Estudos ocultistas de Isaac Newton

Gravura colorida a partir do retrato feito por Enoch Seeman em 1726

O físico e matemático Isaac Newton produziu escritos sobre cronologia bíblica e interpretação bíblica (especialmente do Apocalipse) e alquimia. Alguns dos seus trabalhos podem ser considerados ocultistas. Na verdade, o trabalho científico de Newton era menos importante para ele do que a descoberta dos "conhecimentos antigos". Pesquisas históricas sobre os estudos ocultistas de Newton e a relação com a ciência foram utilizadas para questionar a narrativa do desencantamento na teoria crítica.[1]

Newton viveu durante a Era Moderna, quando os estudiosos adotaram uma visão de mundo diferente dos séculos precedentes. As diferenças entre ciência, superstição e pseudociência ainda estavam sendo formuladas, já que a perspectiva bíblica cristã permeava toda a cultura ocidental.

Alquimia

Gravura de 1874 mostrando uma versão provavelmente apócrifa do incêndio no Laboratório de Alquimia de Newton. Segundo a história, o cão Diamond derrubou uma vela, queimando os documentos de 20 anos de pesquisa. Newton teria dito "Oh pequeno Diamond, você não faz ideia do que acabou de fazer!."[2]

Muito do que se sabe sobre os estudos ocultistas de Newton é devido ao seus escritos sobre alquimia.[3] Desde pequeno, Newton se interessava por todas as formas de ciências naturais e dos materiais, o que levaria mais tarde a suas maiores contribuições. Seu primeiro contato com teorias e práticas alquímicas aconteceram quando tinha 12 anos, morando no sótão de um boticário.[4] Durante a vida de Newton, a Química como a conhecemos hoje ainda estava surgindo, e por isso diversos dos seus estudos usavam linguagem vaga e esotérica, tipicamente associada ao ocultismo. Décadas depois da morte de Newton é que os experimentos de estequiometria, notavelmente realizados no laboratório de Antoine Lavoisier, estabeleceram as bases da química moderna e a nomenclatura que se utiliza hoje. Porém cientistas da época, como Robert Boyle, já haviam encontrado resultados significativos e começaram a estabelecer as normas da prática e da comunicação científicas contemporâneas; mas tais informações não chegaram a Newton.

A maioria dos escritos de Newton sobre alquimia foi perdida no incêndio do seu laboratório, e por isso acredita-se que seu interesse pela área era maior do que se pode conhecer atualmente. Além disso, Newton sofria de transtornos mentais durante o período, possivelmente devido a envenenamento por mercúrio.[5]

Seus escritos sugerem que um dos principais objetivos era a descoberta do que se conhece como a pedra filosofal, que transformaria metais em ouro e, em menor medida, a descoberta do elixir da longa vida.[5] Registra-se que Newton acreditava que a árvore de Diana, uma preparação alquímica que demonstra o crescimento dendrítico de cristais de Prata de uma solução de nitrato, era evidência de que "metais possuiam um tipo de vida".[6]

Algumas práticas alquímicas foram banidas da Inglaterra durante a vida de Newton, em parte por conta de praticantes inescrupulosos que prometiam resultados surrais para seus financiadores, em troca de seus recursos. A Coroa Britânica, tendo em vista a possibilidade de desvalorização do ouro por conta da falsificação alquímica, criou penalidades severas para os alquimistas, que poderiam incluir até o enforcamento em praça pública.[5]

Escritos

Devido a ameaça de punição e possíveis críticas de seus colegas da nascente comunidade científica, Newton talvez tenha deliberadamente evitado publicar seus estudos alquímicos. Newton era muito sensível a críticas, notavelmente àquelas de Robert Hooke, e sua notável relutância em publicar qualquer avanço sobre cálculo antes de 1693. Sempre um perfecionista, Newton também absteve-se de publicar qualquer coisa que considerava incompleta, como demonstram os 38 anos dentre a concepção do cálculo em 1966 e sua publicação completa em 1704, que levaria finalmente às disputas com Leibniz.

A maior parte dos seus escritos ficou para John Conduitt, marido de Catherine Barton, sobrinha do cientista. Para avaliar os manuscritos, o médico Thomas Pellet se envolveu, e decidiu que apenas "The Chronology of Ancient Kingdoms", um fragmento de "Principia", "Observations upon the Prophesies of Daniel and the Apocalypse of St. John" e "Paradoxical Questions Concerning the Morals and Actions of Athanasius and His Followers" poderiam ser publicadas. Os manuscritps restantes, segundo Pellet, eram "esboços falhos de estilo profético", e não estariam prontos para publicação. Depois da morte de J. Conduitt em 1737, os manuscritos foram transferidos para Catherine, que tentou, sem sucesso, publicar as notas teológicas do seu tio. Ela consultou Arthur Ashley Sykes (1684–1756), amigo de Newton. Sykes guardou consigo onze manuscritos, e o resto ficou para a família da filha de Catherine, que casou-se com John Wallop, visconde de Lymington. Depois da morte de Sykes, os documentos foram para o Reverendo Jeffery Ekins, e ficaram com sua família até serem doados para o New College, Oxford em 1872.[7]

Até meados do século XIX, poucos tinham acesso à coleção Portsmouth, incluindo David Brewster Until the mid-19th century, few had access to the Portsmouth collection, including David Brewster, físico renomado e biógrafo de Newton. Em 1872, o quinto Earl de Portsmouth transferiu a parte matemática e física dos manuscritos para a Unviersidade de Cambridge, o que pode ter contribuído para o apagamento da contribuição ocultista de Newton.

Outros Trabalhos

Os diversos cadernos alquímicos de Newton mostram claramente que, para ele, não havia distinção entre a alquimia e o que hoje consideramos ciência. Experimentos de óptica eram descritos nas mesmas páginas de fontes arcaicas. Newton nem sempre anotava seus experimentos químicos de forma transparente, já que a prática dos alquimistas era esconder seus conhecimentos em jargão próprio e impenetrável para novatos. O próprio Newton inventou símbolos para isso.[8]

Newton e Sociedades Secretas

Newton é frequentemente associado a diversas sociedades secretas, mas a falta de fontes confiáveis torna difícil comprovar sua participação em alguma delas,[9] apesar do grande número de prédios maçônicos com seu nome.[10]

Newton era sabidamente membro da Royal Society e outras agremiações,[11][12] mas essas são sociedades científicas e não sociedades esotéricas. A participação de Newton nessas sociedades esotéricas continua especulativo.

Referências

  1. Josephson-Storm, Jason Ānanda (2017). The myth of disenchantment: magic, modernity, and the birth of the human sciences. Chicago ; London: The University of Chicago Press. ISBN 978-0-226-40322-9 
  2. Alfred Rupert Hall, Isaac Newton: Eighteenth Century Perspectives, Oxford University Press, 1999, p. 175. ISBN 0-19-850364-4.
  3. "Newton's manuscripts provide evidence that he gave considerable thought to alchemy as emblematic of a purely scientific explanation of nature and was in fact deeply involved in conceiving alchemy as spiritual." F. Calian, "Some Modern Controversies on the Historiography of Alchemy" in Annual of Medieval Studies at CEU (2010), 186.
  4. Losure, Mary (2017). Isaac the Alchemist: Secrets of Isaac Newton. Somerville, MA: Candlewick Press. ISBN 978-0763670634 
  5. a b c Nova: Newton's Dark Secrets. US: PBS. 2005 
  6. Josephson-Storm, Jason (2017). The Myth of Disenchantment: Magic, Modernity, and the Birth of the Human Sciences. [S.l.]: University of Chicago Press. pp. 43 and Chapter 2, passim. ISBN 978-0-226-40336-6 
  7. Дмитриев 1999, pp. 7–8.
  8. Ball, John (setembro de 2006). «Cash-strapped maths». New Scientist (2570). 21 páginas. ISSN 0262-4079. doi:10.1016/s0262-4079(06)60544-7. Consultado em 10 de janeiro de 2026 
  9. Bauer, Alain (2007). Isaac Newton's Freemasonary: The Alchemy of Science and Mysticism. Rochester, VT: Inner Traditions. ISBN 978-1-59477-172-9 
  10. «Newton Masonic Lodges». Consultado em 16 September 2018. Cópia arquivada em 31 August 2011  Verifique data em: |acessodata=, |arquivodata= (ajuda)
  11. Stukeley, William (2010). Rob Iliffe; Scott Mandelbrote, eds. Memoirs of Sir Isaac Newton's life (AHRC Newton Papers Project, Ms. 142, The Royal Society Library, London) transcript ed. University of Sussex: The Newton Project 
  12. «Spalding Gentlemen's Society». Consultado em 25 June 2008  Verifique data em: |acessodata= (ajuda)