Gaspar (rei mago)

Gaspar
Gaspar (rei mago)
Detalhe de Gaspar em "Adoração dos Reis Magos", de Gerard David, c. 1515
Rei Mago
Veneração por Igreja Católica
Igreja Ortodoxa
Igreja Luterana
Comunhão Anglicana
Principal templo Catedral de Colônia, Alemanha
Festa litúrgica 6 de janeiro
Atribuições Rei trazendo incenso para o Menino Jesus, coroa, por vezes acompanhado de um camelo
Padroeiro dos motoristas, peregrinos, fabricantes de cartas de baralho, serradores, viajantes, comerciantes ambulantes, Colônia, Alemanha e Saxônia; contra a epilepsia e trovões; co-patrono de Natal[1]
Portal dos Santos

Gaspar (também conhecido como Caspar, Kaspar, Jasper,[2] Kasper e outras variações) foi um dos Três Reis Magos, juntamente com Melquior e Baltasar, representando os sábios ou magos bíblicos mencionados em Mateus 2:1–9. Embora os Evangelhos não especifiquem quem ou quantos eram os magos, eles são identificados pelo catolicismo como Gaspar, Melquior e Baltazar desde o século VII. Gaspar e os outros dois magos são venerados como santos na Igreja Católica, na Igreja Ortodoxa, na Igreja Anglicana e na Igreja Luterana.

Etimologia

Embora seja geralmente aceito que Gaspar/Caspar/Kaspar/Kasparov/Jasper tenha sido um dos magos bíblicos ou "três sábios" que teriam visitado o Menino Jesus – trazendo presentes de ouro, incenso e mirra – há algum debate na literatura acadêmica sobre a grafia de seu nome. É provável que essas várias grafias se devam a diferenças regionais e linguísticas entre estudiosos de diferentes épocas, lugares e línguas.[3][4][5][6][7]

Jasper é tradicionalmente identificado como aquele que trouxe o incenso, daí a etimologia persa de Jasper como nome próprio, que significa "portador de presentes" ou "tesoureiro".[8][9]

O nome Caspar ou Casper deriva de "Gaspar". Por sua vez, "Gaspar" vem de uma antiga palavra caldeia, "Gizbar", que, de acordo com a Concordância de Strong, significa "tesoureiro".[10] A forma "Gizbar" aparece na versão hebraica do Livro de Esdras do Antigo Testamento (Esdras 1:8). De fato, a palavra hebraica moderna para "tesoureiro" ainda é "Gizbar".[11] No século I a.C., a Septuaginta apresentou uma tradução grega de "Gizbar" em Esdras 1, 8 como "γασβαρηνου" ("Gasbarinou", literalmente filho de "Gasbar").[12] A transição de "Gizbar" para "Caspar" e "Kaspar" pode, portanto, ser resumida como: Gizbar > Gasbar > Gaspar > Caspar > Kaspar ("C" sendo uma leitura errônea do manuscrito "G", e "K" tendo o mesmo valor fonético que "C". Outra derivação proposta por Gutschmid (1864) pode ser a corrupção do nome iraniano "Gondophares".[13][14]

Local de origem

A terra natal do Rei Gaspar na Aurea Cersonese, a Península Dourada, perto de Java, no Oceano Índico, no mapa de Andreas Walsperger, c. 1448

Quem eram os Magos não é especificado na Bíblia; existem apenas tradições. Como as traduções inglesas da Bíblia se referem a eles como "homens que estudavam as estrelas", acredita-se que eles eram astrólogos, que podiam prever o nascimento de um "Messias" através do estudo das estrelas.[15]

Gaspar é frequentemente considerado um estudioso indiano. Um artigo na Enciclopédia Britânica de 1913[16] afirma que "de acordo com a tradição da igreja ocidental, Baltasar é frequentemente representado como um rei da Arábia, Melquior como um rei da Pérsia e Gaspar como um rei da Índia". O historiador João de Hildesheim relata uma tradição na antiga cidade da Rota da Seda, Taxila, de que um dos Magos passou pela cidade a caminho de Belém.

Alguns consideram Gaspar como o Rei Gondofares (21 d.C. – c. 47 d.C.), mencionado nos Atos de Tomé. Outros acreditam que ele veio do sul da Índia, região que, segundo a tradição, o apóstolo São Tomé visitou décadas depois. A cidade de Piravom, no estado de Kerala, no sul da Índia, há muito afirma que um dos três Reis Magos bíblicos partiu dali. O nome Piravom, no idioma local malaiala, significa "nascimento". Acredita-se que o nome tenha se originado de uma referência ao nascimento de Jesus. Existem nada menos que três igrejas com o nome dos Reis Magos bíblicos em Piravom e arredores, em comparação com apenas três igrejas com o mesmo nome no restante da Índia.

Algumas pessoas consideram que o reino de Gaspar estava localizado na região de Egrisilla, na Índia Superior, na península que forma o lado oriental do Sinus Magnus (Golfo da Tailândia), conforme descrito por Johannes Schöner em seu globo de 1515. Egrisilla Bragmanni ("Egrisilla dos Brâmanes") pode ser vista neste globo, bem como no tratado explicativo que o acompanha. Schöner observou: "A região de Egrisilla, onde existem cristãos brâmanes [isto é, indianos]; lá Gaspar, o Mago, detinha o domínio".[17] A frase hic rex caspar habitavit (aqui viveu o Rei Gaspar) está inscrita sobre a Quersoneso Dourada (Península Malaia) no mapa-múndi de Andreas Walsperger, feito em Constança por volta de 1448. Também não sabemos se ele foi um rei posterior que adotou o nome de Gaspar.

Johannes Schöner sobre Gaspar, o mago, ou São Caspar: "A região de Egrisilla, na qual existem cristãos brâmanes [ou seja, indianos]; ali Gaspar, o Mago, detinha o domínio", Luculentissima quaedam terrae totius descriptio

Algumas pessoas hoje em dia acreditam que os Magos não eram realmente reis. Acredita-se que a referência a "reis" tenha se originado da passagem nos Salmos: "Os reis de Társis e das ilhas oferecerão presentes; os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão dádivas; e todos os reis da terra o adorarão" (Salmos 72:10).

Algumas representações de Gaspar como um rei africano no final da Idade Média podem ter sido influenciadas por relatos da peregrinação a Meca (Haje) do governante malinês Mansa Muça.

Presente ao Menino Jesus

Gaspar está atrás de Melquior ajoelhado na obra "Os Magos visitando o Menino Jesus", de Dirck Bouts

São Mateus escreveu que os Magos trouxeram três presentes: ouro, incenso e mirra. Esses presentes aparentemente têm um significado mais profundo: o ouro simboliza o status real de Jesus, o incenso sua divindade e a mirra sua natureza humana. Gaspar é tradicionalmente retratado com uma barba ruiva no meio dos três reis magos, mais jovem que Melquior e mais velho que Baltasar; ele está esperando atrás de Melquior para oferecer o incenso ao Menino Jesus.[18] Ele é frequentemente retratado no ato de aceitar seu presente de um assistente ou no ato de remover sua coroa: sinais de que está se preparando para ser o próximo aos pés do Menino Jesus.

Morte

Segundo a tradição, Gaspar tornou-se um mártir; algumas pessoas acreditam que os outros dois magos também tiveram o mesmo destino. As relíquias dos Magos foram encontradas na Pérsia por Santa Helena, mas foram posteriormente levadas para Constantinopla e depois para Milão, na Itália. De lá, foram levadas para a Alemanha, onde agora estão guardadas na Catedral de Colônia.[19]

As relíquias dos Santos Reis Magos guardadas no Relicário dos Três Reis Magos da Catedral de Colônia, Alemanha

São Gaspar é comemorado na Festa da Epifania junto com os outros Reis Magos; ele também é comemorado na Igreja Católica em seu próprio dia festivo, 11 de janeiro. Após seu retorno à sua terra natal, evitando o Rei Herodes, acredita-se que Gaspar tenha celebrado o Natal com os outros Reis Magos na Armênia em 54 d.C. Gaspar morreu em 11 de janeiro de 55 d.C., aos 109 anos.

Veneração

Em algumas paróquias, é tradição benzer giz para cada família, para que possam marcar a inicial de cada um dos Três Reis Magos sobre suas portas como um gesto de proteção.

Veja também

Referências

  1. Programação religiosa em homenagem aos Santos Reis, co-padroeiros de Natal, segue até a sexta-feira (6), g1 publicado em 3 de janeiro de 2023
  2. British Library register entry for Historiated Initial With The Adoration Of the Magi, In A Book Of Hours (1500): "Segundo a tradição, havia um velho mago, chamado Caspar ou Jasper..."
  3. Jean-Pierre Isbouts, "Who were the three kings in the Christmas story?", National Geographic (2018): "Versões posteriores da história identificaram os magos por nome e suas terras de origem: ... Gaspar (também chamado de "Caspar"" ou "Jaspar")".
  4. Jean-Pierre Isbouts, Who's Who in the Bible: A reference guide (2013), p.114, ISBN 1426211597.
  5. Excerpta Latina Barbari,page 51B, line 49: "Naquela época, durante o reinado de Augusto, em 1.º de janeiro, os Magos lhe trouxeram presentes e o veneraram. Os nomes dos Magos eram Bithisarea, Melichior e Gathaspa.".
  6. British Library register entry for Historiated Initial With The Adoration Of the Magi, In A Book Of Hours (1500): "Segundo a tradição, havia um velho mago, chamado Gaspar ou Jasper......"
  7. Hugo Kehrer (1908), Vol. I, p. 70 Online version Kehrer's commentary: "Die Form Jaspar stammt aus Frankreich. Sie findet sich im niederrheinisch-kölnischen Dialekt und im Englischen. Note: O. Baist page 455; J.P.Migne; Dictionnaire des apocryphes, Paris 1856, vol I, p. 1023. ... So in La Vie de St. Gilles; Li Roumans de Berte: Melcior, Jaspar, Baltazar; Rymbybel des Jakob von Märlant: Balthasar, Melchyor, Jaspas; ein altenglisches Gedicht des dreizehnten oder vierzehnten Jahrhunderts (13th century!!) Note: C.Horstmann, Altenglische Legenden, Paderborn 1875, p. 95; ... La Vie des trois Roys Jaspar Melchior et Balthasar, Paris 1498".
  8. Nicholas Penny, National Gallery Catalogues (new series): The Sixteenth Century Italian Paintings, Volume II, Venice 1540–1600, 2008, National Gallery Publications Ltd, ISBN 1857099133, p.104.
  9. "H1489 - gizbar - Strong's Hebrew Lexicon (KJV)". Blue Letter Bible. Retrieved 25 December 2020.
  10. «H1489 - gizbar - Strong's Hebrew Lexicon (KJV)». Blue Letter Bible (em inglês). Consultado em 25 de dezembro de 2020 
  11. «Klein Dictionary, גִּזְבָּר». www.sefaria.org. Consultado em 25 de dezembro de 2020 
  12. Taylor, Bernard Alwyn (2009). Analytical Lexicon to the Septuagint (em grego). [S.l.]: Hendrickson Publishers. 106 páginas. ISBN 978-1-56563-516-6 
  13. Metzger, Bruce M. (1 de julho de 2019). New Testament studies (philological, versional, and patristic) (em inglês). [S.l.]: BRILL. 29 páginas. ISBN 978-90-04-37928-2 
  14. von Gutschmid, A. (1864). «Die Königsnamen in den apokryphen Apostelgeschichten. Ein Beitrag zur Kenntniß des geschichtlichen Romans». Rheinisches Museum für Philologie. 19: 161–183. ISSN 0035-449X. JSTOR 41249661 
  15. Drum, Walter. "Magi" The Catholic Encyclopedia Vol. 9. New York: Robert Appleton Company, 1910. 2 May 2015
  16. «Magi». Encyclopædia Britannica. 21 de junho de 2023 
  17. “Egrisilla regio in qua sunt christiani Bragmanni. ibi Gaspar magus fertur habuisse dominum”, Luculentissima quaedam terrae totius descriptio, Nuremberg, 1515, Tract.II, fol.54 [1]. Schöner’s 1515 globe is reproduced in Chet van Duzer, Johann Schöner’s Globe of 1515: Transcription and Study, Philadelphia, American Philosophical Society, Transactions, Volume 100.
  18. Giffords, Gloria Fraser, Sanctuaries of Earth, Stone, and Light: The Churches of Northern New Spain, 1530-1821, University of Arizona Press, 2007 ISBN 9780816525898
  19. «Concerning The Magi And Their Names». Consultado em 2 de maio de 2015. Cópia arquivada em 20 de fevereiro de 2009 

Ligações externas