Exposição antropológica de 1882

A Exposição Antropológica de 1882 foi um dos eventos científicos mais importantes do Brasil oitocentista, realizada pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro e fortemente influenciada pelo Darwinismo.[1]

Na Exposição, organizada pelo Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, foi apresentado um grupo de Botocudos, de modo relacionável à reificação do mito do selvagem, importante componente da cultura europeia e mais especificamente da construção do conhecimento antropológico no Oitocentos [2]

História

Na segunda metade do Século XIX - sobretudo a partir da década de 1870 -, a popularização das teorias evolucionistas, em ascensão na Europa, motivou grande incremento de instituições de caráter científico na América Latina, e fez dos museus os locais preferenciais de exposição dessas teorias.

Tais teorias foram adaptadas e tomaram formato específico no Brasil, no intuito de legitimar algumas especulações acerca da posição em que se encontrariam índios, negros e mestiços, na cadeia evolutiva sugerida por Darwin.[3]

Foi nesse cenário que, em 1882, o Museu Nacional, dirigido por Ladislau Netto, enquanto entidade geradora de pesquisas e questões acadêmicas, promoveu a Exposição Antropológica Brasileira. Para reunir o acervo a ser mostrado na Exposição, Netto enviou solicitações para todas as províncias: os moldes de Botocudo chegaram de Goiás e do Espírito Santo; objetos etnológicos vieram do Amazonas e Mato Grosso; peças líticas e cerâmicas foram remetidas pelo Museu Paranaense, além de coleções particulares. Os livros foram emprestados da Biblioteca Nacional.

Segundo o Guia da Exposição, as coleções foram organizadas em oito salões, especialmente redecorados para a ocasião, que receberam os nomes de naturalistas e missionários do passado, como Pero Vaz de Caminha, Jean de Léry, Gabriel Soares de Sousa, José de Anchieta, Alexandre Rodrigues Ferreira, e cientistas contemporâneos, como Martius, Hartt e Lund. Em cada uma destas seções foram exibidos variados objetos arqueológicos, em maior ou menor número. A sala Lund foi a que mais recebeu restos humanos fossilizados, enquanto que a Hartt continha a maior parte dos fragmentos cerâmicos e a Lery os restos de sambaquis.[4]

Para noticiar o evento ao grande público, a Exposição contou com a presença de jornalistas dos principais periódicos da cidade, entre eles o famoso (e também temido) caricaturista, Angelo Agostini, e o fotógrafo Marc Ferrez.

Prestigiada pela presença do próprio imperador, D. Pedro II, e da princesa Isabel, a Exposição foi inaugurada em 29 de julho de 1882, estendendo-se ao longo de três meses. Teve um público de mais de mil visitantes, um verdadeiro êxito no país, com repercussão internacional.[4]

Zoológico humano

Sete pessoas pertencentes a etnia Nak-Nanuk (segundo o Jornal do Commercio de 2 de julho de 1882), foram enganadas e trazidas a força para serem expostas ao que hoje é conceituado como zoológicos humanos[5][6]. Um ofício escrito de próprio punho pelo presidente da província do Espírito Santo, Herculano Marcos Inglez de Souza, endereçado a Ladislau Netto, afirmou que: embora não pudesse satisfazer os pedidos que foram feitos com relação à Exposição Antropológica, envia uma “familia” de sete pessoas “indigenas do Rio Dôce”. Inglez de Souza também afirmou que “teve de lutar com grande difficuldade para lhe enviar estes [índios]”. Outro relato que reforça que os indígenas foram trazidos contra sua vontade é do de Joaquim Ayres, fotógrafo da expedição ao Rio Doce, que afirma que os mesmos por várias vezes teriam fugido durante o transporte para o Rio de Janeiro.[7]

Além dos Botocudos, provenientes do Espírito Santo, outros três indígenas da tribo Xerente, de Minas Gerais foram levados para serem expostos.[4]

Bibliografia

  • Lopes, Maria Margaret. O Brasil descobre a pesquisa científica: os museus e as ciências naturais no século XIX. São Paulo: Hucitec, 1997.
  • Netto, Ladislau. Discurso inaugural da exposição antropológica. In: Revista da Exposição Anthropológica Brazileira. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & Cia, 1882.
  • Guia da Exposição Anthropologica Brazileira realisada pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Typographia de G. Leuzinger & Filhos. 1882 

Referências

  1. Jens Andermann. «Espetáculos da diferença: a Exposição Antropológica Brasileira de 1882». Topoi (Rio J.) vol.5 no.9 Rio de Janeiro July/Dec. 2004. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  2. Sánchez Arteaga, Juanma; Niño El-Hani, Charbel (junho de 2010). «Physical anthropology and the description of the 'savage' in the Brazilian Anthropological Exhibition of 1882». História, Ciências, Saúde-Manguinhos. 17 (2): 399–414. ISSN 0104-5970. doi:10.1590/s0104-59702010000200008 
  3. Sánchez Arteaga, Juanma (23 de maio de 2016). «Biological Discourses on Human Races and Scientific Racism in Brazil (1832–1911)». Journal of the History of Biology. 50 (2): 267–314. ISSN 0022-5010. doi:10.1007/s10739-016-9445-8 
  4. a b c Neldson Marcolin (setembro de 2010). «Selvagens do Museu» (PDF). Pesquisa FAPESP. Consultado em 21 de novembro de 2018 
  5. Vieira, Marina Cavalcante (25 de abril de 2019). «A Exposição Antropológica Brasileira de 1882 e a exibição de índios botocudos: performances de primeiro contato em um caso de zoológico humano brasileiro». Horizontes Antropológicos: 317–357. ISSN 0104-7183. doi:10.1590/S0104-71832019000100012. Consultado em 4 de julho de 2025 
  6. Dewitte, Philippe (2002). «Zoos humains. De la Vénus hottentote aux reality shows. Sous la direction de Nicolas Bancel, Pascal Blanchard, Gilles Boetsch, Éric Deroo, Sandrine Lemaire, 2002». Hommes & Migrations (1): 152–152. Consultado em 4 de julho de 2025 
  7. Vieira, Marina Cavalcante (25 de abril de 2019). «A Exposição Antropológica Brasileira de 1882 e a exibição de índios botocudos: performances de primeiro contato em um caso de zoológico humano brasileiro». Horizontes Antropológicos: 317–357. ISSN 0104-7183. doi:10.1590/S0104-71832019000100012. Consultado em 4 de julho de 2025 

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