Futurologia

 Nota: Não confundir com Futurismo (movimento artístico e literário do Século XX).
Lei de Moore, desenvolvida a partir da tendência histórica da indústria de microchips e processadores.

Futurologia, futurismo tecnológico ou a disciplina de estudos sobre o futuro (em inglês: Future Studies) é um termo guarda-chuva usado para designar campos interdisciplinares de estudos que buscam analisar tendências com o objetivo de antecipar eventos ou contextos prováveis, possíveis ou preferíveis.[1] Os estudos do futuro (coloquialmente chamados de “futures” por muitos profissionais da área) buscam compreender o que provavelmente continuará e o que pode mudar de forma plausível. Parte da disciplina, portanto, procura uma compreensão sistemática e baseada em padrões do passado e do presente, além de explorar a possibilidade de eventos e tendências futuras.[2]

Os objetivos específicos dos estudos sobre o futuro são variados, podendo ter como foco intervenções orientadas em relação à degradação ambiental iminente, às mudanças nas relações sociais ou o simples desenvolvimento das organizações frente as mudanças tecnológicas.[1] Os Estudos de Futuros fazem uso de vários ramos das ciências sociais, exatas e biológicas, a depender do objetivo.[3] Por se tratar de um gênero multidisciplinar, a futurologia incorpora diferentes abordagens, como as previsões (em inglês: Foresight).[4]

Muito em função de sua abrangência e da percepção de que há uma estocasticidade na sucessão dos eventos, o campo já foi definido como pseudociência. Críticos lembram que não é um conhecimento aberto à falseabilidade, exceto quando envolve a estipulação de datas para as previsões feitas.[5] Diferentemente das ciências naturais, nas quais sistemas mais restritos e bem definidos são estudados, a futurologia lida com um sistema mundial muito maior e mais complexo. Sua metodologia e corpo de conhecimento são muito menos consolidados do que nas ciências naturais e em ciências sociais como sociologia e economia. Há debate sobre se essa disciplina é uma arte ou uma ciência, e ela às vezes é descrita como pseudociência; ainda assim, a Associação de Futuristas Profissionais foi formada em 2002, desenvolvendo um Modelo de Competências em Prospecção em 2017,[6]e hoje é possível estudá-la academicamente, por exemplo, na FU Berlin (Universidade Livre de Berlim), em seu curso de mestrado.[7] Para incentivar discussões inclusivas e interdisciplinares sobre estudos do futuro, a UNESCO declarou 2 de dezembro como o Dia Mundial do Futuro.[8]

Mais recentemente, avanços metodológicos elevaram a percepção de valor dessa linha de conhecimento[9] Uma das suas principais linhas de desenvolvimento da atualidade envolve o uso de algoritmos de inteligência artificial para ajudar os futurista a fazerem previsões sobre o que irá acontecer meses ou mesmo anos à frente. O interesse pela futurologia cresceu significativamente nas últimas décadas, junto a uma ampla gama de terminologias utilizadas recentemente, como "futurismo", "futurismo metodológico", "cenários prospectivos", "previsão estratégica", "cenários futuros" e outros mais, às vezes usados como sinônimos e às vezes como formas de especificar as metodologias utilizadas.[4]

Visão geral

A futurologia é um campo interdisciplinar que agrega e analisa tendências, utilizando métodos leigos e profissionais, para compor futuros possíveis. Ela inclui a análise das fontes, padrões e causas de mudança e estabilidade, na tentativa de desenvolver a prospecção. Em todo o mundo, o campo é referido de diversas formas, como estudos do futuro, pesquisa em futuros, prospecção estratégica, futurística, pensamento de futuros, futuring e futurologia. Estudos do futuro e prospecção estratégica são os termos mais utilizados no meio acadêmico de língua inglesa.[10]

Previsão ou prospecção foi o termo original e foi usado pela primeira vez nesse sentido por H. G. Wells em 1932.[11] “Futurologia” é um termo comum em enciclopédias, embora hoje seja usado quase exclusivamente por não praticantes, ao menos no mundo anglófono. “Futurologia” é definida como o “estudo do futuro”.[12] O termo foi cunhado pelo professor alemão Ossip K. Flechtheim em meados da década de 1940, que o propôs como um novo ramo do conhecimento que incluiria uma nova ciência da probabilidade. O termo caiu em desuso nas últimas décadas, pois os praticantes modernos enfatizam a importância de futuros alternativos, plausíveis, desejáveis e plurais, em vez de um futuro monolítico, bem como as limitações da previsão e da probabilidade frente à criação de futuros possíveis e preferíveis.[13]

Três fatores distinguem geralmente os estudos do futuro da pesquisa conduzida por outras disciplinas. Primeiro, os estudos do futuro frequentemente examinam tendências para compor futuros possíveis, prováveis e desejáveis, bem como o papel que “cartas curinga” podem desempenhar em cenários futuros. Segundo, os estudos do futuro normalmente buscam uma visão holística ou sistêmica baseada em percepções oriundas de diversas disciplinas, geralmente focando nas categorias STEEP: Social, Tecnológica, Econômica, Ambiental e Política (No inglês: Social, Technological, Economic, Environmental, Political).[14] Terceiro, os estudos do futuro questionam e desconstroem as suposições por trás das visões dominantes e concorrentes do futuro. Assim, o futuro não é vazio, mas carregado de pressupostos ocultos. Por exemplo, muitas pessoas esperam o colapso do ecossistema da Terra em um futuro próximo, enquanto outras acreditam que o ecossistema atual sobreviverá indefinidamente. Uma abordagem de prospecção busca analisar e destacar as suposições que sustentam essas visões.

Como campo, os estudos do futuro ampliam o componente de pesquisa ao enfatizar a comunicação de estratégias e as etapas acionáveis necessárias para implementar planos que conduzam ao futuro desejável. Nesse sentido, os estudos do futuro evoluem de um exercício acadêmico para uma prática mais próxima do mundo empresarial, buscando preparar melhor as organizações para o futuro.

Os estudos do futuro geralmente não se concentram em previsões de curto prazo, como taxas de juros no próximo ciclo econômico, nem em decisões de gestores ou investidores com horizontes temporais curtos. O planejamento estratégico tradicional, que desenvolve metas e objetivos com horizontes de um a três anos, também não é considerado estudos do futuro. Planos e estratégias com horizontes mais longos, que tentam antecipar eventos futuros possíveis, fazem claramente parte do campo. O aprendizado sobre desenvolvimentos de médio e longo prazo pode, às vezes, ser observado por meio de seus sinais iniciais.[17] Como regra geral, os estudos do futuro se preocupam com mudanças de impacto transformador, e não com aquelas de escopo incremental ou restrito.

O campo dos estudos do futuro também exclui aqueles que fazem previsões por meios sobrenaturais declarados.

Para realizar um estudo do futuro, seleciona-se um domínio para análise. O domínio é a ideia central do projeto ou aquilo que o resultado do projeto busca determinar. Os domínios podem ter um foco estratégico ou exploratório e devem delimitar o escopo da pesquisa. O estudo examina o que será — e, mais importante, o que não será — discutido. Os praticantes analisam tendências com base nas categorias STEEP (Social, Tecnológica, Econômica, Ambiental e Política). A exploração de linha de base examina os ambientes STEEP atuais para determinar tendências normais, chamadas de linhas de base. Em seguida, os profissionais usam cenários para explorar diferentes resultados futuros. Os cenários examinam como o futuro pode ser diferente. 1. Cenários de colapso buscam responder: o que acontece se as linhas de base STEEP entrarem em ruína e não existirem mais? Como isso afetará as categorias STEEP? 2. Cenários de transformação: exploram futuros com a linha de base da sociedade em transição para um “novo” estado. Como as categorias STEEP são afetadas se a sociedade tiver uma estrutura totalmente nova? 3. Novo equilíbrio: examina uma mudança completa na estrutura do domínio. O que acontece se a linha de base mudar para uma “nova” linha de base dentro da mesma estrutura da sociedade?[15]

Origem

A visualização original do Tableau Économique de Quesnay, 1759

Johan Galtung e Sohail Inayatullah argumentam que a busca por grandes padrões remonta a Sima Qian (145–90 a.C.) e Ibn Khaldun (1332–1406).[16] Exemplos ocidentais iniciais incluem Utopia (1516), de Sir Thomas More, na qual uma sociedade futura supera a pobreza e o sofrimento.

Os avanços da matemática no século XVII estimularam tentativas de calcular conceitos estatísticos e probabilísticos. A objetividade passou a ser associada a conhecimentos que podiam ser expressos em dados numéricos. Na Grã-Bretanha do século XVIII, investidores estabeleceram fórmulas matemáticas para avaliar o valor futuro de um ativo. Em 1758, o economista francês François Quesnay desenvolveu um modelo quantitativo da economia como um todo, conhecido como Tableau Économique, para permitir o planejamento da produção futura. Nesse mesmo período, Anne Robert Jacques Turgot formulou pela primeira vez a lei dos rendimentos decrescentes. Em 1793, o burocrata chinês Hong Liangji previu o crescimento populacional futuro.[17]

A Revolução Industrial estava prestes a se espalhar pelo continente europeu quando, em 1798, Thomas Malthus publicou An Essay on the Principle of Population as It Affects the Future Improvement of Society. Malthus questionou as utopias otimistas e as teorias do progresso. Seu temor quanto à sobrevivência da raça humana é considerado uma das primeiras distopias europeias.[18] A partir da década de 1830, Auguste Comte desenvolveu teorias da evolução social e afirmou que metapadrões poderiam ser identificados nas mudanças sociais.[19] Na década de 1870, Herbert Spencer combinou as teorias de Comte com a teoria da evolução biológica de Charles Darwin. O darwinismo social tornou-se popular na Europa e nos Estados Unidos. Ao final do século XIX, prevalecia a crença no progresso humano e no triunfo da invenção científica, e a ficção científica tornou-se uma narrativa popular sobre o futuro. Em 1888, William Morris publicou News from Nowhere, no qual teorizou sobre a redução do tempo de trabalho.[20]

Início do século XX

Página de título de The War That Will End War (1914), de Wells

O britânico H. G. Wells estabeleceu o gênero da “ficção científica realista” na virada do século. Suas obras supostamente se baseavam em conhecimento científico sólido. Wells tornou-se um precursor da previsão social e tecnológica. Entre 1890 e 1914, uma série de artigos jornalísticos e livros tecno-otimistas foi publicada nos Estados Unidos e na Europa.[18] Após a Primeira Guerra Mundial, o movimento futurista italiano, liderado por Filippo Tommaso Marinetti, glorificou a modernidade. Futuristas soviéticos, como Vladimir Maiakovski, David Burliuk e Vasili Kamenski, enfrentaram a política cultural comunista oficial ao longo do século XX. No Japão, os futuristas ganharam força após a Primeira Guerra Mundial ao denunciar a era Meiji e exaltar a velocidade e o progresso tecnológico.[18]

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o interesse por previsões estatísticas se intensificou.[18] Na estatística, uma previsão é o cálculo da magnitude ou da probabilidade de um evento futuro. A previsão calcula o futuro, enquanto uma estimativa tenta estabelecer o valor de uma quantidade existente.[21] Nos Estados Unidos, o presidente Herbert Hoover criou, em 1929, um Comitê de Pesquisa sobre Tendências Sociais, liderado por William F. Ogburn. Estatísticas do passado foram utilizadas para mapear tendências e projetá-las no futuro. O planejamento passou a integrar o processo de tomada de decisões políticas após a Segunda Guerra Mundial, quando governos capitalistas e comunistas ao redor do mundo produziram previsões prospectivas.[18] A RAND Corporation foi fundada em 1945 para auxiliar os militares dos EUA no planejamento do pós-guerra. O planejamento de longo prazo dos esforços militares e industriais da Guerra Fria atingiu seu auge na década de 1960, quando a pesquisa para a paz surgiu como um movimento contraposto e a ideia positivista de “um único futuro previsível” passou a ser questionada.[22]

Pesquisa sobre o futuro na década de 1960

Em 1954, Robert Jungk publicou uma crítica aos Estados Unidos e à suposta colonização do futuro em Tomorrow Is Already Here. Em 1961, Fred L. Polak publicou Images of the Future, que se tornou um texto clássico sobre a imaginação de futuros alternativos.[23] Na década de 1960, métodos de estudos do futuro centrados no ser humano foram desenvolvidos na Europa por Bertrand de Jouvenel e Johan Galtung. A ideia positivista de um único futuro foi contestada por cientistas como Thomas Kuhn, Karl Popper e Jürgen Habermas.[24] Os estudos do futuro consolidaram-se como um campo acadêmico quando cientistas sociais passaram a questionar o positivismo como teoria plausível do conhecimento e se voltaram para o pluralismo.

Na Primeira Conferência Internacional de Pesquisa em Futuros, realizada em Oslo em 1967, foram apresentados estudos sobre expansão urbana, fome e educação. Em 1968, Olaf Helmer, da RAND Corporation, reconheceu: “Começa-se a perceber que existe uma riqueza de futuros possíveis e que essas possibilidades podem ser moldadas de diferentes maneiras”. Os estudos do futuro passaram a operar com base na ideia de que múltiplos futuros possíveis podem ser estimados, previstos e influenciados.[25]

Os estudos do futuro desenvolveram-se como um campo de pesquisa empírica. Inspirados pelas publicações de Herman Kahn, passaram a empregar técnicas como planejamento de cenários, teoria dos jogos e simulações computacionais. Historiadores, cientistas políticos e sociólogos envolvidos com estudos críticos do futuro, como Ossip K. Flechtheim e Johan Galtung, lançaram as bases dos estudos sobre paz e conflitos como disciplina acadêmica.[26]

O diálogo acadêmico internacional sobre estudos do futuro foi institucionalizado com a criação da World Futures Studies Federation (WFSF), fundada em 1967. O primeiro programa de doutorado em Estudos do Futuro foi criado em 1969 na Universidade de Massachusetts por Christopher Dede e Billy Rojas. Dede também fundou um programa de mestrado em 1975 na Universidade de Houston–Clear Lake. Em 1976, foi estabelecido o programa de Mestrado em Políticas Públicas em Futuros Alternativos na Universidade do Havaí em Mānoa.

Previsão de desenvolvimentos futuros

Execução padrão do Modelo World3, conforme apresentado em The Limits to Growth

O livro best-seller Future Shock, de Alvin e Heidi Toffler, publicado em 1970, gerou atenção do grande público para os estudos do futuro no contexto da economia pós-industrial. A obra popularizou a metáfora das ondas para descrever as mudanças econômicas e sociais que os Estados Unidos estavam vivenciando. Os autores identificaram a primeira onda como a sociedade agrícola, a segunda onda como a sociedade industrial e a então nascente terceira onda como a sociedade da informação.[27] Na década de 1970, os estudos do futuro passaram a focar menos em cenários da Guerra Fria e a lidar mais com os impactos da globalização acelerada. Entre os pioneiros dos estudos globais do futuro estão Pierre Wack, da Royal Dutch Shell, o grupo Interfuture da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Clube de Roma. O Clube de Roma desafiou o status quo político em 1972 com o relatório The Limits to Growth (Os Limites do Crescimento), ao apresentar simulações computacionais do crescimento econômico juntamente com projeções de crescimento populacional.[28]

O relatório de 1972 chamado 'The Limits to Growth' estabeleceu firmemente a degradação ambiental na agenda política. O movimento ambientalista passou a exigir que a indústria e os formuladores de políticas considerassem as implicações de longo prazo ao planejar e investir em usinas de energia e infraestrutura.[29]

A década de 1990 testemunhou um aumento significativo dos estudos do futuro em preparação para os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas, que foram adotados em 2000 como metas internacionais de desenvolvimento para o ano de 2015. Ao longo dos anos 1990, grandes programas de foresight tecnológico foram lançados, influenciando estratégias nacionais e regionais em ciência, tecnologia e inovação.[30] Antes da década de 1990, o termo foresight raramente era utilizado para descrever estudos do futuro, futurologia ou previsão. Os prognósticos de foresight baseavam-se, em parte, nas metodologias desenvolvidas pelos pioneiros franceses da pesquisa prospectiva (prospectives), incluindo Bertrand de Jouvenel. Os praticantes de foresight buscavam reunir e avaliar evidências para gerar insights sobre o futuro. Os resultados dessas pesquisas concentravam-se na identificação de desafios e oportunidades, apresentados como inteligência em nível estratégico. Esses profissionais tendiam a focar em empresas específicas ou regiões econômicas, sem tentar planejar soluções para problemas específicos.[31]

Na década de 1990, vários pesquisadores dos estudos do futuro tentaram sintetizar um arcabouço teórico coerente para o campo, incluindo a obra em dois volumes de Wendell Bell, The Foundations of Futures Studies, e Rescuing All of Our Futures, de Ziauddin Sardar.[32]

Futurologia no Brasil

A futurologia e os estudos do futuro no Brasil têm ganhado visibilidade e desenvolvimento contínuo desde meados do século XX, integrando-se tanto à academia quanto ao setor público e privado. O campo aborda a antecipação de mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, ambientais e políticas no país e busca promover metodologias que auxiliem organizações e governos a lidar com incertezas e oportunidades futuras.

No Brasil, várias instituições acadêmicas e programas de formação oferecem cursos e especializações em foresight, prospecção estratégica e pensamento de futuros, refletindo a expansão do campo no país. Entre esses programas estão especializações em Future Thinking e Design de Futuros oferecidas por universidades como PUC Campinas, ESPM, UFRJ, PUC Minas, PUC Paraná e outras instituições que buscam formar profissionais capazes de antecipar e influenciar mudanças futuras em diferentes setores da sociedade. Esses cursos abordam ferramentas para compreender e moldar futuros desejáveis por meio de análises de tendências, cenários e estratégias de longo prazo.[33]

Além da formação acadêmica, o Brasil também participa de redes internacionais de estudos futuros. O Brazil Node do Millennium Project — uma organização global dedicada à pesquisa colaborativa em estudos do futuro — está presente no país com a participação de universidades como a PUC São Paulo e a UFRJ. O nó brasileiro promove pesquisas sobre inovação, sustentabilidade e alfabetização para o futuro, conectando pesquisadores e profissionais nacionais a um esforço global de foresight.[34]

A pesquisa aplicada à futurologia no Brasil também é observada em iniciativas específicas, como o uso de prospecção tecnológica no setor de defesa, desenvolvido pelo Exército Brasileiro, que identificou cenários e tecnologias para orientar estratégias até 2030. Esses esforços mostram como a antecipação estruturada pode ser empregada para apoiar políticas públicas e planejamento institucional.[35]

Outras instituições e iniciativas nacionais promovem o debate sobre futuros no Brasil por meio de cursos, seminários e eventos que reúnem especialistas para discutir tendências, cenários e estratégias para organizações. Por exemplo, seminários internacionais de foresight organizados por instituições como a Fundação Getulio Vargas (FGV) abordam temas de foresight estratégico para organizações, destacando a importância da visão de longo prazo nas decisões corporativas e institucionais.[36]

Organizações da sociedade civil e institutos culturais também contribuem para a difusão do pensamento sobre futuros no contexto brasileiro. O Instituto Futuros, por exemplo, atua há mais de duas décadas promovendo programas relacionados à cultura, educação e economia criativa com foco em futuros mais inclusivos, sustentáveis e justos, e estimula a reflexão sobre trajetórias futuras no país por meio de processos colaborativos e éticos.[37]

Em resumo, a futurologia no Brasil se caracteriza por uma crescente diversidade de programas educacionais, pesquisas aplicadas, participação em redes globais e iniciativas que articulam o pensamento prospectivo com desafios sociais, tecnológicos e institucionais. O desenvolvimento do campo reflete tanto a necessidade de lidar com complexidade e incerteza quanto o interesse em construir estratégias antecipatórias para o futuro do país.

Educação e pesquisa em futurologia

A educação no campo dos estudos do futuro ocorre há algum tempo. Iniciada nos Estados Unidos na década de 1960, desde então se desenvolveu em diversos países. A educação em estudos do futuro incentiva o uso de conceitos, ferramentas e processos que permitem aos estudantes pensar de forma orientada ao longo prazo, às consequências e à imaginação. Em geral, ela ajuda os estudantes a:

  • conceituar futuros humanos e planetários mais justos e sustentáveis;
  • desenvolver conhecimentos e habilidades em métodos e ferramentas utilizados para ajudar as pessoas a compreender, mapear e influenciar o futuro, por meio da exploração de futuros prováveis e preferidos;
  • compreender a dinâmica e a influência que os sistemas humanos, sociais e ecológicos exercem sobre futuros alternativos;
  • conscientizar os estudantes sobre sua responsabilidade e capacidade de ação na criação de futuros melhores.

Existe ampla documentação sobre a história da educação em estudos do futuro, por exemplo nos trabalhos de Richard A. Slaughter (2004)[38], David Hicks e Ivana Milojević[39], entre outros.

Embora os estudos do futuro ainda sejam uma tradição acadêmica relativamente recente, numerosas instituições de ensino superior ao redor do mundo oferecem essa área de estudo. Essas iniciativas variam desde pequenos programas ou universidades com apenas uma ou duas disciplinas, até programas que oferecem certificados e incorporam os estudos do futuro a outros cursos (por exemplo, planejamento, administração, estudos ambientais, economia, estudos do desenvolvimento, estudos de ciência e tecnologia). Existem diversos programas formais de mestrado em seis continentes.

Um programa de Estudos do Futuro é oferecido pela Universidade Tamkang, em Taiwan. Os Estudos do Futuro são uma disciplina obrigatória na graduação, com entre três e cinco mil estudantes cursando aulas anualmente. Vinculado ao Instituto de Pós-Graduação em Estudos do Futuro, existe um programa de mestrado (MA). Apenas dez estudantes são admitidos anualmente nesse programa. Associado a ele está o Journal of Futures Studies.[40]

O programa de Estudos do Futuro com funcionamento contínuo mais longo na América do Norte foi estabelecido em 1975 na Universidade de Houston–Clear Lake.[41] Em 2007, o programa foi transferido para a Universidade de Houston e o título do curso passou a ser Foresight. O programa foi criado com base na crença de que, se a história é estudada e ensinada em um ambiente acadêmico, o futuro também deveria sê-lo. Sua missão é preparar futuristas profissionais. O currículo incorpora uma combinação de teoria essencial, um arcabouço conceitual e métodos de trabalho, com foco na aplicação prática para clientes dos setores empresarial, governamental, organizações sem fins lucrativos e para a sociedade em geral.[42]

Em 2003, mais de 40 instituições de ensino superior ao redor do mundo ofereciam um ou mais cursos em estudos do futuro. A World Futures Studies Federation[43] mantém um levantamento abrangente de programas e cursos globais na área. A Acceleration Studies Foundation mantém uma lista comentada de programas de pós-graduação primários e secundários em estudos do futuro.[44]

Desde 2010, um programa de Mestrado (MA) em Estudos do Futuro é oferecido pela Universidade Livre de Berlim.

A Universidade de Turku, na Finlândia, oferece programas de MSocSc e PhD em Estudos do Futuro.

A Stellenbosch Business School, na África do Sul, oferece um programa de pós-graduação em Estudos do Futuro, bem como o grau de MPhil em Estudos do Futuro.

Obras de relevância no campo

A Associação para Futuristas Profissionais reconhece os trabalhos mais significativos para identificar e recompensar o trabalho de profissionais prospectivos.[45]

Author Title
Bertrand de Jouvenel L’Art de la conjecture (The Art of Conjecture), 2008[46]
Donella Meadows The Limits to Growth, 2008[47]
Peter Schwartz The Art of the Long View, 2008[48]
Ray Kurzweil The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence, 2008[49]
Jerome C. Glenn & Theodore J. Gordon Futures Research Methodology Version 2.0, 2008[50]
Jerome C. Glenn & Theodore J. Gordon The State of the Future, 2008
Jared Diamond Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed, 2008[51]
Richard Slaughter The Biggest Wake up Call in History, 2012
Richard Slaughter The Knowledge Base of Futures Studies, 2008
Worldwatch Institute State of the World, 2008
Nassim Nicholas Taleb The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable, 2012[52]
Tim Jackson Prosperity Without Growth, 2012[53]
Jørgen Randers 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years, 2013
Stroom den Haag Food for the City, 2013
Andy Hines & Peter C. Bishop Teaching About the Future, 2014[54]
James A. Dator Advancing Futures - Futures Studies in Higher Education
Ziauddin Sardar Future: All that Matters, 2014
Emma Marris Rambunctious Garden: Saving Nature in a Post-Wild World, 2014
Sohail Inayatullah What Works: Case Studies in the Practice of Foresight, 2016[55]
Dougal Dixon After Man: A Zoology of the Future

Livros de relevância no campo


Ver também

Referências

  1. a b James Joseph O'Toole (2017). "Futurologia | ciências sociais", Enciclopédia Britânica. Acesso em 26 de janeiro de 2023.
  2. «WordNet Search - 3.1». wordnetweb.princeton.edu (em inglês). Consultado em 14 de dezembro de 2025. Cópia arquivada em 3 de junho de 2024 
  3. «Futurology». The Oxford Dictionary of Philosophy. futurology. 2008. Mainly a pseudo-science, given the complexities of social, political, economic, technological, and natural factors. 
  4. a b SOARES, P. A. LIMITES DA PROSPETIVA E POTENCIALIDADE DOS “ESTUDOS DO FUTURO” EM SOCIOLOGIA, disponível em IX Congresso Português de Sociologia, Universidade de Évora.
  5. William, F. Williams (2 de dezembro de 2013). Encyclopedia of Pseudoscience: From Alien Abductions to Zone Therapy. pp. 122–123. ISBN 9781135955229. Many scientists reject the notion of futurology being a science, while others quibble at the use of the unscholarly word 'futurology'. 
  6. «Wayback Machine» (PDF). eprints.usq.edu.au. Consultado em 14 de dezembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 8 de novembro de 2021 
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