Festa de São Tiago em Mazagão

A Festa de São Tiago, realizada em Mazagão Velho, no Amapá, é uma celebração religiosa e cultural de origem luso-africana, trazida pelos colonos da antiga Mazagão, no Marrocos. A festa preserva tradições seculares e destaca-se pela encenação da Batalha entre Mouros e Cristãos, reunindo fé, memória histórica e identidade local.[1]
Desde 12 de Junho de 2012, o dia 25 de julho é feriado estadual.[1]
História
Veneração a São Tiago
A festa homenageia São Tiago Maior, filho primogênito de Zebedeu e Maria Salomé, nascido em Betsaida, na Galileia, pescador de profissão, irmão de São João Evangelista, ambos escolhidos para serem apóstolos de Jesus. Os dois apóstolos eram conhecidos como Boanerges ou Filhos do Trovão e participaram de momentos singulares da existência de Jesus.[2][3]
Após a morte e ressurreição de Jesus, os apóstolos se dispersaram para evangelizar em terras distantes. Tiago Maior seguiu para a região da Galiza, na atual Espanha, onde permaneceu por seis anos. Ao retornar à Judeia, foi martirizado em 44 d.C. por ordem do rei Herodes Agripa I. Seus discípulos transportaram seu corpo de volta à Galiza, onde foi enterrado em segredo. O túmulo só foi descoberto em 830 d.C. por um eremita chamado Pelágio, que notou luzes misteriosas em um bosque e alertou o bispo Teodomiro de Iria. Após orações e jejuns, o bispo encontrou os restos mortais de Tiago. O rei Afonso II mandou construir uma capela no local e, ao visitá-la a pé, deu origem à peregrinação conhecida como Caminho de Santiago de Compostela. Assim, consolidou-se a imagem de São Tiago como peregrino e evangelizador.[2][3]

O culto a São Tiago também chegou às Américas e esteve associados à conquistas ibéricas do continente.[2][3]
Segundo algumas tradições, São Tiago teria surgido de forma milagrosa em diversas batalhas travadas na Península Ibérica durante o processo da Reconquista Cristã. A partir de então, a expressão Santiago y cierra España tornou-se o lema de guerra dos exércitos hispânicos.[2][3]
Além de seu papel como protetor das tropas espanholas, São Tiago foi também considerado defensor do exército português.[2][3]
Reconhecido como padroeiro da Galícia e de toda a Espanha, São Tiago é venerado como o santo protetor dos cavaleiros, dos peregrinos, das peregrinações e das rotas sagradas, incluindo o tradicional Caminho de Santiago. Sua figura tornou-se símbolo de proteção militar e espiritual para os dois principais reinos ibéricos.[2][3]
Com a expansão marítima, São Tiago passou a ser invocado como guardião das viagens transoceânicas, tendo seu nome frequentemente atribuído a embarcações que cruzavam o Atlântico. Seu culto alcançou também o Norte da África, estabelecendo presença na antiga fortaleza portuguesa de Mazagão, no atual Marrocos.[2][3]
Posteriormente, com a colonização das Américas, a devoção a São Tiago atravessou o oceano, associando-se diretamente às campanhas de conquista e evangelização promovidas pelos impérios ibéricos no Novo Mundo.[2][3]
Mazagão Velho

A Romaria de São Tiago em Mazagão Velho tem raízes profundas na história colonial luso-brasileira e na diáspora dos cristãos portugueses do Norte da África. Sua origem está diretamente relacionada à extinção da cidadela de Mazagão, uma possessão portuguesa localizada na costa atlântica do atual Marrocos. No século XVIII, diante da crescente pressão militar dos mouros e da instabilidade política, a Coroa portuguesa decidiu abandonar a colônia africana.[4][2]
Em 10 de março de 1769, por ordem de D. José I, rei de Portugal, a cidadela de Mazagão foi oficialmente desativada. Cerca de 340 famílias cristãs, até então sitiadas por forças islâmicas, foram retiradas da região e transferidas inicialmente para Belém do Pará. O governo português pretendia realocá-las estrategicamente para fortalecer sua presença na região amazônica.[4][2]
Nesse processo, destaca-se a atuação de Francisco de Mello, figura influente nas relações luso-indígenas. Após colaborar com a administração portuguesa, ele foi recompensado com o perdão de delitos anteriores, recebendo o título de Capitão e Diretor do povoado de Santana, situado nas imediações do rio Amazonas. Contudo, uma grave epidemia de febre atingiu a população indígena local, forçando sucessivas mudanças do assentamento: primeiro para a foz do rio Manacapuru e, posteriormente, em 1769, para a foz do rio Mutuacá.[4][2]
A fim de instalar definitivamente os mazaganenses vindos da África, o governador do Grão-Pará ordenou a construção de um novo povoado às margens do rio Mutuacá. A fundação oficial da nova localidade — batizada inicialmente de Nova Mazagão — ocorreu em 23 de janeiro de 1770, quando o local foi elevado à categoria de vila. A transferência física das famílias começou alguns meses depois: em 7 de julho de 1770, 136 famílias foram deslocadas de Belém para sua nova residência na região amazônica, dando origem ao que hoje se conhece como Mazagão Velho.[4][2]
Esse contexto de deslocamento forçado, reorganização territorial e reenraizamento cultural foi essencial para a manutenção das práticas religiosas e simbólicas dos antigos habitantes da Mazagão africana. A festa de São Tiago, nesse sentido, foi não apenas preservada, mas também ressignificada, tornando-se um marco identitário da nova comunidade amazônica.[4][2]
Com a morte do rei Dom José I em 1777 e a queda do Marquês de Pombal, os colonos de Mazagão — os "mazaganistas" — passaram a acreditar que a nova rainha, D. Maria I, traria um tratamento mais humano diante da extrema pobreza em que viviam. Nesse contexto, organizaram, em tempo curto, uma grande festividade com três óperas, não apenas para homenagear a corte portuguesa, mas também como estratégia para obter visibilidade e socorro às suas dificuldades.[4][2]
Entretanto, a realidade era marcada por extrema escassez. Em carta de 1777, Miguel Soares descreve a fome e as condições precárias da população, que vivia basicamente de arroz e peixe de baixa qualidade, com frequentes doenças, ausência de recursos e abandono político.[4][2]
Esse passado se reflete no presente: a Festa de São Tiago ainda hoje é organizada por descendentes dos que permaneceram em Mazagão Velho — majoritariamente pobres, negros e mestiços — após a elite se transferir para Mazagão Novo. A festa tornou-se símbolo de resistência e identidade, atraindo cerca de 50 mil pessoas anualmente e movimentando a economia local com hospedagens, comidas e artesanato.[4][2]
Apesar da importância cultural e religiosa, a festa também funciona como um apelo por atenção e melhorias básicas, como acesso a água potável, saneamento, energia, internet, saúde e educação — demandas que persistem desde o século XVIII. Assim, além de preservar a memória e a fé, a festividade é um grito de socorro social ainda atual.[4][2]
Outro santo também presente na festa é São Jorge, considerado também um santo guerreiro.[4][2]
Estrutura e Dinâmica do Evento
A Festa de São Tiago combina vários componentes:[5][6][7]
- Programação Religiosa
- Encenação Dramática: A Batalha entre Mouros e Cristãos
- Episódios históricos-imaginados que recontam uma guerra simbólica entre mouros e cristãos. Incluem cenas como “Entrega dos Presentes” (os mouros oferecem presentes, supostamente envenenados), “Baile de Máscaras”, espionagem, morte de personagens como o Atalaia, o roubo da bandeira (estandarte), entre outros.[5]
- Participação coletiva: muitos personagens são atores da comunidade, as crianças também participam em versões mais simples.[5]
- Elementos Folclóricos e Festivos
- Aspectos Sociais e Comunitários
- Organização comunitária: realizada pela comunidade local, via Associação ou Instituto Cultural da Festa de São Tiago, com apoio do governo estadual e municipal.[5]
- Turismo, economia local: visitantes de todo o estado e de fora comparecem, gerando impacto econômico no comércio, hospedagem, alimentação, transporte etc.[5]
- Identidade e memória: a festa funciona como elemento de construção de identidade para a população mazaganense e para o Amapá como um todo, mantendo viva a história de migração, fé, sincretismo e adaptação cultural. [5]
Referências
- ↑ a b «A Festa de São Tiago». GEA[ligação inativa]
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r Lemos, Juliana Souto [UNESP (21 de fevereiro de 2022). «A batalha entre mouros e cristãos da festa de São Tiago em Mazagão Velho – AP: uma experiência (etno)dramatúrgica». Consultado em 11 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h «Festa de São Tiago: 248 anos de celebração em Mazagão». G1. 14 de julho de 2025. Consultado em 11 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j TJAP. «Compromisso com a história e cultura do Amapá: TJAP participa dos festejos de São Tiago, em Mazagão Velho». Consultado em 11 de setembro de 2025
- ↑ a b c d e f g h i j k «Apoiada pelo Governo do Estado, Festa de São Tiago celebra 248 anos de fé, tradição e cultura em Mazagão Velho; confira programação». Agência de Notícias do Amapá. Consultado em 11 de setembro de 2025
- ↑ «'São 247 anos da união da tradição e da fé, mantida pelo povo', celebra governador Clécio Luís na Festa de São Tiago». Agência de Notícias do Amapá. Consultado em 11 de setembro de 2025
- ↑ «Alvoradas festivas e programações culturais são momentos marcantes da Festa de São Tiago, apoiada pelo Governo do Amapá». Consultado em 11 de setembro de 2025