Golpe de Estado em Abu Dhabi em 1966

Golpe de Estado em Abu Dhabi em 1966
Guerra Fria

Selo de 1967 representando a bandeira de Abu Dhabi.
Data6 de agosto de 1966
LocalEmirado de Abu Dhabi, Estados da Trégua
DesfechoGolpe de Estado bem-sucedido
  • Deposição e exílio do xeque Shakhbut
  • Xeque Zayed torna-se emir de Abu Dhabi.
Beligerantes
Abu Dhabi (emirado) Governo de Abu Dhabi Abu Dhabi (emirado) Facção real rival
Apoiados por:
 Reino Unido
  • Escoteiros Truciais de Omã
Comandantes
Abu Dhabi (emirado) Shakhbut bin Sultan Al Nahyan Abu Dhabi (emirado) Zayed bin Sultan al Nahyan
Reino Unido Glencairn Balfour Paul

O golpe de Estado em Abu Dhabi em 1966 foi um golpe palaciano incruento ocorrido em 6 de agosto de 1966, no qual o xeque Zayed bin Sultan al Nahyan depôs seu irmão mais velho, Shakhbut bin Sultan Al Nahyan, como governante do Emirado de Abu Dhabi. O golpe de Abu Dhabi contou com o apoio militar direto do Reino Unido, que então exercia um controle colonial sobre a região como parte do protetorado dos Estados da Trégua.

Antecedentes

Durante os 200 anos de governo da dinastia Al Nahyan, o Emirado de Abu Dhabi foi palco de recorrentes conflitos sucessórios, incluindo golpes palacianos, conspirações e assassinatos políticos.[1] Em 1928, o xeque Shakhbut bin Sultan Al Nahyan tornou-se governante de Abu Dhabi após um golpe palaciano liderado pelo xeque Khalifa Al Nahyan, que resultou no assassinato de seu antecessor, o xeque Saqr bin Zayed Al Nahyan. Saqr havia, por sua vez, assumido o poder por meio de uma trama palaciana em 1926, que resultou no assassinato do xeque Sultan bin Zayed Al Nahyan, tio de Shakhbut.[2]

O xeque Shakhbut nomeou seu irmão mais novo, o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan, como governador da região de Al Ain.[3] Zayed destacou-se rapidamente pela sua firme oposição ao islamismo político, em particular ao wahhabismo, uma vez que o governo da Arábia Saudita mantinha uma disputa territorial em Al-Ain e tentava difundir essa doutrina entre a população local para consolidar sua influência sobre a região.[4]

As autoridades britânicas avaliaram em 1964 que o governo autocrático de Shakhbut em Abu Dhabi, somado ao crescente influxo de trabalhadores árabes considerados potencialmente pan-arabistas, transformara o emirado em um "alvo perfeito para atividades subversivas e revolucionárias".[5] Nesse contexto, uma onda revolucionária varria a Península Arábica, impulsionada por revoltas como a Rebelião de Dófar (Omã), a Revolução de Adem (Iêmen do Sul) e a Revolução de 26 de Setembro (Iêmen do Norte). Para conter a expansão do radicalismo e assegurar seus interesses econômicos no Golfo, os britânicos organizaram golpes nos anos seguintes que substituíram lideranças locais por aliados próximos, como nos casos de Xarja (1965) e Omã (1970).[6]

Ao mesmo tempo, vozes dentro de Abu Dhabi começaram a questionar o governo de Shakhbut, com Zayed reunindo-se secretamente com Hugh Boustead em 1964 para argumentar que Shakhbut era clinicamente insano e inapto para governar. Boustead registrou que Zayed o convencera de que seu irmão era "literalmente louco".[7] O mais importante é que Zayed apoiava uma cooperação mais estreita com os outros membros dos Estados da Trégua e respaldava as iniciativas britânicas para federalizar os emirados, o que daria origem aos Emirados Árabes Unidos. Já Shakhbut não apenas se opunha veementemente à federalização, mas até mesmo à cooperação com os outros Estados da Trégua.[8] No entanto, quando era obrigado a participar de reuniões pan-Truciais, Shakhbut não comparecia pessoalmente — sendo o único xeque a agir assim — e, em vez disso, enviava Zayed como seu representante oficial.[9]

Golpe

Uma vez garantido que Zayed assumiria o poder imediatamente, H. G. Balfour-Paul organizou um golpe palaciano incruento em 6 de agosto de 1966 para substituir Shakhbut por Zayed.[3][4] Os detalhes exatos do golpe permanecem desconhecidos, já que a maioria dos documentos relacionados continua classificada devido à participação direta do governo britânico.[10] Contudo, sabe-se que na noite de 4 de agosto de 1966, Balfour-Paul recebeu uma comunicação do Foreign Office indicando que o conselho da família Al Nahyan pretendia depor Shakhbut e contaria com apoio britânico.[10] O Foreign Office assinalou que a carta fora assinada por 'ambas as pessoas requeridas' para autorizar o uso direto de pessoal britânico, embora não tivesse especificado quem eram tais indivíduos.[11] Zayed avançou então para o palácio real com o apoio dos Escoteiros Truciais de Omã e forçou seu irmão a abdicar em seu favor.[12] Shakhbut partiu posteriormente para o exílio no Bahrein.[12]

Consequências

Shakhbut partiu para o exílio; no entanto, após uma breve ausência, foi convidado por Zayed a retornar a Abu Dhabi, e ambos mantiveram sua amizade.[4] Em um comunicado oficial sobre o golpe de Estado, o governo britânico alegou que Shakhbut "não conseguia estabelecer uma administração eficiente, carecia de capacidade de governo e não utilizava a riqueza do Estado em benefício do povo".[3] Zayed rapidamente depositou grande parte da riqueza de Abu Dhabi no Banco Britânico do Oriente Médio e transformou a cidade em uma metrópole moderna em pouco tempo.[3] Posteriormente, assumiria também a presidência dos Emirados Árabes Unidos.[3]

Bibliografia

  • Shoup, John A. (2021). The History of the United Arab Emirates (em inglês). [S.l.]: ABC-CLIO. ISBN 9781440870446 
  • Bismarck, Helene von (2013). British Policy in the Persian Gulf, 1961-1968: Conceptions of Informal Empire (em inglês). [S.l.]: Springer. ISBN 978-1-137-32672-0 

Notas

Referências

  1. «بانقلاب على أخيه شخبوط.. هكذا وصل الشيخ زايد للحكم في أبوظبي قبل 55 عاماً - صحيفة الجامعة». Universidade Rainha Arwa (em árabe). 7 de agosto de 2021. Cópia arquivada em 16 de março de 2025 
  2. Shoup 2021, pp. 153–154.
  3. a b c d e «Sheikh Zayed bin Sultan al Nahyan». The Times (em inglês). 4 de novembro de 2004 
  4. a b c «The United Arab Emirates: The British, Indispensability, and the Union». Manara Magazine (em inglês). 1 de dezembro de 2021. Cópia arquivada em 29 de março de 2025 
  5. Bismarck 2013, p. 169.
  6. «Colonial Coups and the War on Popular Sovereignty». Oxford University Press. The American Historical Review (em inglês). 124 (3). Junho de 2019. JSTOR 27126957 
  7. Bismarck 2013, pp. 166–167.
  8. Bismarck 2013, pp. 172–173.
  9. Bismarck 2013, p. 157.
  10. a b Bismarck 2013, p. 181.
  11. Bismarck 2013, p. 183.
  12. a b Bismarck 2013, p. 184.