Fenfluramina

Fenfluramina
Nomes
Nome IUPAC (RS)-N-Ethyl- 1-[3-(trifluoromethyl)phenyl]propan-2-amine
Outros nomes ZX008; 3-Trifluorometil-N-etilanfetamina
Identificadores
Número CAS 458-24-2
PubChem 3337
DrugBank DB00574
ChemSpider 3220
ChEBI 5000
Código ATC A08AA02,N03AX26
SMILES
 
  • CCNC(C)Cc1cccc(C(F)(F)F)c1
Propriedades
Fórmula química C12H16F3N
Massa molar 231.257 g mol-1
Farmacologia
Via(s) de administração Oral
Metabolismo Hepático (principalmente via CYP3A4)
Meia-vida biológica ~13–30 horas
Excreção Renal
Classificação legal Lista de substâncias sujeitas a controle especial - F4[1] (BR)
Página de dados suplementares
Estrutura e propriedades n, εr, etc.
Dados termodinâmicos Phase behaviour
Solid, liquid, gas
Dados espectrais UV, IV, RMN, EM
Exceto onde denotado, os dados referem-se a
materiais sob condições normais de temperatura e pressão.

Referências e avisos gerais sobre esta caixa.
Alerta sobre risco à saúde.

A fenfluramina é um fármaco atualmente comercializado na forma de cloridrato para o tratamento da síndrome de Dravet, uma forma de epilepsia crónica, mortal e altamente farmacorresistente caracterizada por convulsões agressivas.

História

Desenvolvida no início dos anos 60 como supressor de apetite, a fenfluramina recebeu aprovação para começar a ser comercializada nos EUA, onde mais tarde foi proposta a combinação com fentermina, de maneira a potenciar o efeito anorético causado pela fenfluramina. Esse medicamento representa o infame Fen-Phen.

Depois de relatos de cardiotoxiciade e de dispneia começarem a surgir, a fenfluramina e consequentemente o Fen-Phen foram banidos de circulação nos EUA, ao qual se seguiu o resto do mundo.[2] Em 2012 estudos na Bélgica mostraram que doentes com Síndrome de Dravet a quem era administrada fenfluramina registavam quebras acentuadas na frequência e ocorrência de convulsões, o que levou a farmacêutica Zogenix a investigar o potencial da fenfluramina enquanto antiepilético no tratamento desta epilepsia.

Em 2019 a Zogenix apresentou o seu pedido de aprovação à FDA para a venda de fenfluramina sob o nome da marca Fintepla, tendo recebido a confirmação a 25 de junho de 2020. Em dezembro do mesmo ano, a EMA também aprovou a venda de Fintepla.[3]

Farmacologia

Farmacodinâmica

A fenfluramina é um potente agente de liberação de serotonina (SRA). Para este mecanismo contribuem a sua capacidade provocar a disrupção de vesículas que contém este neurotransmissor e de promover o efluxo de 5-HT através de um processo de troca mediado pelos SERT (transportador de serotonina).

Para além disso é capaz através da sua ligação aos recetores 5-HT2C induzir a sensação de saciedade e perda de apetite, sendo essa a razão principal da sua comercialização como anorético até 1997.

Embora o mecanismo pelo qual a fenfluramina atua como antiepilético não seja totalmente conhecida, acredita-se que a sua utilidade terapêutica na Síndrome de Dravet resulta do agonismo que exerce particularmente sobre os recetores 5-HT1A, 5-HT2C e 5-HT1D. Complementarmente, estudos recentes mostram que a fenfluramina possa também funcionar como modulador positivo dos recetores σ1 do SNC, devido à melhoria das funções cognitivas, emocionais e comportamentais, algo que muitos fármacos serotoninérgicos e antiepiléticos são incapazes de fazer.

Farmacocinética

A fenfluramina uma vez que é um derivado de uma anfetamina, é capaz de atravessar a Barreira hematoencefálica (BHE) e, por isso de exercer os seus efeitos serotoninérgicos a nível central. Metabolizada hepaticamente, grande parte da fenfluramina é convertida em norfenfluramina, que também tem atividade farmacológica. Aliás, a norfenfluramina tem ainda maior afinidade para os recetores serotoninérgicos referidos, da qual resulta um efeito serotoninérgico superior ao da fenfluramina.

Após a sua absorção a fenfluramina é distribuída em larga parte por todo o corpo, mas as maiores concentrações deste fármaco registam-se no cérebro, rins, fígado, bílis e urina, sendo esta última a via principal da sua excreção.

Efeitos adversos

O risco do aparecimento da Doença das válvulas cardíacas e hipertensão arterial pulmonar obrigaram a FDA e a EMA a disponibilizar a venda de fenfluramina somente através de um programa de distribuição restrito no qual se inclui a necessidade de realização de ecocardiogramas regulares, de maneira a poder detetar antecipadamente qualquer uma destas condições.

Doença das válvulas cardíacas e hipertensão arterial pulmonar

A estimulação de determinados recetores serotoninérgicos pela fenfluramina está na génese destas duas patologias, nomeadamente o recetor 5-HT2B no caso da doença das válvulas cardíacas e o recetor 5-HT1B no caso da hipertensão arterial pulmonar. A ativação destes recetores pela fenfluramina é capaz de desencadear fenómenos de proliferação celular desapropriados, que se vão traduzir em complicações respiratórias/cardíacas para estes doentes.

Síndrome serotoninérgica

Em situações de overdose, o excesso de serotonina desencadeado pelo modo de atuação da fenfluramina no organismo pode desencadear síndrome serotoninérgica, que provoca situações de diarreia, ansiedade, insónia, hipertensão, agitação, tremor, midríase, falhas respiratórias, etc. e se for particularmente acentuado pode mesmo levar à morte.

Referências

  1. Anvisa (24 de julho de 2023). «RDC Nº 804 - Listas de Substâncias Entorpecentes, Psicotrópicas, Precursoras e Outras sob Controle Especial» [Collegiate Board Resolution No. 804 - Lists of Narcotic, Psychotropic, Precursor, and Other Substances under Special Control]. Diário Oficial da União (publicado em 25 de julho de 2023). Consultado em 27 de agosto de 2023. Cópia arquivada em 27 de agosto de 2023 
  2. Donald G. Barceloux (2012). Eating disorders and appetite surpressants In:Medical Toxicology of Drug Abuse: Synthesized Chemicals and Psychoactive Plants. John Wiley & Sons. pp. 255–262.
  3. Síndrome de Dravet Fundación (2021). Disponível em https://www.dravetfoundation.eu/quereis-conocer-un-poco-mas-sobre-la-historia-de-la-fenfluramina/

Ligações externas