Excursão Suicida

Catorze jogadores de futebol, oito em pé e seis agachados. O quinto jogador em pé e o quarto jogador agachado da esquerda foram marcados com uma cruz vermelha.
Seleção Santa Cruz de 1943. Jogadores marcados com uma cruz vermelha morreram durante a excursão

A Excursão Suicida, também conhecido como a Excursão da Morte, ocorreu quando o clube de futebol profissional brasileiro Santa Cruz Futebol Clube fez uma excursão pela região norte do Brasil de 2 de janeiro de 1943 a 29 de abril de 1943. Ao longo de quase quatro meses, eles jogaram uma série de 26[1] ou 28[2] partidas amistosas em seis cidades diferentes para arrecadar fundos. A excursão ganhou esse nome devido aos infortúnios sofridos pelo clube, incluindo dificuldades financeiras, a ameaça de ataques alemães submarinas e mortes.

Buscando se recuperar de uma crise financeira, o Santa Cruz, de Recife, organizou cinco jogos em Belém. Depois disso, a equipe foi convidada a estender sua excursão para o Amazonas. Viajando pelo rio Amazonas por duas semanas, o Santa Cruz começou a ter problemas em Manaus, onde sete membros da delegação da equipe contraíram disenteria. Embora a maioria deles tenha se recuperado, dois jogadores contraíram febre tifoide e morreram. Dois outros jogadores deixaram o clube para jogar em times de Manaus.

Sem poder voltar para casa pelo mar, devido à Segunda Guerra Mundial, e precisando cobrir os custos crescentes, o Santa Cruz teve de retornar a Recife por terra, jogando partidas pelo caminho para ganhar mais dinheiro. A viagem de volta a Recife teve outros problemas, incluindo um falso mandado de prisão para um jogador, uma viagem ao lado de ladrões e dois descarrilamentos de trem.

Antecedentes

Lista de jogadores do Santa Cruz de 1943[3]
Goleiros Zagueiros Meio-campistas Atacantes
  • King
  • Eutímio
  • Cidinho II
  • Pedrinho
  • Zé Maria
  • Omar
  • Pelado
  • Capuco
  • Amaro
  • Guaberinha
  • Edésio
  • Limoeirinho
  • Cidinho I[a]
  • Pinhegas
  • Papeira
  • França

Um dos clubes mais populares do estado de Pernambuco, o Santa Cruz Futebol Clube estava atolado em uma profunda crise financeira em 1942.[4][5] O clube estava com um desempenho ruim, devia salários a vários de seus funcionários e tinha de subsistir com a receita de seus campos de futebol suburbanos e com os pagamentos mensais de seus associados.[b][4]

Os diretores do clube decidiram fazer uma pequena excursão pela região norte e jogar partidas amistosas contra clubes locais.[5][6] Fizeram um acordo com o Transviário Esporte Clube, de Belém, para que cinco jogos fossem disputados em Belém, cada um custando ao Santa Cruz cinco milhões de réis.[4]

O Santa Cruz contratou quatro novos jogadores para a excursão. A delegação do time era composta por dezesseis jogadores, um presidente – que também atuava como tesoureiro e técnico do time – e um árbitro da Federação Pernambucana de Futebol.[3] A excursão começou no meio da Segunda Guerra Mundial,[4] enquanto os submarinos alemães patrulhavam a costa brasileira.[1]

Natal e Belém

Um mapa do Brasil com as localizações das cidades visitadas marcadas. A cidade natal de Santa Cruz, Recife, está marcada com um ponto azul.

A delegação de Santa Cruz partiu de Recife, Pernambuco, em 2 de janeiro de 1943, a bordo do barco a vapor Pará. Devido ao temor de possíveis ataques de submarinos nazistas, o barco teve que navegar com as luzes apagadas, sendo escoltado por dois navios da Marinha do Brasil. Dois dias depois, chegou a Natal, no Rio Grande do Norte, onde a equipe pernambucana venceu o time do estado local por 6–0.[5][6][7] A delegação viajou então para Belém, no Pará, onde disputou cinco jogos contra equipes da cidade. Venceu o Transviário por 7–2 e a Tuna Luso por 3–1,[8] empatou com o time do estado do Pará em 3–3 e em 4–4 com o Paysandu,[7][9] e depois perdeu para o Remo por 5–3.[8]

Manaus

Embora a delegação do time pretendesse que os jogos em Belém fossem os últimos da excursão,[7] eles foram convidados pelo Olímpico Clube a viajar para Manaus, em Amazonas, para jogar contra os times locais,[10] sendo a primeira vez que um time de Pernambuco visitava a cidade.[11] A delegação partiu para Manaus em 25 de janeiro, subindo o rio Amazonas[12] a bordo de um barco a vapor que rebocava um carregamento de alimentos destinados ao Acre.[8] Viajando a uma velocidade de ten nautical miles (19 km; 12 mi) por dia, a equipe levou duas semanas para chegar ao estado do Amazonas.[8][11]

A equipe chegou a Manaus em 7 de fevereiro. Cansado e jogando sob forte chuva, o time perdeu seu primeiro jogo no Amazonas por 3–2 para o Olímpico. O Santa Cruz jogou mais quatro partidas lá, vencendo três vezes (5–1 e 5–4 contra o Rio Negro e 6–0 contra o Nacional) e perdendo uma vez para o time estadual local.[11] Logo após a primeira partida contra o Rio Negro, o chefe da delegação e seis jogadores sofreram um surto de disenteria. Sob ordens médicas para comer muitas frutas e verduras, evitar certos alimentos, como ovos e crustáceos, e beber apenas água mineral, eles se recuperaram e puderam participar das partidas seguintes.[13]

Após os jogos em Manaus, os diretores do clube planejaram uma etapa internacional no Peru e na Guiana.[14] No entanto, a Confederação Brasileira de Desportos bloqueou a viagem em resposta a uma solicitação do Ministério das Relações Exteriores, que aconselhou os clubes a não deixarem o país devido à Segunda Guerra Mundial.[15] Sob a ameaça de uma suspensão de 90 dias caso prosseguissem com a viagem, o time desistiu e retornou a Belém a bordo do vapor Fortaleza.[6][14] Três jogadores, Cidinho, Omar e França, não voltaram com o time, pois foram "atraídos por boas ofertas" de times locais.[6][15] Durante a viagem a Belém, dois jogadores tiveram uma recaída de disenteria. O goleiro King e o atacante Papeira foram diagnosticados com febre tifoide e hospitalizados, tendo ambos desobedecido às ordens médicas. Papeira jogou descalço, tomou banho frio e bebeu alguns drinques, enquanto King comeu fígado e ovos no jantar. A delegação pretendia retornar a Recife o mais rápido possível, mas todas as viagens marítimas foram proibidas pelo governo brasileiro em 1º de março, um dia depois de sua chegada a Belém.[15][16]

Belém para Recife

Sem condições de comprar passagens aéreas e precisando cobrir despesas médicas e de alimentação, o clube teve de continuar jogando para ganhar dinheiro.[15] O Santa Cruz jogou contra o Remo em 2 de março, vencendo por 4–2. Pouco antes do jogo, o chefe de polícia de Belém recebeu um telegrama de Manaus ordenando a prisão do zagueiro Pedrinho, que foi acusado de "fazer maldades com uma garota de 17 anos" durante sua estadia em Manaus.[17] Descobriu-se que o policial que ordenou sua prisão era o diretor de um clube do Amazonas[18] e estava interessado nas habilidades do jogador. Como a acusação era falsa, o jogador nunca foi preso.[17] Ele jogaria pelo Santa Cruz pouco tempo depois, sendo incluído na partida contra o Paysandu em 9 de março.[19]

Vários jogadores de futebol andando em um campo de futebol
Santa Cruz entrando em campo antes do jogo em Belém

O Santa Cruz sofreu sua primeira baixa pouco tempo depois, quando King morreu de febre tifoide em 4 de março de 1943.[c][17][20] Seu funeral contou com a presença de várias figuras do futebol paraense, representantes da CBD e dos clubes onde ele jogou, além de várias autoridades pernambucanas. O caixão foi levado da sede da Federação Paraense de Esportes para um cemitério, acompanhado por uma grande multidão.[20] Após a morte de King, Cidinho, que havia desertado do Santa Cruz uma semana antes, retornou ao clube.[16]

Apenas três dias após a morte, o clube jogou contra o Paysandu. Um minuto de silêncio foi respeitado antes da partida. Às 16h30, durante o jogo, os jogadores receberam a notícia de que Papeira também havia falecido.[6][16][21] Após a partida, o gramado foi invadido por torcedores que se solidarizaram com os jogadores.[16] Posteriormente, a diretoria do Paysandu visitou a delegação do Santa Cruz e presenteou-a com o troféu Cidade do Recife em sinal de solidariedade.[19] Após perder dois jogadores, a diretoria do clube cogitou retornar ao Recife por via aérea,[21] mas os custos hospitalares e funerários deixaram a delegação sem dinheiro. O Santa Cruz disputou mais cinco jogos em Belém, antes de iniciar a viagem de volta de barco para Pernambuco em 28 de março.[22]

Viajando primeiro para São Luís, no Maranhão, os jogadores tiveram que trocar suas passagens de primeira classe por passagens de terceira classe para economizar dinheiro. Eles foram obrigados a viajar ao lado de 35 ladrões que estavam sendo "exportados" pela polícia do Pará para o Maranhão. Como medida de segurança, os quinze troféus conquistados pelo Santa Cruz na excursão foram escondidos. No entanto, essa precaução se mostrou desnecessária, pois os ladrões e os jogadores se tornaram amigos.[2][6][22] Em São Luís, o barco foi retido por motivos de segurança, e o clube jogou seis partidas lá, uma das quais contou com a participação do cozinheiro do navio, substituindo um jogador machucado.[2][6] Originalmente, o Santa Cruz pretendia partir para Recife depois de um jogo contra o Sampaio Corrêa (o quarto no Maranhão), mas a delegação decidiu jogar mais duas partidas antes de partir.[23] O navio partiu à meia-noite, mas teve de retornar a São Luís devido a uma tempestade e à presença de submarinos alemães.[2][6][23]

Os jogadores decidiram então ir para Teresina, Piauí, de trem. O trem descarrilou duas vezes, mas sem nenhuma vítima. O Santa Cruz jogou outra partida no Piauí antes de partir para Fortaleza, no Ceará, de ônibus.[2][6][23] Lá, eles jogaram a última partida da excursão, perdendo para o Ceará Sporting Club por 3–2.[6][23] A excursão terminou com 26[1] ou 28 partidas jogadas no total.[2] Em 29 de abril de 1943, quase quatro meses após o início da excursão, o Santa Cruz chegou a Recife.[23][24] O time começou a temporada de 1943 em 2 de maio com o Campeonato Pernambucano, o campeonato estadual.[23] A mala de Papeira foi entregue à sua família, mas a mala de King não pôde ser devolvida, pois foi perdida no mar em São Luís.[25]

Notas

  1. Às vezes grafado como "Sidinho I", "Cidinho" e "Sidinho".
  2. Os associados são torcedores que pagam taxas de anuidade para obter benefícios como descontos nos preços dos ingressos e mercadorias. Para obter mais informações, consulte Clube esportivo § Organização.
  3. Algumas fontes relatam a data como 3 de março.[6][16]

Referências

  1. a b c Costa (2020).
  2. a b c d e f Aragão (1979), p. 62, Seção "De novo no mar, junto com 35 ladrões".
  3. a b Trindade (1972), Seção "Formação da equipe".
  4. a b c d Trindade (1972).
  5. a b c Aragão (1979), p. 60.
  6. a b c d e f g h i j k Guedes, Marcos (29 de abril de 2023). «Há 80 anos, Santa Cruz completava 'a maior epopeia da história humana'»Acesso livre sujeito a período limitado experimental, a subscrição é normalmente requerida. Folha de S.Paulo. ISSN 1414-5723. Consultado em 26 de abril de 2024. Cópia arquivada em 26 de abril de 2024 
  7. a b c Costa (2020), Seção "Primeiros jogos e problemas".
  8. a b c d Aragão (1979), p. 60, Seção "De Belém a Manaus, duas semanas no rio".
  9. «O Santa Cruz empatou com o selecionado paraense». Jornal Pequeno (17). 22 de janeiro de 1943. p. 2. Consultado em 17 de maio de 2024. Cópia arquivada em 17 de maio de 2024 – via Hemeroteca Digital Brasileira 
  10. Trindade (1972), Seção "Temporada amazonense".
  11. a b c Costa (2020), Seção "Duas semanas no rio até Manaus com bebedeiras".
  12. «Embarcou para Manáus a delegação do Santa Cruz». Jornal Pequeno (20). 26 de janeiro de 1943. p. 2. Consultado em 18 de maio de 2024. Cópia arquivada em 18 de maio de 2024 – via Hemeroteca Digital Brasileira 
  13. Aragão (1979), p. 60, Seção "Do barco, direto para um hospital...".
  14. a b Costa (2020), Seção "Tentativa de jogos internacionais".
  15. a b c d Aragão (1979), p. 61, Seção "Do barco, direto para um hospital...".
  16. a b c d e Costa (2020), Seção "Deserção, mortes e paralisação da navegação mudam planos".
  17. a b c Aragão (1979), p. 61, Seção "Em Belém, mortes e uma ordem de prisão".
  18. Trindade 1972, Seção "Golpe baixo".
  19. a b «Um a um, o resultado do jogo contra o Paysandú». Diário de Pernambuco (57). 9 de março de 1943. p. 5. ISSN 1807-7072. Consultado em 20 de maio de 2024. Cópia arquivada em 20 de maio de 2024 – via Hemeroteca Digital Brasileira 
  20. a b «King faleceu, ontem, em Belem do Pará». Diário de Pernambuco (54). 5 de março de 1943. p. 5. ISSN 1807-7072. Consultado em 19 de maio de 2024. Cópia arquivada em 19 de maio de 2024 – via Hemeroteca Digital Brasileira 
  21. a b Aragão (1979), p. 62, Seção "Em Belém, mortes e uma ordem de prisão".
  22. a b Costa (2020), Seção "Mais jogos em Belém, viagem com ladrões e uma longa volta".
  23. a b c d e f Costa (2020), Seção "Últimos jogos, ameaça alemã e trem descarrilado".
  24. «O S.-Cruz reaparecerá amanhã». Diário de Pernambuco (100). 1 de maio de 1943. p. 8. ISSN 1807-7072. Consultado em 23 de maio de 2024. Cópia arquivada em 23 de maio de 2024 – via Hemeroteca Digital Brasileira 
  25. Aragão (1979), p. 62, Seção "'Na volta, meu filho não me reconheceu'".

Bibliografia