Giangrisostomo Tovazzi
Giuseppe Andrea Tovazzi, mais conhecido como Giangrisostomo Tovazzi (Volano, 23 de novembro de 1731 — Trento, 5 de março de 1806), foi um frade franciscano, sacerdote, bibliotecário, arquivista e historiador Italiano.
Biografia
Nascido na comuna trentina de Volano em 23 de novembro de 1731, era filho de Benedetto Tovazzi del Portegal e Lucia Martinati, sendo o quarto de dez irmãos. Foi batizado no mesmo dia com o nome Giuseppe Andrea. Seu pai foi administrador da igreja paroquial e pertencia a uma família tradicional.[1]
Quando jovem permaneceu alguns anos sob os cuidados de seu tio Aldrighetto, reitor da igreja paroquial de Cimone, que lhe ministrou os primeiros elementos de gramática e o introduziu no mundo da literatura. Em 1746 matriculou-se no ginásio público de Rovereto, destacando-se como aluno nos campos da história e literatura, enquanto amadurecia seu projeto de tornar-se franciscano. Em 1º de maio de 1749 iniciou seu noviciado no Convento de São Roque de Rovereto, recebeu o hábito no ano seguinte no Convento de Santa Maria das Graças de Arco, adotando o nome de Giangrisostomo, e em 1751 proferiu os votos solenes. Entre 1752 e 1756 estudou filosofia e preparou-se para o sacerdócio nos conventos de Cles e Borgo Valsugana, celebrando sua primeira missa em Rovereto em 20 de junho de 1756.[1]
A partir de 1757 atuou no Convento de São Bernardino de Trento, onde permaneceria por muitos anos como colaborador do frade Benedetto Bonelli na escrita de uma vasta obra sobre a história da Igreja trentina, publicada entre 1760 e 1765, e de uma edição crítica das obras de São Boaventura que se estendeu até 1769. Depois transferiu-se brevemente para o convento de Cles, e em seguida para o de Arco, onde foi mestre dos noviços.[1]
Em 1773 retornou a Trento, onde permaneceria até sua morte, assumindo crescentes responsabilidades no Convento de São Bernardino. Em 1774 tornou-se confessor das freiras de San Michele; em 1776 foi nomeado rubricista e calendarista da diocese de Trento; em 1780 tornou-se capelão da enfermaria e bibliotecário do convento, entre 1797 e 1800 assumiu a função de guardião, falecendo em 5 de março de 1806.[1]
Obra

Tovazzi adquiriu uma cultura vasta e cosmopolita, mas manteve-se distante das acaloradas controvérsias historiográficas da época e dos confrontos da Igreja com o iluminismo, concentrando seu trabalho na coleta, organização, inventariamento e transcrição de material arquivístico manuscrito e na pesquisa histórica. Diferentemente da tendência historiográfica de seu tempo, em suas pesquisas deu grande atenção a arquivos de famílias e de comunas rurais, então considerados de pequeno valor. Em seu trabalho de organização e transcrição, destacam-se pelo seu vulto aqueles com os arquivos das comunas de Lomaso, Riva del Garda, Lisignago, Castagnè, Nogarè e Roncogno, e com os arquivos das famílias Cazzuffi, Gaudenti, Roccabruna, Thun e Balduini.[1]
Tendo acesso a um vasto corpo documental, deixou obra historiográfica volumosa e de alto valor para o conhecimento da história religiosa e secular do Principado de Trento, a maior parte em latim, e parte em italiano.[2] Sua produção compreende 133 volumes manuscritos, com destaque para o Parochiale Tridentinum, considerado uma das suas principais obras, uma história abrangente das paróquias e igrejas da diocese de Trento, contendo biografias dos sacerdotes, um trabalho que o ocupou por cerca de vinte anos.[1]
Também são de grande importância para a história regional o Notariale Tridentinum, uma compilação de biografias resumidas dos notários ativos no Principado de Trento; o Medicaeum Tridentinum, trabalho similar dedicado aos médicos e cirurgiões; as Variae inscriptiones Tridentinae, uma compilação de inscrições recolhidas de lápides funerárias, monumentos, igrejas e outros locais,[1] e a Biblioteca Tirolese, o sia Memorie istoriche degli scrittori della contea del Tirolo, uma compilação de biografias de 935 escritores nativos de Trento ou que ali atuaram,[2] um marco no registro da produção bibliográfica da região, pois embora a ideia não seja original, a Tovazzi cabe o mérito de ter sido o primeiro a concretizá-la, deixando "uma realização imponente", como a descreveu o Projeto ESTeR. Mesmo não tendo sido publicada em seu tempo, circulando muito limitadamente entre eruditos, se tornaria uma referência para outros estudiosos, e "desde aquele momento a intenção de registrar sistematicamente — ou por âmbitos disciplinares — o patrimônio bibliográfico trentino se constituiu uma prática corrente na produção local".[3] Deixou ainda uma série de Diários que, junto com sua correspondência, dão uma ampla visão da sociedade de sua época.[2] Também merecem nota, pela sua originalidade, os trabalhos sobre a precificação histórica de bens e mercadorias e sobre pesos e medidas usados em Trento, assim como a Malographia Tridentina, um compêndio de todos os desastres naturais ocorridos na história do Principado sobre os quais sobreviveu registro.[1]
Publicou muito pouco em vida, e por isso o seu trabalho até recentemente era pouco conhecido e estudado. Esta situação vem mudando rapidamente nas últimas décadas à medida em que estão sendo feitas transcrições e publicações dos manuscritos originais, que em seu conjunto têm mais de 36 mil páginas, com a edição realizada majoritariamente pelo frade Remo Stenico, que também escreveu sua biografia, em associação com a Fundação Biblioteca San Bernardino.[2][4][5]
Seus originais estão depositados na Fundação Biblioteca San Bernardino e na Biblioteca Comunal de Trento, onde fazem parte das coleções de maior interesse.[6] Segundo Antonio Caroccia, professor na Universidade de Perúgia, Tovazzi foi "uma das figuras mais importantes da cultura trentina no fim dos Setecentos".[7] Em 2006, comemorando o bicentenário de sua morte, a comuna de Volano anunciou a publicação da sua Biblioteca Tirolese.[2]
Lista de obras já publicadas:[8][3]
- Compendium diplomaticum sive tabularum veterum loci, temporis et argumenti multiplicis servata earumdem primigenia phrasi et orthographia diphtongis tantum exceptis (5 volumes)
- Familiarum Tridentinum
- Diario secolaresco e monastico (5 volumes)
- Epistolario, o sia Lettere Familiari italiane, e latine scritte a diversi (7 volumes)
- Monumenta Orphanotrophii Tridentini sive Hospitalis, et Fraternitatis Sanctae Mariae de Misericordia
- Inventarium Archivi Cazuffiani, seu nobilis familiae tridentinae de Cazuffis, cui addunturm spicilegium Cazuffianum, et arbor genealogica eiusdem familiae, cum indice duplici
- Spicilegium Cazuffianum
- Notitia Ecclesiarum Tridentinae Civitatis ac Dioecesis
- De Praetoribus Tridentinis
- Memoriale pro Texendis Catalogis Ministrorum, Vicariorum et Massariorum Confraternitatis Sanctae Mariae de Misericordia Orphanorum et Orphanarum Tridenti
- Variæ inscriptiones Tridentinæ
- Medicaeum Tridentinum, id est, Syllabus medicorum Civitatis ac Dioecesis Tridentinæ intejectis etiam chirurgis omnis ævi ac meriti collectum
- Malographia Tridentina: cronaca dei fatti calamitosi avvenuti nel Trentino e regioni adiacenti dai primi anni d.C. al 1803
- Biblioteca Tirolese, o sia Memorie istoriche degli scrittori della contea del Tirolo
Referências
- ↑ a b c d e f g h Franceschini, Italo. "Giangrisostomo Tovazzi". In: Dizionario Biografico degli Storici Trentini. Società Studi Trentini di Scienze Storiche, 2016
- ↑ a b c d e "Padre Giangrisostomo omaggiato da Volano". Trentino, 07/03/2006
- ↑ a b Progetto ESTeR — Editori e stampatori di Trento e Rovereto. Bibliografia
- ↑ Taiani, Rodolfo. "Le inondazioni in Trentino: 1757, 1823, 1882 e oltre. Dalla punizione di Dio alla sconsideratezza degli uomini". In: Altre Storie, 2001; 3 (5)
- ↑ "Recensioni" Arquivado em 15 de dezembro de 2013, no Wayback Machine.. L'Almanacco Bibliografico, 2010; (14)
- ↑ Biblioteca Comunale di Trento. BCT1 Fondo miscellaneo Arquivado em 18 de março de 2016, no Wayback Machine..
- ↑ Caroccia, Antonio. "Bibliografia e Identità Nazionale: il caso trentino nel XVIII secolo". Biblioteche Oggi, fev/2011
- ↑ Fondazione Biblioteca S. Bernardino (Trento). Testi.