Exército Fantasma

Insígnia do Exército Fantasma, não utilizada pela unidade real, mas associada a ela após a guerra

Exército Fantasma[1] (em inglês: Ghost Army) foi uma unidade tática de engano do Exército dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, oficialmente conhecida como 23.º Quartel-General das Tropas Especiais.[2][3] A unidade de 1 100 homens recebeu uma missão única: enganar as forças armadas da Alemanha Nazista e induzi-las ao erro quanto ao tamanho e à localização das forças aliadas, dando tempo para que as unidades reais em outros lugares se movimentassem.[4]

Ativado em 20 de janeiro de 1944, o Exército Fantasma chegou à Europa em maio, pouco antes do Dia D, e retornou aos Estados Unidos no final da guerra, em julho de 1945.[5][6] Durante sua atuação, o Exército Fantasma realizou mais de 20 campanhas de engano, montando um “espetáculo itinerante” com tanques infláveis, caminhões de som, falsas transmissões de rádio, roteiros e simulações.[3]

Sua história foi mantida em segredo por mais de 50 anos após a guerra, até ser desclassificada em 1996.[3][7] A unidade foi tema de um documentário da PBS, The Ghost Army, em 2013.[6] Em fevereiro de 2022, membros do Exército Fantasma foram condecorados com a Medalha de Ouro do Congresso, em reconhecimento ao seu serviço único e altamente distinto.[4]

História e implantação

O Exército Fantasma foi criado pelos planejadores do Exército dos Estados Unidos Ralph Ingersoll e Billy Harris, e liderado pelo Coronel Harry L. Reeder. A inspiração para a unidade veio das unidades britânicas que haviam aperfeiçoado a técnica de engano durante Operação Bertram na batalha de El Alamein no final de 1942.[3]

A unidade teve seus alojamentos no Camp Forrest, no Tennessee, onde recebeu treinamentos intensivos em táticas de camuflagem, simulações de combate e defesa aérea. Durante esse período, a 406.ª Companhia de Engenheiros de Combate foi oficialmente ativada como parte do 23.º Quartel-General de Tropas Especiais.[8]

Após completar os preparativos finais para o envio ao exterior, a companhia embarcou no transporte do Exército Henry Gibbons no dia 2 de maio de 1944, partindo de Hoboken, Nova Jersey, com destino ao Reino Unido.[8]

Recrutamento

Os soldados fantasmas eram incentivados a usar sua inteligência e talento para enganar, iludir e confundir o Exército Alemão. Muitos foram recrutados em escolas de arte, agências de publicidade e outras ocupações que estimulavam o pensamento criativo. Na vida civil, os soldados fantasmas eram artistas,[6] arquitetos, atores, cenógrafos, engenheiros e advogados.[7]

Embora o 23.º Quartel-General das Tropas Especiais fosse composto por apenas 1100 soldados, o contingente utilizava equipamentos desenvolvidos pelas forças britânicas, como tanques e artilharia falsos, aeronaves fictícias e alto-falantes gigantes que transmitiam sons de homens e artilharia para fazer os alemães acreditarem que se tratava de uma força de até duas divisões, com 30 000 homens.[3] Os elaborados truques da unidade ajudaram a desviar unidades alemãs dos locais onde estavam posicionadas as maiores forças de combate aliadas.[9]

Segurança

A 406.ª Companhia de Engenheiros de Combate era responsável pela segurança. Os oficiais eram o Capitão George Rebh (comandante), o Tenente William George Aliapoulos (3.º Pelotão)[10][11] (página 301),[12] que recebeu a Estrela de Bronze por seu serviço durante a Operação Bretanha, o Tenente George Daley (1.º Pelotão), o Tenente Ted Kelker (Pelotão de Comando) e o Tenente Thomas Robinson (2.º Pelotão), conforme documentado no livro Ghosts of ETO (página 29).[13][14] O livro afirma que o Capitão Rebh "Durante o treinamento no deserto, Rebh decidiu que, como engenheiros de combate, seus homens precisavam saber não apenas habilidades de engenharia, mas também como desempenhar o papel de soldados de infantaria. Ele os treinava em táticas de infantaria durante noites e fins de semana até que atingissem um nível razoável de proficiência" (página 29).[13][14]

Táticas

Engano visual

Um tanque inflável de mentira, modelado a partir do M4 Sherman

A unidade responsável pelo engano visual do chamado Exército Fantasma era a 23.ª Tropa de Quartel-General Especial do Exército dos EUA, e utilizava tanques e jipes infláveis para simular batalhões próximos a posições alemãs, mas distantes das verdadeiras forças aliadas. Os membros da unidade também usavam uniformes e insígnias diferentes para enganar a inteligência alemã, fazendo parecer que havia mais soldados do que realmente existiam. Além disso, eles montavam alto-falantes em caminhões para projetar sons de movimentação de tropas, tanques e construção de pontes.[15]

Segundo o Washington Post, a 23.ª conseguiu convencer inimigos alemães de que contavam com até 30 mil soldados, levando algumas unidades a se renderem por medo de estarem em desvantagem. Suas ações foram tão eficazes que o Exército dos EUA manteve sua missão em sigilo até 1996.[15]

Muitos dos homens dessa unidade eram artistas, recrutados de escolas de arte de Nova York e Filadélfia. A unidade tornou-se um celeiro para jovens artistas que desenharam e pintaram durante sua passagem pela Europa. Vários desses soldados-artistas tiveram grande impacto nas artes nos Estados Unidos no pós-guerra. Bill Blass,[16] Ellsworth Kelly, o artista da vida selvagem Arthur Singer e Art Kane estavam entre os muitos artistas que serviram na 603.ª.[3]

Engano sonoro

A 3132.ª Companhia de Serviço de Sinalização Especial era responsável pelo engano sonoro. A unidade se consolidou sob a direção do Coronel Hilton Railey, uma figura carismática que, antes da guerra, havia "descoberto" Amelia Earhart e a lançado ao estrelato.

Com o auxílio de engenheiros da Bell Labs, uma equipe da 3132.ª foi até Fort Knox para gravar sons de unidades blindadas e de infantaria em uma série de discos de efeitos sonoros que seriam levados à Europa. Para cada operação de engano, os sons podiam ser “misturados” para corresponder ao cenário que eles queriam que o inimigo acreditasse. Esse programa foi gravado com gravadores de fio magnético de última geração (precursores do gravador de fita) e depois reproduzido com potentes amplificadores e alto-falantes montados em halftracks. Esses sons eram audíveis a até 15 milhas (24 km) de distância.[7]

Atmosfera

A unidade frequentemente utilizava efeitos teatrais para reforçar os outros enganos.[17]

Legado

Embora nenhuma unidade ativa do Exército trace uma linhagem formal da 23.ª, seu legado inspirou o Exército contemporâneo. Hoje, tanto as comunidades de operações psicológicas quanto de Operações de Informação (IO) usam o "ghost patch" como uma identidade informal, já que essas disciplinas se especializam em influenciar por meio de Operações Psicológicas (PO) e atividades de dissimulação (IO), que foram pioneiras na 23ª.[18]

As Tropas Especiais do Quartel-General da 23.ª foram nomeadas Membros Honorários do Regimento de Operações Psicológicas do Exército dos EUA em 3 de novembro de 2022.[19]

Referências

  1. «7 truques do Exército Fantasma dos EUA para enganar nazistas na 2ª Guerra». BBC Brasil. 27 de janeiro de 2018. Consultado em 27 de abril de 2024 
  2. «1st Hqs, Special Troops». nasaa-home.org. Consultado em 21 de janeiro de 2016. Arquivado do original em 5 de janeiro de 2016 
  3. a b c d e f Gormly, Kellie B. (5 de julho de 2022). «How the Ghost Army of WWII Used Art to Deceive the Nazis». Smithsonian Magazine. Consultado em 26 de julho de 2022 
  4. a b Patel, Vimal (4 de fevereiro de 2022). «Ghost Army, a World War II Master of Deception, Finally Wins Recognition». The New York Times (em inglês). ISSN 0362-4331. Consultado em 23 de agosto de 2022 
  5. «Ghost Army: The Combat Con Artists of World War II». The National WWII Museum | New Orleans (em inglês). Consultado em 23 de agosto de 2022 
  6. a b c Binkovitz, Leah (21 de maio de 2013). «When an Army of Artists Fooled Hitler». Smithsonian.com. Consultado em 23 de maio de 2013. Arquivado do original em 23 de maio de 2013 
  7. a b c Garber, Megan (22 de maio de 2013). «Ghost Army: The Inflatable Tanks That Fooled Hitler». The Atlantic. Consultado em 23 de maio de 2013 
  8. a b «CAMP FORREST, TENNESSEE». Ghost Army (em inglês). Consultado em 12 de abril de 2025 
  9. «7 truques do Exército Fantasma dos EUA para enganar nazistas na 2ª Guerra». BBC Brasil. 27 de janeiro de 2018. Consultado em 12 de abril de 2025 
  10. «Ghost Army Roster - William George Aliapoulos» 
  11. «Ghost Army Roster» 
  12. The Ghost Army. [S.l.]: Casemate. 20 de agosto de 2007. ISBN 978-1-935149-92-7 
  13. a b Ghosts of the ETO: American Tactical Deception Units in the European Theater, 1944–1945. Ghosts of ETO. [S.l.]: Casemate. 20 de agosto de 2007. ISBN 978-1-935149-92-7 
  14. a b Ghosts of ETO. [S.l.: s.n.] 29 páginas 
  15. a b «The 23rd Headquarters Special Troops: The Phantom Menace». Mental Floss. 30 de março de 2011. Consultado em 21 de janeiro de 2016. Arquivado do original em 24 de abril de 2024 
  16. «Exhibit and film celebrate World War II's Ghost Army». The Boston Globe. 23 de fevereiro de 2012. Consultado em 6 de setembro de 2012. Arquivado do original em 18 de janeiro de 2013 
  17. «The Artist-Filled Shadow Army of World War II». Hyperallergic (em inglês). 20 de maio de 2013. Consultado em 21 de janeiro de 2016 
  18. Price, Mark (17 de maio de 2022). «'Unsettling' Fort Bragg recruitment video ignites debate over its mysterious intent». The News Observer. Consultado em 4 de dezembro de 2023 
  19. Riley, Rachael. «Special operation forces induct notable veterans at Fort Bragg». The Fayetteville Observer. Gannette, Inc. Consultado em 4 de junho de 2024 

Ligações externas