casal é visível.
Casamento de Helena e Vítor Emanuel.

Helena era uma mulher alta para os padrões de sua época, medindo cerca de 180 cm, o que contrastava de forma notável com a estatura de seu futuro marido, que tinha aproximadamente 152 cm.[8]

Após a formalização do casamento, Helena deixou Montenegro definitivamente e embarcou no cruzador Savoia em 19 de outubro de 1896.[3] Ela chegou à Itália já convertida ao catolicismo.[3] O casamento foi celebrado em Roma no dia 24, na Basílica de Santa Maria dos Anjos e dos Mártires.[3] O casal se estabeleceu primeiro em Florença, no Palazzo della Meridiana, e depois, após a transferência de Vítor Emanuel para o comando de um batalhão do exército em Nápoles, no Palácio Real de Capodimonte.[3]

Rainha

Ascensão e primeiros anos de reinado

Cartão-postal retratando a ascensão de Helena e Vítor Emanuel ao trono italiano.

Quando Humberto I foi assassinado por Gaetano Bresci, em 29 de julho de 1900, os príncipes encontravam-se fora da Itália, em um cruzeiro com destino ao Pireu, regressando ao país apenas no dia 31.[3] O reinado de Vítor Emanuel III e de Helena teve início sob o impacto da comoção causada pelo regicídio. No discurso de juramento ao Estatuto, proferido em 11 de agosto de 1900, o novo monarca rendeu homenagem à esposa, a "augusta consorte", oriunda de "uma raça valente" e dedicada à "sua pátria de adoção".[3]

Poucos dias depois, o desastre ferroviário ocorrido em Castel Giubileo, na noite de 12 para 13 de agosto, envolvendo um trem especial que transportava passageiros que haviam participado das celebrações pela ascensão ao trono do casal principesco, deu início à construção do mito de Helena como a "rainha da Caridade".[3] Ao lado do marido, ela dirigiu-se imediatamente ao local do acidente, onde se empenhou na organização dos primeiros socorros.[3]

Cartão-postal retratando a família real italiana: rei Vítor Emanuel III, rainha Helena, Humberto, Iolanda, Mafalda e Joana.
Rainha Helena com suas filhas Mafalda e Iolanda.

O estilo de vida dos novos soberanos também sinalizou uma ruptura em relação ao tempestuoso casamento de Humberto e Margarida.[3] Inicialmente, o casal transferiu-se para a ala mais reservada do Palácio do Quirinal, conhecida como Manica Lunga; em seguida, decidiu resguardar sua intimidade com a aquisição de uma residência na Via Salaria, que logo passou a ser conhecida como Villa Savoia.[3] Os primeiros anos do reinado dos chamados "soberanos burgueses" foram marcados por uma sucessão de nascimentos que trouxeram alegria à família real: em 1 de junho de 1901 nasceu Iolanda; em 19 de novembro de 1902, Mafalda; em 15 de setembro de 1904, nasceu Humberto – herdeiro ao trono italiano; e, por fim, em 13 de novembro de 1907, nasceu Joana.[3]

Sobre a Helena, Kellogg Durland, contemporâneo à rainha, escreveu:

Nenhuma rainha na Europa hoje, exceto a czarina [da Rússia] e a rainha Vitória Eugênia [da Espanha], parece mais uma rainha do que Helena. Ela é majestosa e alta, com uma postura escultural que a distingue em qualquer lugar da multidão. Seu cabelo é tão escuro quanto as profundezas de uma floresta a meia-noite, seus olhos tão luminosos como brasas. Sua pele é como uma azeitona, e suas mãos firmes, fortes e grandes. Seus ombros são largos e ela os segura firmemente. A impressão que a mulher dá é de força física incomum. Nem poderia isso bem ser o contrário em vista de seu treinamento atlético.

— Kellogg Durland, 1911[9]

Rainha da caridade

Cartão-postal retratando Helena como enfermeira durante a Primeira Guerra Mundial.

Sensível à condição feminina, foi ela quem inaugurou, em 23 de abril de 1908, em Roma, o primeiro Congresso Nacional das Mulheres Italianas.[3]

Com o terremoto de Messina, ocorrido em 28 de dezembro do mesmo ano, o "mito" de Helena como "rainha da caridade", então em construção na Itália, adquiriu projeção internacional. Através de um patronato que levava seu nome, a rainha conseguiu levar a termo numerosas iniciativas beneficentes, entre elas a edificação de um novo bairro em Messina, o chamado "Vilarejo Rainha Helena".[3]

Atenta à formação dos profissionais de socorro, no ano seguinte inaugurou, no Policlínico de Roma, a Escola Rainha Helena para enfermeiras.[3] Sempre presente ao lado do marido nas ocasiões oficiais, compartilhou e influenciou decisões políticas de acordo com suas inclinações humanitárias pessoais. Assim, em 1911, destinou o Palácio de Caserta a hospital para os feridos da Guerra da Líbia.[3] Em 1915, após a quinta gravidez, da qual nascera Maria, em 26 de dezembro de 1914, transformou o Palácio do Quirinal no Hospital Territorial nº 1, destinado aos soldados feridos no front, prestando ela própria serviço como enfermeira da Cruz Vermelha.[3] Com a ajuda da rainha-mãe Margarida da Itália, a residência Villa Margherita também foi transformada em hospital. No pós-guerra, promoveu ainda a abertura de diversos dispensários farmacêuticos gratuitos nas residências reais.[3]

Reinado sob o fascismo na Itália

Rainha Helena em 1918.

Seu reinado foi testemunha de mudanças radicais no cenário político mundial, como a ascensão do fascismo na Itália. A rainha Helena não demonstrou adesão ou simpatia explícita pelo fascismo, ao contrário de sua sogra, a rainha-mãe, que desde o início manifestou abertamente seu apoio ao duce Benito Mussolini. Ao longo dos vinte anos de regime fascista, ao que tudo indica, a relação de Helena com Mussolini limitou-se estritamente às ocasiões oficiais e a pedidos pontuais em favor de pessoas sob sua proteção, prontamente atendidos pelo chefe do governo.[10] Há, inclusive, indícios de que a rainha tenha intercedido, por meio de contatos pessoais, em auxílio de alguns judeus. Mais significativa, porém, foi sua atuação em defesa das populações ciganas e sinti, conforme recordado pelo poeta italiano Vittorio Mayer, membro da etnia sinti, que, juntamente com sua família, foi vítima das perseguições nazifascistas contra o povo cigano.[2]

No entanto, tendo vivido sempre à sombra do marido, ela foi instrumentalizada pelo fascismo durante o chamado Dia da Fé, em 18 de dezembro de 1935, quando noivas italianas foram conclamadas a doar suas alianças de ouro "à pátria", com o objetivo de financiar a campanha militar em curso contra a Etiópia. Naquela ocasião, o regime, ansioso por capitalizar a imagem da soberana como esposa e mãe exemplar, organizou uma cerimônia solene no Altar da Pátria, a única vez em que Helena leu publicamente uma mensagem dirigida à nação.[3]

Em 1936, após a conquista fascista da Etiópia, e novamente em 1939, com a ocupação da Albânia, Helena passou a usar brevemente os títulos de imperatriz da Etiópia e rainha da Albânia, abandonados em 1943, quando Vítor Emanuel III renunciou formalmente a eles.[2]

Segunda Guerra Mundial, abdicação do marido e fim da monarquia

A chegada da rainha Helena ao Palácio Montecitório para a abertura da 30ª Legislatura, em 1939.

No dia 27 de novembro de 1939, três meses após o início da Segunda Guerra Mundial, Helena tornou-se a principal articuladora de uma tentativa de pacificação, contestada por Mussolini, por meio de uma carta circular que deveria ser enviada às seis rainhas europeias ainda neutras, entre elas as rainhas da Dinamarca, dos Países Baixos, da Bélgica e da Bulgária, assim como a grã-duquesa de Luxemburgo e a rainha-mãe da Iugoslávia, na esperança de impedir a expansão do conflito.[3]

Durante a guerra, ela permaneceu constantemente ao lado do marido. Em 1941, exerceu influência sobre o rei para pressionar Mussolini a favor da criação de um reino independente de Montenegro. Dois anos depois, em 1943, interveio diplomaticamente para obter a libertação de seu sobrinho, o príncipe Miguel, e de sua esposa, que haviam sido presos na Alemanha após o príncipe recusar-se a aceitar o trono montenegrino sob proteção italiana. Em julho do mesmo ano, no único contraste anotado em suas memórias, Helena repreendeu o marido por ordenar a prisão de Mussolini na residência real de Villa Savoia, hoje Villa Ada, em vez de no Quirinal, tanto por se tratar de um local não institucional mas privado quanto pelo sentido comum da hospitalidade, particularmente importante também na tradição montenegrina, independentemente da identidade da pessoa hospedada.[2]

Rainha Helena.

Em 9 de setembro de 1943, após a divulgação pelo rádio do armistício, Helena seguiu a família real, o governo e o estado maior até Pescara e depois, por mar, até Brindisi. Na confusão do momento, parece que a rainha teve um papel decisivo na partida do príncipe do Piemonte junto com o casal real. Segundo os testemunhos, Humberto teria preferido permanecer em Roma até o fim, mas Helena insistiu na partida do filho, dizendo que se ficasse ele seria morto: "Beppo, se você não for, vão te matar."[2][11] Juntamente com o consorte, foi por fim atingida pelo luto pela perda da filha Mafalda, que morreu prisioneira no campo de concentração alemão de Buchenwald, em 28 de agosto de 1944.[3]

Vítor Emanuel III abdicou em favor de seu filho Humberto. No entanto, um referendo, realizado em 2 de junho de 1946, resultou em 52% dos eleitores favorecendo uma república sobre a monarquia. A república foi formalmente proclamada quatro dias depois, e o reinado da Casa de Saboia sobre a Itália terminou formalmente em 12 de junho de 1946. Helena e Vítor Emanuel exilaram-se no Egito, onde foram recebidos com grande honra pelo rei Faruque.

Vida posterior e morte

O ex-túmulo da rainha em Montpellier, na França

Após o fim da guerra, compartilhou o destino do rei, que havia abdicado em Nápoles em 9 de maio de 1946.[3] No mesmo dia, os ex-soberanos, com o título de Condes de Pollenzo, partiram no cruzador Duca degli Abruzzi rumo ao Egito, destino escolhido para o exílio.[3] Estabelecidos em Alexandria, numa vila batizada de Jela (diminutivo de Jelena), o casal levou uma vida privada até a morte de Vítor Emanuel, ocorrida em 28 de dezembro de 1947.[3] Gravemente doente de câncer, Helena transferiu-se para Montpellier, na França, a fim de ser tratada pelo oncologista Paul Lamarque.[3] Lá, ela faleceu em 28 de novembro de 1952 e foi sepultada no cemitério Saint-Lazaire da cidade francesa.[3][12]

Os túmulos da rainha Helena e de Vítor Emanuel III no Santuário de Vicoforte, na Itália

A Câmara Municipal de Messina dedicou-lhe um monumento (inaugurado em 26 de junho de 1960), obra do escultor Antonio Berti. Com a aprovação do Presidente da República, os restos mortais da rainha Helena foram transladados da França e sepultados na Itália, na Capela de São Bernardo do Santuário de Vicoforte, em 15 de dezembro de 2017. Os restos mortais de Vítor Emanuel III foram transferidos dois dias depois do Egito e sepultados ao lado dos dela.[1]

Legado

Diversos poetas e escritos, tais como Antonio Fogazzaro, Luigi Capuana, Vittorio Bersezio, Giovanni Pascoli e Gabriele D'Annunzio, dedicaram suas obras à Helena. Ada Negri também recordou a rainha em El Anillo de Acero. Giacomo Puccini dedicou Madama Butterfly à rainha.[13]

A Amaro Montenegro, uma famosa bebida alcoólica italiana, foi nomeada em honra à rainha, após seu casamento, em 1896.[14]

Processo de beatificação

Em reconhecimento à sua grande fé e às atividades de caridade que apoiava, o Papa Pio XI concedeu-lhe a mais alta honra da época para uma mulher, a Rosa de Ouro da Cristandade, por duas vezes, em 1930 e 1937. Em 2001, por ocasião da abertura das celebrações do 50.º aniversário da morte da rainha Helena, o Bispo de Montpellier abriu o processo diocesano para a sua beatificação.[15] Com a abertura da sua causa, foi-lhe atribuído o título de Serva de Deus.

Brasões e honras

Brasões

Brasão de Helena como Princesa de Nápoles
Brasão de Helena como Rainha da Itália
Brasão de Helena como Condessa de Pollenzo
Monograma real de Helena
Monograma real de Helena (Alternativo)

Honras

Nacionais

Estrangeiras

Descendência

A Rainha Helena com seus filhos, c. 1914-1916. Da esquerda para a direita: Iolanda, Joana, Helena, Maria Francisca, Humberto e Mafalda.
Nome Nascimento Morte Observações
Iolanda 1 de junho de 1901 16 de outubro de 1986 Casou-se com Giorgio Carlo Calvi de Bergolo em 1923, com descendência.
Mafalda 19 de novembro de 1902 28 de agosto de 1944 Casou-se com Filipe de Hesse em 1925, com descendência.
Humberto 15 de setembro de 1904 18 de março de 1983 Casou-se com Maria José da Bélgica em 1930, com descendência.
Joana 13 de novembro de 1907 26 de fevereiro de 2000 Casou-se com Bóris III da Bulgária em 1930, com descendência.
Maria 26 de dezembro de 1914 4 de dezembro de 2001 Casou-se com Luís de Bourbon-Parma em 1939, com descendência.

Genealogia

Os antepassados de Helena de Montenegro
Helena de Montenegro Pai:
Nicolau I de Montenegro
Avô paterno:
Mirko Petrović-Njegoš, Grão-Duque de Grahovo
Bisavô paterno:
Sava Petrović-Njegoš
Bisavó paterna:
Angelika Radamović
Avó paterna:
Anastasija Martinović
Bisavô paterno:
Drago Martinović
Bisavó paterna:
Stana Martinović
Mãe:
Milena Vukotić
Avô materno:
Petar Vukotić
Bisavô materno:
Petar Perkov Vukotić
Bisavó materna:
Stana Milić
Avó materna:
Jelena Voivodić
Bisavô materno:
Tadija Voivodić
Bisavó materna:
Milica Pavićević

Ver também

Notas

  1. A princesa britânica Maud de Gales, neta da rainha Vitória, já havia sido rejeitada devido à consanguinidade entre as casas reais.[7]

Referências

  1. a b Winfield, Nicole. «Remains of Exiled Italian King to be Returned after 70 years». ABC News. Consultado em 17 de dezembro de 2017. Cópia arquivada em 17 de dezembro de 2017 
  2. a b c d e f g h Castelli, Giorgio. «Elena di Savoia». enciclopedia delle donne (em italiano). Consultado em 23 de dezembro de 2025 
  3. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai Gentile, Pierangelo (2018). «SAVOIA, Elena di». Dizionario Biografico degli Italiani (em italiano). 91. website oficial (www.treccani.it) da Enciclopédia Treccani, nome que se conhece comummente a Enciclopedia Italiana di Scienze, Lettere ed Arti também abreviada Enciclopédia Italiana. Consultado em 6 de junho de 2022 
  4. a b Bellini, Isabella (1932). «ELENA di Savoia, regina d'Italia». Dizionario Biografico degli Italiani (em italiano). website oficial (www.treccani.it) da Enciclopédia Treccani, nome que se conhece comummente a Enciclopedia Italiana di Scienze, Lettere ed Arti também abreviada Enciclopédia Italiana. Consultado em 6 de junho de 2022 
  5. Boulay 2000, pp. 54–59.
  6. Siccardi 1996, p. 34.
  7. Spinosa 1990, pp. 46-47.
  8. «Italian king's reburial reopens old wounds». BBC News. 19 de dezembro de 2017. Consultado em 28 de julho de 2024 
  9. Durland 1911, p. 223.
  10. Cesarini 1953, p. 186.
  11. Regolo 2002, p. 656.
  12. Griseri, Paolo (17 de dezembro 2017). «Il fascismo, le leggi razziali, la fuga». La Repubblica. Consultado em 18 de dezembro de 2017 
  13. Petronzi, Monica (23 de agosto de 2021). «Madama Butterfly – una tragedia giapponese scritta da Puccini per la regina Elena Montenegro». Hermes Magazine (em italiano). Consultado em 6 de junho de 2022 
  14. «L'Amaro Montenegro». bibliotecasalaborsa.it. Consultado em 6 de junho de 2022 
  15. «Elena di Savoia». Amici del Montenegro. Consultado em 14 de janeiro de 2025 
  16. a b c d e f g h «SAVOIA». Genmarenostrum.com. Consultado em 25 de outubro de 2017 
  17. «König Vittorio Emanuele III. und Königin Elena von Italien, King and Queen of Italy». Flickr.com. 14 de junho de 2009. Consultado em 25 de outubro de 2017 
  18. «Photographic image» (JPG). Numismaticatrionfale.com. Consultado em 25 de outubro de 2017 
  19. «Ritter-orden». Hof- und Staatshandbuch der Österreichisch-Ungarischen Monarchie. Viena: Druck und Verlag der K.K. Hof- und Staatsdruckerei. 1918. p. 328 
  20. «Mussolini In Spotlight Over Affair Claims Pictures». Getty Images. Consultado em 25 de outubro de 2017. Cópia arquivada em 16 de abril de 2016 
  21. «The Glittering Casa Savoia, a selection of Italian royal pictures (4)». Angelfire.com. 1 de janeiro de 2010. Consultado em 28 de novembro de 2016 
  22. «The Glittering Casa Savoia, a selection of Italian royal pictures (6)». Angelfire.com. 1 de janeiro de 2010. Consultado em 28 de novembro de 2016 
  23. «Български: Азбучник на ордена "Свети Александър", 1912–1935 г., XIII том» 
  24. «صفحه پیدا نشد | دوران قاجار». Consultado em 2 de abril de 2016. Cópia arquivada em 11 de maio de 2020 
  25. 刑部芳則 (2017). 明治時代の勲章外交儀礼 (PDF) (em japonês). [S.l.]: 明治聖徳記念学会紀要. p. 157 
  26. «The Royals Of Italy After A Reception On Campidoglio Pictures». Getty Images. 16 de março de 2012. Consultado em 25 de outubro de 2017 

Bibliografia

  • Boulay, Cyrille (2000). Legendes Royales Dans L'intimite Des Cours D'europe (em francês). ISBN 978-2842281052
  • Cesarini, Paolo. (1953). Elena: la moglie del re (em italiano). Florença: La Voce.
  • Durland, Kellogg (1911). Royal romances of to-day (em inglês). Nova Iorque: Duffield
  • Regolo, Luciano (2002). Jelena: tutto il racconto della vita della regina Elena di Savoia (em italiano). Simonelli. 978-8886792417
  • Siccardi, Cristina (1996). Elena, la regina mai dimenticata (em italiano). Milão: Paoline. ISBN 978-8831512510 
  • Spinosa, Antonio (1990). Vittorio Emanuele III. L'astuzia di un re (em italiano). Milão: Arnoldo Mondadori Editore. ISBN 978-8804332763

Leitura complementar

  • L. Regolo, Jelena: tutto il racconto della vita della regina Elena di Savoia, Milão, 2002.
  • P. Gentile, Vittorio Emanuele III, Milão, 2014, passim. Per gli aspetti della vita di corte.
  • M. Mureddu, Il Quirinale del Re, Milão, 1977, passim.
  • P. Mazzarello, L’erba della regina. Storia di un decotto miracoloso, Turim, 2013.
  • A. Lumbroso, Elena di Montenegro regina d’Italia, Florença, 1935.
  • G. Papasogli, La Regina Elena, Milão, 1965.
  • R. Barneschi, Elena di Savoia. Storia e segreti di un matrimonio reale, Milão, 1986.
  • G. Artieri, P. Cacace, Elena e Vittorio. Mezzo secolo di regno tra storia e diplomazia, Milão, 1999.
  • I. Pascucci, Elena di Savoia nell’arte e per l’arte. Iconografia e storia della seconda regina d’Italia, Turim, 2009.
  • G. Bonnano di San Lorenzo, Elena d'Italia: la regina buona, s.l. 2016.
  • G. Marcotti, Il Montenegro e le sue donne. Il matrimonio del principe ereditario d'Italia, Milão, 1896.
  • F. Martini, Conversazioni della domenica, in Illustrazione italiana, XXIII, s.l. 1896.
  • U. Pesci, La principessa Elena. Nozze reali, numero unico dell'Illustrazione italiana, XXIII s.l. 1896.
  • P. Lombroso, Un couple royal moderne, in La Revue, IV s.l. 1903.
  • B. Ivanovich, The King and Queen of Italy, in The Contemporary Review s.l. 1903.
  • V. Solaro del Borgo, Giornate di guerra del Re soldato, Milão, 1931.
Helena de Montenegro
Casa de Petrović-Njegoš
8 de janeiro de 1873 – 28 de novembro de 1952
Precedida por
Margarida de Saboia

Rainha-Consorte da Itália
29 de julho de 1900 – 9 de maio de 1946
Sucedida por
Maria José da Bélgica
Precedida por
Menen Asfaw

Imperatriz Consorte da Etiópia
9 de maio de 1936 – 5 de maio de 1941
Sucedida por
Menen Asfaw
Precedida por
Géraldine Apponyi de
Nagyappony

Rainha Consorte da Albânia
16 de abril de 1939 – 8 de setembro de 1943
Sucedida por
Monarquia abolida