Funcionalismo público no Brasil

(Brasília - DF, 28/10/2021) Dia do Servidor Público.

O funcionalismo público, no Brasil, refere-se ao conjunto de pessoas que ocupam cargos, empregos ou funções públicas na administração direta e indireta do Estado, em seus diferentes níveis (federal, estadual, distrital e municipal). Trata-se do corpo de servidores que garante a continuidade da ação estatal e a execução de políticas públicas.[1][2]

Do ponto de vista jurídico, a Constituição Federal de 1988 estabelece princípios básicos para o funcionalismo, como legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (art. 37 da CF/88). Presente em escolas, hospitais, tribunais e repartições, o funcionalismo público, composto pelas burocracias estatais (níveis alto, médio e de rua), é a espinha dorsal do Estado brasileiro.

Histórico

Analisar a burocracia estatal brasileira e suas transformações ao longo do tempo permite entender como o Estado responde às demandas da sociedade, especialmente no que se refere à gestão de seus recursos humanos.[3]

Até os anos 1930, as regras que orientavam o serviço público eram pouco definidas, o que resultava em práticas que frequentemente atendiam a interesses particulares em detrimento do interesse público.[4] Durante décadas, diferentes autores caracterizaram o funcionalismo público brasileiro como patrimonialista e clientelista,[4] ou como um Estado “elefante”, percebido como inchado e lento.[5]

Entre os marcos iniciais da constituição da administração pública brasileira estão a criação da Revista do Serviço Público, em 1937, e a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) em 1938, concebido para estabelecer critérios mais impessoais de seleção na administração pública.[3][6]O DASP, juntamente com os chamados daspinhos em nível regional, foi responsável por estruturar o aparelho administrativo do Estado.[7]

Com a estrutura administrativa em formação, o funcionalismo passou a desempenhar papéis distintos conforme os regimes políticos se sucediam. Nas décadas seguintes, o funcionalismo passou por novas transformações, ora associado ao aparato do regime militar, ora fortalecido como elemento central do Estado após a promulgação da Constituição Federal de 1988, que consolidou regras rígidas de admissão, a institucionalização do concurso público e o estabelecimento de critérios meritocráticos de avaliação.[8][3][9]

Após o governo Collor, que não promoveu alterações estruturais relevantes, a gestão de Fernando Henrique Cardoso introduziu, em 1995, o Plano Diretor de Reforma do Estado, inspirado em uma perspectiva mais gerencial da administração pública, com foco em eficiência e resultados.[10][11]

Perfil dos servidores públicos

O funcionalismo público federal corresponde a cerca de 10% dos vínculos de trabalho no setor público nacional, indicando que a maior parte do funcionalismo se encontra em âmbitos estadual e, sobretudo, municipal.[1]

Entre 1986 e 2014, observou-se uma ampliação expressiva do número absoluto de servidores públicos no país, embora o percentual de ocupados no funcionalismo em relação ao total do mercado de trabalho nacional tenha se mantido relativamente estável. No mesmo período (1986–2017), o total de vínculos formais de trabalho no Brasil — somando setores público e privado — cresceu cerca de 97%.[1]

A expansão mais significativa no setor público ocorreu no nível municipal. Esse processo de municipalização da burocracia pública é uma tendência já observada desde os anos 1950, intensificada nos anos 1970 e consolidada após a Constituição Federal de 1988, que ampliou a autonomia e as competências dos municípios.[12]

O nível de escolaridade dos servidores públicos aumentou em todos os Poderes e níveis federativos nas últimas décadas. A administração federal concentra a maior média de anos de estudo entre os servidores, indicando maior profissionalização nesse âmbito.[1]

Apesar disso, as desigualdades de gênero permanecem como característica estrutural do funcionalismo público brasileiro.[13] Estudos apontam que as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens em todos os níveis de governo e em quase todos os 32 anos analisados, quando excluídos os militares.[1] Além disso, a desigualdade se manifesta também na distribuição de poder, já que cargos dirigentes e de maior prestígio continuam sendo majoritariamente ocupados por homens.[1]

Referências

  1. a b c d e f «Atlas do Estado Brasileiro v.2.6.4a - Três décadas de funcionalismo brasileiro (1986-2017)». www.ipea.gov.br. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  2. «Maria Sylvia Zanella Di Pietro., Direito administrativo, Livro». www.lexml.gov.br. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  3. a b c Silveira, Leonardo Souza; Penha, Pedro Henrique Elgaly da; Castro, Bruno Portes Costa de (26 de maio de 2021). «Funcionalismo público brasileiro no século XXI: Transformações ocupacionais nos diferentes níveis do poder executivo entre 2003 e 2018». Cadernos Gestão Pública e Cidadania (84). ISSN 2236-5710. doi:10.12660/cgpc.v26n84.83076. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  4. a b Pereira, Luiz Carlos Bresser (2001). «Uma nova gestão para um novo Estado». Revista do Serviço Público (1): 5–24. ISSN 2357-8017. doi:10.21874/rsp.v52i1.298. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  5. Lassance, Antonio (18 de junho de 2024). «Texto para Discussão 3012». doi:10.38116/td3012-port. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  6. Júnior, José Celso Cardoso; Nogueira, Roberto Passos (27 de janeiro de 2014). «Ocupação no setor público brasileiro: tendências recentes e questões em aberto». Revista do Serviço Público (3): 237–260. ISSN 2357-8017. doi:10.21874/rsp.v62i3.71. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  7. «Establishing a secure connection ...». www.scielo.br. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  8. Nacional de Administração Pública, Fundação Escola (29 de janeiro de 2015). «Estrutura e organização do Poder Executivo». Revista do Serviço Público (1): 193–194. ISSN 2357-8017. doi:10.21874/rsp.v45i1.754. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  9. Lambert, Francis (maio de 1970). «Lawrence S. Graham: Civil Service Reform in Brazil: Principles and Practice (Austin, University of Texas Press for the Institute of Latin American Studies, 1968, $6.50). Pp. 233.». Journal of Latin American Studies (1): 106–107. ISSN 0022-216X. doi:10.1017/s0022216x00000274. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  10. Abrucio, Fernando Luiz (2007). «Trajetória recente da gestão pública brasileira: um balanço crítico e a renovação da agenda de reformas». Revista de Administração Pública (spe): 67–86. ISSN 0034-7612. doi:10.1590/s0034-76122007000700005. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  11. Filgueiras, Fernando (janeiro de 2018). «Indo além do gerencial: a agenda da governança democrática e a mudança silenciada no Brasil». Revista de Administração Pública (1): 71–88. ISSN 1982-3134. doi:10.1590/0034-7612161430. Consultado em 26 de setembro de 2025 
  12. Santos, Cláudio Hamilton Matos dos; Cavalcante, Carolina Valani; Martins, Felipe dos Santos; Lacerda, Luciana Pacheco Trindade; Schettini, Bernardo Patta (setembro de 2016). «Evolução do emprego público nos governos subnacionais brasileiros no período 2004-2014». Consultado em 26 de setembro de 2025 
  13. «11 milhões de pessoas dedicam suas vidas para o serviço público - República em Dados». dados.republica.org. Consultado em 26 de setembro de 2025