Estrela da Manhã (livro)

 Nota: Não confundir com Libertino.
Estrela da Manhã
Capa da primeira edição de Estrela da Manhã (1936)
Autor(es)Manuel Bandeira
Idiomaportuguês
País Brasil
AssuntoAmor; desejo; idealização; erotismo
GêneroPoesia
Linha temporalSéculo XX
FormatoLivro
Lançamento1936
Cronologia
Belo Belo

Estrela da Manhã é um livro de poemas do poeta brasileiro Manuel Bandeira, publicado em 1936. A obra marca uma fase de maturidade do autor e consolida sua posição como um dos principais nomes da poesia modernista brasileira, reunindo textos de forte lirismo amoroso, imaginação erótica e reflexão existencial.[1]

O livro recebe o título de um de seus poemas mais célebres, “A Estrela da Manhã”, que se tornou emblemático pela intensidade emocional e pela linguagem direta, coloquial e imagética.

Contexto literário

Estrela da Manhã insere-se na terceira fase da produção poética de Manuel Bandeira. Após a adesão inicial ao Modernismo no Brasil em 1924 e a plena incorporação do movimento em Libertinagem (1930), Bandeira passa a desenvolver uma poesia de síntese, na qual concilia tradição e modernidade, simplicidade formal e complexidade simbólica.

Nessa etapa, o poeta explora com maior liberdade temas como o desejo, o erotismo, a frustração amorosa e a oposição entre realidade e sonho, afastando-se tanto do sentimentalismo romântico quanto da rigidez parnasiana.

O poema “A Estrela da Manhã”

O poema que dá título ao livro apresenta um eu lírico dominado por um desejo obsessivo por uma figura feminina idealizada e, ao mesmo tempo, degradada. A “estrela” funciona como metáfora de algo belo e luminoso, porém inalcançável, associando-se à mulher desejada, à plenitude amorosa ou mesmo à própria vida negada ao poeta pela doença.

A enumeração caótica de imagens — que inclui figuras marginalizadas, religiosas e sociais — reforça o caráter desesperado da busca amorosa e evidencia uma crítica à hipocrisia moral da sociedade. O eu lírico assume publicamente sua condição de transgressor, declarando-se disposto a qualquer humilhação para alcançar o objeto de desejo.

Em algumas estrofes, o poema estabelece uma paródia da ladainha religiosa, substituindo a invocação mariana por uma exaltação profana da mulher desejada, num gesto que aproxima erotismo e sacralidade. Essa estratégia subverte tanto o ideal feminino romântico quanto os valores morais tradicionais.

Importância da obra

A importância de Estrela da Manhã na trajetória de Manuel Bandeira é atestada pelo próprio autor, que escolheu os versos do poema homônimo para abrir o livro quando o publicou aos cinquenta anos de idade. A tiragem inicial foi reduzida — apenas 47 exemplares previamente encomendados —, mas a obra consolidou-se posteriormente como um dos marcos da poesia moderna brasileira.

A crítica reconhece no livro uma síntese singular entre lirismo, coloquialismo e imaginação simbólica, confirmando Manuel Bandeira como um poeta capaz de transformar a experiência íntima em matéria universal.

Poema

A Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã?

Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem?

Procurem por toda a parte Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo

Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada Atribuladora dos aflitos Girafa de duas cabeças

Pecai por todos pecai com todos Pecai com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais

Pecai de todas as maneiras Com os gregos e com os troianos Com o padre e com o sacristão Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerás

Procurem por toda parte Pura ou degradada até a última baixeza eu quero a estrela da manhã

Referências

  1. Lanciani, Giulia (1998). Libertinagem ; Estrela da manhã. [S.l.]: Editorial Universidad de Costa Rica. p. 781