Galerina sulciceps

Galerina sulciceps

Classificação científica
Domínio: Eukaryota
Reino: Fungi
Divisão: Basidiomycota
Classe: Agaricomycetes
Ordem: Agaricales
Família: Hymenogastraceae
Género: Galerina
Espécie: G. sulciceps
Nome binomial
Galerina sulciceps
(Berk.) Boedijn [en] (1951)
Distribuição geográfica
Área de distribuição natural de Galerina sulciceps
Área de distribuição natural de Galerina sulciceps
Sinónimos[1][2]
Marasmius sulciceps Berk. (1847)

Chamaeceras sulciceps (Berk.) Kuntze (1898)
Phaeomarasmius sulciceps (Berk.) Scherffel (1938)

Galerina sulciceps
float
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Características micológicas
Himêmio laminado
  
Píleo é convexo
  ou plano
Lamela é adnata
  
Estipe tem um(a) anel
  ou é nua
  
A cor do esporo é amarelo-alaranjado
  a marrom
A relação ecológica é saprófita
Comestibilidade: fatal

Galerina sulciceps[2] é uma espécie de fungo extremamente tóxica da família Strophariaceae, ordem Agaricales. Está distribuída em regiões tropicais da Indonésia e da Índia, mas foi ocasionalmente registrada frutificando em estufas na Europa. Mais tóxica que Amanita phalloides, G. sulciceps contém as toxinas alfa-amanitina, beta-amanitina e gama-amanitina. Uma série de envenenamentos na Indonésia na década de 1930 resultou em 14 mortes pelo consumo dessa espécie. Possui a aparência típica de um "cogumelo marrom pequeno", sem características externas marcantes que a diferenciem de outras espécies marrons semelhantes. Os corpos frutíferos do fungo variam de fulvo a ocre, escurecendo para marrom-avermelhado na base do estipe. As lamelas são bem separadas, e não há anel presente no estipe.

História e taxonomia

A espécie foi descrita pela primeira vez como Marasmius sulciceps pelo naturalista inglês Miles Joseph Berkeley em 1848, com base em um espécime encontrado quatro anos antes crescendo em madeira velha no Ceilão (atual Sri Lanka).[3] Em 1898, Carl Ernst Otto Kuntze transferiu a espécie para o gênero Chamaeceras,[4] que desde então foi reintegrado ao Marasmius.[5] Devido à sua esporada marrom, o micologista holandês Karel Bernard Boedijn [en] transferiu a espécie para o gênero Phaeomarasmius [en] em 1938.[6] Em 1951, ele a redescreveu e a transferiu para sua posição atual no gênero Galerina.[7] O tratamento taxonômico abrangente de Rolf Singer sobre os fungos da ordem Agaricales classificou Galerina sulciceps na seção Naucoriopsis do gênero Galerina, uma subdivisão inicialmente definida pelo micologista francês Robert Kühner em 1935.[8] Essa seção inclui fungos pequenos com esporos marrons, margem do píleo curvada para dentro quando jovens e pleurocistídios de paredes finas, com ápices obtusos ou agudos, mas não amplamente arredondados.[9] Todas as Galerina contendo amatoxinas pertencem à seção Naucoriopsis.[10]

Descrição

O píleo é inicialmente em forma de ovo em espécimes jovens, mas torna-se convexo e, posteriormente, mais ou menos plano com uma depressão central à medida que amadurece. No centro do píleo, há um umbo aproximadamente esférico, semelhante a um mamilo. O píleo é higrófano, mudando de cor conforme o estado de hidratação: fulvo em espécimes úmidos, passando a ocre com bordas marrom-escuras quando seco.[11] O diâmetro do píleo varia geralmente de 1,5 a 4 cm, com uma superfície lisa e quase gelatinosa. A borda do píleo é fina, ondulada e frequentemente fendida. As lamelas são amplamente adnatas (ligadas ao estipe ligeiramente acima da base da lamela, com a maior parte fundida ao estipe) a levemente decorrentes (descendo ao longo do estipe). Entre as lamelas, há lamelas mais curtas, chamadas lamélulas, que começam no píleo, mas não alcançam o estipe. As lamelas são largas (até 4 mm) e espessas na base (1 mm), podendo desenvolver veias que se conectam na superfície inferior do píleo quando maduras. O estipe mede de 0,4 a 2,5 cm de comprimento por 0,15 a 0,3 cm de espessura, geralmente fixado centralmente na face inferior do píleo, embora às vezes possa estar ligeiramente excêntrico. Os estipes são sólidos, cilíndricos e podem ser pruinosos (cobertos por uma fina camada de pó).[1]

A descrição original de Berkeley destacou semelhanças com um pequeno fungo Marasmius peronatus,[3] hoje conhecido como Gymnopus peronatus.[12]

Características microscópicas

Os esporos são elipsoides a amendoados, com dimensões de 7,2–9,7 por 4,5–5,8 μm.[1] Os basídios (células portadoras de esporos) são cilíndricos a levemente clavados, tetraspóricos, medindo 30–45 por 5,5–6 μm. Os esterigmas (projeções dos basídios que sustentam os esporos) têm 5–6 μm de comprimento.[11] Os pleurocistídios (cistídios localizados na face das lamelas) têm paredes finas, com pescoços longos e um tanto cilíndricos, variando de hialino (translúcido) a marrom-amarelado claro, medindo geralmente 40 por 10,5 μm, mas podendo chegar a 142 por 18 por 8 μm. Os cistídios na borda das lamelas (queilocistídios) são semelhantes aos pleurocistídios. As hifas de G. sulciceps possuem fíbulas – ramificações curtas que conectam uma célula à anterior, permitindo a passagem dos produtos da divisão do núcleo celular.[1]

Bioquímica

Alfa-amanitina é a principal toxina desta espécie.

Galerina sulciceps é mortalmente venenosa, sendo considerada por um autor como "talvez o cogumelo mais tóxico conhecido pelo homem",[13] visão corroborada por estudos posteriores sobre concentrações de toxinas em cogumelos com amatoxinas.[10][14] Os sintomas de envenenamento atribuídos a esse cogumelo são incomuns: efeito anestésico local, sensação de "alfinetes e agulhas" e náuseas sem vômitos.[1] Embora esses sintomas clínicos sejam inconsistentes com os de envenenamento por amatoxina, a presença das toxinas alfa-amanitina, beta-amanitina e gama-amanitina foi confirmada por análise cromatográfica.[15][16] As amatoxinas danificam o fígado e os rins ao se ligarem irreversivelmente à RNA polimerase II.[17] Três incidentes de envenenamento na Indonésia envolveram 18 pessoas, das quais 14 morreram.[6] Com base nesses casos, a morte ocorre entre 7 e 51 horas, "a menos que o paciente sobreviva, o que parece depender da quantidade ingerida e da vitalidade do indivíduo".[1] Outro caso de morte atribuído a esse cogumelo foi relatado na Alemanha no início dos anos 1980.[18] Envenenamentos graves foram tratados com diálise completa ou transplante de fígado.[19]

Habitat e distribuição

A espécie cresce em madeira morta em locais tropicais como a Indonésia (Java e Sumatra) e próximo à Índia (Sri Lanka), onde é abundante em algumas áreas.[1] Não é encontrada na América do Norte.[20] Na Alemanha, foi registrada em estufas, sendo conhecida localmente como Gewächshaus-Häubling, que significa "Galerina de estufa".[21] Em um caso, o fungo foi encontrado frutificando em grupos densos em vasos de orquídeas sobre serragem úmida de coníferas.[11]

Ver também

Referências

  1. a b c d e f g Smith AH, Singer R (1963). A Monograph of the Genus Galerina Earle. New York, New York: Hafner Publishing. pp. 285–6 
  2. a b «Chamaeceras sulciceps (Berk.) Kuntze 1898». MycoBank. International Mycological Association. Consultado em 8 de abril de 2010 
  3. a b Berkeley MJ. (1847). «Decades of fungi. Decade XV-XIX. Ceylon fungi». Journal of Botany, British and Foreign. 6: 479–514 
  4. Kuntze O. (1898). Revisio generum plantarum (em latim e alemão). 3. Leipzig, Germany: A. Felix. p. 457 
  5. Kirk PM, Cannon PF, Minter DW, Stalpers JA (2008). Dictionary of the Fungi 10th ed. Wallingford, UK: CAB International. p. 134. ISBN 978-0-85199-826-8 
  6. a b Boedijn KB. (1938). «A poisonous species of the genus Phaeomarasmius». Extrait du Bulletin du Jardin botanique du Buitenzorg. Series 3. 16: 76–82 
  7. Boedijn KB. (1951). «Some mycological notes». Sydowia. 5 (3–6): 211–9 
  8. Kühner R. (1935). «Le Genre Galera (Fr.) Quélet» [The Genus Galera (Fr.) Quélet]. Encyclopédie Mycologique (em francês). 7: 1–240 
  9. Singer R. (1986). The Agaricales in Modern Taxonomy. Königstein im Taunus, Germany: Koeltz Scientific Books. pp. 673–4. ISBN 3-87429-254-1 
  10. a b Enjalbert F, Cassanas G, Rapior S, Renault C, Chaumont J-P (2004). «Amatoxins in wood-rotting Galerina marginata». Mycologia. 96 (4): 720–9. JSTOR 3762106. PMID 21148893. doi:10.2307/3762106 
  11. a b c Bresinsky A, Besl H (1989). A Colour Atlas of Poisonous Fungi: A Handbook for Pharmacists, Doctors, and Biologists. London, UK: Manson Publishing. pp. 40–1. ISBN 0-7234-1576-5 
  12. «Names Record–Marasmius peronatus (Bolton) Fr». Index Fungorum. CAB International. Consultado em 8 de abril de 2010 
  13. Ammirati JF, Traquair JA, Horgen PA (1986). Poisonous Mushroom of Canada. Minneapolis, Minnesota: University of Minnesota Press. p. 81. ISBN 978-0-8166-1407-3 
  14. Klán J. (1993). «Přehleb hub obsahujicich Amanitiny i Faloidiny» [The survey of fungi containing amanitins and phalloidins]. Časopis Lékařů Českých (em checo). 132: 449–51 
  15. Besl H. (1981). «Amatoxine im Gewächshaus: Galerina sulciceps, ein tropischer Giftpilz» [Amatoxins in greenhouses: Galerina sulciceps, a tropical poisonous mushroom]. Zeitschrift für Mykologie (em alemão). 47: 253–6 
  16. Besl H, Mack P, Schmid-Heckel H (1984). «Giftpilze in den Gattungen Galerina und Lepiota» [Poisonous mushrooms in the genera Galerina and Lepiota]. Zeitschrift für Mykologie (em alemão). 50: 183–93 
  17. Enjalbert F, Rapior S, Nouguier-Soulé J, Guillon S, Amouroux N, Cabot C (2002). «Treatment of amatoxin poisoning: 20-year retrospective analysis». Journal of Toxicology. Clinical Toxicology. 40 (6): 715–57. PMID 12475187. doi:10.1081/CLT-120014646 
  18. Chapuis J-R. (1981). «Bericht des Verbandstoxikologen fur das Jahr 1981» [Report by the toxicologist for 1981]. Schweizerische Zeitschrift für Pilzkunde (em alemão e francês). 60 (9/10): 176–85 
  19. Hall IR. (2003). Edible and Poisonous Mushrooms of the World. Portland, Oregon: Timber Press. p. 107. ISBN 0-88192-586-1 
  20. Beuchat LR. (1987). Food and Beverage Mycology. Minneapolis, Minnesota: Springer. pp. 424–5. ISBN 978-0-442-21084-7 
  21. Rebmann R. (2007). «Galerina sulciceps». Consultado em 16 de dezembro de 2011