Gisella Perl

Gisella Perl
Gisella Perl em Berlim, em 1925
Conhecido(a) pormédica prisioneira em Auschwitz
Nascimento
Morte
24 de novembro de 1988 (80 anos)

CônjugeEphraim Krauss
OcupaçãoGinecologia

Gisella Perl (Máramarossziget, 10 de dezembro de 190724 de novembro de 1988) foi uma ginecologista judia romena deportada para o campo de concentração de Auschwitz em 1944.

No campo como prisioneira, atuou como médica e ajudou centenas de mulheres, exercendo a ginecologia em condições extremas, sem os recursos mínimos necessários para a prática da medicina. Perl interrompeu a gravidez de todas as suas colegas ao descobrir que as grávidas eram jogadas vivas no crematório.[1]

Perl sobreviveu ao Holocausto e, após a guerra, emigrou para Nova Iorque. Tornou-se uma das primeiras mulheres a divulgar sua experiência durante o Holocausto em língua inglesa, por meio de seu livro de memórias publicado em 1948, I Was a Doctor in Auschwitz (Eu fui médica em Auschwitz).[1]

Posteriormente, especializou-se em tratamentos de infertilidade no Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque. Mais tarde, mudou-se com a filha para Herzliya, em Israel, onde viveu até sua morte.[2]

Biografia

Perl nasceu e passou a infância em Máramarossziget (atualmente Sighetu Marmaţiei), localidade que à época fazia parte da Áustria-Hungria. Após o Tratado de Trianon, em 1920, a região foi incorporada à Romênia e, entre 1940 e 1944, voltou a ficar sob administração húngara.[2][3]

Em 1923, aos 16 anos, concluiu o ensino secundário em primeiro lugar de sua turma, sendo a única mulher e a única judia entre os formandos. Seu pai, Maurice Perl, inicialmente se opôs à decisão da filha de estudar medicina, temendo que ela “perdesse a fé e se afastasse do judaísmo”. Alguns meses depois, porém, acabou cedendo e permitiu que ela seguisse a carreira médica.[3]

Auschwitz

Antes da Segunda Guerra Mundial, Perl tornou-se uma ginecologista bem-sucedida em Sighetu Marmaţiei. Casou-se com o médico internista Ephraim Krauss e exerceu a medicina até 1944, quando a Alemanha Nazista ocupou sua cidade natal durante a invasão da Hungria e deportou Perl e sua família para o campo de concentração de Auschwitz.[2][4]

Em Auschwitz, foi designada pelo médico nazista Josef Mengele para atuar como ginecologista no campo feminino. Nessa função, atendeu prisioneiras em condições extremas, sem acesso a suprimentos médicos básicos, como antissépticos, materiais de limpeza adequados ou água corrente. Perl ficou conhecida por salvar naquele momento a vida de centenas de mulheres ao realizar abortos clandestinos. No campo, mulheres grávidas eram frequentemente executadas ou submetidas a experimentos médicos conduzidos por Mengele, o que tornava a gravidez uma sentença de morte quase certa.[2][3]

Posteriormente, foi transferida para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde acabou sendo libertada pelas forças aliadas. Após o fim da guerra, descobriu que seu marido, seu filho mais velho, seus pais e outros familiares haviam sido mortos durante o Holocausto. Profundamente abalada, tentou suicídio por envenenamento e foi encaminhada a um convento na França, onde permaneceu em recuperação até 1947.[5][6]

Em março de 1947, Perl chegou à cidade de Nova Iorque com um visto temporário para realizar palestras, a convite de organizações judaicas de auxílio humanitário. Estabeleceu-se em um bairro de alto padrão da cidade. O deputado norte-americano Sol Bloom solicitou ao Departamento de Justiça que lhe concedesse residência permanente nos Estados Unidos, pedido que foi inicialmente negado.[2][7]

Em 12 de março de 1948, o presidente Harry S. Truman sancionou uma lei patrocinada por Bloom que permitiu a permanência de Perl no país como residente permanente. Nesse período, ela foi interrogada pelo Serviço de Imigração sob suspeita de colaboração com médicos nazistas em Auschwitz, mas acabou inocentada. Ainda em 1948, foi incentivada por Eleanor Roosevelt a retomar a prática da medicina.[2][7]

Perl passou então a trabalhar como ginecologista no Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque, inicialmente como a única médica mulher do setor de obstetrícia. Com o tempo, especializou-se no tratamento da infertilidade. Tornou-se cidadã dos Estados Unidos em 1951, aos 44 anos.[7]

Além da atuação clínica, foi autora ou coautora de nove artigos científicos sobre infecções vaginais, publicados entre 1955 e 1972.[7]

Últimos anos e morte

Perl depois se reencontrou com sua filha, Gabriella Krauss Blattman, a quem ela escondeu durante a Segunda Guerra. Em 1979, as duas se mudaram para Herzliya, em Israel. Perl morreu nesta cidade em 24 de novembro de 1988, aos 80 anos.[7]

I Was a Doctor in Auschwitz

Em junho de 1948, Gisella Perl publicou seu livro de memórias I Was a Doctor in Auschwitz (Eu fui médica em Auschwitz), no qual relata suas experiências como médica prisioneira no campo de concentração de Auschwitz. A obra, escrita em língua inglesa pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um dos primeiros testemunhos publicados por uma mulher sobrevivente do Holocausto.[7]

No livro, Perl descreve procedimentos médicos realizados em condições extremas, incluindo cirurgias mamárias em mulheres jovens feitas sem anestesia, muitas vezes utilizando apenas uma faca. Em um dos capítulos, narra episódios envolvendo Irma Grese, uma guarda do campo com apenas 19 anos, que teria observado essas operações demonstrando prazer evidente. Perl descreveu Grese como tendo um “rosto límpido e angelical” e “olhos azuis alegres, os mais inocentes que se pode imaginar”. Esses relatos contribuíram para a imagem pública de Irma Grese durante seu julgamento no pós-guerra, processo que culminou em sua condenação à morte.[8][9]

O livro de Perl integra um conjunto de pelo menos oito relatos do Holocausto escritos por mulheres sobreviventes e corroborados por outros testemunhos. Entre eles está Five Chimneys (Cinco Chaminés), publicado em 1947 por Olga Lengyel, também judia húngara, ex-prisioneira de Auschwitz e assistente cirúrgica, considerada a primeira mulher a publicar um livro de memórias sobre o Holocausto em inglês. Lengyel descreveu experiências semelhantes envolvendo Irma Grese.[10]

Alguns aspectos do testemunho de Perl foram posteriormente questionados por historiadores. A historiadora Andrea Rudorff, por exemplo, contestou partes de seu relato, argumentando que Perl não teria trabalhado diretamente no laboratório de Josef Mengele.[11]


Referências

  1. a b Manuel Ensede (ed.). «A mulher que "destruiu" centenas de bebês para salvar suas mães dos nazistas». El País. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  2. a b c d e f Peleg, Roni (2005). «Gisella Perl: A Jewish Gynecologist in Auschwitz». Journal of Women's Health. 14 (7): 588–591. PMID 16181013. doi:10.1089/jwh.2005.14.588. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  3. a b c Brozan, Nadine (15 de novembro de 1982). «Out of Death, a Zest for Life». New York Times. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  4. «The Abortionist of Auschwitz - aish.com People, History, Featured, Holocaust Studies». aish.com. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  5. «Religion: Not So Simple». TIME. 20 de setembro de 1948. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  6. Rachel E. Gross (ed.). «The Auschwitz doctor who couldn't 'do no harm'». BBC. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  7. a b c d e f Anne S. Reamey (ed.). «Gisella Perl: Angel and Abortionist in the Auschwitz Death Camp». Pratique de l’Histoire et Dévoiements Négationnistes. Consultado em 15 de janeiro de 2026 
  8. Laura Catherine Frost (2002). Sex drives: fantasies of fascism in literary modernism. [S.l.]: Cornell University Press. p. 174. ISBN 0801438942 
  9. Waxman, Zoë (6 de agosto de 2012). Sorcha Gunne; Zoe Brigley Thompson, eds. Feminism, Literature and Rape Narratives: Violence and Violation. [S.l.]: Routledge. p. 124. ISBN 9781136615849 
  10. Roger S. Gottlieb (1990). Thinking the Unthinkable: Meanings of the Holocaust. [S.l.]: Paulist Press. pp. 151, 164. ISBN 978-0809131723 
  11. Thonfeld, Christoph (2025). «Morality Turned Upside Down: Perpetrators in the Eyes of Olga Lengyel». Springer Nature Switzerland. 112 páginas. ISBN 978-3-031-82489-0. doi:10.1007/978-3-031-82490-6_5