Festa de São Benedito de Angra dos Reis
A Festa de São Benedito de Angra dos Reis, celebrada anualmente na segunda-feira após o Domingo de Páscoa, constitui uma das manifestações religiosas e culturais mais significativas do estado do Rio de Janeiro. Sua origem remonta ao período colonial, no século XVII, quando a Irmandade de São Benedito foi fundada por negros escravizados e libertos no Convento de São Bernardino de Sena.[1]
História
A devoção a São Benedito em Angra dos Reis tem raízes profundas na história da colonização brasileira. Em 1652, no interior do Convento Franciscano de São Bernardino de Sena, foi fundada a Irmandade de São Benedito, uma associação religiosa leiga composta majoritariamente por pessoas negras, em sua maioria escravizadas. Tais irmandades cumpriam papel central nas comunidades afrodescendentes coloniais: além de serem espaços de devoção e sociabilidade, eram também instrumentos de solidariedade, educação e até libertação.[1]
A prática mais marcante dessa solidariedade era o uso das arrecadações da festa religiosa para comprar cartas de alforria para os irmãos e irmãs da irmandade. A escolha de quem seria libertado acontecia por meio de sorteios ao final das celebrações. Assim, a festa de São Benedito em Angra dos Reis nasceu profundamente marcada pela realidade da escravidão e pelo esforço coletivo das populações negras em garantir dignidade e liberdade dentro dos limites impostos pela sociedade escravocrata.[2]
Por quase dois séculos, a festa esteve vinculada diretamente ao Convento Franciscano. No entanto, a partir do final do século XIX, com a decadência do convento e a reorganização urbana e religiosa da cidade, a Irmandade passou a realizar a festa em outros espaços. Em 1928, foi transferida oficialmente para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, situada no centro da cidade, até que em 1985 foi realizada na igreja do Carmo, não tendo mais um templo fixo, tendo voltado à a Matriz somente em 2013.[3]
A imagem de São Benedito utilizada na festa, uma peça barroca de madeira policromada do século XVIII, é um dos mais valiosos bens culturais e religiosos da cidade. Utilizada nas procissões, essa imagem tem sido objeto de atenção por parte dos órgãos de patrimônio, tendo passado por restauros documentados, sendo o mais recente iniciado em 2024, com acompanhamento técnico do IPHAN.[4]
Em reconhecimento à sua importância histórica e cultural, a festa foi oficialmente declarada Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro por meio da Lei nº 10.281/2024. Esse reconhecimento fortalece as ações de preservação da festa e de seus elementos materiais (como a imagem sacra) e imateriais (como os saberes e práticas da Irmandade), garantindo apoio institucional e valorização da memória local.[4][5]
Estrutura das celebrações
A Festa de São Benedito se estrutura ao longo de várias semanas, com atividades religiosas e culturais que mobilizam grande parte da população angrense. A abertura simbólica acontece no Domingo de Ramos, quando são entregues as insígnias aos "Juízes do Mastro", que lideram os preparativos da festa. Em seguida, ocorre uma procissão até o Largo da Matriz, onde se realiza o tradicional erguimento do mastro com os estandartes de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário, marcando oficialmente o início das festividades.[6]
No Domingo de Páscoa, realiza-se a entrega das insígnias aos "Juízes da Festa", bem como a coroação do Rei e da Rainha da festividade, símbolos de honra e liderança dentro da Irmandade. Também são nomeados novos membros da confraria, o que reforça o caráter hereditário e identitário da irmandade como guardiã da tradição.[6]
A segunda-feira após o Domingo de Páscoa, feriado municipal em Angra dos Reis, é o ponto alto da festa. O dia inicia com uma alvorada festiva – sinos, banda e queima de fogos –, seguida de várias missas, incluindo a Missa Solene de São Benedito. À tarde, ocorre a grandiosa procissão com as imagens de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Menino Jesus e, em alguns anos, São Jorge, quando sua festa coincide com o período pascal. O cortejo é acompanhado por centenas de fiéis, membros da Irmandade, grupos culturais afro-brasileiros e a chamada "Corte Negra", formada por homens, mulheres e crianças vestidos com roupas típicas, reforçando a matriz africana da celebração. Após a procissão, realiza-se o tradicional almoço comunitário no Convento do Carmo, seguido da distribuição do bolo de São Benedito à população.[6]
A festividade é encerrada no chamado "Domingo da Pascoela", segundo domingo após a Páscoa, com a descida do mastro e cerimônias finais que incluem a escolha dos responsáveis pela festa do ano seguinte.[6]
Referências
- ↑ a b Dalizânia (3 de abril de 2024). «Festa de São Benedito em Angra dos Reis | Diocese de Itaguaí». Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ «Ruas de Angra são tomadas pela fé: Devotos de São Benedito celebraram o seu dia com missas e procissão» (PDF). 24 de abril de 2019. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ Dia, O. (1 de abril de 2024). «Católicos celebram padroeiro São Benedito em Angra | Angra dos Reis - Rio de Janeiro». O Dia. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ a b «Angra celebra a Festa de São Benedito». Prefeitura de Angra dos Reis (em inglês). Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ «Relatório complementar - Ação
». sicg.iphan.gov.br. Consultado em 1 de outubro de 2025. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2024 - ↑ a b c d «Angra celebra a tradicional Festa de São Benedito 2025». Prefeitura de Angra dos Reis (em inglês). Consultado em 1 de outubro de 2025